sexta-feira, maio 26, 2006

Carta Aberta a Eduardo Prado Coelho: O Caso Bénard da Costa (I)

Ainda não o vi assumir funções governativas – e certamente já as recusou – mas poucos portugueses têm exercido uma tal influência nos meios culturais, aquém e além-fronteiras, como o Professor Eduardo Prado Coelho (não tem menos direito que Marcelo Rebelo de Sousa a ser tratado dessa maneira).

Nos jornais diários, desde os tempos do extinto Diário de Lisboa, nos anos 60, em que até exerceu a crítica de cinema, até às revistas literárias, como O Tempo e o Modo, passando pela rádio e pela televisão (onde ficou célebre, na SIC, o seu programa-confessionário “Na cama com Alexandra Lencastre”), não deve haver uma só tribuna de comunicação por onde o Professor não tenha passado. Dos livros ao cinema, tudo, rigorosamente tudo, cai sob sua atenção. O Professor vê tudo, lê tudo. E os humoristas portugueses, como José Vilhena, encontram amiúde em si pasto farto para boas dentadas e dentadinhas gulosas, desde os homens do Tal e Qual, que o alcunharam de “almôndega” pequenina, até ao citado Vilhena, em caricaturas de traço rápido ou em citações acerca da sua capacidade de ler sete livros num só dia, em vez de um à semana.

No dia 17 de Abril deste ano, na sua secção diária “O Fio do Horizonte” (pagou direitos de autor ao Fernando Lopes, um dos seus protegidos, com ou sem a Maria João Seixas a par?), fiquei siderado com o desassombro com que ousou dissecar o que ousou chamar “O caso da cinemateca” (estranhamente só com minúsculas). Sem perdas de tempo, começou o Professor por definir à sua maneira “o actual Ministério da Cultura” (de que já chegou, em tempos recuados, a ser Director-Geral) acusando-o de, “quando tudo parece funcionar” (como se alguma vez tivesse funcionado…) criar “um caso”.

Tanta conversa escondida, como é seu velho “hábito”, sobre o caso da “recondução” de Bénard da Costa como director da Cinemateca Portuguesa (antiga Cinemateca Nacional, criada pela Lei nº 2/47, em pleno Salazarismo e política de espírito, no velho SNI – ex-SPTI – por António Ferro e Félix Ribeiro).

Não irei lembrar aqui as tortuosas vias do SNI até ao 25 de Abril e de como as previsões de Roberto Nobre, no seu opúsculo, logo proibido pela Censura e apreendido pela PIDE, bateram certo – o Fundo do Cinema Nacional só serviu para atirar ao fundo o que restava do cinema em Portugal, pelo menos em estúdios e laboratórios, além dos recursos humanos, em técnicos e artistas de projecção internacional
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