O lume disparuta, ou um mundo que se foi

Quando a utopia soviética estilhaçou em mil pedaços, num daqueles golpes certeiros de picareta aplicados ao muro de Berlim, em Novembro de 1989, as hostes dividiram-se entre o celebrar do fim do império do mal e o negar que esse império tivesse sido a consumação de uma qualquer utopia. Desde então, o império soviético permanece debaixo das cinzas da história, e só raras vezes algum arqueólogo procura desenterrar pequenas histórias que nos ajudam a compreender este objecto esquecido. Trata-se de uma actividade frequentemente apelidada de Ostalgia, a nostalgia pelo Leste, muitas vezes confundida com a saudade do comunismo e de um mundo preso no passado, herdeiro do totalitarismo asiático e, por consequência, absolutamente antimoderno. Pelo contrário, relembrar o império soviético é fundamental porque ele lembra-nos a possibilidade terrível, inscrita no coração da própria modernidade, sempre possível, do controlo tecnologicamente superior da natureza pelo homem e do homem pelo homem.
A memória do império que mais interessa, a 'nostalgia' que mais importa, é a daqueles que viveram o seu dia-a-dia e que hoje se descobrem a si mesmos também debaixo das suas cinzas. Há qualquer coisa de fundamental na sua identidade enterrada com o império, sem que esta atitude represente vontade de passado, de sovietismo. Com eles, com essas memórias e nostalgias de uma modernidade radical, todos aprendemos um pouco mais do mundo absolutamente moderno em que vivemos.

Por isso, um filme como Good bye Lenin (2003), de Wolfgang Becker, é um testemunho tão importante. Por isso, valia a pena traduzir para português o impressionante O lume disparuta (Polirom: Iasi, 2004), dos quatro jovens escritores romenos (Cernat, Manolescu, Mitchievici e Stanomir) empenhados em fazer a arqueologia do comunismo na Roménia e avaliar o seu impacto sobre o presente. A propósito, encontrei ontem no youtube.com mais um destes documentos de um mundo que se foi. Trata-se do hino da defunta União Soviética, da autoria de Michalkov (com uma mistura das diferentes letras soviéticas), cantado em 1991 com arranjos de música rock ao estilo Band Aid. A ironia é insuperável, na interpretação iconoclasta sobreposta às imagens triunfais da pátria dos trabalhadores de todo o mundo. À beira da sua dissolução em 1991, um grupo de músicos decide reinterpretar os amanhãs que cantam. Em abono da ironia, há que dizer que, em 2000, Putin pediu ao poeta Michalkov que arranjasse outra letra para o hino da defunta URSS e poder assim recuperá-lo como hino oficial da Rússia (que é até hoje).

4 Comments:
Apesar de não gostarmos de cultivar, aqui no Tonel, a "sociedade do elogio mútuo" não quero deixar de te saudar, Marcos, pelo excelente post.
A noção de Ostologia (que eu desconhecia), como aqui é apresentada, parece-me um método produtivo e uma tarefa necessária para compreender o presente à luz do passado. Nesse aspecto, a nossa investigação das consequências da "mentalidade Estado Novo" no Portugal democrático está por fazer. E é pena. Tal estudo daria para compreender muito do que os portugeses são (ainda) neste início do século XXI. Suspeito fortemente (mas gostava de ver dados para comprovar a minha suspeita) que a falta de civismo e os baixos índices de cidadania da nossa sociedade são herdeiros da mentalidade do Estado Novo. (Suspeitamos todos, mas continuamos a contribuir para preservar o modelo.) Se calhar não são necessários estudos para concluirmos que daí vêm: a promoção da mediocridade, a nossa vontade de querermos ver os outros serem punidos com mão de ferro (ex. o aborto), a sede por exercer um poder "micro-físico" etc. O nosso provincianismo manifesta-se, depois, de outras formas: na ainda estúpida hierarquização social, na autojustificação para não se pagar impostos e no esbanjamento e na destruição do bem público, no combate ao espírito crítico, nas manifestações de xenofobia e de racismo, na prática do ataque cobarde ao mais fraco, etc., etc.
Já que se recodou o 'Good-bye Lenin', aproveito para referir um livro li pela 1ª vez há quase vinte anos e que me ajudou a compreender Portugal e o "espírito português": 'O Labirinto da Saudade' de Eduardo Lourenço.
Bem, mais valia não mexer na letra do hino russo. É que o actual reza assim:
"Russia—our sacred state,
Russia—our beloved country.
A mighty will, a great glory
Are yours forever for all time!
Chorus:
Be glorious, our free Motherland,
Ancient union of brotherly people,
Given national wisdom of the ancestors!
Be glorious, our country! We are proud of you!
From the southern seas to the polar region
Lay our forests and our fields.
You are one in the world! You are one of a kind,
Native land protected by God!
Chorus
Wide spaces for dreams and for living
The coming years are promising us.
Our faith in our Fatherland gives us strength.
So it was, so it is, and so it will always be!
Chorus"
Para escrever um xarope destes, primário na sua intenção ideológica, mais valia usar a caneta para serenar alguma comixão sentida nos tintins.
O amigo parece que é a primeira vez que lê a letra dum hino. No que respeita a isso há muita comichão para acalmar, seja nos ditos cujos, seja em qualquer outra parte do corpo.
Caro Marcos
Gostei do seu post, mas a utilização que faz dos conceitos de nostalgia (ou ostalgia como preferirem), de memória, passado e história deixam-me um pouco confuso. Talvez o problema seja meu, pelo sim pelo não se puder esclareça-me.
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