sexta-feira, maio 26, 2006

Carta Aberta a Eduardo Prado Coelho: O Caso Bénard da Costa (II)


Os bulldozers do fascismo arrasaram e corromperam tudo e todos, apesar de tantos resistentes que souberam dizer “Não!” e denunciar os crimes cometidos. Esperava-se que o 25 de Abril pusesse as coisas em ordem, mas os novos-ricos do novo regime trataram de abocanhar, com nova gula, a mesa do orçamento, institucionalizando a subsídio-dependência como regra de vida. Até hoje. Quando, convidado pelos CTT para “limpar” mais uma fortuna com direitos de autor, embora 95% da obra se baseie nos arquivos fotográficos da cinemateca, o seu amigo Bérnard da Costa não hesitou em intitular a “encomenda” recebida de “O cinema português nunca existiu”. Ele lá sabia porquê… de cabeça fria, obviamente.

O Professor, porém, perdeu a cabeça a quente. O eudeusamento de Bérnad da Costa a que se entregou brada aos céus, embora não deixe de evocar (quem as pode esquecer?) as suas frequentes discordâncias com ele. Quando afirma “O que ele viu de cinema é mais do que todos nós juntos”, e diz mais: “as programações que fez são de uma fulgurante inteligência”. O Professor cai em dois erros monumentais: a inexactidão e a cegueira. É falso que Bénard da Costa seja um assíduo frequentador de cinema ou alguma vez, nos seus muitos períodos de vida ou actividades profissionais, da Gulbenkian à Cinemateca, tenha perdido tempo a ver muitos filmes. A não ser, hipótese não absurda de todo, que tivesse feito parte do vasto leque de censores da Inspecção-Geral de Espectáculos, cuja lista, tal como a de legionários e pides, continua secreta e inédita…

Diz o Professor sobre Bénard da Costa: “Leu imenso, viu imenso, viajou imenso.” É uma linda síntese de quanto a vida tem proporcionado, tudo o que existe de melhor, a Bénard da Costa. Mas eu opunha outra: nunca estudou, nunca suou para ganhar o pão de cada dia, nunca soube quanto custa uma prisão, um segredo de uma semana, uma tortura de unhas arrancadas ou pontas de cigarro queimadas nas costas, um livro apreendido, uma mãe em pânico por um filho preso em plena noite, derrubada a porta por carrascos de pistola em punho, etc. Numa palavra, nunca sofreu nada de nada, nem se interessou nem interveio minimamente pelos que sofreram tudo durante 48 anos de fascismo e 13 anos de Guerra Colonial e assassínios sem conta.

O cinema é a mais completa das artes, e a sua democratização mais universal. Durante os longos anos em que tomou o lugar do falecido Luís de Pina, quantos milhões de contos já delapidou Bénard da Costa em proveito próprio e de sus muchachos y muchachas? Que contributo deu ele para que o Povo Português soubesse minimamente algo, por pouco que fosse, sobre o abominável mundo obscurantista que durou 48 anos e cujos reflexos ainda dominam o estado caótico da cultura e dos direitos humanos que perduram 32 anos depois?

A campanha da angariação de mais de 700 assinaturas para que a Ministra da Cultura assinasse a continuidade de Bénard da Costa na Cinemateca é a prova de que os Velhos do Restelo continuam de pedra e cal a mandar e a calar quantos aspiram ao velho sonho de um país novo. Em Portugal, em plena noite de fascismo assassino, chegou a haver um movimento cineclubista, cujo ressurgimento após o 25 de Abril já chegou a ser tentado. Em Lisboa, o ABC, o único que subsiste, acalentou vários projectos e apresentou várias propostas. Sabe que respostas deu Bénard da Costa? Professor, tente saber…

0 Comments:

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home