<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426</id><updated>2012-01-31T16:51:43.844Z</updated><title type='text'>Tonel de Diógenes</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Alberto Oliveira Pinto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09104358043571944519</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>775</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-5954010894476866265</id><published>2010-11-01T00:01:00.001Z</published><updated>2010-11-01T00:04:10.111Z</updated><title type='text'>UMA PARÁBOLA</title><content type='html'>Já passaram três anos de colaboração regular minha neste Tonel. Disse o suficiente de quanto tinha para dizer aqui. O recado está dado, o testemunho passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma só coisa mais é devida, e não de somenos: agradecer o muito generoso convite e a magnimidade tolerante do administrador Alexandre Dias Pinto. Muito me praz associar  o seu nome ao nome do autor e do título do livro com que me despeço : &lt;em&gt;A Luta Contra a Barbárie&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autor é George Steiner, e o livro (Lxa., 2004) reproduz uma série de diálogos que ele manteve com Antoine Spire. No capítulo “Um Nada da Sombra de um Certo Tédio...” conta uma história que nos assevera verídica. Nada tenho a acrescentar ao ponto moral tirado do conto pelo insigne humanista que é Steiner. Direi somente que o professor de literatura não resistiu a dar nota à tradução que cita; quanto a mim, mesmo que ela fosse literariamente péssima, seria sempre excelente, quanto ao que mais importa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Refere-se o início do conto ao sombrio regime totalitário soviético e a dois dos seus dirigentes. Esse regime ficou pretérito e preterido no tempo. O contrapolo dialéctico dele, vencedor na década de 90 do século passado, agora sem adversário directo nem freio &lt;em&gt;político &lt;/em&gt;nenhum, tem vindo a estender &lt;em&gt;o nada da sombra de um certo tédio&lt;/em&gt; pelo mundo. Mas o caso chinês é a concludente demonstração histórica de que não incompatibilidade radical entre o imperialismo vencido e o tecnocapitalismo já agora globalizado. Ainda que este se revista, propague e manipule ficções de “liberalismo” e “democracia”, conclui no mesmo : a canceração totalitária da pessoa humana num cárcere de despersonalização e desumanização.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história de Steiner mantém, pois, toda a sua pertinência e actualidade. Como verá quem suportar viver e ver sem &lt;em&gt;&lt;strong&gt;se &lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;fechar os olhos. Mas ela sugere bem de que ordem superior é que são os precisos e já experimentados meios que a alternativa única é capaz de levar vencedora. Mesmo que a &lt;em&gt;alegria &lt;/em&gt;custe os olhos da cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja a última palavra com que Steiner termina a minha enfática e terminal encomendação aos eventuais leitores deste postal – principalmente os mais jovens, aos quais já estão e irão ser pedidos os maiores sacrifícios. – Não tenham medo! Não desistam de se preparar bem e bem procurar, com determinado e desinteressado amor : o que mais custa é o que mais vale, e melhor sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis o conto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;« Nos tempos de Brejnev – já não era o pior, era ainda gravíssimo, mas já não era o regime de Estaline -, havia uma jovem mulher russa numa universidade, especialista em literatura romântica inglesa. Essa mulher jovem foi metida numa cela, sem luz, sem papel nem lápis, na sequência duma denúncia idiota e completamente falsa. Ela sabia de cor o &lt;em&gt;Don Juan&lt;/em&gt;, de Byron (trinta mil versos ou mais). Na escuridão da cela, pôs-se a traduzi-lo mentalmente em rimas russas. Quando saiu da prisão, havia perdido a vista. Ditou a tradução que memorizara a uma amiga: é hoje a melhor tradução russa de Byron.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perante isto, digo de mim para mim várias coisas; e, para começar, que o espírito humano é indestrutível, totalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em segundo lugar, que a poesia pode salvar o homem. Até mesmo no impossível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em terceiro lugar, que uma tradução, apesar da sua imperfeição humana, traduz aquilo que traduz: o que é uma outra maneira de dizer que a linguagem e a realidade mantêm uma relação que as liga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, em quarto lugar, digo-me que devemos sentir uma grande &lt;em&gt;&lt;strong&gt;alegria&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;. »&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-5954010894476866265?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/5954010894476866265/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=5954010894476866265&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/5954010894476866265'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/5954010894476866265'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/11/uma-parabola.html' title='UMA PARÁBOLA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-8470064005186596468</id><published>2010-10-28T11:07:00.010+01:00</published><updated>2011-10-19T15:38:22.576+01:00</updated><title type='text'>VIDAS DE CÃO</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TMlLr_xPaLI/AAAAAAAAAp0/P8_rR9b6EmU/s1600/christopher.gif"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 170px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5533036836425787570" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TMlLr_xPaLI/AAAAAAAAAp0/P8_rR9b6EmU/s320/christopher.gif" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Já vimos aqui no Tonel um Cão anónimo dar uma&lt;a href="http://http//toneldiogenes.blogspot.com/2009/01/lio-licnio.html"&gt; lição a Licínio&lt;/a&gt;, não só sobre cabelos e barbas, também sobre as vantagens de viver apartado da vida urbana e só vestido “duma veste de que os deuses se honram”, querendo dizer: nu, como a madre Natureza o deu ao mundo. Quem no-lo contava era o retor romano Luciano de Samossata, que também conheceu outros dois renomados “cínicos” – Demonax e Peregrino. Ambos estes teriam sido iniciados na vida canina por um filósofo que demorava no Egipto, chamado Agatóbolo. Antes disso, como também já lembrei, &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/02/fachos-de-heracles.html#links"&gt;Peregrino &lt;/a&gt;teria vivido associado com os cristãos, na Palestina. O erudito advogado romano &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/02/noites-aticas.html"&gt;Aulo Gélio &lt;/a&gt;conta que se avistou com Peregrino nas cercanias de Atenas, onde o filósofo vivia pobremente numa choupana. Estávamos nos finais do século II depois de Cristo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Como se sabe, o imperador Juliano, uns cinquenta anos depois do seu antecessor Constantino se ter ligado ao Cristianismo, tentou na última metade do séc. IV repor em plena e pública forma as homenagens imperiais aos deuses do paganismo. Bom conhecedor da mitologia e da filosofia clássicas, encontramos na obra escrita de Juliano, para além de iracundas diatribes contra os “ímpios Galileus”, outras críticas não menos acerbas contra os “cínicos mal educados”. É o mesmo tipo de crítica que já o referido Luciano lançara sobre os que lhe pareciam falsos filósofos, que se aproveitavam do estilo de vida canina para viverem da vagabundagem e da pedinchice. Nem escapavam ao imperador os que se dedicavam profissionalmente ao ensino da retórica: num discurso &lt;em&gt;Ao Cínico Heráclio&lt;/em&gt;, critica uma peça teatral de que este era autor, mal escrita, pior representada, insuportável de ver, impossível de aplaudir. Pois não é que o nosso autor, “mal educado”, se tinha atrevido a dizer mal dos deuses?... E vá o erudito Juliano de lhe escrever a ensinar-lhe mitologia e estilística dos géneros literários. Ora, em certo passo deste escrito, o assumido restaurador antiquário fala de bandos de falsos cínicos que vagabundeavam de lugar em lugar, desassossegando os rústicos – compara-os aos giróvagos missionários da “seita dos Galileus” e chama-os de &lt;em&gt;apotaktistes&lt;/em&gt;, “renunciantes”...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O nosso Diógenes tinha-se como sem cidade (&lt;em&gt;apolis&lt;/em&gt;), sem casa (&lt;em&gt;aoikos&lt;/em&gt;), sem pátria (&lt;em&gt;esterémenos&lt;/em&gt;), pedinte (&lt;em&gt;ptochós&lt;/em&gt;) e vagabundo (&lt;em&gt;planetes&lt;/em&gt;), coisas que o sofisticado retor e o selecto imperador dificilmente suportavam de ver e cheirar. Ao que parece, estes cães fedorentos terão sobrevivido até finais do séc. V, mas, depois de Peregrino, a maioria deles deixou de si pouco mais que o nome; excepção, na primeira metade deste século, terá sido um chamado Máximo, que praticou a vida de cão antes da de cristão, e que depois da sua chegada a Constantinopla se comportou de tal maneira que o patriarca S. Gregório de Nazianzo lhe dedicou dois panegíricos. O último de que há notícia terá sido um tal Salústio de Emesa, de quem só se sabe que levou vida ascética e começou como discípulo do neoplatónico Isidoro de Alexandria. Em 529, por ordem do imperador Justiniano, fechava-se a escola de Atenas, fechando (temporariamente...) o ciclo da filosofia pagã greco-latina.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Acontece que, pelo séc. VI, entrava por uma das portas da cidade de Emesa uma estranha personagem. Vinha sozinho, vestido como um monge, mas sem o cinto, que tirara para prender e arrastar atrás de si um... cão morto. Logo a garotada que por ali vadeava o rodeou e troçou: - “Eia, um monge maluco!” &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;« No dia seguinte, que era domingo, pegou numa quantidade de nozes, entrou na igreja ao começar da liturgia, e pôs-se a atirar nozes aos presentes e a apagar as velas. Quando em tumulto procuraram imobilizá-lo, subiu ao púlpito e de lá ainda alvejava as mulheres com as nozes. Com grande arruído expulsaram-no da igreja e, de caminho, ia voltando de pernas para o ar as mesas com bolos e doçaria dos vendedores, que se atiraram a ele e quase o mataram. » Assim foi a entrada em Emesa do monge Simeão – o &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Foolishness_for_Christ"&gt;“louco por amor de Cristo”&lt;/a&gt; (&lt;em&gt;salos dia Chríston&lt;/em&gt;) -, tal como no-la descreve a biografia que dele fez o bispo Leôncio de Neápolis ( actual Limassol, Chipre), cerca de um século depois. E, depois das nozes, seguem-se quilos de tremoços, que o santo homem, empregado em vendê-las, antes as “comia como um urso”; e seguem-se os mesmos efeitos de intestinal ventosidade que era uma das marcas do nosso Diógenes e do seu discípulo Crates. E quando, a seguir à ruidosa flatulência, urgia expelir algo de mais sólido, não tinha dúvidas de acocorar e aliviar-se em público, onde quer que estivesse. Nem lhe faltou a mesma saborosa alternativa à diogénica dieta: carne crua. Abunda minuciosa e longamente nestas anedotas a pitoresca narrativa do bispo, um extraordinário documento da entrelaçada síntese do ascetismo canino e do cristão. S. Simeão, ainda hoje venerado no santoral das igrejas orientais, havia nascido de famílias ricas da Edessa síria, e tinha sido monge por espaço de vinte e nove anos no deserto da Judeia. Dirigiu-se depois até Jerusalém, para reaparecer em Emesa deste jeito, divinamente seguro e confiado que todo o bem que pudesse fazer – e fez - na cidade, até à sua morte, não lhe seria imputado pela sociedade ao seu juízo e vontade meramente humanos. E, de facto, só uma das pessoas que lá habitavam sabia da sua vera e lúcida identidade.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O tema da santidade escondida numa loucura fingida e oposta à comédia social que se julga séria, não era inédito: inspirando-se na letra do 4, 10 da primeira carta de S. Paulo &lt;em&gt;Aos Coríntios&lt;/em&gt;, já aparece nas vidas dos &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/10/no-deserto.html#links"&gt;Padres do Deserto &lt;/a&gt;e não tem falta de exemplos na hagiografia do final da Antiguidade, aliás com pelo menos um precedente na Emesa síria: Santo Aleixo (romano de nascimento), para não falar de um outro (e mais famoso) Simeão, com seus companheiros e continuadores estilitas. É toda uma tradição cultural que viria a condicionar a ideia medieval da loucura como uma “doença sagrada” e que se reflecte ainda no &lt;em&gt;Elogio &lt;/em&gt;que dela fez, nos princípios do séc. XVI, o erudito humanista e um dos mais radiantes luminares da &lt;em&gt;philosophia Christi&lt;/em&gt;, que foi Erasmo de Roterdão. No lado oriental da cristandade europeia, é uma tradição que perdurou viva até ao séc. XX nas extraordinárias figuras dos chamados &lt;em&gt;yurodivye&lt;/em&gt; russos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;No caso do nosso Simeão, cumpre dizer que a sua entrada com o cão morto atrás não tem que significar a morte do cinicismo pagão, revivido na ascética cristã ; como já foi notado por alguns, pode significar Cerbero, o cão guardador da entrada do Hades, na mitologia helénica : o santo como vencedor do guardião dos infernos, ao entrar nos infernos da cidade. Já quanto ao que dele se conta logo a seguir na igreja, não tem sido tão comentado... Sublinhemos apenas que muito honra ao sr. bispo de Neápolis não o ter omitido.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Tenho assim cumprida &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/01/lio-licnio.html#links"&gt;a promessa feita aqui &lt;/a&gt;ao meu leitor de farejar até onde nos levaria o rasto evanescente do Cinicismo na Antiguidade final.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Uma palavra agora, e breve, sobre o raro ícone apresentado supra. É uma representação do popular S. Cristóvão, cujo nome e naturalidade se ignoram ( &lt;em&gt;Christóphoros&lt;/em&gt;, quer dizer “o portador de Cristo”). Teria nascido em remota região do norte de África, nos confins do mundo conhecido, em terras que se acreditava habitadas por canibais, ciclopes, ciápodes, hermafroditas e... cinocéfalos - homens com cabeça de cão. O imperador Diocleciano, em campanha militar na região (301-302), de lá o trouxe como escravo para Antioquia, onde foi baptizado e depois teria morrido martirizado, a 9 de Julho de 308. Data de 452 a primeira igreja que lhe foi dedicada, na Bitínia. Uma legenda irlandesa credita-lhe a cinocefalia nata e conta que, a pedido de Cristóvão, foi um anjo de Deus que lhe soltou a língua (sem lhe alterar a fisionomia) para a fala humana e a pregação do Evangelho divino. Outra legenda, popular entre finlandeses e russos, lê diferentemente: a fisionomia era de seu natural humana, e muito atraente às mulheres; depois de baptizado, pediu a Deus que lhe desse uma cara de feição a não ser mais tentado nem incomodado... Na famosa &lt;a href="http://www.fordham.edu/halsall/basis/goldenlegend/GoldenLegend-Volume4.htm#Christopher"&gt;Legenda Áurea &lt;/a&gt;, compilação medieval do bispo genovês Tiago de Voragine, o leitor interessado encontrará um relato dos trabalhos deste Cristóvão, que era de altura gigantesca e forças hercúleas, incluindo o célebre encargo (que lhe foi ordenado por um eremita) de carregar com pessoas comuns de uma margem para a outra de certo rio de torrenciais, tormentosas águas... “ em que muitos se têm perdido e morrido ”. Lá lhe apareceu uma criança a solicitar-lhe travessia. Parecia fácil empresa ao gigante passar o menino ao ombro. Mas o menino era Jesus, e “pesou-lhe como se levasse o mundo às costas”...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Não preciso lembrar ao leitor que Hércules ou Héracles era o sempre reivindicado herói patrono dos filósofos que tinham como cabeça de escola um que a si mesmo se chamava Cão. Mas não será inoportuna a sugestão de que neste cinocéfalo cristão, como no louco Simeão, temos duas figuras daquele &lt;em&gt;&lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/11/animais-apoliticos.html"&gt;therion &lt;/a&gt;&lt;/em&gt;monstruoso que tanto assustava o polido e político Aristóteles...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ O leitor de inglês interessado tem aqui a &lt;a href="http://publishing.cdlib.org/ucpressebooks/view?docId=ft6k4007sx&amp;amp;brand=ucpress"&gt;vida de Simeão&lt;/a&gt;, precedida de um estudo que não deixa de comparar a vida do cão com a do cristão. Desde os finais dos anos 70 do XX, há historiadores que morderam o filão, e alguns levaram as comparações até à pessoa e comportamento de Jesus.&lt;br /&gt;O leitor de português não deixará de se interessar pela maravilhosa versão de Eça de Queirós, no seu conto &lt;a href="http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&amp;amp;co_obra=16237"&gt;S. Cristóvão&lt;/a&gt;, unanimemente considerado pelos especialistas como pérola acabada da excelência literária do seu autor. O nosso polido e político cônsul parisiense, quando a morte o surpreendeu, dedicava-se a escrever Lendas de Santos... ]&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-8470064005186596468?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/8470064005186596468/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=8470064005186596468&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/8470064005186596468'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/8470064005186596468'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/10/vidas-de-cao.html' title='VIDAS DE CÃO'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TMlLr_xPaLI/AAAAAAAAAp0/P8_rR9b6EmU/s72-c/christopher.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-473565276090971546</id><published>2010-10-25T13:17:00.005+01:00</published><updated>2010-10-25T15:55:43.828+01:00</updated><title type='text'>NO DESERTO</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TMV1obUZjnI/AAAAAAAAAps/d4YaeYbBThA/s1600/St_Macarius_the_Great_with_Cherubim.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 207px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5531957054683057778" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TMV1obUZjnI/AAAAAAAAAps/d4YaeYbBThA/s320/St_Macarius_the_Great_with_Cherubim.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Nove anos apenas depois da última, a mais geral e a mais cruel perseguição do Império aos cristãos, é o próprio imperador romano que se associa ao Cristianismo e lhe dá édito de segurança e tolerância universal, no ano de 313. Eram passados duzentos e quarenta e nove anos sobre o horrível suplício dos primeiros cristãos pelo incendiário Nero, que queria reconstruir a velha Roma à imagem dos seus planos de esteta sofisticado e supremo arquitecto. Mas os planos de Deus eram outros. É agora Constantino que vai reconstruir dos alicerces uma cidade nova que fosse como a capital dum Império renovado, mais chegado às fontes do Oriente, livre da pesada herança pagã de Roma, e mais capaz duma católica universalidade: Constantinopla.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Um dos mais maravilhosos trechos da maravilhosa História da Igreja, impossível de contar só em termos de discurso humano - e capítulo capital que muito importa não esquecer, agora que o Império se vai reconstituindo sob o nome de “União Europeia”... -, é como um punhado de gente da mais ínfima plebe, vinda do Médio Oriente, consegue em trezentos anos assentar-se no trono do Império. Foi como se pegasse e propagasse como um Fogo, respondendo ao fogo de Nero... E começa então uma não menos maravilhosa parte da História: a das dramáticas relações entre o Estado normal da &lt;em&gt;Civitas terrena&lt;/em&gt; temporal e a norma eterna da &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/duas-cidades.html#links"&gt;&lt;em&gt;Civitas Dei&lt;/em&gt; &lt;/a&gt;em peregrinante missão no mundo: a constituída cidade nova do &lt;em&gt;Novo Israel&lt;/em&gt;, que é a Igreja.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Pois é precisamente nestes anos em que o Império começa a estender para a Igreja os braços no abraço mortal da “religião de Estado”, que começa a aumentar um extraordinário movimento de migração das cidades para o deserto: primeiro no Egipto, para as regiões da Nítria e da Sétia, depois na Palestina e na Síria, são milhares de pessoas, homens e mulheres, que se separam da sociedade mundana para viverem isolados (eremitas) ou em pequenos grupos (cenobitas) um novo género de vida (monástica). Nos princípios do século VI, com Bento de Núrsia ( o santo patrono da Europa... ), o movimento generaliza-se a todo o Ocidente.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A &lt;em&gt;anacorese&lt;/em&gt; (retiro, distanciamento) não é originariamente cristã. Possivelmente os pitagóricos, na Grécia antiga; os essénios, na Judeia; os Terapeutas, à margem de Alexandria, são exemplos anteriores, no quadro da cultura ocidental. O sinal cristão está em dar-se tal movimento de retiro precisamente no momento em que o Cristianismo triunfa na &lt;em&gt;polis&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O cristão sinal de contradição é um corte com a floresta de enganos da comédia social que mascara o deserto e a solidão humanos em que nos encontramos neste mundo. Procura replantar, no deserto aparente da terrestre geografia, a planta de uma humanidade vivente (quase) só duma vital relação a mais imediata e directa possível com Deus; e (quase) nada das económicas relações segundo “a carne e o sangue”, que alimentam a planta das cidades terrenas. Em poucas e precisas palavras: deixar tudo o que é nada; recuperar no que parece nada o que é tudo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Como se sabe, os primeiros cristãos tinham esperado “para breve” o regresso de Cristo e o fim deste mundo. Mas o que por toda a parte têm de enfrentar é o César na sua típica duplicidade: primeiro, com a mão das perseguições; depois, com a das consagrações. Alguns resistem a estas, como tinham resistido àquelas, e cortam: se não é Cristo, mas César, que vem ao seu encontro, apartam-se eles para estar só com Cristo, como antecipando a Sua vinda, esforçados na resolução de entrar pela "porta estreita" e como “forçando a entrada” no Seu Reino ( &lt;em&gt;Lucas&lt;/em&gt; 13, 24; cf. 16,16).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Replantar, disse. A espiritualidade do deserto é a tentativa de replantar no corpo da existência humana o tronco vital do convívio directo com Deus aparente no mundo, com era no Paraíso, em que o tempo ainda não contava nem afectava a humanidade ferida de morte, sujeita à geração e à corrupção. (O leitor não esqueça que a memória duma “idade de Ouro” persistiu em muitas e as mais díspares tradições culturais da humanidade.) Ora isto importa uma mutação existencial que, com a graça de Deus, ajude a reparar a desgraçada conversão que transformou o mundo de um divino Jardim num Deserto do abandono de Deus.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O primeiro passo desse concertar-se com Deus é reparar nisso: que este mundo é – na verdade – um deserto esvaziado da intimidade de Deus, que desertámos e tentamos recompôr e disfarçar multiplicando o mobiliário supérfluo, seguranças e comodidades. Reparando nisso, o homem-mutante parte para o o deserto que mais literalmente significa essa verdade, e que será o seu laboratório. Neste laboratório exercerá (&lt;em&gt;aiskesis&lt;/em&gt;: exercício, ascese) a tempo inteiro o labor manual e o oratório espiritual da leitura, oração e contemplação. (&lt;em&gt;Ora et labora&lt;/em&gt; foi a divisa escolhida por Bento de Núrsia para a Ordem Beneditina, cuja Regra propõe um regime equilibrado entre trabalho manual e espiritual.)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Trabalho espiritual, amigo leitor? Sabemos lá nós hoje lidar no nosso mais verdadeiro e mais digno trabalho!... E, no entanto, talvez tenhamos de o reaprender, se queremos sobreviver à civilização do desemprego e do ócio em que vamos entrando... Pois tal é, nestas coisas o critério do verdadeiro: aparentemente desaparecido um tempo, com o tempo volta sempre ao de cima – porque em alto está o lugar natural da verdade. Sabemos que essa lida tem exigências custosas e efeitos curiosos. Quanto às exigências, começando logo pela aparentemente mais fácil da despreocupação com cortes de cabelos e barbas (não tenho informação quanto às unhas), já teríamos aqui um obstáculo insuperável para os machos beldades que andam por cá a depilar-se em esteticistas, nesta parte rica e enfartada do mundo! Então, dos máximos jejuns e mínimos de sono, nem já é preciso falar. Quanto aos efeitos curiosos, posso pegar também na questão dos cabelos e barbas. À nossa vista cega de civilizados, tais mutantes pela ascese poderiam assemelhar-se mais a bestas feras que aos anjos. Ora, em certo sentido, assim era de facto, por isso que logo os primeiros eremitas, Paulo e Antão, aparecem figurados em estreita associação e pacífica conversação com os animais, recuperando o tempo e lugar em que nos entendíamos bem com eles. Veja o leitor esta história acerca do monge Áfon, que viveu sessenta anos no deserto do Alto Egipto, aliás muito curiosa a outros títulos (até pela crítica oposição entre vida anacorética e vida cenobítica, já regrada por regras huamanas: a primitiva regra de S. Pacómio). –&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;« Havia no deserto um anacoreta que pastava com os búfalos. Um dia dirigiu-se a Deus e perguntou-lhe: “Senhor, ensina-me aquilo que me falta.” Então uma voz respondeu-lhe: “Entra em certo cenóbio e faz aquilo que te disserem.” Ele dirigiu-se então a esse cenóbio e aí permaneceu. Não conhecia nada dos trabalhos dos monges, até que os pobres monges começaram a ensinar-lhe os diversos trabalhos, dizendo-lhe: “Faz isto, idiota! Faz aquilo, velho tonto!” Aflito, o anacoreta disse a Deus: “O trabalho dos homens não o entendo. Mandai-me outra vez para junto dos búfalos.” Deus consentiu e ele regressou ao capmpo para pastar no meio dos búfalos. Mas nesse lugar os homens tinham colocado umas redes. Alguns búfalos caíram nelas e, em certa altura, caiu também o ancião. E ele teve então o seguinte pensamento: “Tu, que tens mãos, solta-te das redes.” Mas depois respondeu-lhe outro pensamento: “Se és um homem, decide-te e vai viver com os homens. Mas, se és búfalo, então deixa de ter mãos.” E ficou envolto nas redes até ao outro dia. Quando os homens vieram apanhar os búfalos ao outro dia, ao verem o velho ficaram tolhidos pelo terror. Ele não disse palavra. Soltaram-no e deixaram-no partir. E ele afastou-se, correndo atrás dos búfalos. » &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A "voz" é bem capaz de ser genuína: note-se (e note-se bem) que não lhe diz - "Se és um anjo"... mas, ao contrário, "se és um búfalo"; tenta-lhe (frustemente) a reacção soberba ( -"Eu não sou um búfalo!"), mas sugerindo abertamente a extrema humildade, acessível a quem sabe de ciência e consciência certas que não é um búfalo tanto como não é um anjo. Os prémios da prova vencida são dois: um corpo ligeiro, capaz de acompanhar a corrida dos búfalos; e um livramento: afastar--se daqueles que têm mãos rapaces para a terra daquele provérbio nosso que diz assim: A terra é de quem tem manha e mais apanha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;[ O eremitismo não desapareceu ainda hoje. O leitor curioso tem aqui um bom sítio para o confirmar: &lt;a href="http://www.hermitary.com/"&gt;http://www.hermitary.com/&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O leitor interessado tem actualmente em português uma antologia de Ditos e Feitos dos Padres do Deserto, organizada pela poetisa italiana que foi Cristina Campo (em trad. port. do poeta Armando Silva Carvalho). Dela retirei a história de Áfon. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;As &lt;em&gt;Vitae Patrum&lt;/em&gt; têm acompanhado a cultura portuguesa desde os seus primórdios, com a compilação feita no séc.VI por S. Martinho de Dume.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O harmonioso equilíbrio entre a ascese eremítica e cenobítica tem sido realizado desde 1084 nos “desertos” da Ordem Cartusiana ( &lt;a href="http://www.chartreux.org/pt/frame.html"&gt;http://www.chartreux.org/pt/frame.html&lt;/a&gt; ) que vai para mil anos de existência sem ter precisado de qualquer reforma. No ano 2000, o realizador cinematográfico Philip Groning conseguiu autorização para levar as suas máquinas até onde jamais alguma câmara tinha entrado: &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=OVrDLCvMcOQ&amp;amp;feature=related"&gt;http://www.youtube.com/watch?v=OVrDLCvMcOQ&amp;amp;feature=related&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Em ícone : S. Macário do Egipto (séc. IV), custodiado por um exemplar da múltipla, variegada, insólita fauna que povoa o deserto. ]&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;[Este postal não trata do passado, que não sou historiador. É dedicado aos "selvagens" que,no futuro, tentando refugiar-se longe das cidades junto do que restar de Natureza viva, serão localizados, perseguidos, caídos na Rede e abatidos como "búfalos". A não ser que... ]&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-473565276090971546?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/473565276090971546/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=473565276090971546&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/473565276090971546'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/473565276090971546'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/10/no-deserto.html' title='NO DESERTO'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TMV1obUZjnI/AAAAAAAAAps/d4YaeYbBThA/s72-c/St_Macarius_the_Great_with_Cherubim.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-921166330833391078</id><published>2010-10-25T13:13:00.007+01:00</published><updated>2011-11-02T21:22:46.355Z</updated><title type='text'>ADENDA</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TMV1S9l4jnI/AAAAAAAAApk/n59zkhvwv3g/s1600/gruta+de+frei+hon%C3%B3rio.jpg"&gt;&lt;img style="text-align: center; margin: 0px auto 10px; width: 320px; display: block; height: 216px;" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5531956685926076018" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TMV1S9l4jnI/AAAAAAAAApk/n59zkhvwv3g/s320/gruta+de+frei+hon%C3%B3rio.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;Aqui pois finalmente com rigores&lt;br /&gt;Insofríveis de todo e desusados,&lt;br /&gt;Passam a vida estes santos sofredores&lt;br /&gt;De todo o trato humano desterrados.&lt;br /&gt;Seu comer só são lágrimas e dores,&lt;br /&gt;Quando muito uns legumes incruados,&lt;br /&gt;Sem azeite, e sem gosto, que parece&lt;br /&gt;Que tudo o cá da Terra lhes falece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada um deles parece certamente&lt;br /&gt;Nas chagas e feridas rigorosas&lt;br /&gt;Outro franciscano santo e penitente,&lt;br /&gt;Que cinco teve tão miraculosas.&lt;br /&gt;A eles lhes parece ouro fulgente&lt;br /&gt;Estas alegres e purpúreas rosas,&lt;br /&gt;Porque enfim quem d’amor está prendado,&lt;br /&gt;O rigor lhe parece mais folgado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem mostram pois aqui neste alto Monte&lt;br /&gt;Com sua sujeição e obediência,&lt;br /&gt;Com seus corpos de sangue feitos fonte,&lt;br /&gt;Com sua austera vida e penitência,&lt;br /&gt;Que muitas excelências deles conte:&lt;br /&gt;Mas falta-me o melhor, que é a ciência;&lt;br /&gt;Mas somente direi que deste Alverno&lt;br /&gt;Tremer fazem o horrífico Inferno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Postos em Cruz estão, ninguém duvida,&lt;br /&gt;Pois se a Cruz são trabalhos e rigores,&lt;br /&gt;Que mores podem ter com sua vida&lt;br /&gt;Cheia de tantos descontos e suores!&lt;br /&gt;A Cruz é só seu bem, sua querida,&lt;br /&gt;Nela têm seu descanso e seus amores,&lt;br /&gt;Sua glória, seu prazer, sua luz pura,&lt;br /&gt;Seu remédio e seu bem, sua ventura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descalços, pobrezinhos, remendados,&lt;br /&gt;Cansados e famintos, abstinentes,&lt;br /&gt;De feridas e de açoites retalhados,&lt;br /&gt;Sem cama, sem camisa, continentes;&lt;br /&gt;Cozidos num burel e amortalhados,&lt;br /&gt;E com outros rigores diferentes,&lt;br /&gt;Passam a vida aqui neste deserto&lt;br /&gt;Para se verem do Céu muito mais perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Tais são algumas das estâncias dedicadas ao convento franciscano da Santa Cruz num poema seiscentista em oitavas e seis cantos titulado &lt;em&gt;Serra de Sintra&lt;/em&gt;, de autor anónimo, escrito por alturas da Restauração.Versos como os transcritos, e outros do anónimo autor, não repugnariam a frei Agostinho da Cruz, que professou no convento de Sintra antes de ir para guardião do de Ribamar e depois para Santa Maria da Arrábida.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A fundação do convento da Santa Cruz da Serra foi ideia do nosso vice-rei na Índia D. João de Castro, proprietário do sítio, e da quinta da Penha Verde mais abaixo. Não a pôde executar em vida, e foi seu filho D. Álvaro de Castro que a levou a cabo a favor dos frades franciscanos reformados, chamados “Capuchos”, lá estabelecidos em 1560.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;El-rei D. Filipe II, então senhor de Portugal, aqui veio de visita aos frades com quem seu sobrinho D. Sebastião gostava de praticar. Pedindo o soberano espanhol para si um púcaro com água, a fidalgaria que o acompanhava pediu ao guardião que o servisse com algum doce, para adoçar a el-rei a visão de tanta austeridade. O guardião trouxe-lhe o púcaro com um pratinho de passas. D. Filipe instou com o guardião que lhe pedisse alguma coisa de necessidade para o convento. O frade chamou o irmão cozinheiro e inquiriu se havia azeite bastante para a almotolia do refeitório (era mendigado à semana). Havia. Não precisava de nada, e beijou a real mão pelo cuidado em fazer mercê. Saindo do convento, admirado e agradado de tanto desapego, saiu-se bem el-rei apontando ao longe na direcção do convento jerónimo da Pena: - “Allá es la pena, e esta es la glória.” E depois ufanava-se de ter em seus reinos o convento mais rico (o Escurial) e o mais pobre de toda a Cristandade.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Ainda hoje à vista das celas o visitante pode corroborar a exactidão do velho cronista frei António da Piedade: « são estas tão estreitas que ordinariamente seus habitadores dormem encolhidos, e alguns mandaram abrir na rocha, que lhes serve de parede, buracos para acomodarem os pés; as portas têm cinco palmos de alto, e palmo e meio de largo; as paredes que as dividem são de vimes tecidos com barro; o forro de tudo é de cortiça e está nas portas pregada em grades de tosca madeira. »&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Frei Honório de Santa Maria veio a estas celas pelo ano de 1561, contava já sessenta de idade, e chegou a guardião do convento. Talvez porque as achasse demasiado cómodas, « elegeu por cela uma cova que está na cerca .... cuja horrorosa vista intimida aos humanos por a verem, quanto mais para habitarem. Ninguém a vê sem que lhe sirva para despertador da morte; e todos ouvem assombrados que nela pudesse viver dezasseis anos contínuos Fr. Honório, contando já oitenta de idade. A sua cama era uma cortiça, e uma pedra ou pau lhe servia de cabeceira, sem outra cobertura com que se pudesse reparar dos frios mais que a de dois grandes penedos, que lhe impedem a claridade. »&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;A cova aonde esteve por dezasseis anos (não trinta, como exageram outros) fica documentada na fotografia, e lá está ainda hoje para edificar e &lt;em&gt;despertar &lt;/em&gt;o visitante, que pode visitar o convento à vontade e beneficiar de horas de uma paz que o acompanhará por dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;[ A vida de Honório pode ler-se aqui na Parte I, Livro IV, Cap. XL do &lt;em&gt;Espelho de Penitentes e Crónica da Província de Santa Maria da Arrábida&lt;/em&gt;, de frei António da Piedade (1728), acessível neste sítio digno do sítio do convento: &lt;a href="http://soscapuchos.blogspot.com/2009/03/vida-do-veneravel-fr-honorio-de-santa.html"&gt;http://soscapuchos.blogspot.com/2009/03/vida-do-veneravel-fr-honorio-de-santa.html&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Um bom guia moderno para o visitante é &lt;em&gt;O Convento dos Capuchos da Serra de Sintra- Percurso Histórico e Guia Interpretativo&lt;/em&gt; (2005), de Nuno Miguel Gaspar.&lt;br /&gt;O poema anónimo do séc. XVII, possivelmente dum erudito frade jerónimo do convento da Pena, foi editado, anotado e publicado pela primeira vez por João Rodil, em Sintra, há poucos anos (1993). ]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-921166330833391078?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/921166330833391078/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=921166330833391078&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/921166330833391078'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/921166330833391078'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/10/adenda_25.html' title='ADENDA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TMV1S9l4jnI/AAAAAAAAApk/n59zkhvwv3g/s72-c/gruta+de+frei+hon%C3%B3rio.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-3425524887110384152</id><published>2010-10-20T13:36:00.005+01:00</published><updated>2010-10-23T00:08:32.237+01:00</updated><title type='text'>PROJECTOS EDUCATIVOS ( II )</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TL7ihbpJioI/AAAAAAAAApU/C8PEIK5OAnE/s1600/tree_hand.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5530106456441457282" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 235px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TL7ihbpJioI/AAAAAAAAApU/C8PEIK5OAnE/s320/tree_hand.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;« O verdadeiro ideal de educação postula o máximo respeito pelo desenvolvimento da pessoa humana. »&lt;br /&gt;Ál&lt;span style="font-size:85%;"&gt;varo Ribeiro&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;« 99% dos meus alunos não conhecem minimamente as regras da ortografia, da sintaxe e da pontuação. Escrevem pelo som e pelo sentido. » Isto confessava ao jornal &lt;em&gt;Le Figaro&lt;/em&gt; uma professora do liceu francesa (ignoro de que ano), conforme reproduzia um diário nosso no dia 2 de Fevereiro passado. Essencialmente o mesmo tem advertido para o nosso caso a professora &lt;a href="http://noticias.sapo.pt/info/artigo/1071906.html"&gt;Maria do Carmo Vieira&lt;/a&gt;, entre outros. Um crescente número de alunos chega aos dez-doze anos de escolaridade pública mal sabendo ler e escrever na sua língua materna. A situação interessa ao Projecto Educativo de que falei anteontem : indivíduos sem recursos para se fazerem bem entender a si e bem entenderem os outros potenciam a dissociação e conflitualidade social, ficam mais isolados e mais à mercê de quem pense e fale por eles. De aí, por exemplo, o interesse na permanência (e alargamento) da “escolaridade obrigatória”, um aberrante conceito que choca imediata e frontalmente com o princípio da Liberdade de aprender – ou de não aprender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma palavra no postal de hoje sobre o alternativo Projecto Educativo da &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/duas-cidades.html#links"&gt;outra Cidade&lt;/a&gt;, pedindo ao leitor o obséquio de se referir às etapas &lt;strong&gt;(1) &lt;/strong&gt;a &lt;strong&gt;(4),&lt;/strong&gt; citadas no anterior, e que me parecem as essenciais a qualquer processo de instrução/educação humana. Nesta concepção alternativa, os humanos somos animais excepcionais na Natureza, criados à imagem e semelhança de Deus. Tal concepção está comprometida com uma educação que conduz da formação individual&lt;strong&gt; (1)&lt;/strong&gt; para a dimensão pessoal e cívica das relações entre indivíduos e grupos &lt;strong&gt;(2)&lt;/strong&gt; e &lt;strong&gt;(3),&lt;/strong&gt; até à ecuménica ou mundial &lt;strong&gt;(4),&lt;/strong&gt; em que cada um e todos se reconheçam e estimem na universal condição de filhos de Deus. Eis aonde pode chegar o máximo desenvolvimento da pessoa humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A respeitável e inalienável excepcionalidade dos humanos manifesta-se imediatamente na nossa linguagem natural. Nesta Cidade de Deus, apesar de Babel, acredita-se que permanecem vivos e operantes na mente e na palavra dos humanos vínculos espirituais com o Verbo divino. (Não é uma crença originariamente cristã: nas culturas tradicionais dos povos, a linguagem “poética” era divinamente “inspirada”.) De aqui deriva o cuidado e o interesse de cultivar e desenvolver ao máximo as potencialidades da linguagem natural, que a tornem apta para as formas superiores da cultura e do culto. Ora, como é evidente, nesta concepção, a aprendizagem da lingua materna não pode ser senão seriamente cultivada e valorizada. E, como os grupos humanos se filiam e derivam biologicamente uns dos outros, assim também as línguas: de aqui também o cuidado e valorização extensivos àquelas línguas “mortas” que mais directamente têm a ver com as actualmente “vivas”: no nosso caso, a latina e a grega. Vê-se logo como o Projecto Educativo desta Cidade é afinal muito mais natural que o da naturalista, apostada antes na criação e desenvolvimento das linguagens artificiais (lógico-matemáticas) dos sistemas informatizados que gerem e controlam a vida social.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Projecto Educativo da Cidade de Deus sempre se defendeu e defende o protagonismo do grupo familiar relativamente a &lt;strong&gt;(1).&lt;/strong&gt; – “Casa de pais, escola de filhos”, como dizia o provérbio português, concordante com o (bom) senso comum e toda a investigação psicológica, que salienta a importância dos 5-6 primeiros anos de vida na formação da personalidade dos indivíduos. Para isto faz-se mister uma atenção exclusivamente dedicada e persinalizada, que não é possível no infantário colectivista; também que os pais tenham uma crença (comum) muito ciente sobre o que seja para seus filhos uma boa educação (porque, como lá diz outro – “Casa onde não há crença logo aparece a desavença”) ; e, é claro, os meios para satisfazerem ao encargo responsável desse &lt;em&gt;natural&lt;/em&gt; protagonismo. (Quanto a estes meios, também não há diferença entre o bom senso e a ciência psicológica: disponibilidade de tempo, boa disposição emocional e competência intelectual, muito mais do que o dinheiro e recursos materiais, é que são os meios precisos essenciais.) Infelizmente para a saúde da nossa vida colectiva portuguesa isto afigura-se, em termos sociológicos, uma batalha perdida para a maioria: os poderes públicos foram bem sucedidos na estratégia de afastar as crianças o mais cedo possível de seus pais, e depois durante o mais tempo possível; por outro lado, tudo têm feito e continuam a fazer para destruir a família, sob pretexto de estarem apenas a reflectir “novas tendências e estilos de vida” (que eles próprios condicionaram!) e a garantir “direitos” aos indivíduos. Quanto aos novos casais, nem sequer têm condições para sustentarem um filho (apesar dos conhecidos inconvenientes do filho único). Mas o que nos interessa aqui é relevar quanto, também neste ponto, o Projecto naturalista, em comparação, revela o seu verdadeiro e perverso carácter: - é &lt;strong&gt;&lt;em&gt;anti-natural&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas circunstâncias dramáticas de quase completa anomia social, moral e psicológica (chegámos ao 1º lugar dos maiores consumidores de ansiolíticos e anti-depressivos na Europa dos 27, segundo notícias divulgadas há dias) e desiquilíbrio ambiental (vejam-se as consequências para o abandono do interior por via das 3 mil escolas básicas que os mandantes actuais se propuseram encerrar, desde 2005), são apesar de tudo uma ocasião para que os cidadãos responsáveis se comecem a pôr a questão que, não só em termos de sociologia e política educativas, mas de prudente bom senso, é a mais básica de todas : Se o que se chama “Estado” não passa hoje dum campo assaltado e saqueado por díspares grupos de interesses &lt;em&gt;particulares&lt;/em&gt;, convergindo apenas no saque da riqueza pública, e de comissionados capatazes de interesses “europeus”, - a quem é que deve entregar-se a educação das novas gerações? (Uma questão, aliás, que se aplicaria na mesma em circunstâncias políticas normais, e que tem a ver com quais devem ser as funções essenciais dos detentores da administração pública num Estado. É de reparar que os poderes que tradicionalmente lhe são adstritos - legislativo, executivo, judicial – não implicam de maneira nenhuma que os responsáveis superiores da administração pública/política se arroguem a pretensão de “educadores” da sociedade civil : um desorbitamento totalitário, aliás historicamente recente, datável da ditadura napoleónica.)&lt;br /&gt;Voltemos a enfocar o nosso assunto deste postal, de que não me afastei muito, porque não deixa de ser altamente significativo que o processo histórico de apropriação da Educação pelo Estado consisitiu essencialmente nisto: um processo de &lt;em&gt;expropriação&lt;/em&gt; do tradicional protagonismo que neste campo a Igreja tinha nas sociedades ocidentais. (A fase seguinte à expropriação do poder temporal eclesiástico e dos seus bens patrimoniais.) É um processo que se fez &lt;em&gt;contra &lt;/em&gt;ela; e razão há para falarmos de dois Projectos que se opõem, e sem conciliação possível neste mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De acordo com o sugerido no postal anterior, eu diria que só a força de contingentes circunstâncias sociais e/ou naturais podiam levar o Projecto naturalista de &lt;strong&gt;(3) &lt;/strong&gt;à fixação em &lt;strong&gt;(4),&lt;/strong&gt; isto é, à consideração da universal condição humana (que para o naturalista não passaria duma abstracção irreal). Circunstâncias, entre outras, tais a descoberta da identidade do genoma humano e o processo de “globalização”. É este o último plano em que tudo se joga. Mas, a este nível, não parece viável, no Projecto naturalista, nenhuma defesa genuína e consistente da universalidade dos Direitos Humanos, inviável se apartada duma Lei Moral cuja razão suficiente e eficiente é - e só pode ser - &lt;strong&gt;&lt;em&gt;cristã.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; (Temo-lo justificado aqui no esclarecedor confronto com o sadismo e o amoralismo.) A este nível já chegara, porém, Auguste Comte, e foi presciente : junto das grandes “massas”, só uma “nova religião” poderia organizar as sociedades nacionais e as relações internacionais: e essa, para o positivista ateu, não podia ser outra senão a “religião da Humanidade”. Pensava ele que o Cristianismo era uma religião entre outras (mas mais perigosa, pelo fermento “anarquista”...) e, portanto, como todas, factor de insuperável divisão entre os povos... Ora, esta “religião da Humanidade” pode muito bem ser instrumentalmente útil ao Projecto naturalista, mas fruste em última análise: não só por causa da sobredita questão dos Direitos Humanos (cuja tendência para ser gradualmente esquecida ou pervertida é já hoje nítida a nível de organismos como a ONU), como principalmente vai contra toda a lógica permanente e final desse Projecto: o &lt;em&gt;apartheid &lt;/em&gt;entre os “nossos” e os “outros”, os homens comuns e os homens “superiores”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ Muito me praz associar a este postal o nome de um dos maiores filósofos portugueses do século XX – Álvaro Ribeiro (1905-1981) – que, no domínio da filosofia da educação, ampliou a aprofundou teoricamente a obra (aqui mais prática que teorética) de seu mestre Leonardo Coimbra. Álvaro Ribeiro, embora crente em que o Estado era “também responsável pelo destino da cultura, pela realização de fins espirituais”, bem sabia que a escolaridade é coisa distinta, e que pode ficar bem distante, da educação. ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-3425524887110384152?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/3425524887110384152/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=3425524887110384152&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/3425524887110384152'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/3425524887110384152'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/10/projectos-educativos-ii.html' title='PROJECTOS EDUCATIVOS ( II )'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TL7ihbpJioI/AAAAAAAAApU/C8PEIK5OAnE/s72-c/tree_hand.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-7949668627016896894</id><published>2010-10-20T13:34:00.008+01:00</published><updated>2010-11-10T14:50:04.008Z</updated><title type='text'>ADENDA</title><content type='html'>O leitor pode ter ficado desagradavelmente surpreendido pelo plano demasiado alto em que pus a questão educativa, sem maior atenção e aplicação ao concreto da &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2008/03/um-lado-e-o-lodo-do-estado-que-isto.html#links"&gt;situação portuguesa&lt;/a&gt;. Mas as alusões esparsas que lhe fui fazendo parecem suficientes, considerando que a inércia da situação actual se prolongará por muito tempo : atados que fomos de pés e mãos à “União Europeia”, acompanharemos o ocaso duma “democracia” (que subsistirá nas televisões e mediática propaganda) para o que, de facto, já é uma entenebrecida Oclocracia tecnicamente controlada por oligarquias de vocação imperial, segregacionista e esclavagista; isto enquanto prossegue entre nós o processo de reconfiguração social e cultural a que só acho paralelo no que passámos entre os sécs.V a X (mas que agora será mais apressado).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contra essa inercial tendência, só uma revolução política. Como se sabe, ou facilmente intui, o subsistema educativo, na medida em que reflecte e reproduz o sistema social, só muda significativamente com a mudança política do sistema social. Ora, o que a actual e previsível futura situação tem de (quase) inédito, historicamente, são estas duas exigentes características : a mudança teria de ser uma verdadeira revolução e, ao mesmo tempo, não será nem pode ser só política. Está encerrado o ciclo das “revoluções políticas” do género das que, entre 1820 e 1974, não têm sido senão golpes militares promotores de epidérmicas recomposições sociais : inalterada ficou sempre a mesma mentalidade subserviente e dependente do “Estado”. Acontece que este “Estado” não é hoje em Portugal mais que um estado de coisas tão mortífero para a sociedade nacional, que só merece propriamente um nome: &lt;strong&gt;&lt;em&gt;etnocida&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;. (Basta reparar no futuro que está reservado aos novos – desemprego, trabalho precário e escravo, ou emigração –, e a eutanásia socialmente assistida para os velhos; e, para todos, a condenação perpétua ao “serviço da dívida” para com os pagadores estrangeiros da vida de pobres que andámos a fazer de ricos.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A libertação da sociedade civil relativamente a este “Estado” exigiria, pois, uma mutação mais profunda e sem medida comum com qualquer daquelas “revoluções políticas” que historicamente temos conhecido. Mas tal reivindicação de uma genuína Liberdade de ensinar e aprender - ou de não aprender -, liberdade que é (torno a repetir, porque já é tempo de ouvir!) &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2008/12/sobre-o-estudar-e-o-estudante.html#links"&gt;incompatível de princípio com qualquer teoria e prática de escolaridades “obrigatórias”, &lt;/a&gt;- não se antevê. ( O que temos visto é a débil e frouxa resistência dos pais e autarquias ao encerramento e transferência compulsivos das crianças de tantas escolas básicas, desde 2005, um depressivo sintoma da falta de iniciativa resoluta e autónoma da sociedade civil na defesa dos seus interesses mais vitais. Assim se perdeu a oportunidade histórica de chamarem ao seu directo controlo e responsabilidade a gestão do património edificado escolar e da contratação e manutenção de professores para a educação dos seus filhos, ao menos nos nove primeiros anos de escolaridade. )&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma reivindicação séria começaria por uma mutação da mentalidade : os juros mais altos e preocupantes não são os das finanças ou dos consumos, - são os do descaso multissecular de nunca termos levado a questão da educação a sério (basta ver o tempo e a qualidade do debate que se lhe dedica nas campanhas eleitorais, comparativamente à obcecação com a “economia”). Mas, tal mentalidade nova parece que só poderia resultar de uma educação nova que, por sua vez, parece que só poderia resultar de uma mentalidade nova...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por isso que a reivindicação mais séria e consistente dessa Liberdade é a que de há muito tem sido e continuará a ser promovida e protagonizada pela Igreja. Uma reivindicação que é também um combate pela libertação da sociedade civil e pelos Direitos Humanos (veja-se o artº 26 da Declaração Universal de 1948, e o Protocolo 1, artº 2 da Convenção Europeia de 1950, acolhidos no 14º nº 3 da bonita Carta dos Direitos Fundamentais inclusa no recente “Tratado de Lisboa”). Mas, única e precisamente por ser causa da Igreja, os poderes públicos só podem contrariar, de modo nenhum promover tal reivindicação. Os “novos poderes espirituais”, de que nos falava Comte, que querem “reorganizar a Europa” e o mundo, sabem muito bem que o mito moderno da “educação” é a tentativa de neutralizar e substituir a educação humana integral que é a educação cristã, convenientemente reduzida pela propaganda a educação “religiosa” e inimiga da “ciência”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, se o meu caro leitor quiser continuar à espera, como temos estado entre nós, desde 1820, que as mil reformas educativas mil vezes reformadas tragam enfim um Estado iluminado e competente sobre o que é e como é educar bem os seus cidadãos, - enquanto espera sentado terá muito tempo para ir meditando consigo se, além do mais, o grande mito moderno da “educação” se não se reduz afinal às &lt;em&gt;naturais&lt;/em&gt; estratégias com que cada geração &lt;em&gt;espontaneamente&lt;/em&gt; vai-se ajustando melhor ou pior aos sucessivos novos adereços e cenários em que vamos representando a tarefa de sobreviver no grande Teatro do mundo. O mais que exceda este estádio darwiniano que é o estado político das sociedades humanas, parece-me que já ficou suficientemente sugerido : os “fins espirituais” ( de que falava o meu caro Álvaro Ribeiro), transcendem os poderes públicos, que não lhes podem chegar e... não os podem evitar. Ora, o facto é que o grande embate entre as Duas Cidades não tem nem terá – como desde há dois mil anos... – nenhuma solução meramente “política”, e é já intratável ao nível dum conceito de cidadania “nacional” ou “internacional”. A questão já hoje confronta e directamente respeita ao homem &lt;em&gt;universal&lt;/em&gt; : não a todos, em geral e abstracto, mas a todos e &lt;strong&gt;&lt;em&gt;a cada um&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;; convoca e decide-se no coração das razões e nas razões do coração de &lt;em&gt;cada um&lt;/em&gt; de nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ Um magnífico exemplo do tipo de livre decisão a que me refiro está na fotografia em baixo, e me conforta na esperança que tenho nas novas gerações, a quem tão pesados sacrifícios já estão e irão ser pedidos. Foi na &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=9-nXT8lSnPQ"&gt;praça de Tiananmen, em Pequim, Junho de 1989&lt;/a&gt;. Um outro exemplo, um belo raio de luz no ocaso das “democracias ocidentais”, foi a recente decisão sueca de atribuir o Prémio Nobel da Paz ao prisioneiro Liu Xiaubo, prisioneiro como nós, com a diferença de que ele passa mais tempo na cela, enquanto nós mais num distraído recreio, deambulando dum lado para outro... ]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TL7iFzbOfII/AAAAAAAAApM/93MxPUStzTQ/s1600/Tianamen.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 220px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5530105981789174914" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TL7iFzbOfII/AAAAAAAAApM/93MxPUStzTQ/s320/Tianamen.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-7949668627016896894?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/7949668627016896894/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=7949668627016896894&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/7949668627016896894'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/7949668627016896894'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/10/adenda_20.html' title='ADENDA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TL7iFzbOfII/AAAAAAAAApM/93MxPUStzTQ/s72-c/Tianamen.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-92404556986391256</id><published>2010-10-18T13:25:00.003+01:00</published><updated>2010-10-18T15:41:51.353+01:00</updated><title type='text'>PROJECTOS EDUCATIVOS ( I )</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TLw85PtFTPI/AAAAAAAAApE/0fGSW0aC67M/s1600/Robot+Berti.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 206px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5529361396669959410" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TLw85PtFTPI/AAAAAAAAApE/0fGSW0aC67M/s320/Robot+Berti.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;« Visto o crescimento a que chegou o tipo de “homem gregário” na Europa, não seria altura de experimentar a metódica selecção, artificial e consciente, do tipo oposto ? »&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Nietzsche&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;« Um novo poder espiritual, capaz de substituir o clero e reorganizar a Europa por meio da educação. »&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Comte&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;_____________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Os Projectos Educativos a que me refiro são os que interessam aos cidadãos de &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/duas-cidades.html#links"&gt;Duas Cidades &lt;/a&gt;e às respectivas opostas concepções do homem, do mundo e da vida. Convém lembrar que se trata aqui de cidadãos com interesses cosmopolitas, que se encontram misturados neste mundo, em todas as condições sociais e políticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O novo poder “espiritual” é o que vimos na semana anterior: a elite engenheira de empregados na inovação e manutenção dos sistemas automatizados de gestão e controlo de todos os sectores da vida social; os seus financiadores públicos e privados; e, sobretudo, o ainda mais restrito número dos altos sacerdotes apostados na separação das águas (humanos para um lado, sobrehumanos para o outro) e, a partir do caos e do nada (o “niilismo europeu”, de que falava Nietzsche), produzir com as suas &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Engines_of_Creation"&gt;engines of creation &lt;/a&gt;um &lt;a href="http://128.112.44.57/challenging/CNmedia/articles/EdenEpilogue.pdf"&gt;remaking Eden&lt;/a&gt;: uma réplica caricatural e perversa, mas apelativa e cativante de «um novo céu e uma nova terra» (&lt;em&gt;Apocalipse&lt;/em&gt; 21, 1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto à “educação”, não é difícil, nesta perspectiva, dar conta das estratégias montadas: para uma minoria seleccionada, preparação intensa e exigente em comteanos “conhecimentos positivos”; para a grande maioria dos desempregados, distracção e ocupação do tempo em “acções de formação” continuadas ao longo da vida, de formação em formação até... à reforma final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As origens históricas deste Projecto advêm, no passado próximo, do “Iluminismo” setecentista, depois socialmente alinhado ao serviço do industrialismo progressista e positivista de oitocentos. O primeiro efeito histórico do Projecto foi a aniquilação da cultura popular tradicional nas sociedades europeias. Mas, ontem como hoje, também ele assenta no que essencialmente permanece inererente a qualquer projecto de educação, formal ou informal. (O informal subsume-se no normal processo de socialização dos indivíduos ao longo da sua vida social.) Quais são as suas finalidades permanentes essenciais ? –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A situação do sistema público educativo no actual momento da sociedade portuguesa, só comparável (não por acaso...) ao da “Justiça”, &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2008/03/um-lado-e-o-lodo-do-estado-que-isto.html#links"&gt;já foi apontada aqui&lt;/a&gt;. Como disse, é uma situação que não deixa de ser propícia ao repensar de raiz os alicerces dalguma reconstrução possível. Quando há &lt;em&gt;nada&lt;/em&gt; (ou o heterónimo: caos), não é mau recomeçarmos humildemente por escutar as velhas palavras “instrução” (&lt;em&gt;in+struere&lt;/em&gt;: compor, formar interiormente)&lt;/div&gt;&lt;div&gt;“educação” (&lt;em&gt;e+ducare&lt;/em&gt;: conduzir, levar para fora) que temos usado ao longo dos tempos. No étimo significado dos termos estão nítidas as finalidades inerentes a qualquer projecto educativo humanamente completo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(1)&lt;/strong&gt; A formação da personalidade individual para &lt;strong&gt;(2)&lt;/strong&gt; levar os indivíduos a serem capazes de sair do seu interesse privado até à civilidade social, &lt;strong&gt;(3)&lt;/strong&gt; à cidadania política e &lt;strong&gt;(4)&lt;/strong&gt; à universal humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis as complementares vias da instrução e educação, que se implicam e correspondem reciprocamente. Nos dois últimos séculos o paradigma dominante tem enfatizado &lt;strong&gt;(1)&lt;/strong&gt; e &lt;strong&gt;(2), &lt;/strong&gt;aliás praticamente reduzidos a conhecimentos e competências para uma empregabilidade profissional, e serviçal da engrenagem montada dos interesses sociais e económicos dominantes. Ora, antes do mais, eu perguntaria ao meu leitor português: - quanto a &lt;strong&gt;(1)&lt;/strong&gt; onde está, no actual sistema público de ensino, a formação e robustecimento da &lt;em&gt;vontade&lt;/em&gt;, tão essencial à liberdade ? E onde, a conexa formação e correcção da sensibilidade, para que a vontade não desvie duma recta razão alinhada com a lei moral? E onde, a “educação cívica”, essencial para a passagem de &lt;strong&gt;(2)&lt;/strong&gt; a&lt;strong&gt; (3)&lt;/strong&gt; ? Já vê que não havia exagero na redução que fiz do meu diagnóstico a uma palavra: &lt;em&gt;nada&lt;/em&gt;. ( Quanto à memória humana, essencial ao desenvolvimento da identidade das pessoas e das culturas, já sabemos que está a ser evacuada e descarregada para os computadores...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É de reparar que o Projecto que interessa à Cidade naturalista parecia não ser capaz de chegar a &lt;strong&gt;(4).&lt;/strong&gt; De facto, para o naturalismo, existem indivíduos, grupos nacionais, estados políticos; a “humanidade” seria uma abstracção genérica sem nenhuma real concreção existencial. Mas a emergência e expansão da cultura tecnocientífica, coordenada com a expansão do capitalismo e dos mercados, os imperialismos políticos, juntamente com as questões ecológicas, forçaram esta concepção ao universalismo da “globalização”. Contudo, quer a este nível, quer no processo de &lt;strong&gt;(1)&lt;/strong&gt; a &lt;strong&gt;(3), &lt;/strong&gt;mantém-se constante o sentido: a formação de indivíduos para a coesão e liderança dos seus grupos (familiares, profissionais, políticos, etc.), no interesse desses grupos ou dos indivíduos que os lideram. De onde resulta a eventualidade possível de o interesse de um grupo, confundido com o intresse de alguns poucos indivíduos, não vir senão a beneficiar uns poucos (ou até um único), como se tudo de concentrasse e reduzisse afinal a &lt;strong&gt;(1).&lt;/strong&gt; Tudo se passa assim como se, nesta concepção, tudo continuasse como “à lei da Natureza”, em que no grupo hierarquizado animal o interesse vital do grupo se identifica com o do seu líder; e a educação formal não se distinguiria claramente dum &lt;em&gt;natural&lt;/em&gt; processo de socialização. Mas, desta maneira, parece que não seria possível, neste Projecto, aceder plenamente à universalidade de &lt;strong&gt;(4).&lt;/strong&gt; Assim parece, &lt;em&gt;naturalmente&lt;/em&gt;; e é um ponto (não decisivo) em seu desfavor. Mas foi obrigado a isso, pelas intrínsecas tendências totalitárias dele e pelas circunstâncias sobrevenientes à “globalização”.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Historicamente, na perspectiva naturalista tradicional, &lt;strong&gt;(1)&lt;/strong&gt; sempre foi da imediata e directa responsabilidade dos progenitores e parentela próxima. Mais recentemente, a mãe de família veio a ter um papel preponderante. Ainda mais recentemente, as necessidades capitalistas de mão-de-obra numerosa empregada o mais tempo possível, afastaram os pais dos filhos, estes entregues precocemente a instituições de formação colectivista e abandonados depois ao devaneio solitário com a televisão e os computadores. É este um ponto onde muito claramente se pode avaliar quanto os efeitos sociais da cultura tecnocientífica subverteram de todo a concepção naturalista tradicional, incluindo também a abolição forçada das diferenças na educação de homens e mulheres. Uma abolição deveras impressionante, porque apaga as mais óbvias e naturais diferenças entre os indivíduos, e anula o senso comum tradicional que, em respeito a essas diferenças, previa diferentes formas de formação para rapazes e raparigas. Separando, por um lado, os pais dos filhos e, por outro, misturando os indivíduos com desprezo das suas mais óbvias diferenças, e acabando por os isolar, afogar e arrastar todos nos mundos virtuais da televisão e da Rede, a concepção “naturalista” veio afinal a revelar-se como o que essencialmente é : - &lt;strong&gt;&lt;em&gt;anti-natural&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;. E isto é consistente com o outro resultado que, desde o início, acompanha a expansão do capitalismo tecnocientífico: a conspurcação e aniquilação do meio ambiente natural. (Mas, como sugeri no postal anterior, este Projecto está hoje no ponto de questionar o que é “natural” ou “artificial”, com o esbatimento deliberadamente promovido de fronteiras tradicionalmente estabelecidas. É uma questão para a qual, creio eu, só o Projecto alternativo tem uma resposta.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o desemprego crescente de homens e mulheres descartados por um sistema de produção cada vez mais altamente especializado, maquinizado e automatizado, e com a reforma profissional de muitos, dir-se-ia que&lt;strong&gt; (1)&lt;/strong&gt; pode volver ao controlo directo de pais e avós. É, sem dúvida, uma oportunidade nas famílias que resistirem à dissolução. Teríamos pais com bons níveis de qualificação escolar e disponibilidade para chamarem a si o protagonismo na educação dos filhos, ou a intervirem mais e a exigirem melhor de outras instituições educativas, públicas ou privadas. Infelizmente, acho esta possibilidade ainda longe de uma oportunidade. E receio muito que o maior número, sem nenhuma verdadeira educação familiar ou escolar, embrutecido por toda a espécie de drogas e por um ócio sem sentido humanamente útil, não tenha oportunidade nenhuma. Mas, como já dizia Demócrito, ocasionalmente encontra-se mais sabedoria na gente nova do que nos velhos: pode ser que em futuras gerações um certo número de jovens destemidos e alérgicos a computadores ensine a seus alienados pais que é muito mais digno e interessante jogar a vida com a Natureza viva (que restar) do que jogar no Farm Ville...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenhamos esperança.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-92404556986391256?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/92404556986391256/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=92404556986391256&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/92404556986391256'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/92404556986391256'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/10/projectos-educativos-i.html' title='PROJECTOS EDUCATIVOS ( I )'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TLw85PtFTPI/AAAAAAAAApE/0fGSW0aC67M/s72-c/Robot+Berti.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-720722438589618824</id><published>2010-10-15T23:02:00.003+01:00</published><updated>2010-10-15T23:12:01.865+01:00</updated><title type='text'>RUMO A TITÂNIA</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TLjP7dH3XxI/AAAAAAAAAo8/kRefIs0CYU8/s1600/oasisoftheseasjpg.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5528397162934132498" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 215px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TLjP7dH3XxI/AAAAAAAAAo8/kRefIs0CYU8/s320/oasisoftheseasjpg.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2008/07/um-regresso-s-cavernas.html#links"&gt;Já saiu desta praia &lt;/a&gt;e anda em cruzeiros caribenhos o grande senhor dos mares e dos mil milhões de euros que custou: 362 metros de comprimento, 65 de largura e 50 de altura equivalente a dezasseis andares, deslocando 222 900 toneladas. Quinze vezes maior do que o célebre Titanic. Apresenta aos 5 400 passageiros um “portefólio” de 37 categorias de acomodação, entre as quais 28 suites de dois andares, com 52 metros quadrados cada. Entre as muitas comodidades e atracções, dezenas de esplanadas e bares, um deles elevatório; um Royal Promenade que é um enorme centro comercial iluminado a luz natural, com lojas das mais prestigiadas marcas mundiais; um espectacular auditório com capacidade para 1 350 espectadores; uma pista de gelo; carrocéis infantis para os mais novos e uma radical pista de slide com 25 metros; uma parede de escalada anexa ao enorme Aqua Theater; um Central Park ajardinado com 12 mil plantas e 56 árvores, dispondo de “trilhos ecológicos” (&lt;em&gt;sic&lt;/em&gt;) para as áreas de lazer e restauração anexas... Ah,  não me esqueça o mais importante: um casino com 400 máquinas e quase outras tantas mesas de jogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma esplêndida cidade flutuante para gerontes milionários reformados  do passado e os sempre jovens milonários clonizados e informatizados do futuro se encontrarem e perpetuarem as heranças. Com toda a segurança, que não há piratas somalis capazes de abordagem ao mastodonte. E longe, muto longe das cidades cada vez mais invadidas dos gangues dos subúrbios, apesar de todos os “resorts” e condomínios fechados e fortificados. É, não há dúvida, a opção mais segura quando a área terrestre dos três Impérios globais coincidir toda com a de um imenso &lt;em&gt;campo de concentração&lt;/em&gt;. E não há que ter medo do mar, porque pode passar-se a viagem inteira (a vida inteira...) dentro do barco sem ver mar nenhum à volta: só gente bonita, lindos jardins e lojas à volta de si. Pode ser até que este barco seja submersível e, nos fundos mais fundos do mar, os selectos passageiros  não vejam senão &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/08/uma-experiencia-mortal-vi-duas-saidas.html#links"&gt;um grande e radioso  céu azul &lt;/a&gt;sobre as cabeças... Ou pode ser que seja este barco aquela nave em que o sr. Stephen Hawking sonha levar a “humanidade” salva duma terra inabitável a  colonizar o outerspace. E então teríamos que este &lt;em&gt;Oasis of the Seas&lt;/em&gt; é um protótipo não muito distante do... &lt;em&gt;Oasis off the Earth&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quê, ele disse “humanidade”? - O leitor do meu último postal já sabe de quem é que se trata...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a mim, embarco marinheiro deste aqui, às ordens do comandante  Kierkegaard:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;« Encontrar-se tranquilamente sentado num barco, por um tempo de calmaria, não constitui a imagem da Fé. Essa imagem é manter a embarcação, quando uma corrente a impele, com entusiasmo e à força de braços, sem procurar o abrigo de um porto .... Enquanto a inteligência, qual passageiro desesperado, estende os braços para a terra firme, mas em vão, a Fé vai trabalhando em profundidade, com todas as suas forças: alegre, a fé triunfa e salva a alma. »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TLjP18KFweI/AAAAAAAAAo0/mbXb_l1WoKk/s1600/oasis+of+the+seas-central_park_5.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5528397068185747938" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TLjP18KFweI/AAAAAAAAAo0/mbXb_l1WoKk/s320/oasis+of+the+seas-central_park_5.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-720722438589618824?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/720722438589618824/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=720722438589618824&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/720722438589618824'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/720722438589618824'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/10/rumo-titania.html' title='RUMO A TITÂNIA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TLjP7dH3XxI/AAAAAAAAAo8/kRefIs0CYU8/s72-c/oasisoftheseasjpg.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-1856296471473377176</id><published>2010-10-13T17:43:00.011+01:00</published><updated>2010-11-05T22:46:09.334Z</updated><title type='text'>ÚLTIMOS AVISOS...</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TLXiNIcpMJI/AAAAAAAAAos/Ch8sDc6T6K4/s1600/LasVegas3.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5527572832900952210" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 214px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TLXiNIcpMJI/AAAAAAAAAos/Ch8sDc6T6K4/s320/LasVegas3.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;« Problema: com que tipo de meios se poderia atingir uma forma estrita do &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/09/tedio-e-niilismo.html"&gt;grande niilismo &lt;/a&gt;contagioso; uma forma que, com uma probidade totalmente científica, ensine e pratique a morte voluntária, e não a arte de continuar vegetando miseravelmente, prevendo uma “pós-existência” enganadora .... »&lt;br /&gt;Nietzsche&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;« Primeiro princípio: ser-se capaz de sacrificar inúmeros seres, a fim de que se possa tirar disso algum proveito para a humanidade. »&lt;br /&gt;Nietzsche&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;« O poder espiritual ficará nas mãos dos sábios, e o poder temporal pertencerá aos chefes dos trabalhos industriais. »&lt;br /&gt;Comte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;« Vamos ter seres quase super-humanos.... »&lt;br /&gt;Funcionário (não identificado) da DARPA (in &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/12/uma-oligarquia-tecnicamente-treinada.html"&gt;Johnathan D. Moreno, Riscos Imorais &lt;/a&gt;) __________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde o Manhattan Project, que levou ao holocausto nuclear das populações de Hiroshima e Nagasaki, que os chefes do “complexo militar-industrial” norte-americano se convenceram de que os avanços em ciência fundamental podiam trazer uma vantagem estratégica decisiva. A vitória do comunismo na China e a guerra da Coreia demonstrou-lhes que as armas da tecnociência não envolviam só a física e a química: havia também que levar seriamente em conta as “ciências sociais” e a &lt;a href="http://www.americanprogress.org/issues/2006/11/brain_research.html"&gt;“guerra psicológica”. &lt;/a&gt;Desde os anos 50 que, ou nas suas próprias escolas, ou financiando e monitorizando uma vasta rede de projectos envolvendo as principais universidades americanas, que o Departamento da Defesa e, entre outras agências, a CIA dinamizam, coordenam ou monitorizam muita da investigação científica de vanguarda nos Estados Unidos em &lt;em&gt;todos&lt;/em&gt; os domínios. &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/03/na-gaiola-de-skinner-iii.html"&gt;Dei aqui um exemplo&lt;/a&gt;. Para além da consolidação da sua posição imperial global, tudo se faz, evidentemente, com um olho no &lt;em&gt;business&lt;/em&gt; e o outro na Propaganda dos “benefícios” para a “qualidade de vida” da sociedade civil. A Arpanet, que comercialmente se transformou na popular Internet, é um exemplo bem sucedido; menos bem sucedida foi, nos anos 60, a estratégia de imergir os jovens em &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/08/woodstock.html#links"&gt;&lt;em&gt;acid dreams&lt;/em&gt; &lt;/a&gt;para os distrair da crítica ao sistema social e político do imperialismo em guerra no Vietname. (Menos bem sucedida então, continua hoje aplicada: útil para cansar e domesticar as “energias” sempre potencialmente desestabilizadorasda juventude; e como indústria de “entretenimento”, muito lucrativa e difusiva da cultura americana.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tecnociência é a mutação cultural dos ideais duma ciência “pura” da Natureza, do Iluminismo setecentista, operada por influência da Revolução Industrial e, no século XIX, dinamizada pela tensão dialéctica entre o progressismo positivista (politicamente conservador) e o progressismo socialista que, na Rússia, viria a fazer a experiência da “revolução dos sovietes e da electricidade”. ( A dialéctica não se esgotou ainda hoje: o contrapolo do “Ocidente” deslocou-se apenas mais para leste: é o Mandarinato oligárquico chinês.) A tecnociência é essencialmente engenharia: um saber que é &lt;em&gt;saber-fazer&lt;/em&gt;. O interesse aqui é o de mexer e mudar as coisas (pessoas, mundo natural e social) de maneira a maximizar as vantagens dos “nossos” ( nós e os nossos aliados) relativamente aos “outros” e aos caprichos ameaçadores duma Natureza “hostil”. (As vantagens dos “nossos” abrangem: desde as acções bolsistas em farmacêuticas com os precisos medicamentos para súbitas viroses gripais, até aos grandes ideais da “Democracia” e dos “Direitos Humanos”, de interesse universal, subordinados a posições de vantagem na concorrência em mercado “livre” mundial.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, saber-fazer não é saber ver. Ver, por exemplo, que não é afinal do melhor interesse dos humanos darem-se entre si e mexer na Natureza com sentimentos de ameaça, medo ou hostilidade, muito menos de exploração obsessiva e desenfreada. Quem não sabe ver, não vê nenhum limite para o mexer e remexer, apropriar e pôr a render; ou, se começa a ver, não tem capacidade nem vontade para se deter no seu “progresso” e “desenvolvimento”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é por acaso que os Estados Unidos da América do Norte são hoje o &lt;em&gt;hyperpower &lt;/em&gt;mundialmente dominante. Todas as potencialidades materiais e espirituais da cultura europeia puderam lá revelar-se, sem as peias sociais e políticas que as embargaram no velho continente. O essencial dessa cultura europeia pode simbolicamente figurar-se num corpo que tem em uma mão a Bíblia e na outra uma Espada. No novo continente, tudo começou mal: a espada substituída pela pistola e o genocídio ou o deslocamento forçado dos povos indígenas. Talvez por isso os norte-americanos preferem antes simbolizar-se na figura da Liberdade, de facho irradiando para o mundo. E, de facto, eu creio que nunca nos tempos históricos da velha Europa as pessoas individuais puderam estar tão soltas e tão à vontade como naqueles espaços imensos relativamente pouco habitados e pouco mexidos pelos índios asiatas. E, como não há liberdade sem variedade, basta reparar na coexistência que lá foi (ainda é) possível entre as famílias amish e as famílias mafiosas. Contudo, uma coexistência apartada num apartheid que a grandeza do espaço físico tem, para já, demograficamente permitido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos luminosos raios dessa Liberdade, que tem deslumbrado a muitos, é a “liberdade” económica. Um símbolo vivo desta está significado na fotografia supra: Las Vegas. E a questão que ela põe às diferentes tradições do socialismo europeu é esta: que outro regime económico teria sido capaz de, no espaço de tão poucas décadas (desde os anos 30), tão rapidamente fazer surgir dum deserto uma cidade próspera, sem desemprego nem pedintes?... – Só conheço no mundo um único caso que se lhe pode (contra)pôr a esse nível: a nosssa cidade de Fátima... (Também desde os anos 30. Com desfavor para a nossa, quanto aos pedintes... As inglesas Xangai e Hong-Kong, estratégicos centros de comércio marítimo, não valem.) Diz-me o caro leitor que Las Vegas está cheia de chulos, mafiosos, drogados, e altas taxas de suicídio? – Pois estará, mas eu falava de economia, produtividade, crescimento económico; daquele “nível de vida” que atraiu à norte-América migrantes pobres de todo o mundo. Estava a citar o símbolo de uma evidência histórica: nos Estados Unidos o chamado liberalismo económico realizou melhor do que qualquer outro regime conhecido aquele ideal de transformar gente muito pobre o mais rapidamente possível em gente muito rica: civilmente rica de pão e circo; politicamente de poder imperial de intervenção “global”. Veremos o que pode fazer ainda a outra mão, a que segura a Bíblia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tecnocracia engenheira alimentada pelo capitalismo industrial não pode subsistir sem mexer na Natureza e no homem; sempre, é claro, em nome do “Progresso”. Em algumas das mais ricas e influentes universidades norte-americanas (incluindo &lt;a href="http://singularityu.org/"&gt;esta novíssima e muito selecta&lt;/a&gt;) vão ganhando terreno os ideais de &lt;a href="http://www.europarl.europa.eu/stoa/publications/studies/stoa2007-13_en.pdf"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;human enhancement&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; &lt;/a&gt;(a velha eugenia galtoniana disfarçada com outro nome, que os nossos brasileiros já traduzem por “aperfeiçoamento humano”), promovidos pela propaganda tecnólatra do &lt;a href="http://repository.upenn.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1037&amp;amp;context=neuroethics_pubs"&gt;&lt;em&gt;transhumanismo&lt;/em&gt; &lt;/a&gt;: o “super-soldado”, em desenvolvimento no MIT, é apenas um exemplo menor desse “aperfeiçoamento” humano que os filmes holywoodescos (género Terminator) vão popularizando para ambientar as massas consumidoras ao mundo que os “sábios” e os “chefes dos trabalhos industriais” lhes anda a preparar. (Outro exemplo, com outro público-alvo, é a campanha do ano passado na “prestigiada” revista &lt;em&gt;Nature &lt;/em&gt;a favor da liberalização das drogas para aumentar a “perfomance” das funções “cognitivas” da consciência. ) Trata-se, enfim de mobilizar todas as &lt;em&gt;converging technologies&lt;/em&gt; (nano-info-neuro-biotecnologias) para promover uma radical mutação da natureza humana e “redesenhar” ou “controlar” a “evolução”. As linhas mestras dessa pretensão convergem para já nisto: o esbatimento das fronteiras entre o humano e o computador; e o esbatimento das fronteiras &lt;a href="http://plato.stanford.edu/entries/chimeras/"&gt;entre o humano e outros animais&lt;/a&gt;. Nesta convergência táctica está incoada a grande divergência social, cultural e civilizacional do futuro: - entre o “sobrehumano” bionicamente integrado; e o velho sapiens, embrutecido, drogado, eutanizado (“ensinado a praticar a morte voluntária”...) e higienicamente cremado. Do lado fora do paraíso tecnológico ficarão os rebeldes “selvagens” insubmissos, sobre alguns dos quais já andam hoje a experimentar armas ultrassónicas(sonic weapons)...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com efeito, um “progresso” que se propõe assim reconfigurar completamente a fisiologia, a sociologia e a ecologia da existência humana na Terra, não se faz sem perigos de sobressaltos e desordens. E é aqui que entra a outra palavra de ordem do positivismo tecnocientífico, lançada por Auguste Comte: - a “Ordem”. Foi já em 1969 que o neurofisiologista espanhol José M. R. Delgado, então a trabalhar nos Estados Unidos (com o Office of Naval Research , não com a CIA, &lt;a href="http://www.wireheading.com/delgado/brainchips.pdf"&gt;como ele faz questão de dizer&lt;/a&gt;) lançou o livro programático: &lt;a href="http://www.biotele.com/delgado_%20ebook/delgado.htm"&gt;&lt;em&gt;Para uma Sociedade Psicocivilizada&lt;/em&gt;. &lt;/a&gt;Psicocivilizada como ? – Bem, pelos velhos meios psicológicos já preconizados pelo sr. &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/04/da-caixa-de-skinner-maquina.html"&gt;Burrhus Skinner&lt;/a&gt; e modernizados por Delgado &lt;em&gt;et alli&lt;/em&gt;: radiocontrolo e drogas de recreação e anti-depressão. O feixe destes meios convergindo com o feixe das &lt;em&gt;converging technologies&lt;/em&gt;, forma a armação totalitária do novo &lt;strong&gt;Fascismo&lt;/strong&gt; para o condomínio do mundo pelo consórcio de três Impérios, comparativamente ao qual os arcaicos totalitarismos do séc. XX hão-de parecer... “humanos, demasiado humanos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma das ironias da História que “Ordem” e “Progresso” sejam as palavras impressas na insígnia oficial de um Estado cuja nação é visceralmente anti-positivista. Pois dar-se-á o caso de ser o Brasil lusíada (e restante América latina, com África e Índia) que, de hoje a algum tempo (alguns séculos...) virá a adiantar-se na solução do problema posto em Las Vegas a um mundo parcialmente desertado de humanidade ? Por mim, que não acredito em fatalidade nenhuma, ainda conto com a variedade e vitalidade da intervenção cívica de muitas e muito boas associações da sociedade civil dos grandes Estados Unidos norte-americanos. Mas o que eu sei é que, nas&lt;a href="http://www.americanprogress.org/events/2006/12/mind_wars_moreno.pdf"&gt;&lt;em&gt; mind wars&lt;/em&gt; &lt;/a&gt;que cada um de nós terá de se travar no coração de cada qual, serei sempre do lado dos selvagens e pedintes que antes pedem e apostam em Fátima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ Não ignoro a bem sucedida luta do FBI contra a influência da Máfia em Las Vegas, grandemente diminuída e que parece hoje residual. Também não ignoro que instituições como o Las Vegas Springs Preserve e o Desert Living Center são hoje modelos e escolas exemplares de ecopreservação para muitas outras cidades nos Estados Unidos. Mas o leitor bem entendeu que não se trata neste postal de assuntos de urbanismo e de sociologia urbana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em baixo, uma imagem do “templo” positivista do Rio de Janeiro, o único no mundo construído de acordo com todas as especificações do sumo pontífice Auguste Comte. A semelhança com o estilo Panteão romano e o neoclassicismo doutras edificações politicamente emblemáticas, a oeste e a leste, não é coincidência, mas sinal: - do programa de renascimento do ethos colectivista e esclavagista da velha &lt;em&gt;Polis &lt;/em&gt;pré-cristã.&lt;br /&gt;Para além da “Ordem” e do “Progresso”, é legível no frontão a outra palavra-chave, omitida na bandeira do Brasil : não era preciso lembrá-la a brasileiros... ]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TLXiHBmJQTI/AAAAAAAAAok/cLSopD3kTIU/s1600/TemploPositivista3.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5527572727982539058" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TLXiHBmJQTI/AAAAAAAAAok/cLSopD3kTIU/s320/TemploPositivista3.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-1856296471473377176?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/1856296471473377176/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=1856296471473377176&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/1856296471473377176'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/1856296471473377176'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/10/mais-avisos.html' title='ÚLTIMOS AVISOS...'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TLXiNIcpMJI/AAAAAAAAAos/Ch8sDc6T6K4/s72-c/LasVegas3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-8435535704720191041</id><published>2010-10-08T23:34:00.006+01:00</published><updated>2010-10-09T14:37:37.361+01:00</updated><title type='text'>SADE, NOSSO PRÓXIMO</title><content type='html'>Entre outras, uma questão básica pervade de fio a pavio toda a série de postais que aqui nos levaram da questão dos Direitos Humanos até à questão da existência ou não existência de Deus, e é: - Há no humano alguma coisa de excepcional e de único entre os mais seres vivos do mundo, e irredutível a este ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As respostas disponíveis a esta (como a outras) questões fundamentais não são muitas. Toda a filosofia pré-cristã, ocidental como oriental, converge no sentido de considerar o humano nada de mais que um elo na “grande cadeia dos seres”, desde os deuses até à erva e à bolota, de que nos falava &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/07/pesos-ainda-mais-pesados.html"&gt;o sr. marquês de Sade&lt;/a&gt;. No Ocidente, uma resposta houve que logrou grande popularidade, até entre os que nunca ouviram falar na palavra “filosofia”: dizia Aristóteles que os humanos somos “animais racionais”; mas, é de notar que, no pensamento do filósofo grego, esta racionalidade não está de modo nenhum separada do que hoje chamamos “biologia”: a racionalidade é apenas a diferença que especifica o animal humano entre os outros animais. Posteriormente, a resposta aristotélica veio a integrar uma perspectiva diferente e inovadora, que adveio da cultura hebraico-cristã: existimos como seres vivos animais, sem dúvida, mas somos algo de mais e de diferente – imagem e semelhança de um Deus que transcende o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis como as duas concepções estão breve e sugestivamente contrapostas nestas palavras dum político, Lee Khan Yew, então ministro de Singapura, em entrevista de 24 de Abril de 1994 ao jornal Boston Globe: « Para nós, na Ásia, um indivíduo é uma formiga. Para vocês é um filho de Deus. »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Precisamente. Tal é a alternativa, e logo se vê as enormes consequências dela para todas as dimensões da nossa existência neste mundo, incluindo, como é evidente, o nosso assunto dos “direitos humanos”. É que, se não somos mais que “formigas”, não se vê nenhuma razão suficiente para substanciar qualquer preeminência de direitos para o homem relativamente aos demais seres vivos, animais ou, até, vegetais: e poderia suspeitar-se, com razão, de mera reivindicação “especista”, análoga ao etnocentrismo racista. A propósito da citação, e ao invés do que ele próprio dá a entender, quero sublinhar que não leio nas palavras do político asiático nenhum implícito “choque de culturas”, porque um qualquer &lt;em&gt;citizen Kane&lt;/em&gt; norte-americano, olhando do alto dos soberbos “arranha-céus” veria com as suas lentes de vidro e aço apenas... “formigas”. De facto, tenho dúvidas que alguma vez a concepção cristã do humano haja sido existencialmente assimilada e substituído a pré-cristã na cultura “ocidental”. (Basta considar-se a atitude reaccinária da própria Igreja romana, secularmente comprometida com os negócios do Estado, aos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade; mesmo se compreensível no contexto da época, uma reacção infeliz, felizmene corrigida no séc.XX.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas falta responder a uma correlativa e terminal questão, que não só o caso do”psicopata” sádico directamente põe; não só o sadomasoquismo, porque o sádico ainda tem uma preocupação (perversa) com o outro; mantém-se, portanto, ainda no horizonte duma relação &lt;em&gt;pessoal&lt;/em&gt;, distintivamente humana (e por aqui pode compreender-se que uma relação sadomasoquista pode ser pessoalmente satisfatória para os interessados que a consentem). Mas, que dizer da indiferença ou inconsciência moral, em que não há a mínima preocupação com o outro? Pode e deve dizer-se desde logo isto: - que, num contexto social, em que a presença do outro é inevitável, a indiferença acomoda-se facilmente com a anulação e extermínio do outro, sobretudo se este representa algum real ou fictício incómodo para os desígnios do amoralista. Para este género de indivíduos, falhos de uma genuína relação inter-pessoal, matar outra pessoa custa-lhes tanto como... esmagar formigas. (Uma consciência tão moralmente débil ou informe que pode parecer indiferente, equivale na prática a um extremado egoísmo moral.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a nossa questão é: - como é que um sádico ou amoral homicida podem ser pessoas à imagem e semelhança de Deus, (e/ou) dignas de Direitos Humanos inalienáveis e absolutamente respeitáveis ? (Isto quando mesmo, no caso amoralista, é duvidoso poder falar-se de &lt;em&gt;pessoas&lt;/em&gt;.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na concepção naturalista, não vejo resposta. Na sua versão mais benévola, o “respeito humano” traduz-se socialmente em “terapêutica”, “cuidados médicos”, “reeducação”, de acordo com o espírito de &lt;em&gt;apartheid&lt;/em&gt; que lhe é inerente (a classe dos que se adaptam e sobrevivem; a classe dos que não e desaparecem): teríamos então a classe maioritária das pessoas “normais”, de um lado; e do outro, a minoritária dos “psicopatas”, excepções à norma, que é preciso tratar ou prevenir que prejudiquem os “sãos”. Mas, não só ainda não se descobriram as causas e os remédios, como nas sociedades sem códigos morais fortes (ou com diferentes e contraditórios, à escolha) parece proliferar o indiferentismo moral, a ponto de nalgumas já ser estatisticamente duvidoso falar de “excepções” a uma suposta regra. Em suma: não só não há resposta, mas o que temos é a erosão ou subversão daqueles esteios em que a maioria dos “normais”podia controlar ou defender-se dos patogénicos comportamentos nocivos ao grupo. (Adopto aqui, como notará o leitor, a tese naturalista de a moral e a religião não serem mais senão factores culturais coadjuvantes da selecção natural de um grupo ou espécie, em competição com outros.) Tal proliferação sugere que é pelo menos insuficiente procurar etiologias nos genes ou na bioquímica celular. (Que eu saiba, não há nada de “anómalo” na fisiologia do sádico ou do insensível moral.) Desesperada duma terapia viável, não admira que a concepção naturalista, em “instinto de defesa” do corpo social, possa recorrer a outros “tratamentos”: o extermínio selectivo, a eugenia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como tenho sugerido em precedentes postais, a alternativa resposta não naturalista mais eficaz é a que fundamenta os Direitos Humanos na dignidade da criação de todos os humanos à imagem e semelhança de um Deus-Homem. Mas o entendimento e a prática desta concepção dependem &lt;em&gt;decisivamente&lt;/em&gt; do reconhecimento prévio duma situação:- não é natural, mas degenerada, a condição a que vimos, subsistimos e desaparecemos &lt;em&gt;neste &lt;/em&gt;mundo. Uma condição de maneira nenhuma querida pelo Criador. Por isso, importa reconhecer o seguinte: - somos todos maus, estamos todos mal, todos precisados de reparação e tratamento. (Ver o que está clara e literalmente significado nas palavras de Jesus em &lt;em&gt;Mateus &lt;/em&gt;19, 17, &lt;em&gt;Lucas&lt;/em&gt; 11, 13 e 18,19; e nas de Paulo &lt;em&gt;Aos Romanos&lt;/em&gt; 3, 23.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta perspectiva não há &lt;em&gt;apartheid &lt;/em&gt;nenhum: sadismo, indiferentismo, todas as “psicopatias” (como aliás todos as patologias do corpo moribundo desde a concepção), não são excepções a regra nenhuma, mas casos extremos, e sintomaticamente reveladores, da mesma &lt;em&gt;universal &lt;/em&gt;condição humana &lt;em&gt;neste&lt;/em&gt; mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é preciso muita reflexão para cada um a sós consigo chegar à consideração humilde e realista da situação: pois, como o sádico, não é facto que cada um de nós já sentiu prazer com o mal? – e não é facto que mais facilmente propendemos a fazer o mal (que melhor sabe) do que o bem (que mais custa)? Por outro lado, se tanto o mal como o bem podem prazer ou doer, aqui temos nesta mesma confusão e dificuldade de discriminação a raiz dum possível indiferentismo (não falo agora duma deficiente ou nula educação moral); mas também do predominante investimento e final predomínio (amoral) da força da vontade indiferente a qualquer lei moral não coincidente como o mero interesse dos indivíduos ou grupos mais fortes. Esta indiferença pode ser, afinal, também o sinistro cabo a que vem dar a velha &lt;em&gt;apatheia &lt;/em&gt;dos estóicos e dos mais que pretendem alçar-se “para além do bem e do mal”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depende de reparar-se e tratar-se esta situação o bem sucedido tratamento da questão dos Direitos Humanos universais. Depende de cada um, com seus próximos e com a ajuda de Deus; e creio dependerá também de tornar-se o “Cristianismo” menos aparente como uma “religião” ou uma (ocidental) forma de “cultura”, entre as mais, para revelar-se como o que sempre foi e é: único e verdadeiro remédio universal para a saúde-salvação da vulnerada natureza humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ O título deste postal é uma evocação do título clássico de Pierre Klossowsky – &lt;em&gt;Sade, Meu Próximo&lt;/em&gt; - , que teve tradução portuguesa de Ana Hatherly (1965).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Limitei-me aqui aos casos do sadismo e indiferentismo, mais que suficientes para o assunto. Mas cumpre advertir que há outro caso ainda mais problemático e talvez não inteiramente redutível ao amoralismo indiferente: o do risonho “ironista” que escarnece de qualquer seriedade neste género de assuntos. Esta atitude humanamente degradada e degradante interessa aqui apenas como mais um caso exemplar. O leitor dos meus postais sobre a &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/perversao-da-lei-moral.html"&gt;Perversão da Lei Moral &lt;/a&gt;e o &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/o-mal-radical.html"&gt;Mal Radical&lt;/a&gt; encontrará neles indícios sobre o que há por trás da máscara da troça e do riso. ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-8435535704720191041?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/8435535704720191041/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=8435535704720191041&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/8435535704720191041'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/8435535704720191041'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/10/sade-nosso-proximo.html' title='SADE, NOSSO PRÓXIMO'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-7481753596031288219</id><published>2010-10-08T23:25:00.005+01:00</published><updated>2012-01-12T18:48:03.891Z</updated><title type='text'>ADENDA</title><content type='html'>A concepção naturalista já a conhecemos, e é a mais fácil, espontânea e popular. A outra é mais complexa, e convém à razão seja bem entendida, antes de aceitada ou rejeitada. Fale-nos dela, em síntese, quem melhor a conhece:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;« A imagem divina está presente em cada homem. Mas resplandece na comunhão das pessoas, à semelhança da união das pessoas divinas entre si.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dotada de uma alma “espiritual e imortal” (GS 14), a pessoa humana é “a unica criada sobre a Terra querida por Deus por si mesma” (GS 24, §3). Desde que é concebida, é destinada à bem-aventurança eterna.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A pessoa humana participa da luz e da força do Espírito divino. Pela razão, é capaz de compreender a ordem das coisas, estabelecida pelo Criador. Pela vontade, é capaz de se orientar a si própria para o bem verdadeiro. E encontra a perfeição na “busca e amor da verdade e do bem” (GS 15, §2).&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Em virtude da sua alma e das forças espirituais de inteligência e vontade, o homem é dotado de liberdade, “sinal privilegiado da imagem divina” (GS 17).&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Por meio da razão, de que é dotado, o homem conhece a voz de Deus que o impele “ao amor do bem e à fuga do mal” (GS 16). Todos devem seguir esta lei, que se faz ouvir na consciência e se cumpre no amor de Deus e do próximo. O exercício da vida moral atesta a dignidade da pessoa.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;“O homem, seduzido pelo Maligno, logo no começo da sua história abusou da sua liberdade” (GS 13, §1). Sucumbiu à tentação e cometeu o mal. Conserva o desejo do bem, mas a sua natureza está ferida pelo pecado original. O homem ficou com a inclinação para o mal e sujeito ao erro: “ O homem encontra-se, pois, dividido em si mesmo. E, assim, toda a vida humana, quer singular quer colectiva, apresenta-se como uma luta dramática entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas” (GS 13,§2).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;Pela sua Paixão, Cristo livrou-nos de Satanás e do pecado, e mereceu-nos a vida nova no Espírito Santo. A sua graça restaura o que o pecado tinha deteriorado em nós.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quem crê em Cristo torna-se filho de Deus. (...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;Mesmo depois de, pelo pecado, ter perdido a semelhança com Deus, o homem permanece como ser criado à imagem do seu Criador. »&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reagindo a esta concepção, exclamava com pitoresca acribia o nosso Raul Brandão, em certo passo do último volume das suas &lt;em&gt;Memórias&lt;/em&gt;: « O que é extraordinário é que tenha havido um Deus capaz de nos amar até ao ponto de se deixar morrer por causa &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2008/07/um-regresso-s-cavernas.html"&gt;de semelhante macacaria&lt;/a&gt;.»(!) Já compreendemos melhor porquê: somos seres muito especiais os humanos; e tratava-se – e trata-se – de lhes dar os meios de recuperarem a semelhança com Deus, tornarem-se mais filhos de Deus que do macaco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O leitor não deixou de notar no transcrito a referência à lei moral (“que se faz ouvir na consciência”), que “se cumpre no amor a Deus e ao próximo” – a Lei das leis, como cria e confessava o &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/06/immanuel-kant-dois-trechos-notaveis.html"&gt;filósofo Kant&lt;/a&gt;. Uma referência apropriadamente sequente à liberdade.&lt;br /&gt;Os trechos citados perpetuam uma Tradição mais ou menos lembrada em variáveis narrativas de muitos povos. É a chave para destrancar a inteligibilidade, a maior possível humanamente, do &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/o-argumento-ateista.html"&gt;“problema do mal”. &lt;/a&gt;A desatenção ou escarninha desatenção dela (típica dos três últimos séculos da cultura ocidental) não tem feito mais do que agravar o problema: - &lt;strong&gt;« Ignorar que o homem tem uma natureza ferida, inclinada ao mal, dá lugar a graves erros no domínio da educação, da política, da acção social e da ética. »&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Citei os §§ 1702-1709 ; 2566 e 407 do &lt;a href="http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/prima-pagina-cic_po.html"&gt;Catecismo da Igreja Católica&lt;/a&gt;, aprovado e mandado publicar pelo papa João Paulo II no dia 11 de Outubro de 1992, no trigésimo aniversário do Concílio Vaticano II. Deste Concílio são citados trechos da Constituição Pastoral &lt;a href="http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html"&gt;Gaudium et Spes &lt;/a&gt;(GS), aprovada no dia 7 de Dezembro de 1965. ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-7481753596031288219?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/7481753596031288219/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=7481753596031288219&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/7481753596031288219'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/7481753596031288219'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/10/adenda.html' title='ADENDA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-239550649544187947</id><published>2010-10-06T14:37:00.002+01:00</published><updated>2010-10-06T14:41:31.215+01:00</updated><title type='text'>ANTÓNIO SÉRGIO: SOBRE A 1ª REPÚBLICA</title><content type='html'>« Em 1910  (5 de Outubro) abolia-se enfim a realeza. Fez-se então a verdadeira República ? Não se fez. Fora prematuro, sem dúvida alguma, o socialismo de Antero de Quental, pois que antes de revolucionar de uma maneira profunda o regime social da produção, é necessário possuir-se algum que produza com o mínimo de eficácia, e era isso o que faltava entre nós; a propaganda republicana, porém, surgira abstracta e atrasada, não somente em relação a Antero, mas em relação a um Herculano e um Garrett. Não passava de formalismo político (de simples negação, por assim  dizer, da monarquia e do clericalismo), sem conteúdo concreto reformador na economia e na educação. Nem se aperfeiçoou a economia existente, nem se democratizou realmente nada. Nenhum dos factores de importância básica na vida económica e moral, como a propriedade, o crédito, a educação ou a assistência sofreu as reformas que se faziam mister segundo o espírito da democracia, nem se abriram campos de actividade útil ao trabalho agrícola e industrial (reforma agrária e da técnica agrícola; aproveitamento da água dos rios na rega dos campos e na energia eléctrica; democratização do sistema creditário; fomento e protecção das instituições económicas populares, etc. ), - reformas que favorecessem, enfim, a passagem do oligarquismo de Estado a um regime progressivo de que beneficiasse o povo.  »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;António Sérgio, &lt;em&gt;Breve Interpretação da História de Portugal&lt;/em&gt; ( in &lt;em&gt;Obras Completas&lt;/em&gt;, 1972. A primeira edição, espanhola, saiu com o título &lt;em&gt;História de Portugal&lt;/em&gt;, em 1929. )&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No importante Prefácio da segunda edição do tomo I dos &lt;em&gt;Ensaios&lt;/em&gt;, deste mesmo ano de 1929, justificando a sua posição pessoal de -  “Democrata, mas antijacobino; anticlericalista, mas respeitador da religião” -, Sérgio diz mais isto sobre a 1ª República, e sobre a ocasião única que teve, quando da sua posse como ministro da Instrução, em 1923, para pôr em execução a reforma pedagógica por que de há anos pugnava. Ocasião única e, infelizmente, breve: durou dois meses...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;« As reformas económicas, as de educação social (por cooperativas de trabalho, por &lt;em&gt;self-government&lt;/em&gt;, etc.) afiguravam-se-me as bases da reformação política; e neguei-me a acreditar que o que realmente se impunha, para arrancarmos o nosso povo à sua situação de miséria, fosse o ataque jacobino à religião católica e a substituição dum monarca por um presidente eleito ( ... ). Nada  nos republicanos me estarrecia tanto como o dizerem  que a separação das Igrejas e do Estado era a base essencial da revolução portuguesa, o substancial da República. Fundamentais, pensava eu, só reformas económicas o poderiam ser, e as de pedagogia social que com o económico se relacionam. ( ... ) Mas o que julguei observar na nossa grei jacobina é que não tinha consciência desse imperativo económico, dessa busca da democracia no “viver positivo dos homens” (à excepção de um ou dois, de que se não fez caso algum), e que encarava a República como uma finalidade em si, como qualquer coisa de estática, de só formal, só político, propendendo a ficar-se na modificação dos nomes, e inconsciente de que o que via como fim da política só poderia justificar-se como simples meio, ou instrumento, para uma gradual aproximação deste genuíno objectivo: o objectivo da igualdade e da justiça económicas, o da gradual extinção das distinções de classes que se estribam na maneira como se auferem réditos. ( ... ) Disso, porém , não curaram nunca os caudilhos : e sempre me pareceu que os coriféus da República não davam tino da importância do condicionamento económico, e que não queriam perceber que sem remodelações económicas não existe realmente revolução autêntica, mas ruidoso espectáculo para celebrizar tribunos. ( ... )&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para mim a insurreição republicana de 1910 (mais, ainda, que a de 1820) nem um átomo nos dera do que realmente importava, e nunca me esquecia daquele dizer do Quental: “um jacobino é um conservador incoerente, com frases de demagogo”; nem do ditame de um Herculano: “Mantenham-me esta (a liberdade), e pouco me incomoda que outrem se assente num trono, numa poltrona ou numa tripeça” . ( ... )&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, o espírito de certos membros do nosso pessoal da política viria eu conhecê-lo uma dúzia de anos mais tarde, quando muito de propósito esses senhores me estorvaram (à força de tramóias, de calúnias, de maquinações, de rasteiras, de vinganças de maus interesses que se viam por mim ameaçados, ou pelo meu amigo Azevedo Gomes, então ministro da Agricultura) em tudo o que tentei para melhorar a Instrução. Aliás pouco tempo se passou sobre essa história triste quando de todo se passou o que eu declarara na Câmara, num dia em que um bando me saiu à frente, por amor (diziam eles) da República: que havia republicanos das horas difíceis e republicanos das horas de regabofe, estando acaso entre os últimos aqueles que ali me atacavam e os que se tinha-me esquivado a participar do governo no momento de responsabilidade por que se então passava. Com efeito, a nenhum de tais homens os vi depois aparecerem, nas horas difíceis do exílio, da prisão, do degredo, com a mesma preocupação de defender sua Dama. »&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-239550649544187947?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/239550649544187947/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=239550649544187947&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/239550649544187947'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/239550649544187947'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/10/antonio-sergio-sobre-1-republica.html' title='ANTÓNIO SÉRGIO: SOBRE A 1ª REPÚBLICA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-9084017836646306417</id><published>2010-10-05T17:45:00.000+01:00</published><updated>2010-10-05T17:45:43.339+01:00</updated><title type='text'>António de Pádua Pregando aos Peixes, Gustav Mahler</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;object style="background-image:url(http://i3.ytimg.com/vi/6YUHarQJH8A/hqdefault.jpg)" width="425" height="344"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/6YUHarQJH8A?fs=1&amp;amp;hl=pt_PT"&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/6YUHarQJH8A?fs=1&amp;amp;hl=pt_PT" width="425" height="344" allowscriptaccess="never" allowfullscreen="true" wmode="transparent" type="application/x-shockwave-flash"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Andando às voltas com o "Sermão de Santo António", de Vieira, encontrei este Lied ligeirinho e sarcástico de Mahler.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-9084017836646306417?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/9084017836646306417/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=9084017836646306417&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/9084017836646306417'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/9084017836646306417'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/10/antonio-de-padua-pregando-aos-peixes.html' title='António de Pádua Pregando aos Peixes, Gustav Mahler'/><author><name>Alexandre Dias Pinto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18226552349007019107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://melhyria.free.fr/taradol/images/dessins/Chat_noir.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-7181515916509454384</id><published>2010-10-02T00:12:00.003+01:00</published><updated>2010-10-02T00:19:49.376+01:00</updated><title type='text'>CAMILO CASTELO BRANCO</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TKZrK8CgxQI/AAAAAAAAAoc/ZKke343yq10/s1600/Camilo+Castelo+Branco.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5523219828676019458" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 291px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TKZrK8CgxQI/AAAAAAAAAoc/ZKke343yq10/s320/Camilo+Castelo+Branco.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;« O homem, pois, que muito sofre, e não se furta às dores aniquilando-se, é a continuação do Filho de Deus sobre a terra; é porventura o eterno Cristo expiando a primeira culpa do tronco verminoso da humanidade.» (1854)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;« Lamentai o suicida, porque a sua última hora foi uma luta horrível entre a deseperação, a incerteza e, talvez, a saudade. » (1857)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;« Se a alma do suicida pudesse subir à presença de Deus, a Divina Majestade esconderia a face envergonhada ou condoída da sua; porque o suicida lhe diria como Job: Porque me tiraste do ventre materno ? « (1888)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;« A mulher que de tão longe o saúda, tem também uma história de lágrimas .... Quinze anos vivi numa Fazenda no Sertão; uma amiga que sabia das minhas amarguras, emprestou-me as obras de Camilo Castelo Branco, que me foram a distracção e consolação única nos longos e deseperados dias de quinze anos. » (Uma leitora brasileira, 1881. )&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;« O homem, que escurece a vista curvado sobre a banca do estudo, aprofundando a ciência e os mistérios do coração humano, à procura do bálsamo para chagas inumeráveis, afigura-se-me suspenso à terra por um fio divino: tão perto o vejo revoar dos segredos de Deus. » (Ana Plácido)&lt;br /&gt;______________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Um bom conhecedor de Camilo, João Bigotte Chorão, lamentava a hodierna falta de uma antologia de textos selectos que servisse de introdução camiliana para a mocidade estudiosa. Isto era bom se os novos tivessem interesse em estudar, e os superiores responsáveis do sistema público educativo tivessem interesse em que eles aprendessem com os velhos que melhor cultivaram a Língua Portuguesa. ( A pressa e o empenho é que as crianças, ainda balbuciando mal assimilados rudimentos da língua materna, comecem desde logo com o Inglês...)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Se já foram feitas em tempos algumas boas antologias, não sei eu de jamais haverem sido compilados os prefácios de Camilo aos seus livros, de não menor importância para o conhecimento do Autor das muitas “refolhudas glossas” (diz ele) que a cada página “enfronham” a tessitura dos seus contos. Os seus contos!... O primeiro que teve sucesso popular foi um dramalhão em forma de folheto de cordel – &lt;em&gt;Maria, não me mates que sou tua Mãe!&lt;/em&gt; -, e o Autor, condenado a (quase) só viver do que escrevia, tão sensível como era às solicitações do mercado, logo viu o furo e aproveitou o filão, que explorou até ao fim da atribulada carreira de “grilheta da pena”. Mas não esqueçamos, para além da vastíssima e enxundiosa (permita-se-me o adjectivo camiliano) obra do ensaísta histórico e do crítico literário, que Camilo começou e continuou por toda a vida escrevendo versos, sendo de poesia o seu último livro publicado (para o qual lhe foi difícil achar editor!). Ora acontece comigo, que sou pouco lido em romances e sem paciência para intrigalhadas de faca e alguidar, ainda hoje caírem-me os olhos na primeira página dalguma novela camiliana e não sou capaz de me despegar até à última linha, pelo meio ora rindo à gargalhada num página aqui, ora chorando de comovida pena umas poucas páginas adiante. Tal é o engenho e a arte deste prodigioso artífice da palavra e dos sentimentos. Mas o que mais interessa e empolga é o caso humano de como no século de oitocentos, totalmente aberto, permeado e lucidamente informado da cultura do seu século, se debateu um certo tipo de português com os problemas humanos de sempre. É desta perspectiva que me parece o leitor pode inteirar-se melhor da soberana excelência do Artista, tanto como das indigências e insuficiências que afectaram o homem e... na mesma nos afectam a nós.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Este &lt;em&gt;homem das dores&lt;/em&gt; foi um mestre consumado da comicidade, desde a ironia mais subtil ao sarcasmo mais grosseiro e desbragado de respeitos humanos. Na linha média da escala parece-me estar o puro humor dos dois primeiros trechos que sirvo em baixo ao leitor, e nos falam doutras lutas mais inofensivas. Não era a primeira vez que Camilo se havia com a bicheza hospedada à conta da falta de higiene numas lôbregas hospedarias, das quais já Vernei, em setecentos, falava com horrorizado anojo nas &lt;em&gt;&lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2008/09/cartas-italianas.html"&gt;Cartas Italianas&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;. Desta feita foi no sítio de Baltar, passando de Vila Real para o Porto, em &lt;em&gt;Vinte Horas de Liteira&lt;/em&gt; (1864) e de saborosas histórias que ia trocando com um amigo e companheiro de viagem... –&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-7181515916509454384?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/7181515916509454384/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=7181515916509454384&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/7181515916509454384'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/7181515916509454384'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/10/camilo-castelo-branco.html' title='CAMILO CASTELO BRANCO'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TKZrK8CgxQI/AAAAAAAAAoc/ZKke343yq10/s72-c/Camilo+Castelo+Branco.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-1603605628925350011</id><published>2010-10-02T00:06:00.007+01:00</published><updated>2010-10-02T01:12:35.093+01:00</updated><title type='text'>VITELA COM PERCEVEJOS</title><content type='html'>Primeiro a vitela:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«&lt;strong&gt; Quando o vapor levar a civilização a Baltar, há-de vir gente pálida de Lisboa retingir as faces com o chorume da vitela que se come ali. Se os Ganimedes, que servem à mesa suja, não viessem da cozinha como de um depósito de guano, a gente cuidaria que estava comendo os sobejos de algum banquete olímpico. Diríeis que as vitelas de Baltar se geraram das divindades pagãs, se Júpiter, quando se fez boi para transportar Europa, a fizesse vaca a ela, e se multiplicassem em bezerros; o que era justo que fizessem tão parvos deuses para servirem de alguma coisa à gente, que lhes dá exemplos de moralidade não se fazendo bicho para raptar ninguém. Lembrasse-se Júpiter de cá vir hoje transformado tão a capricho, que eu aposto que sofria uma pega de caras no toural de Aveiro, onde os touros são de uma brandura e meiguice tal, que todos parecem deuses enamorados das gentis varinas, representantes da beleza fenícia. Isto parece-me erudição de mais a propósito da vitela de Baltar... »&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Saboreando o naco olímpico, começa o amigo António Joaquim a contar a história de um casal que certa noite se tinha hospedado ali, e na manhã seguinte foram achados mortos em um dos quartos que agora os dois amigos tinham reservado. Interrompendo-se, insistiu em deixar o fim da história para o dia seguinte, e Camilo insistiu em ficar no quarto dos cadáveres...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;« Entrei com uma candeia na alcova, e deitei-me fatigado de alma e corpo, apagando a luz. &lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;Vinte minutos depois, sentei-me de salto no leito, sacudindo dos ombros os grifos encravados de uma legião de demónios.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Há horrores ignotos neste quarto! – exclamei eu, e acendi a luz.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Olhei sobre mim, e em roda de mim : eram grosas de esquadrões de percevejos, que irrompiam em caravanas das cavernas do catre e das luras do tabique. Saltei ao soalho com os cabelos hirtos e os nervos em vibrações catalépticas. Peguei das botas à Frederica, e dei morte a milhares daquelas alimárias, que renasciam umas das outras, como hidras de Lerna. Fez-se um fedor homicida na alcova. Abri as janelas, bebi o ar balsâmico dos pinhais, e voltei à carnificina. Sacudi os lençóis à viração da madrugada, e tornei e reclinar o corpo lasso no catre ensanguentado, conservando a candeia acesa.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Daí a instantes, as hordas ressaltando das tocas acardumavam-se nas paredes, e formavam concílios em temerosa quietação; depois, abriram fileiras e subiram ao tecto. E eu, sentado no cavalete de torturas, examinava com a luneta estas nefandas evoluções, e via-os despenharem-se do tecto sobre mim a prumo, às centúrias, ferozes de fome e sede de vingança. E vá de carregá-los de novo com as botas, e eles de fugirem com uma velocidade insultadora. Pela primeira vez em minha vida eu vi percevejos com asas, a esvoaçarem naquele ambiente empestado do sangue deles. Referi a vários naturalistas este facto, e ninguém acreditou na existência dos percevejos alados de Baltar. Ontem abri um livro do zoólogo dr. Charbonnier, e tive ocasião de ver que este hemíptero tem asas rudimentares, e não duvida o sábio absolutamente que o percevejo as tenha completas. Deus traga este naturalista a Baltar para honra e glória da ciência!&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eu senti então um incêndio febril, tonturas de cabeça, vertigens mortais a cada nova ferroada. Já me faleciam forças para brandir as botas contra as paredes. Sentei-me no tabuado, e chorei à laia de Mário nas lagoas de Minturnes. Ainda bem que tenho um livro de ciência a explicar-me aquelas angústias. É o mesmo doutor Charbonnier que sai em defesa da sinceridade desta narrativa : “Há indivíduos muito irritáveis em quem a mordedura dos percevejos produz tão viva excitação que os torna febricitantes.”&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eu pensei que podia morrer de tão ignóbil desastre. A candeia apagara-se à míngua de óleo. As alimárias, protegidas das trevas, atacavam-me no meu refúgio. Ergui-me de golpe, e não sei que gementes rugidos de delírio e desesperação atirei à face da providência, que criara o percevejo. Quis fugir pela porta, mas perdera o tino e esbarrei numa parede. Raspava com as unhas na parede, e estripava chusmas de infames. Refugia, estrincando os dentes; e quebrava a minha fúria com gemidos.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nisto ouvi passos, na saleta, que se dirigiram à minha porta.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Que tens ? – disse uma voz. Era o António Joaquim. »&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;In &lt;em&gt;Vinte Horas de Liteira&lt;/em&gt; (1864), cap. XIV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora, sobre a ceia de vitela... mais vitela: um “bucho mal cheio de vitela”, como exemplo dos terríveis extremos de desumanização a que podia chegar a sátira camiliana. Como se sabe, o brasileiro torna-viagem, espaventoso de riquezas obscuramente ganhas, era personagem as mais das vezes antipática ao escritor de Ceide. Eis como ele pinta (evocando o famoso caricaturista Gavarni) um “brasileiro de Coselhas”. Era o senhor José Francisco Andrães, feito comendador de Cristo, accionista e “orador vitalício” na assembleia do Banco Comercial do Porto, que foi &lt;em&gt;estrincado&lt;/em&gt; desta maneira no livro &lt;em&gt;Anos de Prosa&lt;/em&gt; (1863):&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;« Tentemos um debuxo de José Francisco. Deve estar entre cinquenta a cinquenta e cinco anos, estatura menos de meã, com três barrigas, das quais a primeira, começando pela parte mais nobre do sujeito, principia onde o vulgar da gente tem os joelhos e, depois duma arremetida adiposa, retrai-se na linha imaginária da cintura, e estreita-se em forma de cabeça. A segunda barriga pega da primeira, ondeia com três ordens de refegos por sobre as falsas costelas, ladeia túmida e retesada como os flancos dum odre posto de través, e vai perder-se nos sovacos, mandando para as costas uma corcunda da mesma natureza. A terceira barriga pendura-se na face interna do queixo inferior, amplia-se flácida e lustrosa como um bucho mal cheio de vitela, e assenta sobre a segunda, no ponto hipotético do esterno. A parte anatómica deste bosquejo toda ela se libra em conjecturas. O autor não assevera senão a existência das barrigas.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Isto tudo tem uma base caprichosa: são cousas que a linguagem do paradoxo denomina pés. Vacila a crítica no confrontá-los com objecto dos três reinos; uma tartaruga envolta em bezerro dá-nos uns longes de realidade; mas falta-nos o símile para os declívios, gargantas e barrocais dos joanetes. Os pés de José Francisco são a desesperação dos Gavarni. O marrão do alvenel poderia arrancá-los de um golpe duma pedreira, por acaso; mas Apeles mais depressa pintaria uvas que enganassem o bico sequioso da passarinhada.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;No tocante à cara, o sr. Andrães é homem, apesar doutros animais que lhe não disputam os fósforos da humanidade, porque não têm um curso de história natural. O rubor do tomate desmaia ao pé das papeiras faciais do brasileiro. O nariz enfronha-se de envergonhado entre as trouxas de tecidos, que lhe debruam os olhos de opilações carnosas, sebáceas e luzidias. A menino do olho é rutilante e azougada, posto que as secreções vizinhas lhe besuntem a raiz das pestanas. (...) »&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;[ A história alegre dos dois cadáveres lembrou-me a história tristíssima e verídica de um amor de perdição que Camilo testemunhou e participou, não sem alguma ambiguidade que alguns acusaram de infame. Passou-se entre José Augusto Pinto de Magalhães, amigo de Camilo, e a inglesa Fanny Owen. Deu há alguns anos um livro com o mesmo nome dela a Agustina Bessa-Luís e, a partir deste, um filme a Manuel de Oliveira. O capítulo titulado “1854” de &lt;em&gt;No Bom Jesus do Monte&lt;/em&gt; (1864; e &lt;a href="http://books.google.pt/books?id=TMMQAAAAIAAJ&amp;amp;printsec=frontcover&amp;amp;dq=%22NO+BOM+JESUS+DO+MONTE%22&amp;amp;source=bl&amp;amp;ots=KGmI5RsdyN&amp;amp;sig=WPD1xefd46PnuN1-BiE1LlK9yrE&amp;amp;hl=pt-PT&amp;amp;ei=LmqmTLyvB8f94AbE0sSRDQ&amp;amp;sa=X&amp;amp;oi=book_result&amp;amp;ct=result&amp;amp;resnum=1&amp;amp;ved=0CBUQ6AEwAA#v=onepage&amp;amp;q&amp;amp;f=false"&gt;acessível no Google Books &lt;/a&gt;) é dedicado ao caso, que Camilo já abordara antes. É uma prova documental impressionante de como, à época, o Romantismo não era apenas género artístico, e Denis de Rougemont devia ter gostado de revalidar neste caso a tese célebre do seu &lt;em&gt;O Amor e o Ocidente&lt;/em&gt; : a presença larvar no corpo da cultura ocidental de um conjunto de crenças e atitudes, de fundo religioso heterodoxo ou herético, convergentes à incompatibilidade do amor com o casamento. Se o leitor estiver interessado em estudar o caso, que bem o merece, não deixe de começar pelo artigo que dedicou a J.A.P. de Magalhães o grande estudioso camiliano que foi Alexandre Cabral, no seu &lt;em&gt;Dicionário de Camilo Castelo Branco&lt;/em&gt;. Já agora, não perca também o cap. “1835”, o primeiro do livro, que tem dados importantes para o perfil psicológico do homem que foi menino órfão de pai e mãe, e é um inolvidável exemplo da arte literária do escritor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fotografia, anónima, do espólio Alvão, deve ser pouco mais ou menos dos 38-39 anos de idade que Camilo tinha à data dos livros citados. Sem repintes nem retoques, ilustra bem o “herpetismo” que ele acreditava estar na origem da cegueira, com que se recusou a viver quem tivera tão lúcida e penetrante visão para ir “aprofundando a ciência e os mistérios do coração humano” .]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-1603605628925350011?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/1603605628925350011/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=1603605628925350011&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/1603605628925350011'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/1603605628925350011'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/10/vitela-com-percevejos.html' title='VITELA COM PERCEVEJOS'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-9038267814234827967</id><published>2010-09-28T11:11:00.003+01:00</published><updated>2010-09-28T11:27:26.810+01:00</updated><title type='text'>TÉDIO E NIILISMO</title><content type='html'>O arquipoeta &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2008/06/portugal-em-pessoa.html"&gt;Fernando Pessoa &lt;/a&gt;deixou em poesia uma &lt;em&gt;Mensagem&lt;/em&gt; aos lusíadas do século XX que ainda se tivessem e quisessem portugueses, como ele ainda era. E em arca, para o herdarmos a seu tempo, deixou-nos em prosa um não menos extraordinário livro, a todos os títulos, começando pelo título. – O &lt;em&gt;Livro do Desassossego&lt;/em&gt;, como vamos vendo a cada nova edição, era um livro para ser variamente conjunto, composto e como co-autorado pelos diferentes herdeiros seus dedicatários e dedicados leitores: diferentes pessoas que, no século XXI, já nada tivessem a ver com lusíadas nem com a pessoa autora da &lt;em&gt;Mensagem&lt;/em&gt;, como ele &lt;em&gt;&lt;strong&gt;já &lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;era...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem são estas tais pessoas, em geral ? Julgo serem aqueles mesmos que Nietzsche antevia irem enchendo os séculos XX e XXI: os “últimos homens”. O leitor nietzscheano sabe que o grande poeta alemão não era nada meigo para eles; mas, como não era mau homem aquele a quem os italianos de Turim chamavam “il piccolo santo”, lembremos que sempre acabou por acolher e dar lugar na Caverna de Zaratustra, entre outros, a um desses “últimos homens”, a quem chamou “o mais feio dos homens”. Quanto ao nosso grande poeta universal, tinha ternuras de meridional, e fez mais : reservou na arca uma multidão de fragmentos dedicados à multidão dos homens fragmentados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem é o “mais feio dos homens” ? – Apetecia-me responder a Zaratustra-Nietzsche, brincando: - É “todo o mundo e ninguém”!... Mas respondo ao meu leitor, seriamente: - é quase todo o mundo, porque o alemão de facto via com aquilina visão a enchente maré do futuro, que é o presente desta parte rica e enfartada do mundo nosso ocidental em que vivemos. E é ninguém porque o “último homem” é menos que um Zé Ninguém : - nem é quem (até ao séc. XX) reconhecíamos como humano nem, muito menos, o “sobrehumano”, que ainda não conhecemos ou reconheceríamos. É como nada o “mais feio dos homens” : como um cadáver em decomposição do humano, náufrago afogado na enchente maré do &lt;em&gt;niilismo.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos textos mais desassossegadores que eu conheço duma posição niilista é o de certo ajudante de guarda-livros na Baixa lisboeta, que &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/04/o-tom-algendo-e-baco-do-tedio.html#links"&gt;já aqui citei completo&lt;/a&gt;:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;« O tédio é, sim, o aborrecimento do mundo, o mal-estar de estar vivendo, o cansaço de se ter vivido; o tédio é, deveras, a sensação carnal da vacuidade prolixa das coisas. Mas o tédio é, mais do que isto, o aborrecimento de outros mundos, quer existam quer não; o mal-estar de ter que viver, ainda que outro, ainda que de outro modo, ainda que noutro mundo; o cansaço, não só de ontem e de hoje, mas de amanhã também, da eternidade, se a houver, e do nada, se é ele que é a eternidade. Nem é só a vacuidade das coisas e dos seres que dói na alma quando ela está em tédio: é também a vacuidade de outra coisa qualquer, que não as coisas e os seres, a vacuidade da própria alma que sente o vácuo, que se sente vácuo, e que nele de si se enoja e se repudia. »&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;- Aqui está. A experiência do tédio, nestes termos, parece-me totalmente inexplicável adentro do quadro duma metafísica naturalista: a vacuidade intramundana de qualquer existência actual ou possível,  &lt;em&gt;contrasta&lt;/em&gt; a referência à plenitude da &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/05/filosofa-vidente-e-poeta-e-esta.html#links"&gt;experiência extática &lt;/a&gt;e como que ilumina a carência ontológica e o desvalor axiológico de toda entidade ou situação que existam &lt;em&gt;fora parte&lt;/em&gt; do ser pleno e absoluto... que Deus é; como uma contraparte existencial negativa dessoutra experiência duma plenitude de ser e realidade incomensurável com qualquer intramundana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, parece que a posição sobrenaturalista não fica mais bem colocada: o “cansaço” parece ser um desgosto de toda e qualquer entidade, existente ou essente, mundana ou não mundana. Será? Eis o que temos de ver melhor. –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Ti theós; ho ti to pán&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;. &lt;em&gt;O que é Deus&lt;/em&gt; ? – perguntava-se o grande poeta Píndaro (séc. V a. C.) num fragmento salvo em um do cristão Clemente de Alexandria; e a resposta é a paradigmática de toda uma cultura merecidamente chamada pré-cristã: &lt;em&gt;&lt;strong&gt;ho ti to pán&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; – é o todo. Pedras, árvores, animais, homens e deuses, o subconjunto de todas e o suconjunto de todos os seres celestes formam um conjunto que não é subconjunto nem de si próprio nem de outro conjunto maior pensável possível: e esta totalidade é Deus ou o propriamente divino. Mas, desde Parménides até Aristóteles (este com o cósmico “primeiro motor”, imóvel) introduzira-se uma &lt;em&gt;diferença&lt;/em&gt; : a totalidade conjunta do Cosmos tem uma &lt;em&gt;physis &lt;/em&gt;(natureza) diferente dos elementos cósmicos do conjunto – é eterna, imóvel, imutável, una, contínua, homogénea, perfeita como a linha de uma “esfera bem redonda” (um discípulo de Parménides, Melisso de Samos, dirá mesmo que é &lt;em&gt;assomatón&lt;/em&gt;, sem corpo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, é tudo isto que parece ser recusado pelo nosso ajudante de guarda-livros: isso que enchia de maravilha e piedosa reverência um grego antigo, causa-lhe a ele... tédio. Como já disse, um tédio assim é totalmente inexplicável no quadro daqueles ateus que hoje adoptam a mesma (mais empobrecida) cosmovisão naturalista : compreender-se-ia a recusa deste ou daquele elementos existentes (os sujeitos ao ciclo do nascimento e renascimento, por exemplo), mas a negação da totalidade – o &lt;strong&gt;&lt;em&gt;ser &lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;– é impensável porque nos deixaria com um impensável &lt;em&gt;&lt;strong&gt;nada&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; (se nada, como e porquê alguma coisa teria de vir a existir ou a ser?). Os metafísicos naturalistas pensam como se a filosofia cristã nestes dois mil anos não tivesse feito nenhuma diferença...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este impensável &lt;em&gt;nada &lt;/em&gt;pode (ou mesmo tem de) ser pensado como radical &lt;strong&gt;Alteridade&lt;/strong&gt;. É isto que faz a diferença.  Porque esta Alteridade não deve ser pensada como mais uma coisa que, em si mesma, pode ser pensada como existente (a multiplicidade dos elementos cósmicos) ou essente (a physis ou natureza conjunta desse elementos); mas como alguma coisa que, em si mesma, por radicalmente diferente e incomparável com  o todo, era &lt;em&gt;humanamente&lt;/em&gt; impensada e permanecia como um “nada”. Mas podia (e devia) ser pensável como Razão Suficiente de as coisas existirem como esse “todo” e não outro qualquer, isto é: como a Criadora desse Cosmos que tanto maravilhava os gregos (e não gregos). ( Não é que os gregos desde sempre não suspeitassem de que alguma coisa ficava por explicar: chamaram-lhe “Destino”, “Necessidade”... ) Carecemos racionalmente de tal Razão Suficiente porque, sem ela, não só a questão – “Por que há alguma coisa, e não nada ?” – ficaria sem resposta racionalmente suficiente, como (e é o ponto que desejo sublinhar) a própria &lt;em&gt;possibilidade&lt;/em&gt; de colocar-se uma tal questão (implicando um “nada”) seria inconcebível e de facto jamais concebida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, a vacuidade contemplada pelo nosso Bernardo Soares abrange o todo (&lt;strong&gt;&lt;em&gt;to pán&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;) grego, ou atinge também aquela Alteridade afirmada pela tradição hebraico-cristã ? Suponhamos que sim ( a “vacuidade de outra coisa qualquer”...). Neste caso, a vacuidade não tem solução: o tédio seria a só negação de tudo o humanamente ou divinamente pensável, existente ou essente, ou... “outra coisa qualquer”. Negação ou recusa que, em casos mais extremados, pode ser suicida ou homicida. Mas o sentimento, enquanto tal, não pode ser nada e, por isso, terá uma razão qualquer de ser tal.  Suponhamos, no entanto, ainda a hipótese mais favorável ao niilista : não tem nenhuma razão; seria um puro sentimento de recusa total e absoluta de tudo. Teríamos, pois, um sentimento &lt;em&gt;gratuito&lt;/em&gt;. Ora, uma vontade que, sem causa ou razão nenhumas além do que por si mesma afirma ou nega, e que tanto pode ser causa de querer alguma coisa, como (neste caso) de querer&lt;em&gt; nada&lt;/em&gt;; de querer alguma coisa possível ou, mesmo, o impossível... – eis o que parece poder identificar-se com certa cousa/causa que temos aqui destacado várias vezes nestes postais: - a Liberdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que estranha liberdade será esta, amigo leitor, que tanto pode querer nada como poderia querer tudo, que tanto poderia estar “cansada” de tudo, como de nada e querer... alguma coisa &lt;em&gt;diferente&lt;/em&gt;, nem que fosse diferente só “da própria alma” ?... Uma tão soberana liberdade é humanamente possível?...  É o desejo humano de querer como quer a gratuita e livre vontade de um Deus?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, este nosso enclausurado Bernardo Pessoa foi longe! Como é que um tal poderia ser “o mais feio dos homens” ?...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-9038267814234827967?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/9038267814234827967/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=9038267814234827967&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/9038267814234827967'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/9038267814234827967'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/09/tedio-e-niilismo.html' title='TÉDIO E NIILISMO'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-5389564926040681107</id><published>2010-09-24T10:32:00.003+01:00</published><updated>2010-09-24T10:51:56.281+01:00</updated><title type='text'>O VERDADEIRO FILÓSOFO</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TJxwV94qUxI/AAAAAAAAAoU/g0SpEv2l6e8/s1600/Christ-shepherdphilosopher.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 248px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5520410765941166866" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TJxwV94qUxI/AAAAAAAAAoU/g0SpEv2l6e8/s320/Christ-shepherdphilosopher.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Na cívica prestação de contas da perigosa investigação a que se dedicara e lhe mereceu a morte, Sócrates, diante o tribunal ateniense, fixou em célebre e concisa máxima os termos do balanço final: - “Só sei que nada sei.” O dito é justamente famoso e memorável, porque a conclusão socrática é a que espera qualquer pessoa racional, de qualquer tempo, completa e sinceramente dedicada por si só à &lt;em&gt;filo-sofia&lt;/em&gt; – ao amor do saber, aliás próprio de qualquer normal indivíduo da espécie do sapiens. Mas os citadores da máxima socrática habitualmente omitem ou ignoram duas conexas atestações do ateniense na mesma ocasião: Sócrates sabe que, entre todas as classes de cidadãos que inquiriu, só entre os artesãos e socialmente menos reputados achou alguma sabedoria; mas não era este saber manual e oficinal que faria do operário Sócrates, ex-pedreiro escultor e filho de escultor, “o mais sábio dos homens”, segundo a palavra do oráculo que o tirou de o trabalho humilde e sossegado, para o fazer “parteiro de almas” e ganhar com isso a morte. A outra conclusão quase sempre omitida é esta:  - « É possível, senhores, que na realidade só o deus sabe ».&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Já o pré-socrático Xenófanes de Cólofon (nascido no séc. VI a. C.) chegara à conclusão  que  « Nenhum homem jamais soube ou saberá a verdade acerca dos deuses e de todas as coisas das quais eu falo (...). A opinião reina sobre tudo. » No mesmo sentido, o pitagórico Alcméon de Crotona (princípios do séc. V a. C.): - « Das coisas invisíveis e das mortais só os deuses têm conhecimento certo; aos mortais só é permitida a conjectura. ». Crítico de Xenófanes e Pitágoras, o efésio Heraclito coincide no mesmo:  « Não há conhecimento na condição humana, sim na divina.» E na viragem dos sécs. V para IV, Demócrito: - « Na realidade, nada sabemos». Já  no séc. III a. C., ao então regente da Academia platónica, Arquesilau de Pitane, parecia-lhe a máxima socrática demasiado ambiciosa, e como corrigia: « Só sei que nada sei... e nem isto sei.»&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Temos nós outros hoje muita informação aferida, certificada e bem sucedidamente utilizada nos mais variados domínios, a começar no básico da informação sensorial com que nos orientamos no mundo natural e social. (Mas o mesmo podiam dizer os gregos de há dois mil e quinhentos anos...) Tudo isso é de comum senso e experiência. Mas também experimentamos que há uma distância entre ter uma informação, pragmaticamente agir em função dela, - e a experiência do saber. Uma coisa é, por exemplo, termos informação do que Xenófanes e Arquesilau disseram; outra uma vivida e pessoal experiência reconhecida e identificada nos mesmos termos  em que eles o disseram. Saber e saborear são etimologicamente o mesmo verbo; mas o interesse do &lt;em&gt;filósofo&lt;/em&gt; ( o “amigo do saber” ) não se contenta só com o  paladar seu: interessa-lhe saber se há e que cousa/causa será que, fora de si, justifica esse paladar próprio seu, ou se tal se deve apenas à particular ou geral configuração da sensibilidade e entendimento humanos. Por outras palavras, interessa-lhe a verdade e a realidade, não apenas a subjectiva ou intersubjectiva maior ou menor certeza.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Saber que não se sabe, e nem sequer isto, abre assim a possibilidade para algum saber... que Sócrates e os outros citados acreditaram ser capacidade divina, não humana. Uma experiência que a filosofia cristã haveria de reviver e corroborar, creditada na palavra d’Aquele que de Si mesmo disse ser Caminho, &lt;strong&gt;&lt;em&gt;Verdade &lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;e Vida.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Todo este esquisso vem  a propósito da “demonstração” da existência ou não existência real de “Deus”, de que &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/09/um-argumento-ateu.html#links"&gt;ultimamente falámos&lt;/a&gt;, serve-me para dizer que, quanto a mim, me conto entre aqueles que não acreditam haja na razão humana razão suficiente para  – em verdade – determinar o que na realidade existe ou não existe, a começar nas mais comezinhas coisas da nossa habitual e comum consciência vígil. Já no séc. VI a. C. o filósofo taoísta chinês Chuang Tzu, tendo certa noite sonhado que era uma borboleta a voar, pedia, depois de acordado, aos seus discípulos que lhe demonstrassem que ele não era nesse momento uma borboleta a sonhar-se homem...  Dois mil e siscentos anos depois, a dificuldade do problema mantém-se tal e qual. Continuamos no mesmo pé que o velho&lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2008/09/to-gar-aut-noein-estn-te-ka-einai.html"&gt; Parménides &lt;/a&gt;consignou à condição dos mortais: temos múltiplas e variadas percepções sobre coisas a que damos nomes, - mas falta-nos o critério decisivo para determinar acerca dessas coisa o “que é” ou “não é”. Portanto, se estamos em apuros para demonstrar que nós próprios não somos cérebros ligados a um computador num Mundo-Matrix, parece insciente ou fátua presunção “demonstrar” que Deus existe ou não existe. Ao invés, se um tal Deus existe – Esse que na tradição hebraica e cristã tem sido pensado como plenitude do ser, verdade e realidade absolutas -, caberia mais imediatamente perguntar é que género de existência será a nossa, de momentaneamente aparecidos e desaparecidos : “sombra de um sonho é o homem”, dizia o grego Píndaro; “ilusão das ilusões, tudo é ilusão”, dizia o judeu Qohélet.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Contudo, se Deus existe e tem um particular interesse pelos humanos e o mundo em que vivemos, é razoável supor que de algum modo Ele se nos desse a conhecer e nós de algum modo O conheçamos. Na série de postais que há tempos &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/06/uma-experiencia-vital.html"&gt;iniciei aqui&lt;/a&gt;, ficou o leitor interessado com um argumento (não esquecer que “argumento” pode ser uma narrativa, uma história) significativo desse possível conhecimento possível: aquela viva experiência humana que creio ser a fonte originária, pessoal e social, da religião como da arte ou da filosofia (em todos os povos). E, se Deus existe e é uma entidade pessoal e criadora, com particular cuidado pela Sua Criação e pelas criaturas “à Sua imagem e semelhança”, parece-me razoável supor que a história e narrativa dessa experiência evoluiu no tempo e, a seu tempo, tenha concluído numa especialíssima e extraordinária experiência do encontro entre Deus e a sua excepcional criatura: tal o que eu creio     ter-se dado há dois mil anos na terra palestinense e se vem prolongando e prolongará pelo tempo, até à sua perfeita consumação na eternidade atemporal.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Teríamos pois que, ao amor pelo saber dos humanos corresponderia um saber pelo amor manifesto em Cristo ao mundo. Não repugna acreditar que tal encontro com o humano não exclui nem poderia excluir a raciocinadora razão do animal “racional”. Compreende-se, por isso, que ao longo do tempo, muitos argumentos conceptuais se tenham proposto demonstrar o indemonstrável, mas nem por isso menos inacessível aos que no seu coração crêem e querem.&lt;br /&gt;Mas... pode não haver Deus nenhum. Que grande e pacificadora revolução haveria no mundo se não perdêssemos a consciência da diferença (intransponível) entre as relativas certezas da nossa limitada experiência e a verdade/realidade! Tal é  (parece-me) a revolucionária e terapêutica função da melhor filosofia &lt;em&gt;humana,&lt;/em&gt; da cepa socrática que nosso patrão Diógenes também cultivou. Uma filosofia eminentemente &lt;em&gt;prática&lt;/em&gt;, aplicada a edificar a firme autoridade do espírito sobre as paixões da alma e as necessidades do corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;[ Na imagem em cima: relevo dum sarcófago romano do séc. III, representando a figura de Cristo como “o verdadeiro filósofo”. Assim se lhe refere o Papa Bento XVI na sua &lt;a href="http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20071130_spe-salvi_po.html"&gt;encíclica &lt;/a&gt;&lt;em&gt;&lt;a href="http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20071130_spe-salvi_po.html"&gt;Spe Salvi &lt;/a&gt;(2007)&lt;/em&gt; ]&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-5389564926040681107?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/5389564926040681107/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=5389564926040681107&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/5389564926040681107'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/5389564926040681107'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/09/o-verdadeiro-filosofo.html' title='O VERDADEIRO FILÓSOFO'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TJxwV94qUxI/AAAAAAAAAoU/g0SpEv2l6e8/s72-c/Christ-shepherdphilosopher.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-1704505602167147993</id><published>2010-09-21T10:25:00.003+01:00</published><updated>2010-09-21T10:36:07.232+01:00</updated><title type='text'>LITERATURA POPULAR E LITERATURA ERUDITA</title><content type='html'>Apesar da solene e selecta intransigência do &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/08/antonio-ferreira-1528-1569.html"&gt;Doutor António Ferreira &lt;/a&gt;e dos classicistas letrados que começavam a apelar mais a mitológicas musas da antiguidade do que à música dos versos cantados e instrumentalmente acompanhados (apelando a musas mais acesíveis da actualidade...), - no século XVI ainda não havia divórcio entre a poesia “popular” e a “erudita”. Baste lembrar mestre Gil Vicente, de quem José Leite de Vasconcelos disse:&lt;br /&gt;« Conhecia directamente todos os recantos da etnografia: costumes, superstições, literatura, linguagem. »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como os velhos trovadores palacianos teriam nas suas Cantigas de Amigo refrães que andavam nas bocas do povo, assim uns tantos motes notados como “alheio” nas &lt;em&gt;Flores do Lima&lt;/em&gt; de &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/09/de-diogo-bernardes-antonio-ferreira.html#links"&gt;Diogo Bernardes &lt;/a&gt;teriam sido colhidos de anónimas cantigas populares da cultura tradicional. Este, por exemplo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Já não posso ser contente,&lt;br /&gt;Tenho a esperança perdida;&lt;br /&gt;Ando perdido entre a gente:&lt;br /&gt;Nem morro, nem tenho vida.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Eis a primeira décima da glosa de Bernardes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Depois que meu cruel fado&lt;br /&gt;Derribou uma ‘sperança&lt;br /&gt;Em que me vi levantado,&lt;br /&gt;No mal fiquei sem mudança&lt;br /&gt;E do bem desconfiado;&lt;br /&gt;O coração que isto sente&lt;br /&gt;À sua dor não resiste,&lt;br /&gt;Porque vê mui claramente&lt;br /&gt;Que, pois nasci para triste,&lt;br /&gt;Já não posso ser contente.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;No século XX, o poeta popular alentejano Manuel António de Castro (1885-1972), conhecido por “Castro da Cuba”, pegava destarte o mesmo mote:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quebrou-se o laço que era&lt;br /&gt;Meu enlevo de viver;&lt;br /&gt;Quero, não posso esquecer&lt;br /&gt;A dor que me dilacera;&lt;br /&gt;Passa doce a Primavera,&lt;br /&gt;Para mim é-me indiferente,&lt;br /&gt;A minh’ alma já não sente&lt;br /&gt;Perfume dessa beleza:&lt;br /&gt;Galvanizou-se a tristeza,&lt;br /&gt;Já não posso ser contente.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Manuel de Castro não era um poeta iletrado (como logo inculca no vocabulário: “enlevo”, “dilacera”, “indiferente”, “galvanizou-se”...), e diz-se até que tinha “uma arca cheia de livros”. O antropólogo Paulo Lima, um bom conhecedor actual da nossa poesia popular, cita o exemplo acima como “prova cabal” da influeência e reutilização da literatura escrita erudita pelos poetas populares e, portanto, da não relevância da “dicotomia escrita versus oralidade”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É possível. E pode ser que lá na sua arca o poeta cubense tivesse a edição de 1945 das &lt;em&gt;Rimas&lt;/em&gt; de Bernardes. O que eu sei é que a mesma quadra que o limiano dá como “alheia” foi conservada pelo povo ao longo dos séculos, e o citado Leite de Vasconcelos não a deixou por recolher no seu &lt;em&gt;Cancioneiro Popular Português&lt;/em&gt; (com a só alteração no último verso: &lt;strong&gt;Não morro, nem tenho vida&lt;/strong&gt;.) E dá-a como colhida em Alcáçovas, concelho de Viana do Alentejo, poucos quilómetros afastada de Cuba...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teríamos porventura aqui o caso de um perfeito (e raro) intercâmbio entre o “popular” e o “erudito”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este Manuel de Castro é o mesmo que já aqui eu citara, a propósito dum poeta – &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/07/antonio-correa-d-oliveira.html"&gt;António Corrêa d’ Oliveira &lt;/a&gt;– cuja obra considero que nos dá no século XX a mais íntima e artisticamente realizada conjunção do “popular” e do “erudito”, a ponto de vermos bem o que há de postiço e surpérfluo na discriminativa qualificação. De facto, cumpre reconhecer a regra: os nossos grandes criadores literários, de qualquer época, reviveram na sua obra tipos humanos e formas de expressão “populares”, e até com denunciado carácter “regionalista”. Talvez aí estivesse uma &lt;em&gt;natural&lt;/em&gt; condição da sua grandeza. O que eu creio é que o criador literário, ainda o mais letrado e erudito, dispunha assim de condições para ser uma autorizada &lt;em&gt;voz do seu povo&lt;/em&gt;. (Mesmo os aristocratas, a começar nos próprios reis, desde o leite que mamavam das amas que eram mulheres plebeias, viviam em próximo e directo contacto com as classes populares).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas essa cultura popular desapareceu, graças à cultura tecnocientífica emergente do Iluminismo e da Revolução Industrial, que destilou e embriagou os povos com o grande mito moderno da “educação”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desaparecidos ou atenuados os particularismos irredutíveis da cultura popular, há condições para que na voz dos melhores criadores do futuro transpareça mais e melhor o que já antes era transparente nos melhores de antanho, fossem um António Aleixo ou um Fernando Pessoa: a universal condição humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não sei como o poderão fazer senão ainda na sua própria e distintiva língua natural. Ora, o perigo não está no bi ou multilinguismo (é de lembrar os nossos sécs. XVI e XVII), - mas na não aprendizagem sólida de nenhuma língua natural. Neste caso, depois da cultura “popular”, desaparecerá a seguir aquela cultura “erudita” centrada num nome sintomaticamente caído em desuso: “Humanidades”. Com o empobrecimento da mais espontânea e natural comunicação entre os humanos, e o investimento desiquilibrado na instrução e prática das linguagens artificiais (lógico-matemáticas) da tecnocultura cada vez mais dominante, as consequências mais que previsíveis estão aí já patentes diante nós : - &lt;em&gt;desumanização&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;barbárie&lt;/em&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-1704505602167147993?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/1704505602167147993/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=1704505602167147993&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/1704505602167147993'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/1704505602167147993'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/09/literatura-popular-e-literatura-erudita.html' title='LITERATURA POPULAR E LITERATURA ERUDITA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-8198106965285842239</id><published>2010-09-17T11:21:00.005+01:00</published><updated>2010-09-17T23:11:51.971+01:00</updated><title type='text'>UM BELO FEITO DA NOSSA HISTÓRIA ULTRAMARINA</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TJNCCGKob4I/AAAAAAAAAoM/djBowui0pn0/s1600/Timor2+Monte+Ramelau.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5517826572241366914" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TJNCCGKob4I/AAAAAAAAAoM/djBowui0pn0/s320/Timor2+Monte+Ramelau.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; Os anos de 1974-75 foram extraordinários, talvez únicos na nossa História: a comoção social e o alvoroço político que então varreram Portugal de norte a sul, por uma vez parce terem envolvido no mesmo geral e animado debate, quer a maioria dos sempre indiferentes à “política”, quer a minoria dos interessados que os mais de quatro decénios de ditadura legalizada em “Estado Novo” tinham obrigado a falar furtivamente ou a silenciar. E basta referir este pormenor significativo: quem por esses dias chegasse ao Rossio de Lisboa, não poderia ficar senão espantado com a quantidade de gente esparsa em rodas de discussão política acalorada, enchendo os passeios, o pavimento central da praça, ou mesmo transbordando para a rodovia, os automóveis e autocarros a desviarem dos grupos, com lento cuidado de não atropelarem pessoas e discussões... (Só, no seu canto habitual, à boca da rua do Carmo, solitário, postava-se um homem com uns cartazes dependurados do pescoço, a cobrirem-lhe a frente e as costas, todos escritos com citações da Bíblia, que ele segurava numa das mãos; com a outra, empunhava um velho e roufenho megafone, por onde o que mais se conseguia ouvir era... “Fim do Mundo”. Era ele quem falava mais alto, mas era um fala-só....)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o tempo dos golpes e contra-golpes político-militares, das nacionalizações, manifestações e contra-manifestações, das ocupações de casas e terras, dos avanços e recuos do atrabiliário “processo revolucionário em curso” que, mais ou menos improvisado, procurava abrir caminho entre nós para o “socialismo”. (Em Almada, a aristocracia operária da Lisnave, saneados os administradores capitalistas, vinha continuar as intermináveis discussões dos plenários perpétuos para as cervejarias da vila, no meio das litradas de cerveja e quilos de marisco...). No “Verão quente” de 1975 começavam a chegar a Lisboa os cerca de quinhentos mil refugiados de África, brancos e pretos, em aviões e barcos; e com eles chegavam das costas de Angola ao nosso Algarve, em traineiras sem radar nem cartas de marear, subindo à vista do litoral africano, os descendentes dos navegadores henriquinos... E eram centenas de contentores empilhados e alinhados à beira do Tejo, entre Alcântara e Belém. (E nos jardins de Belém, espojados por bancos e canteiros, bandos de miúdos vindos da Casa Pia. De vez em quando, levantavam-se e aproximavam-se de automóveis, que passavam e os levavam... Nessa altura a pedofilia não preocupava ninguém, nem os “anti-fascistas” que, antes de 74, tanto se tinham escandalizado com os &lt;em&gt;Ballets Roses&lt;/em&gt;...). Estávamos então por cá entretidos e entontecidos com as voltas e reviravoltas da nossa “revolução” quando, não sem aviso e sem a segurança da caução norte-americana, a Indonésia invadia e ocupava Timor-Leste. Mas nem as impressivas reportagens do grande repórter Adelino Gomes, que lá esteve por essa altura, nos tiraram um pouco do embriagado desvairo colectivo em que vivíamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A invasão e ocupação de Timor não eram inéditas. Já entre finais de 1941 até 45 a ilha fora invadida e ocupada, primeiro por australianos e holandeses (a metade ocidental de Timor era então holandesa), depois pelos japoneses. E foi um dos motivos que, ao longo da 2ª Guerra puseram num fio a sinuosa e difícil estratégia de neutralidade que, desde o princípio, Salazar quisera a todo o custo para Portugal (e Espanha). No caso timorense, o ditador, então à frente do Ministério dos Negócios Estrangeiros (coadjuvado pela vasta experiência e competência do respectivo secretário-geral, Luiz Teixeira de Sampaio) e a diplomacia portuguesa jogaram habilmente com o volfrâmio e as facilidades concedidas aos Aliados nos Açores, para conservarmos a neutralidade e a ilha: os japoneses renderam-se à administração portuguesa, e os australianos acabarm por retirar. Em Dili restavam três casa em pé... Depois, tudo continuou como dantes. Havia em 1970 cerca de meia centena de colonos portugueses radicados e mestiçados, que reproduziram no século XX o modelo ruralista e patriarcal da colonização do Brasil e de S. Tomé no XVI, mas com trabalhadores assalariados, não escravos. Os outros eram funcionários administrativos superiores, ou militares, em comissão temporária, alguns afastados do continente por motivos disciplinares. O desinteresse e o abandono, desde os tempos de D. Manuel I, foram sempre a política dominante até princípios dos anos 60. Após Abril de 74, o processo de “descolonização”, improvisado com ignorância crassa das reais condições no terreno, foi, como em África, uma catástrofe de pura desorganização e cobarde abandono, que a Indonésia aproveitou (aliás mais forçada pelos acontecimentos do que por empenhada vontade própria). Uma catástrofe que custou aos timorenses muitos milhares de mortos e refugiados (há quem fale em duzentos mil).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontece que a Indonésia, geograficamente mais próxima, era e sempre fora muito mais estaranha e longínqua para a gente timorense do que Portugal, cuja bandeira tinham como objecto sagrado. Quanto a nós, só em 1989, após o massacre do cemitério de Santa Cruz, acordámos para as respnsabilidades que tínhamos; e é a partir de então que diplomaticamente vamos conseguindo interessar e mobilizar os apoios internacionais para defender o Direito à Autodeterminação que a heróica resistência armada timorense mantinha vivo no terreno. Não são ainda publicamente conhecidos os pormenores dessa campanha diplomática que, com paciência e habilidade, soube aproveitar a conjuntura internacional. O que se sabe é que no espaço de dez anos conseguiu levar a um referendo no território, com mais de 90% de votos favoráveis à independência, efectivamente conseguida em Maio de 2002, não sem mais massacres e deportações da martirizada população timorense. –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que se sabe é isto: que apenas com argumentos de Direito e de humanidade, um pequeno Estado lá dos confins da Europa, sem qualquer força de ameaça militar, conseguiu levar o Império javanês a largar de mão e a consentir na independência de metade de uma pequena ilha, no outro cabo do mundo!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis o que é para mim um grande e belo feito da nossa História ultramarina. E não sei se há outro caso assim comparável no mundo das lupinas relações políticas entre os povos. Nem faltou entre nós, nos anos de 2001-01, um levante de comovente e unânime mobilização popular, que me lembrou os dias magníficos de colectiva desopressão e festiva esperança da inolvidável semana de 25 de Abril a 1 de Maio de 1974. Que tenhamos sabido levar a cabo um tal feito numa hora em que estávamos reduzidos a um encolhido apêndice menor da Europa, - eis o que não causa menos admiração, e não deixa de ser motivo de esperança para o futuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resta desejar que não larguemos agora mais de mão a mão que os timorenses sempre nos estenderam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ Este postal é também uma comovida homenagem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- ao grupo de timorenses que, numa noite fria de 9 para 10 de Junho de 1978, a pés nus e em trajes indígenas, fizeram durante horas, imóveis, em silêncio, com impressionante dignidade, uma guarda de honra ao túmulo de Luís de Camões;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- ao tenente-coronel do Exército Português Maggiolo de Gouveia, fuzilado em Aileu, Dezembro de 1975, exemplo daqueles soldados que Camões cantou e contou entre os “varões assinalados”;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- ao cooperante em Timor, professor José Mattoso, o historiador dessa figura modelar da resistência armada timorense que foi Konis Santana, e aos outros professores portugueses que ele lá viu manterem-se em “condições miseráveis”;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- ao lusíada &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/05/um-engenheiro-nesa-maromak.html#links"&gt;Ruy Cinatti&lt;/a&gt;, timorense do coração e no sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A imagem de Nossa Senhora é a que está no alto do mais alto monte de Timor. ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-8198106965285842239?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/8198106965285842239/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=8198106965285842239&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/8198106965285842239'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/8198106965285842239'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/09/um-belo-feito-da-nossa-historia.html' title='UM BELO FEITO DA NOSSA HISTÓRIA ULTRAMARINA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TJNCCGKob4I/AAAAAAAAAoM/djBowui0pn0/s72-c/Timor2+Monte+Ramelau.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-2546979733318995768</id><published>2010-09-15T10:38:00.003+01:00</published><updated>2010-09-15T10:43:58.953+01:00</updated><title type='text'>VINTE TESES PARA A FORMAÇÃO E SOBREVIVÊNCIA DE PORTUGAL</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TJCUNVDCybI/AAAAAAAAAoE/dp6E7dImZWs/s1600/selo+portugal.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 278px; DISPLAY: block; HEIGHT: 277px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5517072500237978034" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TJCUNVDCybI/AAAAAAAAAoE/dp6E7dImZWs/s320/selo+portugal.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;[ No título do postal anterior deixei implícita lembrança de uma notável obra – &lt;em&gt;O Enigma Português&lt;/em&gt; (1960) – de Francisco da Cunha Leão, que a complementou com um &lt;em&gt;Ensaio de Psicologia Portuguesa&lt;/em&gt; ((1971). Também em lembrança e homenagem da obra do ensaísta e do editor que tanto fez pela divulgação cultural entre nós, aqui deixo hoje à consideração do leitor as 20 Teses seguintes, como aparecem no cap. VI da 2ª edição (1973) da primeira das obras citadas. ] &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;1-&lt;/strong&gt; Uma parte da Galiza e outra da Lusitânia formaram Portugal. (...)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;2-&lt;/strong&gt; Dois blocos regionais, secularmente emissores de população, e que não se misturam entre si, ainda hoje nos permitem, pela sua relativa natureza, ajuizar dos elementos humanos constitutivos de Portugal: - o Noroeste, cujos habitantes são identificados aos galaicos; e a zona montanhosa das Beiras, para os lusitanos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;3-&lt;/strong&gt; Lusos e galaicos distinguem-se, posto que povos individualizados em finisterra, de parentesco próximo e afinidades incontestáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;4-&lt;/strong&gt; O Português é uma síntese de lusitano e galaico, um luso-galego, e só metaforicamente lusitano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;5-&lt;/strong&gt; O tipo do Português formou-se a partir da linha do Douro e Vouga – a charneira luso-galaica – ao longo da faixa de trânsito litoral, e daí por toda a Estremadura, Lisboa, Riba e Além-Tejo, com assimilação dos elementos exóticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;6-&lt;/strong&gt; A população portuguesa tende para a homogeneidade, pelo intenso convívio dentro de fronteiras oito vezes seculares, que a fácil articulação das comunicações ao corredor de trânsito litoral assegura, na estreiteza do seu território. (...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;7-&lt;/strong&gt; A idealidade sonhadora, a contextura sentimental branda, mas rica em tonalidades e teimosia surda, o fundo instável da inquietação, a mundivisão saudosa, o &lt;em&gt;pathos&lt;/em&gt; da alma portuguesa radicam-se no viveiro galaico, em sememlhança flagrante com a Galiza, propriamente dita; o espírito realista, de organização jurídica e independência pessoal, o talento político, a afirmação intrépida são principalmente lusitanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;8-&lt;/strong&gt; Os sentimentos dominantes do português tidos aparentemente, comummente por negativos e até por suicidas escondem carácter contraditório. Se fossem na essência assim depressivos, e patenteando-se eles há tantos séculos, a História de Portugal surgir-nos-ia absurda, por inexplicável e impossível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;9-&lt;/strong&gt; &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/saudade.html#links"&gt;A Saudade&lt;/a&gt;, fulcro da sensibilidade portuguesa, de modo algum é apenas retrospectiva; encerra um conteúdo insuspeitado de indeterminação e sentido futurante, pleno de impulso dinamogénico, por força do que insere de subconsciente, esperançoso apego à vida. A Saudade impregna toda a vida religiosa, sentimental e activa dos portugueses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;10-&lt;/strong&gt; A forma de resistência nacional à adversidade é o Sebastianismo, inteiramente diversa da forma de resistência espanhola, o Senequismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;11-&lt;/strong&gt; A História de Portugal é uma história do Sentimento aproveitado, temperado pela Reflexão. Uma aventura consciente caracteriza-lhe os momentos mais densos, eficazes e significativos. Aventura consciente a independência, os descobrimentos, a formação do Brasil. A ruptura entre aqueles elementos, ora traz o domínio da Paixão, ora o da Razão correctiva. (...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;12-&lt;/strong&gt; A História de Portugal, partindo da exiguidade geográfica, ao longo de um corredor marítimo, numa linha de força norte-sul, é uma história em trânsito contínuo, compensando-se com o Mar a escassez continental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;13-&lt;/strong&gt; Com esse trânsito, de tendência oceânica, correspondente à sua idiossincrasia, o Português aprendeu a triunfar do meio geográfico, obteve as maiores vitórias sobre o espaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;14-&lt;/strong&gt; Os Descobrimentos e a Colonização constituem por isso a suprema afirmação dos Portugueses (...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;15-&lt;/strong&gt; Na causalidade desse movimento trans-oceânico há que primeiro inscrever, entre outros estímulos, uma raiz antropológica , tão obscura como evidente, de interesse pelo mundo com apetência pelo desconhecido e pelo novo, a par do apego sentimental à pátria (...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;16-&lt;/strong&gt; O Cristianismo teve na maneira de ser e actuação dos portugueses o mais decisivo esforço no sentido da destruição das barreiras raciais e das incompatibilidades culturais, com subsequente universalização do apostolado, e bem assim a institucionalização das mais belas formas do socorro humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;17-&lt;/strong&gt; Por sua vez, o curso histórico, além de individuar Portugal no quadro do mundo moderno, influiu na psique portuguesa num sentido activista, apurando-lhe as aptidões de adaptação e enriquecendo-a com experiência, com exotismo, calor e claridade. Com isso se distanciou da galega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;18-&lt;/strong&gt; O fundo temperamental do Noroeste mantém-se, no entanto, como “limite” da sensibilidade portuguesa e da posição perante a vida.&lt;br /&gt;A afirmação continua válida para os luso-descendentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;19-&lt;/strong&gt; A grandeza e intensidade do movimento histórico, a ambição e natural desgaste pelas desmedidas áreas e tarefas universais, retardaram a sistematização do conteúdo pensante português, já de si do tipo emocional e assistemático. Nos escritos poéticos e de viagens estão os expoentes do nosso génio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;20-&lt;/strong&gt; No quadro hispânico a oposição psicológica, em muitos aspectos diametral, de portugueses e castelhanos, tem sido a prima razão e a salvaguarda instintiva da independência nacional.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-2546979733318995768?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/2546979733318995768/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=2546979733318995768&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/2546979733318995768'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/2546979733318995768'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/09/vinte-teses-para-formacao-e.html' title='VINTE TESES PARA A FORMAÇÃO E SOBREVIVÊNCIA DE PORTUGAL'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TJCUNVDCybI/AAAAAAAAAoE/dp6E7dImZWs/s72-c/selo+portugal.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-218179071803395487</id><published>2010-09-13T12:22:00.004+01:00</published><updated>2010-09-14T09:14:46.025+01:00</updated><title type='text'>UM ENIGMA PORTUGUÊS</title><content type='html'>Permanece comigo um velho enigma que não me resolvo. – Como é que estes há nove séculos chamados “portugueses” nunca adentro de Portugal se entenderam bem com essa coisa chamada “política”, e a partir de 1128 sempre temos andado em lutas civis (mesmo que as mais das vezes contidas, sem se chegar à guerra aberta e generalizada), como &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2008/09/morte-de-portugal-i.html#links"&gt;já lembrei aqui&lt;/a&gt;. Perdurával enigma, já antes de haver “Portugal” notado e lapidado no célebre &lt;em&gt;dictum&lt;/em&gt; dum estratego romano: - “Há nos confins da Ibéria um povo que não se governa nem se deixa governar”...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve já quem dissesse que tal se deveria a sermos uma mistura de muitos e muito diferentes povos, que se vão tolerando mas nunca inteiramente submetendo, resultando nas perpetuadas tensões de uma existência social e política de difícil integração a nível superior “nacional”. ( De aí deduziriam alguns a consequente perene necessidade de um Estado centralizador forte para manter a coordenação e coesão possíveis duma vida nacional. ) É uma hipótese que tem que se lhe diga, e acomoda-se bem com a matéria do postal anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta finisterra atlântica tanto é ponto de partida como tem sido de chegada. Desde pelo menos o último pico glaciar (há cerca de 20 000 anos), que obrigou as gentes paleolíticas do centro e norte europeus a procurarem estas paragens mais amenas, são vagas sucessivas de povos: os que forçaram passagem até aqui; e os outros que, forçados, lhes fugiram diante até aqui. E, à beira do grande Mar, todos têm de parar e de, melhor ou pior, se acomodar: os mais fortes, ocupando e mandando; os que lhes fugiam, submetendo-se e servindo. Os sucessivos novos imigrantes, ou expansionistas vitoriosos, ou fugitivos, têm de chegar a um compromisso de coexistência com os que já cá estavam. Com o tempo, a como rítimica continuidade dessas vagas de invasores, a inevitabilidade de todos aqui pararem diante o paredão do Mar, talvez se terá aperfeiçoado uma arte de absorção, acomodamento e coexistência entre os muitos e diferentes povos, mas sempre instável e tensa. ( Só me lembra um caso, relativamente recente, de um povo que não se acomodou e saiu pelo mar diante invasores mais poderosos: os Vândalos, que foram para as montanhas do norte de África, dando origem aos “berberes”. Aliás, poucos séculos depois “vingaram-se”: a comandante parte dos “mouros” islamizados que, em 711, invadiram e ocuparam quase toda a Hispânia, eram berberes descendentes dos Vândalos, aliados a facções da nobreza goda rebeldes ao rei Rodrigo. ) Ora, as tensões e dificuldades da integração numa sociedade nacional única haveriam de reflectir-se necessariamente nas dificuldades da organização política. Contudo, há mais de oito séculos que não tínhamos imigração significativa: não foi tempo suficiente para resolver a questão, só disfarçada pelo centralismo reforçado do poder monárquico, até 1820 ? Parece que não, e o problema foi agudizado por um factor sobreveniente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surge, a propósito, e não sem interessante relação, outro problema: - Haverá algum povo aqui que, por sua antiguidade, pelo isolamento relativo, pela força ou habilidade de ter desviado de si os invasores, poderia supor-se e ser considerado “autóctone”? Há quem afirme que sim, e &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2008/10/gente-da-borda-d-gua.html#links"&gt;vá a ponto de lembrar &lt;/a&gt;os descendentes da Atlântida submersa... Mais recentemente, foi António Quadros a sugerir ter sido a Atlântida afinal esta península Hespéria, antecessora da Ibéria, a civilização megalítica dos construtores de menires, cromeleques, dólmenes e orcas, que maritimamente se teria expandido até à Irlanda e Grã-Bretanha, a norte, como até ao extremo Mediterrâneo (Creta, Egipto); e que teria mesmo sido a inventora da escrita... Com o andar dos séculos e a chegada de novas migrações, esse povo ter-se-ia como concentrado e perdurado sobretudo adentro daquele círculo de serras que englobam o que hoje chamamos “Beira Alta”, à qual, não por acaso, veio historicamente a referir-se o tipo humano e o mito cultural da “Lusitânia” fundadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a marca fica sempre: muitos e diferentes povos, uns vencendo e dominando, outros vencidos e dominados. O que torna a situação relativamente especial neste ponto do mundo é a quantidade, as diferenças e a necessidade de coexistirem num território tão apertado; e talvez a formação de um núcleo existencial suficientemente coeso de absorção e equilíbrio, que sutilmente pervade e predomina, impedindo as tensões de degenerarem em conflitos de extermínio genocida ou de irremediável divórcio regionalista. Como disse, estará esse núcleo de coesão existencial, social e política originariamente na Beira Alta “lusitana”; e talvez que devamos a esse centramento demasiado a sul (relativamente) e à projeccção da Reconquista além-Tejo a definitiva perda medieval daquela parte mais nortenha do nosso Minho, a que já os romanos reconheciam uma unidade específica quando a nomearam “Calécia”. E já no tempo dos romanos é notável nas notícias históricas que nos deixaram, a extraordinária dificuldade de os vários povos da Lusitânia se concertarem duradouramente numa estratégia de resistência e repulsão dos romanos; o que não deixa de me lembrar o isolamento e perpétuas dissenções em que viveram sempre as cidades-estado gregas, incapazes de impedir o expansionismo macedónio. Só o excepcional aparecimento de um caudilho e estratego excepcional – Viriato – pôde efemeramente unir contra o Império as autarcias castrejas que viviam tão sobre si e tão ciosas da sua independência. (E não será por acaso que, séculos depois, é exactamente a sul do Douro que veremos proliferarem os medievais “concelhos”, reconstituindo e como repondo essas milenares autarcias que, já antes, melhor teriam resistido à feudalização senhorial imposta por Suevos e Visigodos.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portanto: a difícil coexistência de muitos e diferentes povos, cujas particularidades perduraram na extrordinária riqueza e variedade etnográfica que ainda por meados do século XX podíamos admirar na pequena área territorial do nosso país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como vamos vendo, estas imigrações continuam nos nossos dias, felizmente agora menos violentas. Aqui, a oeste, nada de novo. E, se é verdade que há e perdura actuante esse fundo multimilenar de coesão e equilíbrio, não é por aí que nos virá maior mal. Um fundo étnico de coesão e afirmação autonómica que pode eventualmente manifestar-se em pessoas individuais (e antes de Viriato não esqueçamos, nesses quase cem anos de resistência ao Império, os nomes de outros chefes: Púnio, Cauceno, Causaro...) que são como símbolos vivos duma norma colectiva fundamental, mais do que (im)propriamente indivíduos “excepcionais”. (Aquelas “personalidades de excepção” tão apreciadas pelos autoritarismos e sebastianismos políticos.) São tipos individuais típicos dum perfil comum de fundo, - e é por isso mesmo que podem tornar-se tão “populares”, sendo a sua acção tão profundamente (con)sentida e colectivamente memorável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, o nosso problema permanece. E, como disse, dificultado por um factor sobreveniente: - a predicação do Cristianismo. Julgo que este povo português, feito das relações tensas entre tantos povos, se confirmou então no que já antes uma longa experiência anterior lhe ensinara: - nenhuma solução política viável que valha a pena, enquanto os homens forem o que são. (Se fossem perfeitos, nenhum problema político haveria). Portanto, tomou as suas distâncias e concentra-se na sua casa familiar, parentes e amigos. (Uma concentração sábia, se é verdade que o mundo político é a&lt;em&gt; &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/11/da-matricial-origem-do-poder-um.html#links"&gt;natural expansão&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;&lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/11/da-matricial-origem-do-poder-um.html#links"&gt; &lt;/a&gt;dos problemas das relações intra e inter-familiares.) E não é já sem relutância que participa nas questões da freguesia ou do concelho. Quanto às questões “nacionais”, deixa essa tentação para “os políticos”, de vistas largas, grandes ideais e discursos de gente instruída e sofisticada: “eles é que estudaram, eles é que sabem”...&lt;br /&gt;Sinto que, para os nossso portugueses, a solução política seria a mais radicalmente simples: - Que viva cada um como lhe apraz, e deixe os outros em paz! Solução impossível... Portanto, se não pode ser, veja cada um o que pode fazer na sua própria casa, e comece por aí...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um problema que permanece ainda complicado por outros dois, inseparavelmente conexos, que também nunca resolvemos bem entre nós: o da economia (cá na nossa terra gostamos mais de gozar que de trabalhar...) e o da justiça ( o inextricável problema de “quem é a culpa”, e detestamos castigar, e sabemos que é inevitável)… A propósito da última, sempre achei notavelmente impressiva e significativa a quantidade de provérbios portugueses desconfiados e reprovadores das justiças humanas. E veja-se este delicioso trecho da célebre &lt;em&gt;Carta de Bruges&lt;/em&gt; (&lt;em&gt;circa &lt;/em&gt;1425) enviada pelo infante D. Pedro a seu irmão mais velho e já de facto regente, D. Duarte: « A justiça, senhor, que é outra virtude, me parece que não reina nos corações daqueles que têm cargo de julgarem em vossa terra (...). Parece-me, senhor, que a justiça tem duas partes: uma é dar a cada um o que é seu, e a outra dar-lho sem delonga. E ainda que eu cuido que ambas em vossa terra falecem, da última estou bem certo; e esta faz tão grande dano em vossa terra, que em muitos casos aqueles que tarde vencem ficam vencidos; e eu vejo em vossa corte muitos oficiais de justiça, e de todos eles sairem mui poucos desembargos .... » Os que tarde vencem, quando vencem…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Permanências e premências de um problema, não excepcional, mas que nesta finisterra parece abismar-se num mar de dificuldades insuperáveis...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ Não são apenas questões de ordem social e cultural que permanecem. Num livro recente ( &lt;em&gt;O Património Genético Português&lt;/em&gt;, 2009, de Luísa Pereira e Filipa Ribeiro), as autoras informam-nos de alguns resultados da nova “Arqueogenética” aplicada à “história humana preservada nos genes” (é o subtítulo do livro): cerca de 80% das linhagens genéticas dos portugueses vêm-nos do... Paleolítico. Por sinal que há no livro (pp.81-82) cobertura para a tese duma expansão da nossa cultura megalítica para a Hibérnia e a Grã-Bretanha, em concordância com os dados já antes obtidos e divulgados (em 2006, mas não mencionados no livro) pelo geneticista de Oxford &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Bryan_Sykes"&gt;Bryan Sykes&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;Sobre esta cultura megalítica e a sua relação com a mítica Atlântida, o leitor mais português que europês terá muito interesse em ver as pp. 91-155 do vol. I de &lt;em&gt;Portugal: Razão e Mistério&lt;/em&gt; (1986), do citado &lt;a href="http://antonioquadros.blogspot.com/"&gt;António Quadros&lt;/a&gt;. ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-218179071803395487?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/218179071803395487/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=218179071803395487&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/218179071803395487'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/218179071803395487'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/09/um-enigma-portugues.html' title='UM ENIGMA PORTUGUÊS'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-2487919259939712083</id><published>2010-09-10T23:11:00.002+01:00</published><updated>2010-09-10T23:15:58.724+01:00</updated><title type='text'>POVOS ANTIGOS</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TIqtMkp-Z7I/AAAAAAAAAn0/PVskbXL1JQM/s1600/Romanos+e+B%C3%A1rbaros.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5515411125178361778" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 314px; CURSOR: hand; HEIGHT: 309px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TIqtMkp-Z7I/AAAAAAAAAn0/PVskbXL1JQM/s320/Romanos+e+B%C3%A1rbaros.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;« Quem não entenda, ou finja não entender, que as invasões de povos constituem um dado essencial das sociedades euro-asiáticas da Antiguidade, não compreende nada do que então se passou. »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecemos onde diz-se terá começado a História: as planícies do “crescente fértil” entre os rios Tigre e Eufrates, a região do actual Iraque; sim, as mesmas que têm sido um pantanal para as tropas regulares do exército mais poderoso que já pisou a Terra (ajudadas de 40 mil “contractors”, assoldados por empresas de segurança privadas), agora em processo de discreta e inglória retirada. Muitos outros por lá passaram e sumiram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há dois mil e trezentos anos antes de Cristo, mandava lá nessa zona da Mesoptâmia o império de Acad, herdeiro da Suméria, que se estendia do sul da Anatólia até ao actual Barém, no golfo Pérsico. A sudeste, para além do Sinai, o Egipto ia na VI dinastia do Império Antigo, já com cerca de dois mil anos de existência. Para leste, nas margens do Indo, florescia a civilização urbana de Harappa e de Mohenjo-Daro, com uma escrita de tipo hieroglífico, ainda hoje indecifrada. Estes estados centralizados em grandes cidades, propriamente civilizados, contrastavam com a multidão dos povos ainda nómadas, como os das estepes euro-asiáticas. Estavam neste caso os da região de Yamnaya, que se estendia desde os mares Negro e Cáspio até aos Urais. É o berço dos indo-europeus. Os primeiros que deixaram nome seriam os Umman Manda, os quais, descendo pelo Cáucaso, ocupam os planaltos arménio e anatólio; contidos pelo rei Sargão de Acad, divergem para o planalto iraniano e demandarão depois o vale do Indo. Terá sido esta uma das primeiras vagas invasoras dos indo-europeus, a que sucederão outras, séculos depois. Entre os Umman Manda contavam-se os que viriam a ser chamados Cimérios, Medos, Assírios (“Sírios brancos”, em grego), os Sindos (que deram nome ao Indo) e os Citas. Vinham de longe e foram para longe, porque foram os primeiros  utilizadores do cavalo de montada: tão longe quanto… a Península Hispânica, cujo nome antigo – &lt;em&gt;Ibéria&lt;/em&gt; – era na Antiguidade o nome duma região caucasiana onde fica hoje a Geórgia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De facto estes povos indo-europeus deslocaram-se também para o Ocidente, e não terá sido a primeira vez. Deles nos ficaram vestígios, os mais antigos datáveis de cerca de 3 000 a. C: para além da célebre cerâmica de feitio campaniforme, os não menos famosos ídolos-placa representando uma divindade com olhos grandes de coruja, representação duma deusa-mãe que teria talvez sido cultuada por onde estamos nós hoje, com o nome de “Ammaia”: é o nome dum povoado que chegou à época romana, sito nos “montes ammaienses” – a serra de S. Mamede e uma região onde a vivaz festa das &lt;em&gt;maias&lt;/em&gt;, tão preferida e protagonizada por jovens raparigas, só viria a fenecer no séc. XX d. C..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma referência inédita e curiosa (apoiada em referências de Estrabão, geógrafo grego do séc. I a. C. e Diodoro Sículo) é a presença de povos de cepa indo-ariana de língua Konkani (próxima do sânscrito) na nossa Península, pelo séc. XIII a. C., com origem no reino de Mitanni, na Alta Mesoptâmia. Expandiram-se para a região sírio-palestina, depois para o litoral norte-africano, donde alcançariam a Ibéria. Teriam sido empurrados pela grande migração que os egípcios registaram como a “invasão dos povos do Mar” (do mar Negro): os Sardos, os Calibes, os Bizeres, os Zela, os Hurritas, Mésios, Danaos (os homéricos Aqueus, sitiadores de Tróia) e os Teucros. Estes dois últimos fizeram deslocar os Estrímnios da Trácia para a Bitínia e mais para leste. É de lembrar que o famoso geógrafo romano Avieno (séc. IV d. C., mas apoiado em fontes gregas muito mais antigas) dará à região mais ocidental da Ibéria o nome Ofiussa, e dirá que era habitada pelos Estrímnios (à letra: povos do Ocidente). Ora, os tais povos de língua konkani serão os Concanes, de que nos falam Silo Itálico (séc. I d. C.) e Cláudio Ptolomeu (séc. II d. C.) como habitando o noroeste da Península Ibérica. Será o topónimo Concão (na freguesia de Poiares, Ponte de Lima) um paleolinguístico vestígio desse antiquíssimo etnónimo?... O Concão é o nome duma região da Índia, onde fica Goa  e se fala o konkani.  Muitos séculos mais tarde, « quando Afonso de Albuquerque, em 1510, escolheu Goa para capital portuguesa do Oriente não sabia que ia ocupar uma zona habitada por populações que tinham a mesma origem que alguns dos seus soldados e marinheiros.» Uma coincidência não tão notável assim, porque o mundo é redondo e andamos nele desinquietos há muito tempo: « os Concanes são apenas um dos inúmeros exemplos de fluxos e refluxos de povos na Euro-Ásia, movimentos que se mantiveram incessantemente por toda a Antiguidade e Idade Média.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não for ainda mais antiga, a chegada dos primeiros povos indo-europeus à Estrímnia ou Hespéria, depois chamada Ibéria deu-se seguramente desde os finais do 3º milénio a. C. até ao final da Idade do Bronze (c. 1000 a. C.). É a civilização dos povoados fortificados em “castros”, dos quais os mais antigos (dos finais do 3º milénio) estariam na  Estremadura portuguesa, com exemplos em Vila Nova de S. Pedro (Azambuja), Zambujal (Torres Vedras) e Leceia (Oeiras); dos vasos de cerâmica campaniforme, dos machados de talão, das estelas decoradas com motivos geométricos e (no sudoeste da Península) com motivos antropomórficos e uma escrita ainda hoje indecifrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vieram uns por mar, integrados nas referidas invasões dos “povos do Mar”, vindos do Egeu, da península balcânica e do litoral da Anatólia. É o tempo da chegada dos Danaos-Aqueus a Tróia e do fim da civilização micénica. Entre estes povos contavam-se também os já mencionados Teucros (associáveis ao herói Teucro, da Ilíada), que fundaram Salamina, ocuparam Chipre e, viajando pelo Mediterrâneo, vieram a desembarcar perto de Cartagena, no sul da Hispânia, chegando posteriormente até à Galiza. O povoado chamado &lt;em&gt;Hellenes&lt;/em&gt;, que ficava no noroeste peninsular, e a presença de &lt;em&gt;Helleni &lt;/em&gt;e dos &lt;em&gt;Grovii &lt;/em&gt;na nossa região de Braga, teria esssa origem. Como se vê, a mais moderna historiografia não desdenha olhar com mais compreensão a “mítica” e “fabulosa” lenda de um grego – Ulisses – ter chegado à região de Lisboa, que lhe teria herdado o nome (talvez mais provavelmente de origem céltica, Lixbona, como os das europeias Bona, Ratisbona, Narbona).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outros vêm por terra : os Cónios, os Cefes e os Cinetes, estes dois últimos chamados “celtas” pelos autores clássicos. De facto, entre os que vieram pelo interior continental (pressionados pelos Germanos) e introduziram entre nós a metalurgia do ferro estão os povos celtas, vindos do sul da Alemanha, França e Suíça, que se deslocariam também para leste até à Trácia e à Galácia (na Ásia Menor) e para o noroeste atlântico (Irlanda e Grã-Bretanha). Encontram-se entre nós desde pelo menos o séc. VIII a. C., principalmente no Alentejo e noroeste peninsular, aqui talvez desde data mais recuada. Não esqueçamos os Fenícios, Cartagineses e Lígures tão encarecidos pelos historiadores, mas de que a arqueologia e a paleolinguística não encontraram vestígios relevantes na área do território hoje português. Temos, sim, notícia certa duma chusma de povos – Pemanos, Eburões, Turões, Volcos, Nérvios, Túngrios, Draganes, Rúgios,Vazeus, Lusões e Vetões – de origem étnica pouco clara: admitem alguns que fossem de origem germânica, daquelas tribos que, em meados do séc. VI a. C., atravessaram o Reno e obrigaram os celtas a deslocarem-se mais e mais para ocidente. Teriam corrido atrás deles até aqui? Teríamos então uma primeira vaga germânica, antecedente da dos Vândalos, Alanos, Suevos e Visigodos nos começos da Idade Média.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não esqueçamos, evidentemente, os famosos Lusitanos, de origem celta, segundo querem uns, ou celtizados, segundo outros. Duas hipóteses inovadoras: seriam eles associáveis aos Tapori, que Plínio (séc. I d. C.) diz habitarem numa região da vertente ocidental da serra da Estrela ou na zona de Castelo Branco. Estes Tapori seriam da mesma origem que os Tapúrios, junto aos montes Elburz, a leste de  Teerão; Ptolomeu (séc. II d. C.) dá-lhes origem nos montes Tapúrios, na Ásia central. Mas as nossas incrições (ainda por decifrar) de Cabeço das Fragas e de Lamas de Moledo, que têm sido associadas aos Lusitanos, não revelam uma língua com semelhanças ao sânscrito ou ao velho iraniano. A outra hipótese, talvez mais consistente, é a origem ilírica. Os Ilírios ocuparam no primeiro milénio a. C. a região da Trácia, áreas dos Balcãs, da actual Albânia e até no sul da Hungria. O ilírico é uma das línguas secularmente mais estáveis que os linguistas conhecem, e na nossa toponímia há uma série de nomes praticamente iguais a outros que ainda hoje existem nos Balcãs e na Albânia; mas também antropónimos e etnónimos, como os dos acima citados Gróvios, associáveis à cidade ilíria de Grofes. Se o nome de Viriato é claramente celta, os dos seus dois assassinos Ditalco e Audaca seriam de raíz ilírio-trácia. (Mas, no texto grego do historiador Apiano, aparece Audax, nome de sabor gaulês...) Recorde-se que os Estrímnios, de que se falou acima, seriam originários da Trácia. Do que não há dúvida nenhuma é que são dos povos celtas os mais numerosos e extensos vestígios, nas fontes escritas, na arqueologia, na toponímia e na hidronímia, com importantes contribuições quer do céltico continental, quer do insular. Para além dos Sefes e dos Cempsos, no sul actualmente português, os Bogontes, Brigantes, Equesos e Brácaros, a norte, seriam também celtas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isto impõe pelo menos duas conclusões incontestáveis: « A nossa história não começa com D. Afonso Henriques. No séc. XII já tem milénios, e a Idade Média portuguesa nunca será poderá ser entendida se não for enquadrada numa longa tradição civilizacional para a qual os obscuros Indo-europeus do II milénio a. C. e vários outros povos pré-romanos deram uma contribuição fundamental. » E como corolário:&lt;br /&gt;«Tal significa que podemos afastar completa e definitivamente a tese do “ermamento” seja em que período temporal for, desde pelo menos a Idade do Bronze, e seja em que parcela do território continental se localize. » É o que os trabalhos arqueológicos já feitos ou ainda em curso por causa da barragem do Alqueva têm mostrado para o Alentejo: quanto mais se recua no tempo, mais povoamento aparece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;[ A parte mais substanciosa e todas as citações deste postal são de  duas inovadoras (e heterodoxas) obras de João Ferreira do Amaral – &lt;em&gt;Os Filhos de Caim em Portugal. Povos e Migrações no II Milénio Antes de Cristo&lt;/em&gt; (2004) – e do mesmo com seu irmão Augusto Ferreira do Amaral,  &lt;em&gt;Povos Antigos em Portugal&lt;/em&gt;. &lt;em&gt;Paleoetnologia do Território Hoje Português&lt;/em&gt; (1997). ]&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-2487919259939712083?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/2487919259939712083/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=2487919259939712083&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/2487919259939712083'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/2487919259939712083'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/09/povos-antigos.html' title='POVOS ANTIGOS'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TIqtMkp-Z7I/AAAAAAAAAn0/PVskbXL1JQM/s72-c/Romanos+e+B%C3%A1rbaros.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-639748212618780715</id><published>2010-09-07T00:18:00.004+01:00</published><updated>2010-11-26T14:18:44.237Z</updated><title type='text'>JOSÉ RELVAS</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TIV4WKSboPI/AAAAAAAAAns/S8LUxOSNGJA/s1600/relvas.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 244px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5513945640899158258" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TIV4WKSboPI/AAAAAAAAAns/S8LUxOSNGJA/s320/relvas.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Foi este o homem do directório do Partido Republicano que anunciou aos lisboetas, da varanda da Câmara Municipal, a 5 de Outubro, o triunfo do novo regime. Depois de ter passado, contra vontade sua, pelo ministério das Finanças do 1º goveno provisório da República, José Relvas foi nomeado embaixador em Madrid, onde esteve entre 1911 e 1913. Nessa missão delicada viria a conseguir, em Setembro de 1912, um acordo diplomático com o governo de Madrid, terminando este a cobertura mais ou menos discreta às incursões da reacção monárquica a partir da Galiza.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Retirando para a sua casa de Alpiarça, sem pertencer a nenhum dos partidos que, desde o Congresso Republicano de 1911, se digladiavam entre si pelo poder, voluntariamente afastado da política activa e de um protagonismo que nunca quis para si, as superiores qualidades políticas e pessoais que desinteressadamente revelara ao serviço do Estado não seriam esquecidas. Em Janeiro de 1919 ver-se-ia chamado à chefia do governo, de que tomou posse a 27, num momento da vida política que qualificou de “pavorosa confusão”. Os monárquicos haviam proclamado a 19 a restauração da Monarquia, no Porto, dominando o país até ao Vouga, durante cerca de um mês. Após enfrentar e dominar com êxito a crise, propôs-se José Relvas um “regresso ao 5 de Outubro”, tentando convencer os partidos à respectiva reorganização em bases programáticas claras e coerentes, e levar o presidente da República à dissolução do Parlamento. Certo dia de Fevereiro pensou tê-lo conseguido, e anotou isto no 2º volume das suas &lt;em&gt;Memórias Políticas&lt;/em&gt; ( Lxa., 1ª ed. 1978), em carta a um “amigo” anónimo:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;« No meu regresso de Belém tornou-se logo conhecida a resolução do Governo e a anuência do presidente. &lt;em&gt;O Século&lt;/em&gt; mandava, à 1 hora da tarde afixar a notícia no &lt;em&gt;placard&lt;/em&gt; do Rossio. Mas, a pedido de Cunha Leal e dos seus amigos, o &lt;em&gt;placard &lt;/em&gt;foi retirado. Às 3 horas realizava-se o grande comício no Coliseu, ocultando-se ao povo o decreto da dissolução. O Cunha Leal – &lt;em&gt;comediante-tragediante&lt;/em&gt; [sic] – sabendo que o Parlamento já não existia, resignou o seu mandato de deputado perante o comício. E acrescentou que, se o governo não decretasse a dissolução, convocava desde já o povo para dissolver o governo! E em verdade pouco faltou para que a ameaça se realizasse, pois no meio dos tumultos provocados com a polícia nas ruas do Ouro e dos Capelistas esse farsante subiu as escadas do Ministério do Interior, acompanhado de populares, que a breve trecho entravam violentamente no meu gabinete, armados com pistolas e espingardas, invectivando-me e não me tendo morto graças à oportuna intervenção de Tito de Morais, ministro da Marinha, secundado por outras pessoas revoltadas com a infâmia que estavam presnciando. Perante o recuo dos assassinos, Cunha Leal que os capitaneava, metido no vão de uma janela do meu gabinete, dizia: - “Não tem dúvida, daqui a meia hora”! Era com efeito insustentável a posição no ministério do Interior. Resolvemos refugiar-nos no Quartel do Carmo e, ao abrigo de um golpe de força, resolver como devíamos defrontar os acontecimentos. Entretanto nas ruas do Ouro e dos Capelistas, continuava o tiroteio com a polícia, obrigada a defender-se dentro já da esquadra do banco de Portugal. Havia mortos e feridos. O primeiro polícia fora morto à porta do Ministério.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Na arcada encontrei de novo o Cunha Leal e populares armados. A atitude de meu filho Carlos e das pessoas amigas que me acompanhavam evitou a segunda tentativa de assassinato. Já a bomba tinha feito o seu aparecimento, e foi sob um tiroteio nutrido e o estalar das bombas que atravessámos o Largo do Município e as ruas que percorremos até ao Carmo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Como V. vê não se fez esperar a retribuição dos sacrifícios que estou fazendo pela República! »&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Relvas teve sorte de escapar ao mesmo fim de que não escapou dois anos mais tarde primeiro ministro António Granjo, assassinado um mês depois da queda do seu governo, na “Noite Sangrenta” de 19 de Outubro de 1921, em que também foram assassinados Carlos da Maia e Machado Santos. Aguentou-se na chefia do governo até 30 de Março de 1919. Deste mês é outra das cartas que escreveu ao anónimo amigo sobre esta experiência, e em que se pode ler a abrir:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;« Com os políticos dos partidos históricos da República temos a impressão de que não sabem bem o que querem, fora do estreito critério da posse do poder. Não se consegue que formulem um corpo de doutrina, que possa agremiar simpatias e esforços para uma obra de redenção. Entretanto o mesmo não sucede com os partidos avançados, em luta contra a própria República. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;[ Transcreve aqui um trecho do jornal anarco-sindicalista &lt;em&gt;A Batalha&lt;/em&gt;, e conclui assim esta carta.  ] Os partidos vão abdicar perante o bolchevismo ou perante uma ditadira férrea. Suicidam-se estupidamente! »&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Já de novo em Alpiarça, “restituído à paz da minha casa e da minha consciência”, escrevia em outra carta, com data de 5 de Abril:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;«Voltaremos às mesmas lutas estéreis, ao mesmo desinteresse dos problemas nacionais, às mesmas intrigas ambiciosas, e ao cabo de um período mais ou menos longo outra ditadura virá renovar os dias de Pimenta de Castro [1915] e de Sidónio Pais [1917-18] (...). Uma ditadura que manterá apenas um simulacro de República, ou que será uma transição para a Monarquia. E essa será a maior responsabilidade dos partidos, que, a despeito de todas as experiências e de largas provações, são incorrigíveis nos seus processos e na na aceitação das mais comprometedoras solidariedades. »&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Seguir-se-iam, por espaço de sete anos, até ao golpe militar que pôs termo à 1ª República, mais vinte e seis governos...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-639748212618780715?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/o-odio-acumulado-1914-1915.html' title='JOSÉ RELVAS'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/639748212618780715/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=639748212618780715&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/639748212618780715'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/639748212618780715'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/09/jose-relvas.html' title='JOSÉ RELVAS'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TIV4WKSboPI/AAAAAAAAAns/S8LUxOSNGJA/s72-c/relvas.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-6645856093981674143</id><published>2010-09-03T00:12:00.003+01:00</published><updated>2010-09-03T00:31:55.158+01:00</updated><title type='text'>UM ARGUMENTO ATEU...</title><content type='html'>... A favor da existência de Deus ? Eis o que me proponho neste apontamento de hoje, na sequência doutros anteriores sobre &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/o-argumento-ateista.html"&gt;o “argumento do mal”. &lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Excluída a possibilidade de um Deus maligno sadeano, os argumentadores ateus evocam habitualmente a quantidade e atrocidade do sofrimento humano e animal provocado pelos desastres naturais e pelas perversões morais. Infelizmente, esta quantidade e qualidade podem ser ainda mais aumentadas do que eles pensam: por um lado, se não só humanos e animais fazem e sofrem o mal mas também agentes “sobrenaturais”, e não só no segmento temporal deste mundo mas também noutro, infernal, obstinadamente prolongado sem limite temporal em face do Eterno; por outro, se não só os humanos e animais sofrem o mal – mas também &lt;em&gt;o próprio Deus&lt;/em&gt;, que sofreu até à morte que os homens se podem dar e sofrer. (Tudo, evidentemente, sofrimentos que os ateus acreditam “fictícios”, mas que nem por isso deixam de acrescentar um real sofrimento aos que nisso acreditam.) Nestes casos, existitiriam mais e maiores males dos que o argumento assume. Ora, uns ou outros, todos eles não são de maneira nenhuma desconhecidos de uma tradição que na Bíblia hebraica lê os livros de &lt;em&gt;Job&lt;/em&gt;, do &lt;em&gt;Qohélet&lt;/em&gt; (o "Eclesiastes") ou de &lt;em&gt;Ben Sirah&lt;/em&gt; (o "Eclesiástico"); e que na cristã lê as narrativas da Paixão e morte do Emanuel (“Deus connosco”), sem esquecer as perseguições e torturas dos cristãos martirizados. E esta consciência do mal – consciência vivida e sofrida na pele -, sempre se afirmou e pensou compatível com a crença na existência de um Deus sumamente bom, omnipotente e omnisciente. Portanto, parece que o “argumento” do mal o que mais seguramente demonstra é... a descrença do argumentador ateu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu argumento parte da situação cultural inédita em que estamos no mundo pós-1789, e que parece única na História do &lt;em&gt;sapiens&lt;/em&gt;. É a situação existencial de que um Nietzsche deu clamoroso sinal com o “Deus morreu!”. (Morte sociológica; mas, como lembrei há pouco, a morte de Deus não é novidade nenhuma para um cristão.) Uma situação que o Ocidente, noutros séculos “missionário”, vai hoje difundindo em fase de “globalização”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há, pois, no mundo natural, social, cultural e moral nenhum sinal “evidente” da presença de Deus algum, e a vivência social da Fé evanesce até desaparecer de todo. Tal é a primeira premissa do argumento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda, retoma em favor do ateu aquela célebre máxima dos &lt;em&gt;Karamasov&lt;/em&gt;, do grande Dostoievski - “Se Deus não existe, então tudo é permitido” -, associando-lhe aqueloutra de Sartre: - e tudo é permitido &lt;em&gt;porque &lt;/em&gt;“estamos condenados à liberdade”. Precisamente: somos livres e, porque não há nenhuma “essência” pré-fixada sobre o que é ser ou não ser humano, inteiramente livres para prolongar a existência humana na Terra, acabar com ela, ou transmutá-la numa “sobrehumanidade” nietzscheana ou outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terceira premissa: se inteiramente livres num mundo inteiramente subordinado a leis da Natureza, então somos seres excepcionais no mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quarta: uma razão suficiente para a existência excepcional da liberdade no humano é este ter sido criado livre, à imagem e semelhança de um Criador livre e independente de leis da Natureza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sendo este Criador Deus, logo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O argumento depende, entre outras coisas, da existência real da liberdade, algo que é um mero postulado da razão prática kantiana e não um facto do conhecimento, a priori ou a posteriori, da razão teórica; e eu próprio tenho defendido que, nas condições em que vimos, estamos e saímos &lt;em&gt;deste &lt;/em&gt;mundo, é mais apropriado e verosímil falar em motivo &lt;em&gt;ideal de&lt;/em&gt; &lt;em&gt;libertação&lt;/em&gt; do que em liberdade, propriamente dita. No entanto, o ideal duma incondicionada transcensão do real condicionado, basta para timbre da excepcionalidade humana. E isto parec estar conforme com um sentido legível no factos da História humana: o de uma busca constante de &lt;em&gt;auto-determinação&lt;/em&gt; relativamente aos constrangimentos naturais e sociais (a ponto de alguns pensarem que “Deus” seria um obstáculo a essa auto-determinação).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ao mais, o meu argumento ateu a favor de Deus deve ser tomado aqui pelos leitores do Tonel com sua ponta de sal cínico (ou céptico)... É que eu não creio haja ou possa haver neste assunto algum argumento conceptual demonstrativo, neste sentido: que fosse dedutivamente válido, epistemologicamente sólido e retoricamente convincente, de tal modo que um ser racional estivesse por qualquer modo &lt;em&gt;obrigado &lt;/em&gt;a aceitá-lo. Ora, se assim fosse, ficava mais impedida a liberdade (o que não acontece, precisamente, com a &lt;em&gt;&lt;strong&gt;fé&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;, protectora dela). Portanto, o argumento apresentado acima não poderia ser nem pretender a tal...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O argumento quer somente significar duas coisas. Primeira, a importância decisiva da identidade humana: se é um animal como outro qualquer, ou se há neste animal alguma coisa de excepcional, único e irredutível à natureza biológica e mundana. Por outro lado, isto: se há um Deus livre que quer o homem livre, então seria de esperar um mundo possível em que a presença de Deus &lt;em&gt;não &lt;/em&gt;fosse aparente. (O que não implica que, se fosse aparente e inegável, a liberdade não fosse possível: sempre era, como mostra claramente o relato bíblico do paraíso genesíaco.) Tal mundo possível é o mundo da nossa modernidade, em que a presença de Deus é cada vez menos aparente e cada vez mais negável e culturalmente negada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Louvemo-nos de a modernidade ter contribuído para purgar e eliminar o que no mundo da nossa antiguidade eram simulacros caricaturais dessa Presença mistificada em idolátricas ideologias e costumeiras sociais institucionalizadas. Mas a clarificação tem um preço inescapável para a débil liberdade não regrada pela lei moral: - quanto mais nos cegarmos aos vestígios da presença de Deus no ambiente natural e social da vida humana, menos acesíveis teremos qualquer fundamento racional objectivo e moralmente imperativo para vermos sinais da dignidade e do respeito pelo nosso “próximo”; e muito mais apartados nos sentiremos todos dos outros animais e da inteira Natureza. O trágico século XX já foi um clamoroso e universal sinal disso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... Assim a quantidade e variedade dos males dão ocasião ao argumento do mal, e as triunfantes aparências deste multiplicam a quantidade e variedade dos males, reforçando o argumento do mal... O viciado círculo tem este desfecho fatal: o mau uso da liberdade esmagará a liberdade e a dignidade humanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, se a liberdade humana é um inapagável sinal de Deus...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-6645856093981674143?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/6645856093981674143/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=6645856093981674143&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/6645856093981674143'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/6645856093981674143'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/09/um-argumento-ateu.html' title='UM ARGUMENTO ATEU...'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-7455641706272539194</id><published>2010-08-30T00:10:00.006+01:00</published><updated>2010-08-30T00:38:56.142+01:00</updated><title type='text'>SAUDADE</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/THrpF2A5HSI/AAAAAAAAAnk/FwgbvKqw4D4/s1600/Flor+Ang%C3%A9lica.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5510973380649098530" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 221px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/THrpF2A5HSI/AAAAAAAAAnk/FwgbvKqw4D4/s320/Flor+Ang%C3%A9lica.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ay flores, ay flores do verde pinho&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;D. Dinis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;É um sentido do coração .... E outras vezes vem daquelas cousas que aos homens praz que sejam, às vezes com tal lembrança que traz prazer e não pena&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;D. Duarte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não é logo a saudade&lt;br /&gt;Das terras onde nasceu&lt;br /&gt;A carne, mas é do Céu&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Camões&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ah, saudade minha, luz divina!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Frei Agostinho da Cruz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;É legitimo argumento da imortalidade do nosso espírito, por aquela muda ilação, que sempre nos está fazendo interiormente, de que fora de nós há outra cousa melhor que nós mesmos, com que nos desejamos unir. Sendo esta tal a mais subida das saudades humanas: como se disséssemos um desejo vivo, uma reminiscência forçosa, com que apetecemos espiritualmente o que não havemos visto jamais, nem ainda ouvido, e temporalmente o que está de nós remoto e incerto.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;D. Francico Manuel de Melo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;É um finíssimo sentimento, e pena de um bem ausente com desejo de o lograr. Não disse de um bem perdido, porque também há saudades de bens ainda não possuídos, nem perdidos, nem esperados.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Rafael Bluteau&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Saudades de tudo&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;António Nobre&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Tudo é saudade&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Teixeira de Pascoaes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;E também a natureza angélica da Saudade então de todo e finalmente estará declarada.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Dalila Pereira da Costa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/07/um-encontro-em-outubro-de-1911.html#links"&gt;1911&lt;/a&gt;, descia um velho do grande Marão que não dá palha nem grão a revelar uma “religião lusitana”, “anti-romana” e entronizar uma “Virgem redemptora” chamada “Saudade”. Doze anos depois, o filósofo Leonardo Coimbra, amigo de Teixeira de Pascoaes e um dos grandes patrocinadores do movimento da &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/05/renascenca-portuguesa.html#links"&gt;Renascença Poruguesa &lt;/a&gt;, repunha a revelação “lusitana” no quadro da maior razão portuguesa e católica:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;« Mas há uma Religião que é a mais alta e nobre expressão da Saudade, porque apresenta o homem como um viajante desta vida em procura da verdadeira Pátria do Infinito.&lt;br /&gt;É o Cristianismo.&lt;br /&gt;O Éden era a Pátria, donde o homem foi escorraçado como consequência da revolta da sua vontade contra a união amorosa com o Deus criador.&lt;br /&gt;Tombado do Éden, como fora o anjo rebelde da presença de Deus, eis que o homem caminha, em exílio, por entre a matéria rebelde. Esta cai para a Morte e, de olhos ainda deslumbrados pelo Sol da Vida, vê o desfazer-se em poeira dos mundos pelo Espaço na agonia dum coração ameaçado.&lt;br /&gt;O seu coração que fora de luz sente-se dum barro que o Vento vai pulverizando; mas a Saudade do Éden é o bendito óleo que faz arder ainda aquela luz originária. »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A &lt;em&gt;luz divina&lt;/em&gt;, de frei Agostinho da Cruz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E em Agosto de 1955, na &lt;em&gt;Revista Filosófica&lt;/em&gt; de Coimbra, o professor Sílvio Lima corroborava:&lt;br /&gt;« O &lt;em&gt;drama da saudade está numa atitude ou comportamento vivencial de inadaptação não resignada perante o presente&lt;/em&gt;; o eu, retrotraído e retroflectido pela lembrança contemplativa e ensimesmada de algo ausente e amado, debate-se como pássaro ferido contra a muralha do presente, porque deseja que esse presente lhe restitua como libertação e salvação (a &lt;em&gt;salutate &lt;/em&gt;bíblica, donde proveio o vocábulo “saudade”, no pensar da sábia D. Carolina) o “paraíso perdido”. A tortura punitiva de Adão não jaz só na lembrança do éden terreal que o seu pecado dele distanciou; reside &lt;em&gt;ao mesmo tempo&lt;/em&gt; na ansiedade queimante de regressar ao Reino de Deus....» (itálicos do autor).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sílvio Lima respondia ao seu amigo e professor da mesma Universidade de Coimbra, Joaquim de Carvalho: assim a saudade não era sobretudo retrotensa (voltada para o passado), mas “indivisa e simultaneamente” –&lt;em&gt; intensa&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;protensa&lt;/em&gt;. Em dois artigos anteriores, publicados na mesma revista – &lt;em&gt;A Problemática da Saudade&lt;/em&gt;, de 1951, e &lt;em&gt;Elementos Constitutivos da Consciência Saudosa&lt;/em&gt;, de 52 – Joaquim de Carvalho como que retirara as escoras do dique, e represadas torrentes duma copiosa literatura ensaística encheram os campos culturais português e galego (documentável na &lt;em&gt;Antologia&lt;/em&gt; de 1986, por Afonso Botelho e António Braz Teixeira). A esta manobra não faltou a mão, mais enrugada mas não menos entusiasmada, de Pascoaes, na última conferência pública que proferiu, em Lisboa, Março de 1952, o mesmo ano do seu trespasse: espécie de síntese e testamento do seu pensamento &lt;em&gt;Acerca da Saudade&lt;/em&gt; (publicada em 1973). Até parece que se tinha entrado na &lt;em&gt;Era Lusíada&lt;/em&gt;, que o profeta do Marão anunciara em 1914, e reafirmava agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, após 1986, foi o deserto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filósofo Sílvio Lima obtemperava também ao seu confrade académico que haveria Saudade, não apenas na adultidade ou na velhice, mas já na criança, alegando então recentes descobertas da investigação psicológica ( entre outros, cita “João Piaget, o finíssimo perscrutador suíço da psique infantil” ). Podia ter citado antes o nosso Camões ( &lt;em&gt;As lágrimas da infância já manavam / Com uma saudade namorada &lt;/em&gt;), ou Pascoaes ( &lt;em&gt;Infinita lembrança / Que enchia a minha alma de criança&lt;/em&gt; ). Chega depois a questionar-se sobre se a “infra-estrura biológica” de certos traços comportamentais daguns animais não teria já “notas vagas, surdas, infra-liminais”, incoações pré-humanas da humana vivência saudosa. E mais ainda, considerando, « não o Deus dos filósofos [mas sim] o Deus vivo, pessoal, não se poderá falar da saudade em Deus e de Deus ? Diz o nosso ardente Frei Tomé de Jesus: “Christo chora como o fogo que não tem lenha”. Se Adão verte saudades de o “paraíso perdido”, Deus – como Pai amantíssimo – sofre também dos seus pecados, da sua “ausência” e anela o pronto regresso do “filho pródigo”; por isso, num infinito sacrifício de amor, desce até à humanização na pessoa de Cristo. » Uma proposta também acolhida, em todos os sentidos, pelo hetrodoxo e peremptório Pascoaes: « Só existe a Saudade de Deus. »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teríamos pois que a Saudade abrange todos os seres, tal como todo o tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Cada um considere seu coração no que já por ocasiões várias tem sentido”, aconselhava-nos o leal conselheiro, el-rei D. Duarte. Ora, que cousas a homens &lt;em&gt;mais praz que sejam&lt;/em&gt; senão recolher a reviva flor da Alegria florida no coração, intacta, imune a qualquer velhice ? Dar-se-á então que perpétuas saudades são compatíveis com esse perpétuo &lt;em&gt;retorno do mesmo&lt;/em&gt;, de que falava Nietzsche ? O meu caro leitor lembrará sua conta de momentos vividos tão profundamente aprazíveis, que clamam pela eternidade, “profunda, profunda eternidade”. Pois então suponha que tornava a eles, tais quais foram, infinitas vezes, por um tempo infinito... – Que infinita e desaprazível monotonia se, no entretempo, &lt;em&gt;não esquecesse&lt;/em&gt; num esquecimento total ! Mas a &lt;em&gt;lembrança&lt;/em&gt; é consubstancial à Saudade e, por isso, a correlativa &lt;em&gt;esperança &lt;/em&gt;há-de ser, não só do mesmo, mas conjunta e conjugada com uma real alteridade. Não é possível o esquecimento, e a petição saudosa é a petição de “uma vez mais” que, se não repetida temporalmente, é petição contra tempo ou para além do tempo: as perpétuas saudades são da eternidade, não duma temporal infinitude; ou então, se repetida temporalmente, “uma vez mais” seria outra vez melhor, sempre melhor, infinitamente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mais percuciente objecção não seria de Nietzsche, mas a do leitor encanecido e encavernado neste deserto: -“Nasci após 1985, e nada me praz que seja ou o que me praz é nada, porque estou aterrado" ...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respondo: - Então, sem nenhuma boa lembrança que apeteça a “profunda eternidade”, resta a boa esperança: dos &lt;em&gt;bens ainda não apetecidos, nem perdidos, nem esperados, com que apetecemos o que não havemos visto jamais, nem ainda vivido, e temporalmente o que está de nós remoto e incerto&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só há uma ermada &lt;em&gt;terra proibida&lt;/em&gt; em que a Saudade se não pode plantar: onde não há desejo nem desejado. Mas bem é desejar o que &lt;em&gt;deve &lt;/em&gt;ser desejado, sob pena de termos um menos&lt;br /&gt;« suave pungir de acerbo espinho » (Garrett) a sangrar na desesperada nostalgia, que muitas vezes é confundida com a Saudade. Se a ética desta não tem ficado muito transparente nas largas centenas de páginas da citada &lt;em&gt;Antologia &lt;/em&gt;de 86, será isso porque andamos sempre mais sentidos do&lt;em&gt; sentido do coração&lt;/em&gt; que reflectidos da razão? Ou talvez porque a luso-galaicos ela nos parecerá muito natural, desnecessitada duma kantiana vontade cuja lei moral parece apartada da Natureza: - « pois até a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus» (Paulo &lt;em&gt;Aos Romanos&lt;/em&gt; 8,19)...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;E as frols do verde pino, ó Dom Denis ?&lt;br /&gt;A edénica esperança do Futuro&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Pascoaes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A Saudade é a nossa Flor, a Flor dos Lusíadas&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Pascoaes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O nome desta flor sucena ou cecem se conserva entre nós mudadas poucas letras de Susana, que em hebraico se chama. Os latinos a nomeiam Flor real,&lt;/em&gt; Flos regia&lt;em&gt;, por ser mais que todas formosa e suavíssima em o cheiro. Entre nós significa saudades, nome que a língua espanhola não tem, nem os latinos&lt;/em&gt;....&lt;br /&gt;Frei Isidoro da Barreira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ Sobre a &lt;em&gt;Era Lusíada&lt;/em&gt; o que Pascoaes repetiu foi isto, em A&lt;em&gt; Velhice do Poeta&lt;/em&gt;, assinada de 28 de Maio de 1951: « Sim, a Era Lusíada aproxima-se.» E, na conferência Da Saudade, no ano seguinte de 52: « E teremos a advento da Era Lusíada, anunciada por mim, em &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/05/uma-alegria-nao-deste-mundo_23.html#links"&gt;Abril &lt;/a&gt;de 1914.» O Poeta falava, pois, do futuro. ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-7455641706272539194?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/7455641706272539194/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=7455641706272539194&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/7455641706272539194'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/7455641706272539194'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/saudade.html' title='SAUDADE'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/THrpF2A5HSI/AAAAAAAAAnk/FwgbvKqw4D4/s72-c/Flor+Ang%C3%A9lica.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-8418976861477097402</id><published>2010-08-30T00:04:00.003+01:00</published><updated>2010-08-30T00:34:23.673+01:00</updated><title type='text'>UMA VENERANDA RELÍQUIA</title><content type='html'>Vimos acima citada por Sílvio Lima a sábia Carolina Michaelis, que, explorando um alvitre já feito antes pelo filólogo Gonçalves Viana, ensaiou em 1914 explicar a evolução dos vocábulos &lt;em&gt;soydade&lt;/em&gt;/&lt;em&gt;soedade&lt;/em&gt;/&lt;em&gt;suidade&lt;/em&gt; para &lt;em&gt;saudade&lt;/em&gt;, por influência de saúde/sãidade/saludade. Cumpre lembrar que saúde tinha na Idade Média (como acontece no texto de que vou falar, onde também ocorre), o significado de salvação (da alma); com sentido fixado na nossa obsessiva preocupação actual com o “bem estar” do corpo, o vocábulo usado antanho era &lt;em&gt;sãidade&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na ocasião, a erudita senhora chamava a atenção para a estranha ocorrência precoce do termo saudade num manuscrito so séc. XIV, quando o termo se divulga e impões apenas no XVI. É de lembrar que já na primeira grande composição – &lt;em&gt;O Cuydar e Sospirar&lt;/em&gt; - com que abre o &lt;em&gt;Cancioneiro Geral&lt;/em&gt; (1516, mas abrangendo, na maior parte, textos e poetas da segunda metade do anterior) aparecia a mesma forma saudade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O manuscrito referido faz parte dum códice que foi do mosteiro de Alcobaça, e é uma narrativa titulada &lt;em&gt;Conto de Amaro&lt;/em&gt;, de autor anónimo, associável ao modelo da &lt;em&gt;Navegação de S. Brandão&lt;/em&gt; e a outras narrativas filiáveis na espiritualidade da &lt;em&gt;peregrinatio pro amore Christi&lt;/em&gt;, tipicamente distintivas do monaquismo irlandês, não estacionário (como o oriental) mas giróvago e missionário. Com efeito, aqui o monge não se fixa numa terra, mas lança-se aos mares, aonde Deus o quisesse levar, a longes terras, conhecidas ou desconhecidas (há quem defenda ter sido Brandão o primeiro a dar com a América); interessava-lhes muito particularmente a terra... do paraíso. No entanto, é curioso que, no texto português, Amaro e companheiros não são monges mas leigos (nos primórdios do movimento eremítico, no Egipto, encontram-se sobretudo leigos). Certo que no decorrer do périplo, não deixam de encontrar eremitas e cenobitas, masculinos e femininos, que os vão aconselhando e guiando. Mas a preponderância das &lt;em&gt;donzelas &lt;/em&gt;e &lt;em&gt;donas&lt;/em&gt; é uma das curiosidades notáveis, embora não inédita, do nosso Conto, sendo até que é travestido com o hábito duma monja, Brízida, e guiado por Valides, superiora do mosteiro da &lt;em&gt;Flor das Donas&lt;/em&gt;, que Amaro inicia a escalada do monte que o levará às portas do paraíso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abre assim o conto, em redacção actualizada:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;« Conta-se que em uma província havia um homem bom que havia nome Amaro, e diz-se que havia grã desejo de ver o paraíso terreal, e que nunca folgava senão quando ouvia falar dele. E em seu coração sempre rogava a Deus que lhe mostrasse aquele lugar, antes que ele do mundo saísse. E uma noite estando deitada, falou-lhe uma voz e disse-lhe: “Amaro, Deus ouviu a tua oração e quer cumprir o teu rogo e desejo. Vai-te à riba do mar e não digas a ninguém nenhuma cousa do teu feito, nem para onde vais. E mete-te em uma nave e vai-te onde Deus quiser guiar.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eis agora as duas ocorrências do termo saudade. A primeira é quando o monge Leomites se despede de Amaro : « - Meu senhor e meu amigo Amaro, grande saudade me ora deixais; beijai-me outra vez, que nunca jamais me vereis em este mundo, mas ver-nos-emos no outro, no paraíso, se Deus quiser. » A segunda, quando Valides e as suas freiras se despedem do mesmo: « - Ai, amigas, não choreis diante dele, que haverá grã coita [desgosto] e grã saudade. » Contextos típicos, como se vê. E diga-se que também há duas ocorrências da forma soydade, em contextos semelhantes, mas explicitamente associadas ambas ao desejo: « Ora tenho tristeza e soydade, ora tenho deseejos de meus companheiros.... » Efectivamente, Amaro tivera de se separar dos companheiros, e foi ele só que subiu ao monte, a « um castelo mais grande e mais alto e mais fermoso de quantos no mundo havia, e estava em garande chão na cima daquela serra ». Chegado à porta do castelo encontra um porteiro, e roga-lhe entrada. Responde-lhe o porteiro que « ainda não é tempo»; mea, entendendo que Amaro era «homem de santa vida», acede a entreabrir-lhe as portas do « paraíso terreal em que Deus fez e formou Adão». E é do limiar que se abre a visão ao contemplado peregrino que o contempla... « E tudo isto viu Amaro, que não perdeu migalha, e disse ao porteiro: “Amigo, colhe-me dentro!” » Repetido rogo, repetida nega. Mas o porteiro acrescenta informações curiosas: « “E eu bem sei que tu não vieste aqui senão pelo Espírito Santo, cá tu não comeste nem bebeste, nem mudaste tuas vestes, que são mui fermosas, nem envelheceste.” E Amaro disse: “Hoje em este dia à hora de terça comi e bebi, antes de aqui chegar.” E o porteiro lhe disse: “Amigo, crê verdadeiramente que hoje neste dia são passados duzentos e sessenta e sete anos que tu estás a esta porta, e nunca te afastaste dela. Mas, amigo, vai-te daqui, que já tempo é, e crê bem que tu não entrarás cá em este paraíso terreal, mas cedo irás ao paraíso dos anjos, que é nos céus, que é melhor que este. »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aconteceu, pois, a Amaro o mesmo que tinha acontecido àquele monge da célebre Cantiga 103 das alfonsinas &lt;em&gt;Cantigas de Santa Maria&lt;/em&gt;, cuja epígrafe é: “ Como Santa Maria feze estar o monge trezentos anos ao canto do passarinho porque lle pedia que lle mostrasse qual era o ben que avian os que eran en Paraiso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amaro tinha comido às 9 da manhã, citando a típica divisão do tempo medieval, cujos dias eram regrados pelo cânone dos ofícios monásticos, assinalados pelo toque dos sinos: começava à meia-noite, com o toque das Matinas; o de Laudes era às 3 da manhã; Primas, às 6; Terça, às 9; ao meio-dia, a hora de Sexta; a Nona, ou Noa, às 15; Vésperas, às 18 e Completas às 21 horas. Amaro saíra « à hora de prima», «tanto que veio a luz», a hora a que ouvia missa enquanto esteve no mesteiro de Flor das Donas. Mas não diz o texto que saiu depois dela, mas apenas que foi por essa hora que saiu com a superiora Valides a «um rio mui grande que saía daquela serra». Ora, este rio «vinha cheio de pomos e de flores.» Terá sido destas águas e destes frutos que Amaro comeu e bebeu « à hora de terça», não das espécies eucarísticas da missa maior do dia, que era a da hora terça; talvez por isso, mesmo não levado «senão pelo Espírito Santo», não chega ainda ao paraíso «que é melhor que este». Cedo lá irá, mas ainda não chegou ao termo da jornada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucas horas levou o que para os de fora do paraíso demorou 267 anos. Se Amaro ignorava então viajar mais próximo à luz física das nossas modernas teorias da relatividade, não ignoraria o trânsito pela vida ( curta: 300-267=33 anos... ) iluminada pela Luz de Cristo, de que cumpria aproximar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedira e obtivera do porteiro «uma pouca de terra» do terreal paraíso, que traz consigo de volta. Perto do mosteiro de Flor das Donas, onde Brígida e Valides tinham vivido e estavam há muito enterradas, « começou de deitar a terra que trouxera do paraíso terreal, que cheirava mais e melhor que todas as coisas do mundo « e fundou uma cidade nova, que rapidamente se povoou e prosperou. E começando de povoá-la sobreveio a Amaro «dor de morte»; chamou então « um santo homem que era sacerdote em aule mosteiro Frol de Donas; e confessou-se a ele e tomou o corpo de Deus de sua mão e deu todo o senhorio daquela vila àquele sacerdote.» Agora, confessado e comungado, Amaro « foi-se àquele paraíso dos anjos que é nos altos céus », deixando uma cidade temporal regida pelo poder de “homens santos”. Numa cidade assim podíamos nós outros passar bem trezentos e mais anos, desgraçados cidadãos salteados e sangrados hoje por gente doutra casta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos de nos contentar com as brincadeiras da infância feliz, quando o tempo não contava; e, depois dela, com os múltiplos entretenimentos que nos procuramos, para folgar dos sofridos trabalhos e... &lt;em&gt;matar o tempo&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ O leitor tem publicamente disponível o Conto, mais a clássica Navegação de S. Brandão e outro não menos interessante &lt;em&gt;Sobre a Grande Ilha do Solstício&lt;/em&gt;, atribuído a um certo Trezenzónio, natural das “solidões da Galiza”. Foram todos editados conjuntamente por Aires A. Nascimento (Lisboa, 1998), que não deixa de aproximar estas narrativas às tradicionais da cultura irlandesa pré-cristã ou cristianizada. ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-8418976861477097402?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/8418976861477097402/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=8418976861477097402&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/8418976861477097402'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/8418976861477097402'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/uma-veneranda-reliquia.html' title='UMA VENERANDA RELÍQUIA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-5240994059634593920</id><published>2010-08-26T00:26:00.004+01:00</published><updated>2010-08-26T00:44:03.653+01:00</updated><title type='text'>DUAS CIDADES</title><content type='html'>« A partir do momento em que a cidade terrestre aspira à universalidade que, primeiramente, se atribui a cidade de Deus, é-lhe forçoso, por sua vez, promulgar um dogma único, atribuir a todos os homens um único e mesmo bem terrestre cujo amor comum fará deles um só povo, uma única cidade. Entre o Estado pagão da Antiguidade e o Estado pagão de nossos dias de hoje, há a Igraja Católica, da qual o Estado pagão de hoje reivindica e usrpa a autoridade espiritual. Enquanto que ateu, o Estado pagão moderno é totalitário de pleno direito. »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim falava o historiador da Filosofia e filósofo francês Étienne Gilson, traçando &lt;em&gt;A Evolução da Cidade de Deus&lt;/em&gt;, a propósito de Agostinho de Hipona, considerando que este não só « não parece ter previsto o nascimento de povos onde o Estado, fazendo-se doutor, decretaria por sua vez uma verdade de Estado, mas duvidava de que alguma sociedade, cujo fim seja deste mundo, possa interessar-se por tal questão. » Gilson, escrevendo por meados do século XX, tinha em mente o regime totalitário soviético, cuja ideologia, como diz numa nota do último capítulo da obra, - “prepara o reino do Anti-Cristo”...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Santo Agostinho, na sua &lt;em&gt;Civitas Dei&lt;/em&gt;, dá uma boa definição essencialista de o que era a civitas: « um conjunto de homens ligados no amor a um mesmo bem.» É um conceito universalizável e irrestringível à &lt;em&gt;urbs&lt;/em&gt;, de ordem primordialmente metafísica e metapolítica: tem antes do mais a ver com uma opção e vocação fundamentais para a existência temporal e metatemporal de cada pessoa humana: qual seja o bem que cada um quer, assim os homens se ligam ou opõem entre si, qualificando o carácter das sociedades respectivas que uns e outros se constituem. É um conceito que, fundado nos supremos interesses de cada pessoa, sendo a natureza desta imutável ou pouco variável no tempo, ainda não perdeu a actualidade que cada um pode verificar em si e por si: se o supremo bem do indivíduo é o bem comum, a sua acção tenderá à promoção de o que é comum e, portanto, será favorável à &lt;em&gt;res publica&lt;/em&gt; (à cousa/causa do interesse público, de todos) nas suas várias dimensões: &lt;em&gt;domus&lt;/em&gt; (a casa familiar); &lt;em&gt;urbs &lt;/em&gt;(o domínio territorial e social da cidade) e &lt;em&gt;orbis &lt;/em&gt;(a totalidade do espaço humano habitado); se em contrário, promoverá o seu interesse privado, em detrimento da república.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Santo Agostinho o maior e melhor bem para o homem não é político, mundano e temporal – é Deus e o Reino de Deus. De aí os dois interesse fundamentais que determinam e apartam entre si &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/04/diferencas-de-classes.html#links"&gt;duas classes &lt;/a&gt;e duas sociedades de homens: os que amam sobretudo a Deus, até ao desamor de si e do mundo; os que se amam sobretudo a si e a este mundo, na indiferença ou desamor a Deus. Neste ponto, o pensamento do bispo hiponense é como a ideativa estruturação e ratificação final da mais ampla tomada de consciência de uma novidade histórica: o aparecimento na Terra de uma sociedade nova – a Igreja - , emancipada do povo judeu e do &lt;em&gt;populus romanum&lt;/em&gt;. Uma Igreja &lt;em&gt;católica,&lt;/em&gt; isto é, com uma vocação de universalidade irredutível ao território público, social e cultural, da &lt;em&gt;romanitas &lt;/em&gt;imperial, do ocidente (Roma) ou do oriente (Constantinopla).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À época da redacção da &lt;em&gt;Civitas Dei&lt;/em&gt; (420-426), cerca de cem anos após o édito de tolerância para os cristãos e da conversão do imperador Constantino, ainda ficava só implícita neste &lt;em&gt;magnum opus&lt;/em&gt; de Agostinho a maranha de problemas que, séculos em fora, até hoje (e amanhã...), virão à tona da história das atribuladas relações entre o Estado e a Igreja. Mas o enquadramento de princípios e fins –metafísicos e teológicos, como têm de ser – que o grande filósofo cristão dramaticamente vai desenvolvendo aos olhos do leitor contém, a meu ver, a solução insuperável e perene do problema fundamental. Por uma razão simples: é a mais conforme à letra e ao espírito evangélicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade de Deus, o Reino de Deus e dos anjos e santos bem avanturados e vivos no Céu, integra mas não se confunde e transcende a Igreja &lt;em&gt;peregrina &lt;/em&gt;(em todos os sentidos desta palavra) e em trespasse neste mundo. Por seu lado, a &lt;em&gt;civitas terrena&lt;/em&gt; integra, mas transcende e não se confunde com o Estado, que é um ordenamento das sociedades humanas necessitado pela necessitada condição a que vimos, subsistimos e passamos neste mundo: há polícias, por isso há ladrões (e o inverso; e de tal modo acoplados em simbiose que as suas máscaras e identidades nos podem iludir). Os arcontados da &lt;em&gt;civitas terrena&lt;/em&gt; são o diabo e os seus anjos (por isso também se chama &lt;em&gt;civitas diaboli&lt;/em&gt;) e, neste mundo, todos os desprezadores de Deus seus sequazes, que os seguirão ao inferno. Mais ou menos misturados durante o tempo da duração deste mundo, os cidadãos das duas cidades serão definitivamente apartados em face de Cristo no fim do tempo e julgamento final deste mundo. Entretanto, a mistura é feita de dramática e agónica tensão e, também aqui, não faltam delusivas aparências: nem todos os que aparecem na Igreja são verdadeiros cidadãos da cidade de Deus; nem alguns dos que aparecem fora da Igreja deixam de ser cidadãos dela. Por isso mesmo, e também porque são essencialmente e metafisicamente diferentes, uma importantíssima e decisiva consequência implica-se existencialmente, no âmbito da ordenação política das sociedades humanas: a felicidade, a justiça, a liberdade e a paz da Igreja não são da mesma natureza nem podem triunfar nunca completamente nos Estados da &lt;em&gt;civitas terrena&lt;/em&gt;. Dito de outra maneira, e retomando a definição inicial: o bem comum de que comungam os associados cidadãos da cidade de Deus pode reflectir-se, mas nunca reduzir-se ou identificar-se no bem comum, a &lt;em&gt;res publica&lt;/em&gt; do Estado. E inversamente. Não esqueçamos que um Estado é sempre, naturalmente, um estado de necessidade e, por isso, as suas liberdades civis ou políticas nunca podem dar o que dá a liberdade espiritual dos filhos de Deus. Esquecer isto é forçar a u-topia ao lugar deste mundo, em que não cabe, forçada à força das violências e pretensões totalitárias. Esquecer isto é esquecer o regime normal da coexistência possível, que é a norma de Cristo, e que Agostinho tão bem evidenciou: - a &lt;strong&gt;Separação &lt;/strong&gt;do que é por natureza apartado: o poder de Deus e o poder dos homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos já na abertura citada de Gilson. A expressão decisiva é “bem terrestre”, e não preciso de dizer ao meu ocidental leitor qual é o “dogma único” que nesta parte rica e enfartada do mundo compendia toda a soma desses bens terrestres que a maciça propaganda do Estado pagão dos nossos dias decreta para as massas consumidoras: a “felicidade”. Propaganda tanto mais convincente quanto esse estado de &lt;em&gt;necessidade &lt;/em&gt;em que sobrevivemos nos predispõe a aceitar como “evidentes” bens que, de facto, são &lt;em&gt;necessários&lt;/em&gt;; mas enganosa quando vende os como fins, bons em si mesmos ou os mais humanamente dignos, quando são e serão sempre apenas meios, mais ou menos precários, transitórios, insuficientes, moralmente menos dignos e, portanto, iludindo e degradando a &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/06/direitos-humanos-uma-questao-de.html#links"&gt;dignidade do humano&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O preço que pode custar o logro deste “bem estar” (entendido à maneira do hedonismo utilitarista) à “Humanidade” (entendida à meira do positivismo comteano das massas organizadas por uma burocracia de &lt;em&gt;clercs savants&lt;/em&gt;) é a comum submissão totalitária da civitas terrena a poderes de desumanização.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ Citei a tradução brasileira de &lt;em&gt;Les Métamorphoses de la Cité de Dieu&lt;/em&gt;, feita pelo filósofo João Camillo de Oliveira Torres em 1965.&lt;br /&gt;Abatido por então o nazi-fascismo, Gilson preocupava-se justamente com o comunismo soviético. Mas o filósofo francês não deixou de dar notícia que, já do lado do “mundo livre”, se propunha (citando James Burnham) a dialéctica alternativa de um “império mundial americano” ou de uma “federação mundial criada e dirigida pelos Estados Unidos” como uma “associação protectora dos povos”... E o francês não deixava de advertir: « Como a verdade em que Comte se fundamentava era a da ciência positiva, é difícil imaginar que a razão natural possa propor doravante um laço de união cuja universalidade seja mais estritamente natural.»&lt;br /&gt;Já antes, em 1900, na sua última obra publicada em vida, o grande filósofo russo Vladimir Soloviev deitava preventoras e preocupadas vistas para os finais do século XX, e via outra face do Anti-Cristo proteiforme... –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.sombreval.com/Court-recit-sur-l-Antechrist-Vladimir-Soloviev_a138.html"&gt;http://www.sombreval.com/Court-recit-sur-l-Antechrist-Vladimir-Soloviev_a138.html&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre Burham, o teorista da emergente sociedade dos gestores, um artigo de George Orwell:&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.george-orwell.org/James_Burnham_and_the_Managerial_Revolution/0.html"&gt;http://www.george-orwell.org/James_Burnham_and_the_Managerial_Revolution/0.html&lt;/a&gt;  ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-5240994059634593920?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/5240994059634593920/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=5240994059634593920&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/5240994059634593920'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/5240994059634593920'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/duas-cidades.html' title='DUAS CIDADES'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-4383480234776598306</id><published>2010-08-24T00:15:00.003+01:00</published><updated>2010-08-24T00:27:01.205+01:00</updated><title type='text'>EDUARDO DE OLIVEIRA</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/THMBOhVxnjI/AAAAAAAAAnc/Sh2YK9hKCbs/s1600/castelo_de_castro_laboreiro.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5508748118183747122" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/THMBOhVxnjI/AAAAAAAAAnc/Sh2YK9hKCbs/s320/castelo_de_castro_laboreiro.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;« &lt;strong&gt;De Melgaço, um automóvel pega-nos ao colo e pousa-nos na serra, onde nos diz adeus, sem mais, das suas rodas que fogem. Palmilhamos por entre as obras de construção da estrada a meia hora que nos separa de Castro Laboreiro, onde há tempo desejava vir. Castro Laboreiro interessou-me desde sempre, nem sei porquê. Pelo castro e as ruínas do arcaico castelo? Pelo sítio perdido nos confins? Pelos seus cães famosos? Nem sei. Imaginei-o centro de lendas e saiu-me ele próprio inacessível, remoto e vetusto, lenda de pedra e alturas. Antigo e perdido na erma paisagem sobre o vale a pique, onde o castelo é proa natural e milenar.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;Procuramos o jovem abade amigo do António Jorge. Alto, magro, o rosto de criança onde paira a inocência duma certa tristeza resignada. Meio possesso de entusiasmo, queima nesse ardor mesmo o resto que a ordenação lhe levou. Vem connosco, monte acima, de pistola no bolso, a bengala na mão e o perdigueiro ao lado. Vive daqueles montes, que conhece como a palma das mãos, e da alma dos seus paroquianos, que talvez não conheça com tanto amor. Deve reconhecer melhor o penedo que o pecado, e saber tocar-lhe com mais jeito. Mostra-nos o caminho da aldeia aonde vamos pernoitar. Despedimo-nos no alto do vale, entre o ladrar do podengo aos coelhos e as sombras que caem rápidas. Segue, solitário, no seu vulto de vigília que se destaca, triste, no cimo dum rochedo, com aquele cão, único companheiro da eternidade, ao lado. »&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O nomeado António Jorge era Jorge Dias, o grande etnólogo continuador de José Leite de Vasconcelos. Os outros companheiros, não nomeados aqui, poderiam bem ser, como em tantas outras saídas por esses povos em fora (que eram outras tantas entradas no nosso mais interior português) a esposa de Jorge, Margot Dias; o minucioso e precioso desenhador e pintor Fernando Galhano; ou o Ernesto Veiga de Oliveira, não menos eminente etnólogo, que trabalhou com Jorge Dias, de quem era amigo de infância. Quanto ao escritor do texto, permanece hoje quase tão anónimo quanto o padre descrito, mas na descrição que faz logo se assina por quem é: um grande poeta da nossa prosa portuguesa do século XX. –&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Pouco sei da pessoa e vida de Eduardo de Oliveira, nascido no mesmo ano de Jorge Dias (1907), e irmão do citado Ernesto Veiga de Oliveira. Nasceu no Porto, onde foi médico (como seu pai), e em 1977-79 ainda seria vivo, mas ignoro o ano em que nos deixou. Era melómano e executante amador de piano. Era poliglota viajado e versado nas literaturas alemã, francesa (em que chegou a versejar), inglesa, espanhola, sem falar da nossa: era, portanto, um representante típico daquele &lt;em&gt;Porto Culto&lt;/em&gt; justamente decrito e louvado pelo cultíssimo Sampaio Bruno; e não menos categorizado representante daquele friso de admiráveis médicos-escritores (ou escritores-médicos) que tão bem nos têm tratado, &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2008/05/joo-de-arajo-correia.html"&gt;como este aqui&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;De Eduardo de Oliveira conheço duas obras de vulto: um diário em três volumes, que intitulou &lt;em&gt;Monólogo&lt;/em&gt;, abrangendo os anos de 1942 a 48; e a narrativa &lt;em&gt;Caminho de Santiago&lt;/em&gt;. São edições de autor, talvez quase só de exemplares para amigos, que tive a sorte de encontrar em alfarrabistas (um deles oferecido pelo inesquecível amigo Luís Reis, a quem saudosamente saúdo daqui). Por certas indicações que dá nos livros, terá escrito outros, mas só os citados vi na Biblioteca Nacional, e lá os verá o leitor feliz e privilegiado. O último escrito que tenho dele foi a colaboração que deu &lt;em&gt;No Centenário de Teixeira de Pascoaes&lt;/em&gt;, um in memoriam publicado em 1979 pela Imprensa Nacional : é maravilhoso averbamento de tributo ao amigo cuja casa Oliveira fraquentava desde os dezasseis anos (não menos maravilhosos os encontros com Pascoaes que nos conta no seu diário, a começar por aquele de 15 de Fevereiro de 1943).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Nos três volumes do &lt;em&gt;Monólogo&lt;/em&gt; o leitor curioso e exigente encontra-se bem servido de tudo, a cada página: a prática do médico com os seus doentes, dentro e fora do consultório; descritivos etnográficos da paisagem social e natural (principalmente do Norte); apreciações literárias e crítica musical; notícias da 2ª Guerra; impressões de passeios e encontros de acaso com a mais variada fauna humana, de todas as classes e condições... E tanto nos podemos encontrar numa branda isolada nas cumieiras da Peneda, ou nos extremos altiplanos de Rio de Onor (aonde Oliveira acompanhou também os trabalhos de Jorge Dias), como no teatro de S. Carlos ou na &lt;em&gt;Opera &lt;/em&gt;de Paris; tanto nos bairros pobres do Porto com o médico atencioso e compadecido, como a passear nos areais de Fão ou a ler Samuel Pepys ou Scarron. Mas, na miscelânea, isto sempre: o trato sensível e humaníssimo do clínico geral em humanidade atenta e solidária; a funda meditação existencial do homem e o fino tratamento da linguagem do grande curador e artista dela, que foi Eduardo de Oliveira. É pena que este poeta e discreto amigo de poetas como Sophia, Torga, Eugénio de Andrade ou o já citado Pascoaes, tenha ficado num muito mais discreto reconhecimento público.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O trecho acima é datado de Lamas de Mouro. Eis o registo do dia seguinte :&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;« &lt;strong&gt;Branda de Ceira - Serra da Peneda, 24 de Agosto&lt;/strong&gt; (1945).&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Enquanto o cavalo carrega as mochilas, vamos num salto ao banho, no rio do mouro. Saímos refrescados, sem sombra de mouro ou mesmo de cristão; só as serras em redor e, firme entre os loureiros, a nossa nudez pagã. Trepamos lentamente a ladeira, a calçada dos peregrinos que sobe até à Portela do Lagarto, para aí descer, por uma vereda pedregosa, meio arborisada, até ao santuário da Senhora da Peneda, na sua igreja maciça, lanços de escadório e capelas barrocas, dos Passos, rodeado das casas dos romeiros, a confraria, o hotel e mais apensos. Isto a dez ou quinze quilómetros, pouco mais ou menos, do ponto mais próximo com estrada. (...)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;Nós é que resolvemos não ficar à sombra da santa e trocamo-la pelo alto divino da serra, no seu cume, a pouca distância do marco geodésico, numa cabana de pastores. Leva-nos agora as mochilas o macho do Dourado, almocreve e contrabandista às suas horas, de vinte e nove anos, alto e magro, a quem não larga dum passo o Famalicão, o cachorro de dois palmos por um de alto e “fox”, que corre aquelas léguas sem fim ao lado do dono, com uma côdea e uma batata, e geme de vez em quando trilhado entre as patas do macho.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;Subimos, subimos, e subimos. Para cima de quatro horas sem descanso e sob um sol de rachar. Procuramos a branda de Ceira, onde ficamos. O nome diz tudo. Uma brandura e macieza de relvas, com um fio de água à beira. E a cabana de pedra tosca dos pastores, onde dormem na cama de fetos que se levanta com eles ao amanhecer, quando passam a noite na serra. Como eles, por conselho de alguns com quem conversámos pelo caminho, apanhámos e trouxemos a lenha que aqui não encontraríamos. Os fetos colhem-se depois, já noite, em volta da branda, às braçadas, como flores. Ao longe, uns restos ainda lilazes do Gerês. A lua cheia, quente, sobe agora, devagar. Cozem-se as batatas com a lenha da providência. Come-se, e depois da ceia simples e da paz, protege-se tudo dentro da cabana, por causa dos bichos que porventura aqui apareçam. Andam por ali umas vacas, solitárias, sem ninguém a olhar por elas. Passam assim a noite, imagem animal do abandono e da distância.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;Sentamo-nos em frente da cabana, naquele silêncio absoluto, experimentando-o fisicamente. Em volta, a serra incomensurável e aquela macieza da branda aos pés. Ao alto, o céu estrelado. Em nós, a baixar lentamente, assenta o benefício da canseirosa caminhada, à medida que o silêncio nos vai imobilizando, até parar o curso das nossas conversas e vidas, tornado pura pausa. »&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Escolhi estre trecho menos por especialmente característico que pela saudade de experiência semelhante que vivi noutro sítio, “um dos locais mais mágicos que há em Portugal”, como na televisão se atreveu a divulgar o prof. Hermano Saraiva. Por uma vez, não exagerou... Mas os seus inúmeros tele-adimiradores invadiram entretanto o sítio, que hoje não fica mais profanado se eu disser ao meu leitor curioso e veraneante das boas coisas que inda por cá temos : é Antas de Mazes, nos altos arredores serranos de Tarouca. As antas terão existido, sim, mas delas só resta o nome; e a suspeita de que os pastores as terão usado para construir as colmadas brandas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;[ Faz no corrente 2010 cem anos que nasceu o irmão de Eduardo, Ernesto Veiga de Oliveira (1910-1990). O leitor tem aqui uma ligação boa para ficar com uma ideia da formidável obra do grande etnólogo português: &lt;a href="http://alfarrabio.di.uminho.pt/arqevo/textospa/html/evo/evobiobi.htm"&gt;http://alfarrabio.di.uminho.pt/arqevo/textospa/html/evo/evobiobi.htm&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;E nesta pode ouvir-se a voz dele: &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=mALTivSMgqA&amp;amp;feature=search"&gt;http://www.youtube.com/watch?v=mALTivSMgqA&amp;amp;feature=search&lt;/a&gt; ]&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-4383480234776598306?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/4383480234776598306/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=4383480234776598306&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/4383480234776598306'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/4383480234776598306'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/eduardo-de-oliveira.html' title='EDUARDO DE OLIVEIRA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/THMBOhVxnjI/AAAAAAAAAnc/Sh2YK9hKCbs/s72-c/castelo_de_castro_laboreiro.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-2707292336712018103</id><published>2010-08-24T00:09:00.004+01:00</published><updated>2010-08-24T00:26:22.947+01:00</updated><title type='text'>CAMINHO DE SANTIAGO</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/THMAjLrZl8I/AAAAAAAAAnU/8jEZTr8scHc/s1600/Camino_de_Santiago_732.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5508747373634492354" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 302px; CURSOR: hand; HEIGHT: 213px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/THMAjLrZl8I/AAAAAAAAAnU/8jEZTr8scHc/s320/Camino_de_Santiago_732.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; Segue a prova que dou ao leitor mais exigente, daquilo que afirmei acima : Eduardo de Oliveira é um dos nossos grandes escritores, injustamente esquecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para bom apreciador, meia página basta. Eis os quatro primeiros parágrafos da saída (“À Guisa de Preâmbulo”) para essa maravilhosa viagem em “Dez Jornadas” pelo &lt;em&gt;Caminho de Santiago&lt;/em&gt;, s.e, s.l., impresso nas oficinas gráficas de O Primeiro de Janeiro, em Abril de 1970.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São 825 quilómetros, desde Saint-Jean-de-Pied-de-Port, ainda em França, até Compostela, de paisagem exterior e peregrinação interior, feitos por um ciclista (o Autor) e um seu companheiro, de vespa, guiados pelo Liber Sancti Jacobi, o famoso guia dos peregrinos medievais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E são 286 páginas extensas de descritivo histórico e paisagístico, não menos intensas duma tocante, posto que discreta, repercussão interior que (vamos pressentindo à medida que vamos andando) não se pode conter nesse Caminho, e o transcende...&lt;br /&gt;_________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;À GUISA DE PREÂMBULO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;« Distintos e separados, ganhando decisão e recobro um do outro, esclarecendo-se mutuamente no sumum de solidão que ambos indicam. Tentados não em um, unidade impossível, mas lado a lado discorrendo. Conseguindo essa harmonia, liberdade e coesão, jogo subtil de sentimentos e pensar. Rolando, rolando, num mínimo de desgaste, os dois futuros peregrinos só adiante se reunirão. Com encontro definido, seguirão caminho, de momento, cada qual pelo seu lado.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;De scooter, um, estatura de homem, luz e certeza, mais sobre o silencioso, sonho e medida acertados – o que busca já leva encontrado –, olhar em que a beleza e arte se imaginam, coração onde a bondade se revê. Cruz de vida e estrela, as mãos abrem-lhe obras que ideia e desejo concebem, o talento cria e assina. O outro, andado mais em anos que em razões, devorado de horizontes, arte e destino de monólogo, amante infeliz o apelidam. Amante ? De quem ? Da própria vida, iremos crendo, que lhe retribuirá mais amargura e penas. Ciclista assinado, por seus trabalhos, leva necessariamente consigo a bicicleta. De combóio, despachada a par do bilhete. Cinco escudos: Porto,S.Bento – Hendaia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Motivos da partida ? Oscilação, maior incerteza no quotidiano ? Escalada, clareira desvendando história e amarras ? Peregrinos mais entregues de alma e corpo, tentados das atribulações e vicissitudes do caminho ? Antiquíssima curiosidade nómada, sempre nova a descoberta, a paisagem : terras, povoados, gentes. Plantas, arrefecido ou ardente minério. Crença e leito de qualquer rota e meta.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Desporto ? Se entendermos por desporto, deposto o relativo da frágil competição no semelhante, fora de nós sempre a meta que somos ainda, impenitentes, e, ao cabo, seremos sempre. Asfíxica, agónica é em nós a crucificação, e o calvário pode ser de momento essa encosta a vencer, a curva adiante a dobrar. Quebrar de paixões e lágrimas, ou criatura a evitar a colisão... »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-2707292336712018103?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/2707292336712018103/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=2707292336712018103&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/2707292336712018103'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/2707292336712018103'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/caminho-de-santiago.html' title='CAMINHO DE SANTIAGO'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/THMAjLrZl8I/AAAAAAAAAnU/8jEZTr8scHc/s72-c/Camino_de_Santiago_732.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-8683533168583757751</id><published>2010-08-18T00:04:00.003+01:00</published><updated>2010-08-18T00:09:37.586+01:00</updated><title type='text'>A PERVERSÃO DA LEI MORAL</title><content type='html'>Considere o meu caro leitor estas duas formulações (quase) kantianas da lei moral:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(1)&lt;/strong&gt; Age sempre segundo uma regra tal que seja uma lei universal para todos os seres humanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(2)&lt;/strong&gt; Trata as outras pessoas sempre como fins em si mesmas e nunca apenas como meios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora mais este par:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(3)&lt;/strong&gt; Age sempre segundo uma regra tal que seja uma lei universal para todos os seres humanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(4)&lt;/strong&gt; Trata as outras pessoas sempre como meios e nunca como fins em si mesmas.&lt;br /&gt;São contraditórias entre si (2) e (4), mas cada uma delas parece compatível com (1) e (3). Não sendo ambas (2) e (4), conjuntamente, compatíveis com (1) e (3), ou seria universalmente aplicável uma, ou a outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas há um problema com (3) e (4), que poderia enunciar-se assim: - um agente humano que trate os outros humanos sempre como meios para os seus fins particulares, não pode pretender que todos os outros o tratem como fim em si mesmo, mas apenas como meio (para os fins particulares dos outros). Ora, é logicamente possível uma sociedade de egoístas ? Se a sociedade implica algum fim &lt;em&gt;comum&lt;/em&gt; às partes constituídas, não (cada um é um fim só para si); e o que existencialmente teríamos era a coincidência duma mesma norma &lt;em&gt;geral&lt;/em&gt;, não genuinamente universal. (É a diferença crucial entre os conceitos de comunidade e de sociedade.) Portanto, mais bem visto, (4) também é incompatível com (1) e (3).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntemo-nos agora: &lt;em&gt;quem &lt;/em&gt;é que mais beneficiaria em que (3) e (4) vigorassem? É evidente: quem conseguisse submeter todos os outros em meios ao serviço do seu particular fim. E, todos os mais, como consentiriam na submissão ? Se fosse do interesse deles, escravos. ( E como assumiriam tal interesse ? Quando, com mais emoção eficiente que razão suficiente, fossem levados a acreditar que teriam melhor “qualidade de vida”... ) Vemos, pois, quanta razão tinha Kant quando considerava a “inclinação natural” para o “amor de si” desordenado da lei moral o “mal radical”, como lembrei no postal anterior. E nunca é de mais salientar quanto o cenário descrito é consistente com a história conhecida das tiranias totalitárias, sua instauração e renovada sucessão ao longo dos tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande filósofo alemão advertia também que sustentar (4) como um imperativo categórico não seria próprio de um agente humano, sim diabólico. Como assim? Reparemos, primeiro, que faltariam em (4) os requisitos de genuína universalidade e de razão necessária e suficiente, para que tal imperativo obrigasse sempre e absolutamente: teria apenas motivos de oportunidade e os estímulos da tal “inclinação natural”, de modo que seria (na terminologia do filósofo) mais um imperativo “hipotético” do que “categórico”. E também aqui vem a propósito lembrar que a lei moral é um imperativo categórico da defesa da liberdade de &lt;em&gt;todas &lt;/em&gt;as pessoas – enquanto racionalmente regrada pela única lei que a pode tornal eticamente aceitável e existencialmente tolerável. Mas, no cenário decorrente de (4) teríamos no máximo a liberdade de uma só pessoa, à custa da submissão (interessada) de todos os outros, e nem é crível se tratasse duma genuína liberdade, porque o tirano depende tanto dos servos como estes dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portanto, será que teríamos em (4) apenas um imperativo condicionado a circunstanciais motivos de oportunidade e “natural” egoísmo humano? E que, como tal, seria apenas marginal ou conjunturalmente oposto ao imperativo categórico – nas não a distorção ou perversão deste? Infelizmente, não. Se o agente (ou agentes) da acção é &lt;em&gt;não humano&lt;/em&gt; e os fins desta são não humanos, o cenário decorrente de (4) daria: a &lt;em&gt;universal &lt;/em&gt;submissão dos humanos como meios de agentes e fins em si mesmos não humanos (e todos os fins humanos egoístas aparentes seriam afinal não fins, meramente instrumentais).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pense-se no Deus cruel sadeano. Mas este seria apenas um hiperbólico tirano, e o seu imperativo poderia ser assumido por todos os sádicos e masoquistas humanos. Para além disso, a existência dum tal Deus é implausível, enquanto entidade propriamente divina, como &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/um-deus-cruel.html#links"&gt;tentei mostrar aqui&lt;/a&gt;. Resta-nos apenas uma possibilidade. Se não é Deus nenhum nem é humano, temos em (4) a acção de uma ou mais entidades intermédias, cujos intereresses não são os de um Deus (bom) nem do interesse (bom e racionalmente bem entendido) dos humanos (feitos à imagem e semelhança de Deus) ou de quaisquer outros seres racionais de razão harmónica com a vontade divina e a vontade (moralmente boa) dos homens. ( O meu caro leitor pode imaginar-se à vontade quaisquer entidades “extra-terrestres”...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos pois naquela dimensão em que pode – e deve – falar-se do &lt;em&gt;diabólico&lt;/em&gt;, de que falava Kant, e da pura perversão da lei moral: pura, é independente (não quer dizer separada) de qualquer natureza empicamente observável; perversão, porque converte um imperativo universal que é do interesse da razão e liberdade humanas num imperativo universal contrário a essa razão e esmagador da liberdade. Mas compatível, infelizmente para nós, com a excitação e manipulação de emoções que fazem a mente capta e iludida quanto ao que é o nosso melhor (o mais racional) interesse humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ Disse, a abrir, formulações “quase” kantianas porque a lei moral vale para todos os seres humanos – enquanto seres &lt;em&gt;racionais&lt;/em&gt;. ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-8683533168583757751?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/8683533168583757751/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=8683533168583757751&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/8683533168583757751'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/8683533168583757751'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/perversao-da-lei-moral.html' title='A PERVERSÃO DA LEI MORAL'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-7687746912258179044</id><published>2010-08-13T23:15:00.002+01:00</published><updated>2010-08-13T23:20:39.090+01:00</updated><title type='text'>O MAL RADICAL</title><content type='html'>Um mundo em que, na perspectiva naturalista, o sadismo e o masoquismo (e a pedofilia e a necrofilia e a bestialidade...) fossem necessários para alguma concebível vantagem adaptativa da espécie, ou ao menos como subprodutos anómalos e indesejáveis de normais capacidades de agressão e sofrimento, - tal mundo seria, a meu ver, incompatível com o “muito boa” com que Deus avaliou a Criação, segundo o relato bíblico. Mas já sabemos que prazer e sofrimento não podem ser todo o bem e todo o mal que afectam a existência humana; e nunca deve esquecer-se que a lei moral kantiana – a norma do bem – é para ser querida independentemente de qualquer prazer ou sofrimento que traga o dever de a cumprir. Também ficou rejeitada aqui, na última semana, a hipótese de um Deus cruel sadeano, que ilimitadamente se comprazesse com o sofrimento humano: tal entidade, a existir, não pode ser propriamente divina. E também já vimos que, de acordo com Kant, é no mau uso da liberdade, motivada contra a lei moral, que deveria encontrar-se o princípio radical do mal na acção humana. Nesta  parte, estou menos de acordo com Kant. De facto, se a máxima de uma tal acção malevolente fosse – “Age de maneira a usares unicamente e sempre as pessoas dos outros unicamente como meios e nunca como fins”-, tais “meios”, ou careceriam de sentido racional (não há “meios” sem “fins”), ou seriam meios sempre do interesse final de um agente particular. (Um caso típico, por exemplo, seria o sujeito que usasse o seu corpo apenas como meio para um fim inteiramente alheio à conservação natural desse corpo, com intenção suicida.)  Por isso Kant considerava – se nos referirmos apenas à acção humana – que o mal radical estaria originariamente num desordenado “amor de si”, e que o mais que fosse além disto era propriamente  malignidade diabólica, não humana. E isto é compreensível e aceitável nos termos e limites, sempre bem definidos e moderados, do pensamento do grande filósofo alemão. Infelizmente, é o próprio suicídio um dos casos que fazem pensar que, em sua concreção existencial, no humano, tais limites kantianos são muito elusivos e difusos; e que o “amor de si” não é o mal mais radical que pode afectar o uso da liberdade humana. –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O suicida sofre de tal maneira que quer pôr um termo ao seu sofrimento. (Suponho mesmo que o quisde lúcida e livre vontade manifestada previamente.) Mas não quer isto apenas. Se o faz, ele espera não vir a sofrer ainda mais noutra qualquer possível existência, reencarnada ou desencarnada.  Quer e espera um termo &lt;em&gt;final&lt;/em&gt;, pelo menos um fim que exclua qualquer igual ou maior sofrimento possível. De tal modo que não repugna admitir que a maior parte ou todos os suicidas nestas circunstâncias (intencionadas e ocasionadas por um insuportável sofrimento) acreditam num termo final absoluto e, portanto, que (o)&lt;em&gt; nada&lt;/em&gt; se segue desse acto. Mas esta crença niilista pode não afectar apenas as consequências do acto suicida, que seria então caso único de um acto da vontade com resultados mas sem quaisquer consequências (no tempo, ou fora do tempo na eternidade): o suicida pode considerar o passado da sua existência inteiramente desastroso, sofrido e desvalioso. E assim o nada abrangeria todas as partes temporais da existância: passado,  presente  e  futuro. ( O mesmo com o homicida, relativamente aos &lt;em&gt;outros&lt;/em&gt;: ele espera e deve querer que &lt;em&gt;nada &lt;/em&gt;das pessoa que matou sobreviva capaz de lhe tornar a existência intolerável, neste mundo ou em qualquer outro. ) Dir-se-ia provavelmente que  o suicídio é um indicador existencial claro de o que faz um “amor de si” ou interesse egoísta totalmente desordenado da lei moral kantiana. Eu diria que o só interesse egoísta não pode ir até ao ponto da extinção de si ( se o sofrimento fosse minorado ou desaparecesse, seria de esperar desaparecesse a intenção) e que, sob este ponto de vista, haveria uma diferença decisiva relativamente ao homicida; que o suicida, enquanto quer apenas escapar ao sofrimento, age de acordo com uma natureza que o predispõe a procurar o prazer e a evitar a dor e, portanto, enquanto tal, o seu acto não seria ostensivamente contrário à lei moral, mas apenas indiferente; e mais diria que é, pois, na &lt;em&gt;vontade de aniquilação&lt;/em&gt; de si ou de outrem, e (idealmente) de qualquer lei natural ou moral impeditivas  – que transparece o mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há infelizmente um outro caso existencial em que parece ainda mais transparente. O suicida ainda afirma uma vontade e ainda tem uma esperança, mesmo se inteiramente negativas; e estas, como que restritas apenas à pessoa individual, são ainda uma afirmação da sua condição de pessoa – a pessoalidade – e de um temperamento pessoal (ou personalidade). Mas, se se dá termos o suicida e homicida juntos numa mesma pessoa ? Parece óbvio que há aqui uma maior vontade de aniquilação. (Exclui-se os que ainda acreditam ir para algum “paraíso” como “mártires” de guerras “santas”...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ainda outro caso:  - se a vontade de aniquilação já parece que anulou a vontade própria  e se tornou como &lt;em&gt;impessoal&lt;/em&gt;,  mas o sofrimento não se sobrepõe à razão advertida da possibilidade de não anulação total da existência, que fará o desgostoso e aborrecido da vida? Não pode querer nada e não pode deixar de querer nada. Tal é o &lt;em&gt;tédio&lt;/em&gt;, que não conclui necessariamente no sucídio ostensivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compreende-se que a vontade sujeita ao nada pode pensar que não há nenhuma vontade própria e livre. E é possível que na sua fundamental indiferença alegue uma “fatalidade” e o “fatalismo” das circunstâncias que a levam a matar outros e a deixar-se matar a si a “sangue frio” (a &lt;em&gt;impessoalidade&lt;/em&gt; parece ter anulado a consciência moral e, como disse, o sentimento não se sobrepôs à capacidade de planeamento e análise, que pode ficar aumentada).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a vontade assim aniquilada e aniquiladora, a lei moral é alheia e indiferente. Sobre ela pode triunfar o “mecanismo da Natureza inteira” (na expressão de Kant), incluídos todos os atavismos da hereditariedade e da sociedade, que podem mascarar mais ou menos o sentimento de estranheza a tudo e de desgosto de tudo, consoante a maior ou menor consciência dos indivíduos afectados (alguns dos quais se pretendem e, de facto, aparentam extraordinária “lucidez”). Contudo, como a vontade e a liberdade (se realmente existe) não podem ser de todo anuladas, a fórmula mais precisa e realista deste tédio será: - não quer nada e não pode deixar de querer (uma fórmula que nos soa mais familiar...). Mas, de querer o quê? Nada. E o que dá este nada confrontado com uma lei moral a que é profundamente estranho, mas que não pode anular? Nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É nesta vontade (quase) anulada e praticamente anuladora, sem interesse nenhum por lei moral alguma, que me parece estar o “mal radical”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teremos de prospectar mais fundo o terreno nutriente de tal tal raíz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ É fácil de ver que, no caso, os atavismos sociais, enquanto complexo de normas controladoras da manutenção da existência do grupo, quanto mais fortes forem, mais conseguirão bloquear ou corrigir as “circunstâncias” eventualmente favoráveis à irrupção (habitualmente “súbita”) duma vontade aniquiladora que, também habitualmente, tendemos a associar a indivíduos “psicopatas”. Só assim o “mecanismo da Natureza” triunfaria efectivamente (no sentido da auto-conservação dos indivíduos e do grupo). Mas, se as normas sociais são débeis e se rompem... O leitor português da sociedade portuguesa de hoje vai sabendo o que acontece. ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-7687746912258179044?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/7687746912258179044/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=7687746912258179044&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/7687746912258179044'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/7687746912258179044'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/o-mal-radical.html' title='O MAL RADICAL'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-7174797397278802545</id><published>2010-08-10T23:07:00.003+01:00</published><updated>2010-08-13T23:33:58.541+01:00</updated><title type='text'>O ÓDIO ACUMULADO (1914-1915)</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TGHPEUbpuZI/AAAAAAAAAnE/hrwECAzlsMw/s1600/Marianne-BB-01.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5503907892734572946" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 225px; CURSOR: hand; HEIGHT: 281px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TGHPEUbpuZI/AAAAAAAAAnE/hrwECAzlsMw/s320/Marianne-BB-01.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;« Nas perseguições, nas paixões, quantos ódios acumulados! Todos os dias o tropel cresce como uma onda a avolumar-se no horizonte. Hoje (9 de Janeiro 1914) João de Freitas interpela Afonso Costa no parlamento. Afirma-se que o não deixam falar. A meu lado um oficial de marinha diz: &lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Se a &lt;em&gt;formiga branca&lt;/em&gt; intervém, dou um tiro num!... Sessões tremendas, em que aquele homem lívido cresce e avança, dizendo as últimas a Afonso Costa. Sente-se o bafo da tragédia muito perto. Toda a gente percebe que o caso é de vida ou de morte. Em dado momento o Alexandre Braga ousou interrompê-lo – e a resposta veio logo, como uma bofetada: - Cale-se! O senhor não tem autoridade moral, o senhor que vai procurar as amantes à sua própria família! – O outro calou-se, amarfanhado. A Câmara, redemoinhou, petrificou, assombrada, e ele continuou com o discurso, sem olhar para os lados. Tinham dito ao [Brito]Camacho: - Não vá sentar-se ao lado do João de Freitas, porque hoje matam-no, hoje há tiros! – Mas o Camacho, como de costume, foi sentar-se na mesma bancada. A certa altura, um amigo do Afonso Costa, efectivamente, avançou para o João de Freitas que, continuando a interpelação, o susteve com um gesto para que se detivesse, metendo ao mesmo tempo a mão direita na algibeira...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Mas o Afonso Costa domina-os e pensa talvez em arredar o Camacho, a quem odeia, e o António José, a quem desdenha. Aparece nas Câmaras com um riso de superioridade e um cravo vermelho na lapela, acompanhado pela &lt;em&gt;púrria&lt;/em&gt; [sic].&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O pior é que o ódio aumenta. Um deputado diz-me hoje: - Se o visse morto deitava gravata vermelha! – Citam-se escândalos, apuram-se números. Os jornais da noite são arrancados das mãos dos vendedores. O ministério cai ? O dia 29 de Janeiro é talvez decisivo para a República. Dominada a greve, votado o adiantamento, entra-se numa nova fase política ? O António José [de Almeida] reconquistou a popularidade. As galerias intervieram com uma pateada a Afonso Costa, quando Júlio Martins falou no assalto à casa sindical dos ferroviários. Mas o António José, que já não consentira que João de Freitas chamasse ladrão ao Afonso Costa, na &lt;em&gt;República&lt;/em&gt;, sacrificando assim uma velha amizade, declarou aos seus correligionários que não quer governar com as galerias, A 26, à noite, prepara-se uma grande manifestação ao governo, que é dissolvida à pancada, no Rossio. – Nunca vi bater tanto em Lisboa. Estoiram bombas na rua do Carmo. As senhoras vêm para as janelas, como nas procissões. Grandes rolos de fumo crescem lá de baixo. A cavalaria estaca. Gente foge, gente corre aos gritos de – Morra!Morra! - Uma dama passa indifrente, pelo braço do marido, com um cão felpudo ao lado. Gritos, vivas, aclamações.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Isto aguenta-se ou vem a monarquia? – Se vier, diz o António José, ainda hei-de arranjar quem me empreste, sabe Deus com que custo, dinheiro para me meter num paquete e ir para a Argentina. Mas lá, que hei-de fazer aos quarenta e sete anos? – A monarquia é o menos. Caminhamos para a anarquia e para o crime.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Um dia destes (Maio 1915) João de Freitas disparou o revólver sobre o João Chagas, quando vinham no mesmo combóio para Lisboa, vazando-lhe um olho. A bala ia direita para o Afonso Costa – ia direita aos políticos sem escrúpulos. E ele era, foi-o sempre – um grande homem de bem, com o culto da honra. Poucas palavras, a não ser que se tratasse do Afonso Costa, porque então extravasava. Um dia, na Foz, no &lt;em&gt;Mary Castro&lt;/em&gt;, falou, falou interminavelmente, no caso das bínubas, no caso do testamento, em todos aqueles casos, sua única preocupação, que tratou nas Câmaras e publicou em folhetos. Ouvia-o sem uma palvra. Tinha-o diante de mim, lívido, seco, de barba rala na cara em pentágono, com os olhos fuzilando. Ouvia com espanto correr aquele jacto em fusão. Mas só o compreendi bem quando me tocou com a mão: a sua tensão nervosa era tão grande que tinha as mãos geladas – as mãos dum morto. Trazia consigo um filho pequeno, que adorava, mas acima de tudo estava a honra, a que sempre sacrificou a família e o interesse. Já em rapaz os outros diziam dele, com respeito: - É o João de Freitas! – É um tipo que colocou num altar não sei que ídolo, não sei que regras ou que princípios, que os outros, até Junqueiro, classificam de loucura. E efectivamente a honra, até àquele ponto, não pertence a este mundo: o que pertence a este mundo é a honra palavra, a honra acomodatícia, de tirar e pôr, uma cousa convencional e sem exageros, uma cousa humana, que se dê bem com toda a gente. A outra, a dele, incomoda e chega a irritar os homens honrados...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;No comboio prenderam-no, agarraram-no e entregaram-no aos sicários, que o mataram lentamente no Entroncamento. Cuspiram-no, escarneceram-no, torturaram-no até ao último suspiro. Por fim enterraram-no como um cão, por ordem do administador de Torres Novas. »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ Raul Brandão, Memórias, tomo III. &lt;em&gt;Vale de Josafat&lt;/em&gt; (1933), ed. 2000 por José Carlos Seabra Pereira.&lt;br /&gt;O dr. João de Freitas, advogado e professor do liceu de Braga, nascido em 1873, participara com a “falange académica republicana” na revolta de 31 de Janeiro de 1891, a primeira tentativa armada contra o regime monárquico; foi governador civil de Bragança, após o 5 de Outubro, deputado à Constituinte e senador, alinhando no Partido Evolucionista de António José de Almeida. A &lt;em&gt;Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira&lt;/em&gt; dá outra versão da sua morte: “ Subjugado pelo dr. Paulo José Falcão e outras pessoas, foi entregue a soldados da GNR mas, ainda armado, desprendeu-se dos seus captores e tentou de novo disparar o revólver, sendo então morto com um tiro de carabina.” ]&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-7174797397278802545?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/07/guerra-junqueiro.html#links' title='O ÓDIO ACUMULADO (1914-1915)'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/7174797397278802545/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=7174797397278802545&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/7174797397278802545'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/7174797397278802545'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/o-odio-acumulado-1914-1915.html' title='O ÓDIO ACUMULADO (1914-1915)'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TGHPEUbpuZI/AAAAAAAAAnE/hrwECAzlsMw/s72-c/Marianne-BB-01.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-7902713964588111244</id><published>2010-08-06T23:18:00.005+01:00</published><updated>2010-08-06T23:44:29.149+01:00</updated><title type='text'>UM DEUS CRUEL ?</title><content type='html'>« Onde estava Deus, onde estava o projectista inteligente do universo quando os nazis zelosos transformaram em fumo 1,5 milhões de crianças? Onde estava o ser todo poderoso, omnisciente e perfeitamente bom cuja essência mesma se opõe radicalmente ao mal, enquanto milhões de crianças morriam à fome às mãos de Estaline .... A existência do mal é a ameaça mais fundamental ao conceito ocidental tradicional de um Deus sumamente bom e todo-poderoso. »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É assim que Andrea Weisberg abre o capítulo que dedica a “O Argumento do Mal”, contribuição sua para a colectânea coordenada e apresentada por Michael Martin, sob título &lt;em&gt;Um Mundo Sem Deus. Ensaios Sobre o Ateísmo&lt;/em&gt;, traduzida pelo filósofo português Desidério Murcho, e publicada há poucos meses em Lisboa. Lá encontrará o leitor interessado uma versão mais vulgar do argumento a que me referi no postal anteirior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes pergunto-me se o “argumento do mal” é &lt;em&gt;moralmente &lt;/em&gt;bom: - está a evocar-se o imenso sofrimento de humanos e animais para nos convocar ao dever urgente de combater o mal? Não; está a usar-se o sofrimento para combater... um “conceito” ou uma crença. Será que são estes conceito e crença de algum modo responsáveis por tal sofrimento? E se, por outro lado, o “argumento do mal”, em qualquer uma das suas versões, não é demonstrativo mas apenas “indiciário” ou retoricamente sugestivo (que é o que, de facto, se apura), a tentativa de minar essa crença é uma contribuição válida para robustecer o combate ao mal ? Anulado esse “conceito tradicional”, tal combate seria mais eficaz?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também às vezes parece-me que os argumentadores, no cenário do Teatro humano deste mundo se fixam as vistas apenas no ponto em que há vítimas inocentes da violência que sofrem, e depois imaginam-se Deus como uma espécie de super-homem Clarke Kent assistindo distanciado na plateia, sem intervir... Talvez fosse melhor partirem para o “argumento” mais informados do “conceito ocidental tradicional”, que inclui um Deus humanado, traído, ofendido e crucificado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Psicologicamente, a ênfase no sofrimento como um mal pode encobrir inexaminado preconceito e desapercebida ansiedade. - Procede-se por abstrair e absolutizar certa fracção temporal duma existência temporal limitada, e ignoram-se ostensivamente possíveis existências sucessivamente limitadas, existências temporalmente ilimitadas, ou existências eternas. (Típicamente, os argumentadores ignoram o sofrimento infernal ou a beatitude celeste.) Parece-me, pois, um argumento significativo da insofrida intolerância do hedonista, que julga a “vida” coisa de dois dias e que se dá ansiosa pressa de a gozar o mais possível. Para este, o sofrimento imerecido terminado na morte será sempre um escândalo: coisa sem sentido e sem esperança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Responderei primeiro ao desafio que o sr. marquês de Sade aqui nos deixou na passada semana, e que também não deixa de ser endereçado ao teísta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(1)&lt;/strong&gt; Um Deus cruel poderia talvez ser um criador, mas não um Deus soberano, independente e livre relativamente às suas criaturas. Dependeria delas como o senhor sádico depende dos seus escravos. Se não é inteiramente livre relativamente à sua criação, não é propriamente digno de ser considerado Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(2)&lt;/strong&gt; Se há criação quando há uma dependência ontológica unilateral e exclusiva das criaturas relativamente ao seu Criador, mas nunca o inverso, então um Deus cruel que depende da existência das criaturas, não só não pode ser Deus (1) como não poderia ser criador. Ora, se há criação...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(3)&lt;/strong&gt; A existência de seres que se comprazem com sofrimentos infligidos sobre si por outros, é incompatível com um Deus cruel, que excluiria o masoquismo. E se é pensável assim um Deus mais cruel, essoutro que seria relativamente menos cruel não é digno de ser considerado Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(4)&lt;/strong&gt; A existência de um único genuíno bem (no nosso sentido normal de bondade) seria incompatível com um Deus cruel, omnisciente e omnipotente. Mas a soma de males (no nosso normal, não sádico, sentido de maldade) seria de esperar muito maior; e a quantidade, variedade e grandeza dos bens que achamos na Criação seriam, de facto, males.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(5)&lt;/strong&gt; A existência de um único genuíno bem poderia sugerir a existência de um Deus bom (ainda que menos poderoso), que limitaria o poder desse Deus cruel. Ora, dois deuses com poderes reciprocamente mais ou menos limitados, são indignos de serem considerados propriamente Deus, soberano ilimitado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julgo que ao ateu argumentador do “argumento do mal” interessará meditar um pouco no (4) supra. Mas, se insiste em que a soma de males é desproporcionadamente maior do que a dos prazeres, alegrias e toda a espécie de bondade feliz que pode viver-se já neste mundo, eu perguntaria: - se não há nenhum Deus, e a presença dos males é tão desproporcionadamente maior, que razão suficiente teríamos para pensar que é melhor viver que não viver, e qual razão moral eficiente para os contariar e fazer o bem ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto à pergunta do sr. Weisberg, a melhor e mais directa resposta &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2008/12/etty-hillesum-1914-1943.html#links"&gt;já foi dada aqui &lt;/a&gt;neste blogue. Eis aqui outra tão boa, do judeu belga Albert Frank-Duquesne, que esteve internado em 1941 no campo de concentração nazi de Breendonk:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.sombreval.com/docs/Via_Crucis.pdf"&gt;http://www.sombreval.com/docs/Via_Crucis.pdf&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o leitor não lê francês ou não tem pachorra para ler livros, então respondo eu. Onde estava Deus ? – Estava onde sempre está: no mundo feito por Ele, satisfazendo ao prometido no Sermão da Montanha; no mundo desfeito por nós, crucificado por amor dos homens, e Salvador de todos os homens crucificados por amor d’Ele.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-7902713964588111244?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/7902713964588111244/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=7902713964588111244&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/7902713964588111244'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/7902713964588111244'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/um-deus-cruel.html' title='UM DEUS CRUEL ?'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-2486292726488630177</id><published>2010-08-03T21:48:00.005+01:00</published><updated>2011-01-21T09:35:20.247Z</updated><title type='text'>O ARGUMENTO ATEÍSTA</title><content type='html'>Nos últimos cinquenta anos, adentro daquilo a que, na cultura desta parte do mundo, usualmente se chama “Filosofia”, tem sido o “problema do mal” o motivo do argumento mais brandido contra a existência de Deus (entendido este ao modo do teísmo hebraico-cristão).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era de esperar, num mundo pós-Auschwitz e num século que terá sido o mais mortífero da História da humanidade. E, contudo, estão hoje vivos muitos mais humanos do que há cem anos; e talvez com uma “qualidade de vida” média superior à de há cem anos (ou à de qualquer outro tempo). É então o caso de a quantidade e enormidade do mal andarem assim tão desiquilibradas com a grandeza do bem, menos clamorosa mas de não menos inegáveis consequências?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O referido argumento aplicar-se-ia então da seguinte maneira: é inaceitável que o sofrimento involuntário de um único inocente sirva de meio para que outros vivam melhor. Ora, não só um mas milhões de indivíduos têm sido usados e abusados no interesse de outros. Logo, não há nenhum Deus absolutamente bom ou eficientemente capaz de o impedir, e se de facto vivemos melhor isso deve-se apenas a nós e às circunstâncias dum mundo em que o progresso só seria possível a este custo. O leitor, se está lembrado da Lei Moral kantiana de que aqui temos falado, já reconheceu significado no “inaceitável” o &lt;em&gt;moralmente&lt;/em&gt; inaceitável: nenhuma pessoa pode servir a outras pessoas como apenas um meio. ( Mas, do ponto de vista utilitarista, Auschwitz seria moralmente aceitável, se fosse o único meio para as gerações sobreviventes virem a beneficiar de um futuro em que tal horror não fosse mais possível efectivamente... )&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre outros, o argumento deixa na sombra os pressupostos racionais essenciais da filosofia prática de Kant, como o da imortalidade da alma. (O inocente sacrificado pelo mau uso da liberdade humana, poderia ser imediatamente gratificado por Deus com um bem maior do que qualquer outro que os vivos neste mundo possam jamais conseguir.) -&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O argumento do mal não costuma lembrar bens nenhuns, ao contrário da versão supra, que no entanto se limita a associar-lhe um corolário inevitável: se nenhum Deus nem quaisquer entidades “sobrenaturais” existem, então o progresso no bem (ou no mal) dever-se-á exclusivamente a nós. Suponhamos então que muitos mais indivíduos vivem hoje melhor na Terra do que há cem anos, e que não há dúvida nenhuma quanto ao que conta como “viver melhor”. A mim parece-me claro que isto não seria um bem moralmente aceitável, se feito à custa de todas as gerações passadas, excluídas das agora privilegiadas com uma “vida melhor”. De aqui o fruste sentido de todas as utopias sonhadas para este mundo, a não ser que incluam a ressurreição dos mortos ou a perene manutenção da mesma “vida melhor”, nos vindouros. Mas, também este ponto do argumento deixa clara a necessidade (racional) do pressuposto kantiano (e cristão): seria moralmente aceitável, se cada geração dos vivos pensasse ter e de facto tivesse uma “vida melhor” que as anteriores; e se tal progresso fosse consentido e até encorajado pelas almas dos que progrediram deste mundo para um outro &lt;em&gt;melhor&lt;/em&gt;, como um meio normal de os sobreviventes neste mundo merecerem chegar a esse melhor. (Uma perspectiva que se conciliaria pois inteiramente com a interpretação utilitarista também.) Assim é moralmente admissível que, na verdade, vivamos hoje melhor; e haveria motivos de esperança para que no futuro vivamos ainda melhor, e não apenas neste mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas consequências. Primeira, teríamos aqui um progresso menos injusto e mais amplo do que supunha o argumento: colaboram nele os bons e os maus; os vivos e os mortos de todas as gerações. Segunda, tal progresso ressalvaria de facto a possibilidade (não a necessidade) da &lt;strong&gt;&lt;em&gt;não &lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;existência de qualquer Deus: seria tão somente uma Lei fundamental do universo, da natureza do Cosmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabe perguntar: tal Lei é compatível com a existência real da liberdade no humano ? Parece que sim: quem não quer progredir, regrediria. (Pense-se na Lei do karma hindu e na teoria da “reencarnação”.) Mas, regrediria até onde? Até à erva e às bolotas, como ansiava &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/07/pesos-ainda-mais-pesados.html#links"&gt;o sr. marquês de Sade&lt;/a&gt;, e, portanto, até à perda de qualquer capacidade de vontade e de liberdade? Não necessariamente. Então, com o tempo, em um novo ciclo cósmico, refeito este mundo, um outro Sade &lt;em&gt;poderia &lt;/em&gt;querer o bem em vez do mal ? Mas, este outro Sade seria o mesmo Sade? Qual seria o verdadeiro: o sádico a regredir para o porco e a bolota, ou aquele que progrediria para santo? Poderia ser o mesmo, ora progredindo, ora regredindo; mas, nesse caso, ponha-se a questão ética fundamental : – por que &lt;em&gt;deve &lt;/em&gt;querer antes ser um santo do que um sádico? Se ambos, “bem” e “mal”, podem alternar infinitamente, e o pior que poderia acontecer ao malfeitor sádico era terminar em erva e bolotas... E é aqui que entra a lei da causalidade retributiva do Karma: quem faz sofrer outrem atrai sobre si o sofrimento, e quanto mais fizer sofrer, mais sofrerá. É evidente que, neste sentido, o sádico não podia terminar numa erval inconsciência bucólica, de que nenhuma vontade consciente o tiraria para “progredir”, a não ser o andamento &lt;em&gt;impessoal &lt;/em&gt;da roda do Dharma. E, por outro lado, quanto às vítimas dele – e que teriam merecido serem maltratadas (eventualmente teriam sido violadores sádicos numa existência anterior) -, como é que poderiam progredir no caminho da virtude? Começando por não querer a vingança, consentir no perdão... E também do sofrimento dos animais seguir-se-iam algumas consequências curiosas para a compatibilidade com este esquema geral, e quanto à impressão de que estaríamos melhor hoje no mundo do que há cem anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teríamos então, pelo exposto, uma lei natural que é uma lei moral, contra o pensamento de Kant?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sofrimento é uma parte do mal, e parte nenhuma se é um sofrimento merecido, caso em que pode mesmo considerar-se um bem. Para Kant, tudo está na intenção &lt;em&gt;pessoal&lt;/em&gt;: o que cada um quer ou não quer, à luz duma lei moral que implica a liberdade, não o fatal giro duma cósmica Roda. Ora, tudo isto é empiricamente insondável e psicologicamente sofismável (a tendência a não desconfiarmos da bondade das nossas intenções e outros “bons sentimentos”). Por isso não há nem pode haver indicadores empíricos nenhuns que&lt;em&gt; garantam&lt;/em&gt; sermos globalmente melhores hoje do que há cem anos, e que não nos estamos activamente a preparar sofrimentos ainda maiores do que os que experimentámos no séc. XX. Pelo contrário, o que &lt;em&gt;parece &lt;/em&gt;mais evidente é um progresso sempre maior na capacidade de nos fazermos a nós e ao mundo cada vez mais mal. Assim, voltando ao nosso argumento da quantidade e enormidade dos males contra a existência de um Deus absolutamente bom, omnipotente e omnisciente, suponhamos que o argumento era lógica e epistemologicamente bem sucedido: não existiria na realidade nenhum tal Deus. Fica então nas mãos do argumentador o ónus de explicar como é que o mesmo argumento não demonstra a existência de um Deus mau, omnipotente e omnisciente. Um Deus que teria criado os humanos e todos os mais seres sencientes para se comprazer no sofrimento deles, infinitamente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal é o desafio que o sr. marquês de Sade lança ao ateu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;ADENDA&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/um-deus-cruel.html#links"&gt;não há um Deus absolutamente mau criador &lt;/a&gt;do pior dos mundos possíveis, então:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(1)&lt;/strong&gt; Ou os males deste mundo sobrepassam largamente os bens;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(2)&lt;/strong&gt; Ou os bens deste mundo sobrepassam largamente os males;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(3)&lt;/strong&gt; Ou bens e males equilibram-se neste mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se (1), era de esperar que a vida humana biológica (assumida como um bem e condição necessária de todos os mais bens possíveis) não tivesse proliferado, mas diminuído ou até extinguido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se (3), o “argumento do mal” pode ser apenas um desabafo pessimista travestido de lógica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como (2) é inaceitável pelo argumentador, resta manter (1) com a restrição de que os “&lt;em&gt;males &lt;/em&gt;naturais” não são tão maus que tivessem impedido a proliferação da vida humana (ou até que não faz sentido falar em “males &lt;em&gt;naturais&lt;/em&gt;”. Uma tal restrição, porém, robustece (3).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conceda-se em benefício do argumento que (1) é a verdadeira, e tal que sobrepassem tão largamente os bens que seria de esperar que – naturalmente – a vida humana já se tivesse extinguido. Como o facto é que não se extinguiu, cabe ao argumentador: dar uma razão suficiente para a actualidade de (1), e não (2) e (3), que são falsas; e como é que este facto pode ser compossível com (1). Cabe-lhe explicar também o seguinte: se há uma hipotética Lei &lt;em&gt;natural &lt;/em&gt;que introduz um limite necessário para a quantidade e/ou perigosidade dos males, como é que o bem e o mal &lt;em&gt;morais&lt;/em&gt; não são &lt;em&gt;moralmente&lt;/em&gt; equivalentes (porquê fazer antes o bem do que o mal).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas há outra razão disponível: os males largamente maioritários &lt;em&gt;nunca&lt;/em&gt; serão incompatíveis com a propagação da vida porque há um Bem &lt;em&gt;sobrenaturalmente &lt;/em&gt;tão forte que providencia uma efectiva garantia. Logo, a existência de um Deus bom, não só é possível mas vitalmente necessária. (E o bem e o mal &lt;em&gt;morais &lt;/em&gt;são o livre concurso de criaturas livres com a Providência de um Deus livre.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em suma, quer (1) ou (2) ou (3) são todos compatíveis com a existência de um Deus bom, omnisciente e omnipotente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, um Deus absolutamente bom, tal que nenhum bem maior é concebível, de certo não pode deixar de criar o melhor mundo possível. Mas, relativamente a Ele, tal mundo é necessariamente menos bom. Nesta diferença fica aberta a possibilidade do mal. A conversão da possibilidade em efectividade não pode, porém, ser imputável a Quem é e só quer o melhor possível, sem o impor a criaturas livres. A liberdade de agentes humanos e/ou sobrehumanos pode conduzir a (1). Portanto, também por este lado (1) é compatível com um Deus absolutamente bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(A alternativa era não haver liberdade ou não haver criação nenhuma. O primeiro termo, deixo-o aos cuidados dos acreditam num Logos heractino ou estóico, ou num Destino. Já os &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/05/leis-naturais-e-leis-morais.html"&gt;considerámos aqui&lt;/a&gt;, e as dificuldades postas supra a uma Lei natural regradora do mundo moral aplicam-se-lhes. O segundo não parece adequar-se a um Deus que é por essência criador. Impõe-se a analogia com os humanos, se estes foram criados à imagem e semelhança de Deus: é da essência do poeta o ser criador; e se este realiza em conformidade com o que é, realiza-se, é livre... Também não seria difícil mostrar como é que a essência criadora de Deus se adequa melhor a Um que é Trindade de Pessoas do que uma entidade solitária, tendo presente que o conceito de pessoa é necessariamente relacional.)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-2486292726488630177?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/2486292726488630177/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=2486292726488630177&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/2486292726488630177'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/2486292726488630177'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/08/o-argumento-ateista.html' title='O ARGUMENTO ATEÍSTA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-4923697643639109654</id><published>2010-07-30T22:35:00.001+01:00</published><updated>2010-07-30T22:41:00.550+01:00</updated><title type='text'>ANTÓNIO CORRÊA D' OLIVEIRA</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TFNF2lZeavI/AAAAAAAAAm8/p9oyVR6Q9e4/s1600/Ant%C3%B3nio+Correa+d%27Oliveira.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5499816374003722994" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 212px; CURSOR: hand; HEIGHT: 292px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TFNF2lZeavI/AAAAAAAAAm8/p9oyVR6Q9e4/s320/Ant%C3%B3nio+Correa+d%27Oliveira.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Nasceu  em S. Pedro do Sul, ano de 1879. Não cursou estudos secundários ou universitários. Educação superior recebeu-a o Poeta da prática dos mestres maiores do seu ofício, a começar no povo da Beira, e da compenetração telúrica com a paisagem natal das terras de Lafões e do Vouga. Mas não foram precisas mais certidões que as obras para a Academia Portuguesa de Ciências, e Brasileira de Letras, se honrarem de o eleger como membro seu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos dezanove anos vem para Lisboa iniciar carreira no funcionalismo público, empregado amanuense na Procuradoria Geral da Coroa. Escreve em jornais, frequenta cafés, tertúlias e salões, como o de Maria Amália Vaz de Carvalho, que lhe reconheceu, protegeu e estimulou as primícias literárias. Com a revolução republicana demitiu-se da carreira burocrática, por fidelidade ao regime deposto e providencial graça da Poesia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se demite porém de colaborar desde a primeira hora, com seu irmão o dramaturgo João Corrêa d’Oliveira, no movimento da Renascença Portuguesa e nas primeiras séries da revista &lt;em&gt;A Águia&lt;/em&gt;, a convite de Teixeira de Pascoaes, seu amigo de toda a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No ano seguinte de 1911, um encontro decisivo vai marcar a vida do homem e influir na trajectória vital da obra do poeta: conhece uma jovem minhota que viria a ser sua esposa. Maria Adelaide da Cunha Sottomayor de Abreu Gouveia «era, pelo coração boníssimo, sensibilidade vibrátil e lhaneza de trato, a esposa ideal do (como lhe chamou meu pai) “Beato António, ermitão de Belinho” », conforme lembra do seu convívio pessoal o poeta Couto Viana. Em finais desse ano abandona a capital pelo solar retiro da casa de sua mulher, em Belinho, Esposende, donde raro sairá até ao fim da vida; aí, o quase analfabeto de instrução oficial fundará um colégio para as crianças pobres da terra aprenderem a ler as primeiras letras e os primeiros versos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa de Belinho, «entre rosas, lilazes e glicínias, com soberba vista para o mar desde a Apúlia à Âncora» (conta o escritor Alfredo Guimarães), dir-se-ia o abrigo ideal para um poeta português e amoroso da Pátria lacerada pelas comoções revolucionárias, apurar – sem amargura nem revolta – ao lume do Lar e à luz do Céu, o cautério de sobrivência à agonia. E em boa parte o foi, abrigo ideal, e mais do que abrigo; mas, no real (“não há gosto perfeito na vida”...), o sonido contínuo e bravo do mar próximo bulia com os nervos deste terrantês nado e criado no colo montanhoso da Beira. E era passeando nos montes convizinhos da casa que o poeta ia muitas vezes colher as ramadas de versos que depois dispunha logo perfeitos no papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro mestre da Renascença Portuguesa, o filósofo Leonardo Coimbra, na sua tese de 1912 sobre &lt;em&gt;O Criacionismo&lt;/em&gt;, considerava Corrêa d’Oliveira « o abraço mais abraçado da alma popular portuguesa, alma imediata (sem maneiras artificiais ou sábias) da simplicidade, do doloroso e comovido saber do coração, fusão íntima e perfeita da Mulher e da Terra, do lar e da lenha do secrifício. » Era a certificação das mais auspiciosas promessas que críticos e conhecedores tão autorizados como Trindade Coelho, Sampaio Bruno ou João Penha tinham saudado nas primeiras obras do poeta. Como testemunhou Fernando Pessoa a Armando Cortes-Rodrigues, fora Corrêa d’Oliveira o poeta que mais o influenciara pelos anos de 1908-1909, e que, em carta de 11 de Março de 1914, confessa ao poeta dos &lt;em&gt;Dizeres do Povo&lt;/em&gt; a sua “alta e sincera admiração”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já em 1917, quando da conclusão do ciclo de dez livrinhos sobre &lt;em&gt;A Minha Terra&lt;/em&gt;, e fazendo-se eco da voz comum, considerava o Diário de Notícias Corrêa d’Oliveira “o cantor eleito do povo português e da terra portuguesa”. Eleito, digo eu, por a mais legítima eleição que um poeta pode ter: a de fazer o povo seus versos dele. (Ainda num poema datado de 1968, de um poeta popular alentejano, Manuel de Castro, achei uma glosa dos versos da célebre quadra – &lt;strong&gt;&lt;em&gt;Sino, coração da aldeia; / Coração, sino da gente: / Um a sentir, quando bate, / Outro a bater, quando sente&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;. ) Confirmava-se a previsão que o seu amigo Pascoaes escrevera nas colunas d’ &lt;em&gt;A Águia&lt;/em&gt;: « o Poeta perde o nome de Corrêa d’Oliveira e chama-se Povo. »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Publicou mais de seis dezenas de livros de poesia, de maior ou menor tomo, em todos os géneros e metros. De certo, ao leitor urbanizado e cosmopolita de hoje, sobretudo influenciado pelos variados modernismos que pervadiram o séc. XX, muito há de estranho e aborrecido numa poética matricialmente fiel à poesia popular e a poetas como João de Deus, António Nobre ou o Junqueiro de &lt;em&gt;Os Simples&lt;/em&gt;, mesmo que compreendesse e perdoasse a adesão sincera que o cidadão e o artista Corrêa d’Oliveira deu ao ideário político do Estado Novo. Mas tenho que há pelo menos quatro grandes poemas (que são quatro livros inteiros) – &lt;em&gt;Tentações de São Frei Gil&lt;/em&gt; (1917), &lt;em&gt;Verbo Ser e Verbo Am&lt;/em&gt;ar (1926), &lt;em&gt;Job&lt;/em&gt; (1932) e &lt;em&gt;Elogio da Monarquia&lt;/em&gt; (1944; trata-se da Monarquia divina sobre o universo e a história humana, cristãmente meditada) – que pelo lado da problematização humana, cósmica e divina, não menos que pela excelência da realização artística, estão ao nível das melhores obras de toda a nossa história literária, e justificam plenamente que Corrêa d’Oliveira tenha sido o escritor português mais vezes proposto ao Prémio Nobel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um ano após a  publicação do seu derradeiro livro, num discurso  em Esposende, quando do encerramento das homenagens nacionais ao Poeta, a 30 de Julho de 1955, dizia o padre António Dias de Magalhães que Corrêa d’Oliveira alcançara “um lugar inconfundível entre os maiores poetas de Portugal”. E comparando-o com Pascoaes (de quem Magalhães foi bom amigo e bom conhecedor da obra) e com Pessoa, concluía:   « Nenhum destes, porém, realizou a harmonia entre a inspiração e a arte, a terra e o céu, a inquietação e a serenidade, o espírito e a forma, a vida e a poesia, a verdade e a beleza que António Corrêa d’Oliveira encontrou nos mais divinos momentos. »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos últimos anos de vida, com o agravamento da “doença implacável”, o Poeta, que já suportara a dor da perda do primeiro filho e a morte da esposa tão amada, padeceu a perda total da vista. Faltava-lhe isto para até ao fim se irmanar mais « &lt;strong&gt;&lt;em&gt;Daquele homem que foi Santo / E que fez versos também&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;. »&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; Faleceu na sua casa de Belinho, em 1960&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-4923697643639109654?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/4923697643639109654/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=4923697643639109654&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/4923697643639109654'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/4923697643639109654'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/07/antonio-correa-d-oliveira.html' title='ANTÓNIO CORRÊA D&apos; OLIVEIRA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TFNF2lZeavI/AAAAAAAAAm8/p9oyVR6Q9e4/s72-c/Ant%C3%B3nio+Correa+d%27Oliveira.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-5362965916354839714</id><published>2010-07-30T22:34:00.001+01:00</published><updated>2010-07-30T22:35:37.129+01:00</updated><title type='text'>TERRA DO PARAÍSO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Eu quis, lembrando o que fora,&lt;br /&gt;Futurar quanto seria:&lt;br /&gt;Que, pelos tempos de agora,&lt;br /&gt;Só quem olhar aos de outrora&lt;br /&gt;Crê em vindoira alegria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que foi, será. Adiante&lt;br /&gt;Vai a candeia, e que faz?&lt;br /&gt;Deita as sombras para trás...&lt;br /&gt;- Louco e ingrato Caminhante,&lt;br /&gt;Donde vens? – Nem saberás!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tudo volta... Criada&lt;br /&gt;Foi a Luz por nosso bem:&lt;br /&gt;Não pode ser apagada,&lt;br /&gt;Só porque as sombras do Nada&lt;br /&gt;Andem n’alminha dalguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terra, em culpa e malícia,&lt;br /&gt;(inda que tojos a comem)&lt;br /&gt;Voltará a ser propícia:&lt;br /&gt;Pois se fez para delícia&lt;br /&gt;De jardins, homem por homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ninguém sabe, afinal,&lt;br /&gt;Se não calca, em duro piso&lt;br /&gt;E em negro passo indeciso&lt;br /&gt;(Anda-me ouvir, Portugal!)&lt;br /&gt;A Terra do Paraíso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó Paraíso da terra!&lt;br /&gt;Ó terra do Paraíso&lt;br /&gt;Onde Satã nos fez guerra:&lt;br /&gt;Entre que mar, vale ou serra,&lt;br /&gt;Sorriu Deus no teu sorriso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não o diz o Livro Santo,&lt;br /&gt;Ou conta-o de tal maneira,&lt;br /&gt;Que não há eira nem beira&lt;br /&gt;Que não presuma um recanto&lt;br /&gt;Da virgem terra primeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luz que Deus nos acendia,&lt;br /&gt;Desfeita em sombras fatais...&lt;br /&gt;-Onde foi? Onde estaria&lt;br /&gt;(Perguntei: ninguém sabia!)&lt;br /&gt;O berço de Nossos Pais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Portugal?... Pois seria!&lt;br /&gt;Que, no mundo em redor,&lt;br /&gt;Terra assim onde a haveria,&lt;br /&gt;Para ser Deus, algum dia,&lt;br /&gt;Jardineiro e lavrador?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Águas, luz, aves em bando,&lt;br /&gt;Veigas de pão, roseirais;&lt;br /&gt;Que jardim valera mais,&lt;br /&gt;Para andarem passeando&lt;br /&gt;Eva e Adão, nossos Pais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde sol mais a contento?&lt;br /&gt;E sombras mais a carinho?&lt;br /&gt;O vale em forma de ninho;&lt;br /&gt;As serras dizendo ao vento:&lt;br /&gt;- «Amigo! vai de mansinho...»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde a rosa mais ardente?&lt;br /&gt;Doirados pomos assim?&lt;br /&gt;Sombra a fugir, no jardim,&lt;br /&gt;Como um vulto de Serpente,&lt;br /&gt;Atrás de ti e de mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde um Anjo Guardião&lt;br /&gt;Mais firme do que a montanha?&lt;br /&gt;Onde maior tentação&lt;br /&gt;Do que o mar (serpente ou não...)&lt;br /&gt;Caminho da terra estranha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó chama de altos Destinos&lt;br /&gt;Desfeitos em cinza vã!&lt;br /&gt;-Onde houve, em noite ou manhã,&lt;br /&gt;Mais longos passos divinos?&lt;br /&gt;Maior sombra de Satã?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas angústias de quem chora,&lt;br /&gt;Portugal, o teu Sentido&lt;br /&gt;É Saudade: entendo-a agora...&lt;br /&gt;- Ó Paraíso de outrora,&lt;br /&gt;Meu Paraíso perdido!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seu amor que não cansa,&lt;br /&gt;Inda, na terra, o profundo&lt;br /&gt;Reverdecer, é lembrança&lt;br /&gt;Do que foi, cheia de esp’rança,&lt;br /&gt;Quando Deus fez este mundo;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ó Cavador, meu amigo,&lt;br /&gt;Meu irmão e companheiro:&lt;br /&gt;Anda daí! Vem comigo,&lt;br /&gt;Por entre as vinhas e o trigo,&lt;br /&gt;Ao cimo daquele oiteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descansa a enxada, um momento;&lt;br /&gt;Tempo não perdes, que, enfim,&lt;br /&gt;Também o meu Pensamento&lt;br /&gt;Revolve as sombras: e intento&lt;br /&gt;Cavar por ti e por mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Serás, tu, a sombra ingente&lt;br /&gt;De quanta humana criatura&lt;br /&gt;Ergueu a Enxada à altura,&lt;br /&gt;Desde a primeira semente&lt;br /&gt;Que tombou na leiva escura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu serei, em vão segundo,&lt;br /&gt;Eco de toda a Palavra&lt;br /&gt;(Oração, canto profundo)&lt;br /&gt;Que passa, em luz, sobre o mundo,&lt;br /&gt;E também semeia e lavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De nada eu sei mais diverso,&lt;br /&gt;Sendo, afinal, meu irmão:&lt;br /&gt;- Meter arados ao chão;&lt;br /&gt;Cavarmos, de verso a verso,&lt;br /&gt;Nosso arreto: o coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tempo de hoje é negro véu&lt;br /&gt;Do que foi, será de novo...&lt;br /&gt;- Cavador, vem a mais eu;&lt;br /&gt;Em vozes de lumaréu,&lt;br /&gt;Anda pregar ao Povo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- “Há céu. Lá cima; e, no chão,&lt;br /&gt;Outro céu, sob os meus passos:&lt;br /&gt;Vinde-os ganhar onde estão,&lt;br /&gt;Pela força da oração,&lt;br /&gt;Ao jeito dos nossos braços.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheia a arca, cheia a tulha;&lt;br /&gt;Maré viva a eira e a adega.&lt;br /&gt;E, das sachas à debulha,&lt;br /&gt;Como pomba quando arrulha,&lt;br /&gt;Arrulhos de água de rega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao sol, nas ceifas e mondas&lt;br /&gt;Rapazes e raparigas&lt;br /&gt;Bailarão, cantando em rondas,&lt;br /&gt;À semelhança das ondas,&lt;br /&gt;Ao marulhar das espigas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem invejas, nem pobreza!&lt;br /&gt;Nem desmaios de saúde!&lt;br /&gt;Lar em chama, almas em reza;&lt;br /&gt;Cubas de azeite em represa,&lt;br /&gt;Lagar de vinho em açude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem paixão entremetida,&lt;br /&gt;Caia em Domingo de Ramos&lt;br /&gt;Eterna Páscoa florida...&lt;br /&gt;- E seja a Festa da Vida,&lt;br /&gt;A que tu vás, e nós vamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que foi, será... A terra&lt;br /&gt;Começou num Paraíso:&lt;br /&gt;E (Deus o quer!) é preciso&lt;br /&gt;Que torne, do vale à serra,&lt;br /&gt;Seu edénico sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E trago no meu sentido&lt;br /&gt;Ser Portugal o lugar&lt;br /&gt;Onde se encontre, a lavrar,&lt;br /&gt;O Paraíso perdido&lt;br /&gt;Que inda está para encontrar.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;António Corrêa d’Oliveira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ Vinte e uma das noventa e cinco quintilhas de &lt;em&gt;Terra do Paraíso&lt;/em&gt; (1922), como foram reeditadas em &lt;em&gt;Hora Incerta:Pátria Certa&lt;/em&gt;, 1948. ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-5362965916354839714?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/5362965916354839714/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=5362965916354839714&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/5362965916354839714'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/5362965916354839714'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/07/terra-do-paraiso.html' title='TERRA DO PARAÍSO'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-5202960267585531329</id><published>2010-07-27T21:20:00.003+01:00</published><updated>2010-07-27T21:27:57.431+01:00</updated><title type='text'>PESOS (AINDA) MAIS PESADOS</title><content type='html'>« Coberta a vala, sobre ela devem ser espalhadas bolotas, de maneira que o lugar possa tornar-se verde outra vez, e a vegetação cresça espessa, pois os traços da minha campa devem desaparecer da face da Terra, como espero que a memória de mim se desvaneça da mente de todos os homens.... salvo dos poucos que na sua bondade me amaram até ao último momento, e de quem levo uma doce lembrança comigo para o túmulo. »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis o que dispunha Sade no seu testamento. Os &lt;em&gt;maîtres à penser&lt;/em&gt; da moda e outros mediáticos protagonistas do aparelho cultural francês não lhe fizeram a última vontade, quando elevaram a pornografia literária às honras de edição na &lt;em&gt;Bibliothèque de la Pleiade&lt;/em&gt;. É caso para uma paráfrase dum célebre apelo do marquês: &lt;em&gt;Français, encore un éffort&lt;/em&gt;... – e ainda o vereis entronizado a título póstumo entre os imortais da &lt;em&gt;Académie Française&lt;/em&gt;! Preferiram pois seguir o lógico fio da voz de certa personagem sadeana, que ambicionava um crime que “provocasse um caos de tais proporções que provocasse a corrupção geral ou um distúrbio tão formal que, mesmo depois da minha morte, os seus efeitos ainda se sentissem.” A última vontade do &lt;em&gt;philosophe scélérat&lt;/em&gt; era mais consequente com o “sistema do nada”, que vimos &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/07/o-sistema-do-nada.html#links"&gt;já afirmado aqui&lt;/a&gt;; a da personagem sadeana, mais consequente com o sadismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto, aplicado à escala cosmológica do “eterno retorno do mesmo”, reproposto por certo pretenso defensor dos “valores da vida”, o filósofo Nietzsche, que intrometemos aqui no postal anterior, daria o seguinte. - Num mundo em que o mal é mais abundante, mais fácil de cometer e comprazer do que o bem, a quem é que mais interessa tal “retorno” ? - A resposta é óbvia: à minoria dos que já naturalmente realizam em si essa “inversão dos valores”: os sádicos e masoquistas. Quanto aos mais, um Nietzsche teria de apelar a alguma espécie de “lei moral” kantiana, pervertida: contra a comum natureza humana, deves querer que seja assim mesmo porque... “é” assim mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O eterno retorno do mesmo não é uma possibilidade excluída, ao menos para o jovem cosmofísico Peter Lynds, que em 2006 veio por seu lado repropor a hipótese adentro do modelo do Big Bang-Big Crunch de um universo que ainda mal conhecemos, se é verdade que 90% dele é constituído por energia e matéria “escuras” como a nossa ignorância. Mas não menos está excluída a possibilidade de a velha teoria não passar de mais uma banal projecção numa “eternidade” cósmica do banal eterno retorno temporal dos mesmos tipos (biopsicológicos, sociais, culturais) em diferentes indivíduos, geração após geração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo, certo é que não pode ser o mais pesado o “peso mais pesado” de Zaratustra-Nietzsche, a começar pelo “grande sim à vida”. - Quem realmente quer tanto à “vida”, não deveria querer antes que ela jamais se interrompesse, nem sequer na memória? Mas teria de esperar quintiliões de anos até que uma mesma Terra se começasse a formar de novo, até que os mesmos homens viessem a viver, esquecidos, como se fosse afinal a primeira e única vez... Mesmo que, depois, surgissem alguns “homens superiores” a lembrar isso, de que lhes valeria, se morriam e esqueciam?... Parece pois evidente que o genuíno “sim à vida” , se pode perfeitamente admitir mutações, o que deve querer é a &lt;em&gt;não interrupção&lt;/em&gt; da continuidade duma existência que, no caso tipicamente humano, é uma existência consciente. Isto é, o marquês de Sade e qualquer sádico consequente não deveriam querer senão fazer e comprazer no mal continuadamente, sem fim, não desfazer-se em erva, bolotas e porcos. Ora, existia ao tempo do marquês (e ainda hoje) uma perspectiva que parece garantiria as delícias perpétuas do sadomasoquismo: a da “eternidade” do Inferno. (A que pelo menos o masoquista não parece possa ser “condenado”, porque isso seria para ele um “lugar” de delícias, não de teológica “reprovação”! Mas, então, não querendo purgar-se no Purgatório, para onde iria?...) Esse “lugar” pode ser mais escuro que a nossa cosmológica “matéria escura”, mas a consequência lógica é clara: - quem realmente quer o mal (ou o bem), quere-o infinitamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se o meu leitor já reparou em que esta velha a aparentemente “bárbara” perspectiva tem pelo menos uma implicação muito estimável: - leva muito a sério e dá o máximo peso à Liberdade humana. – Quem, neste mundo, realmente quis, ou o bem, ou o mal, terá conforme quis, ou o bem ou o mal, depurados, clarificados, continuadamente, sem fim. Já lá dizia com nímia clareza o nosso Martinho de Dume aos seus rústicos suevos, no século VI: « Nam et vita aeterna et mors aeterna in arbitrio hominis posita est. Quod sibi elegerit unusquisque, hoc haberit.» ( Com efeito, tanto a vida eterna como a morte eterna dependem do arbítrio do homem. O que cada um escolher para si, é o que terá. ) – Como? diz-me o caro leitor que isso seria levar &lt;em&gt;demasiado&lt;/em&gt; a sério a liberdade do homem, que não sabe o que quer, que não sabe querer, que talvez não tenha nenhuma vontade livre mas somente um maior ou menor desejo de libertação!... Eu diria ao leitor que tudo o que for menos do que isso tem um nome: - desresponsabilização. Pois dar-se-ia então o caso de o mal (e o bem) transcender o humano de tal maneira que escolher o mal não seria uma escolha da liberdade, mas abatimento dela? – Aceito, na medida em que a degradação não vá ao ponto da eliminação duma inerradicável liberdade e, portanto, da total desresponsabilização. (E lembro que este abatimento milita contra a existência de “penas de morte”.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sadeano Saint Fond e o nietzscheano Zaratustra são exemplos das possibilidades extremas a que os comuns mortais normalmente não chegam (nem sequer sonham), mas nem por isso estamos livres de não chegar lá, neste mundo ou em qualquer outro mundo possível. O anormal elucida-nos muito sobre nós outros pretensamente normais. O anormal é raro e clarificador da norma. Não pode, assim, ser o mais pesado mal. Devemos a Hannah Arendt e a Susan Neiman, aqui citadas no último postal, o terem-nos desmascarado o que mais pesa sobre nós, e de que mal damos por isso, de tão comum e tão “normal”: a debilidade e mesquinhez da nossa consciência moral... os milhões de pequenos Eischmanns ordinários que, todos juntos, podem vir a gerar e aclamar um Hitler. A desequilibrada inclinação para fazermos mais, mais facilmente e com mais gosto o mal do que o bem. Portanto, o “anormal” não seria aqui de maneira nenhuma o excepcional, mas sempre o caso extremo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas mesquinhez e debilidade parecem estar profundamente radicadas na “natureza”: o menino assaltante de ninhos ou que se compraz na vivissecação de animais. Sade e Nietzsche (menos claramente, este) foram dois dos raros que, na modernidade, defenderam que o mal é pelo menos tanto um fenómeno &lt;em&gt;natural &lt;/em&gt;como é um fenómeno moral. Neste ponto julgo que Susan Neiman, boa conhecedora e defensora de Kant, não se distanciou o suficiente dessa modernidade para se confrontar com a visão de Sade, aqui mais original que Nietzsche (quanto a este: de há muito que os homens dejam superar-se e ser como deuses, desde pelo menos... o Éden bíblico!), - a visão de uma soberana Natureza-divindade, cruel, que lança os homens na existência para destruírem e se destruírem. É a hipótese de um “Deus maligno”, que só Descartes (muito de fugida) ousou pensar. Isto quer significar uma coisa, que não pode passar não pensada, por mais que seja difícil de pensar: - que o mal transcende o humano e afecta-nos a nós como ao universo físico em que habitamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Considerarei esta possibilidade em breve.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-5202960267585531329?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/5202960267585531329/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=5202960267585531329&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/5202960267585531329'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/5202960267585531329'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/07/pesos-ainda-mais-pesados.html' title='PESOS (AINDA) MAIS PESADOS'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-4776710659247985016</id><published>2010-07-23T23:00:00.003+01:00</published><updated>2010-07-23T23:10:07.948+01:00</updated><title type='text'>UM ENCONTRO EM OUTUBRO DE 1911</title><content type='html'>A um ano da nossa revolução de Outubro, no dia 3, alguns grupos de monárquicos exilados na Galiza, mal municiados e mal preparados, entram no país sob o comando de Paiva Couceiro, para serem rapidamente contidos e obrigados à retirada. Mas esta ameaça comum não chegou para congraçar as desavindas facções republicanas que, pelo contrário, agravam as respectivas dissenções a ponto de, no dia 20, uma turba ter tentado assassinar o dr. António José de Almeida. Regista nas suas &lt;em&gt;Memórias&lt;/em&gt; deste mês Raul Brandão: « O povo parece desvairar. (... ) A agitação nesta camada que vai de Alcântara ao Poço do Bispo é enorme. Fala-se de assaltos. Continuam as prisões. (...) os diferentes grupos de republicanos parecem a ponto de vir às mãos. Anteontem (27 de Out.) os amigos do António José [de Almeida] reuniram à noite na redacção da &lt;em&gt;República&lt;/em&gt;, todos armados de &lt;em&gt;brownings &lt;/em&gt;e &lt;em&gt;smiths&lt;/em&gt;, na iminência dum ataque. São os fanáticos? É o povo? O país não é. O país está bem representado neste pobre António Lourenço que veio por aí abaixo da Guarda e que quer por força pregar ao governo e ao ser. Afonso Costa a ideia de Deus. – “Tudo isto mudará no dia em que eu os convencer”... »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O leitor recordará que ainda não eram passados seis meses sobre a aprovação pelo governo provisório da fundamental “Lei de Separação do Estado das Igrejas” , da lavra do dr. Afonso Costa e mais confrades maçónicos, que teve funda repercussão no país e mereceu o repúdio da Igreja Católica portuguesa e da Sé romana. Não foi ela sem relação com o apoio e envolvimento directo ou indirecto de muitos padres no norte com a incursão de Couceiro. Como não será sem relação com a vinda deste notável guardense a Lisboa. Quem era António Lourenço? Eis como no-lo dá Raul Brandão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;« Deve ter mais de cinquenta anos. É uma figura seca, amolgada pela vida. Tem não sei quê de grande e de triste. Quer exprimir-se e balbucia. É um aldeão que desceu da montanha e vem pregar ao povoado. Vê-se que aquela ideia o dominou até fazer parte integrante de todo o seu ser. Largou tudo, deixou tudo e pôs-se a caminho. Onde dorme? Onde come? Não sei, nem ele decerto o sabe. A todas as perguntas responde sempre da mesma forma obstinada:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É preciso demonstrar a esta gente que Deus existe. Não sou católico, não me importo com igrejas nem com padres. Entendo, porém, que o mal de que padece toda a nossa sociedade é a descrença em Deus e o progresso do materialismo. »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é católico, mas tem letras, reivindica uma certa doutrina e está pronto a responder por ela:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;« E António puxa dum papel. – O que quero está escrito aqui:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A ruína do país vem dos materialistas. Materialistas são os homens que dizem que não há Deus e que o homem é só matéria. Os homens que eu acuso, que se justifiquem; eu estou pronto a sofrer se não provar o que afirmo.&lt;br /&gt;Por este meio ficam avisados os sábios materialistas a apresentarem-se a debater comigo, em reunião que daqui a dias se anunciará.&lt;br /&gt;Deus existe!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Peço-lhe que assine o nome, e, vagarosamente pegando na pena com os dedos nodosos e habituados à enxada, ele assina: &lt;em&gt;António Lourenço&lt;/em&gt;. António Lourenço vai pregar o idealismo às turbas de Lisboa. Quer principalmente discutir. »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria discutir e teve discussão; queria reunir a debater com os sábios, e surgiu esse inesperado e singular debate, com um sábio interessado e muito informado dos mais recentes progressos das ciências, e por essa altura já preocupado com a realização dum sistema filosófica explicador do inteiro universo, do homem e da vida. E é este encontro extraordinário que eu acho merece hoje comemorar-se, não certamente o dos republicanos no jornal &lt;em&gt;República&lt;/em&gt;, de pistolas aperradas para defesa pessoal. Brandão relata-o assim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;« &lt;/strong&gt;À noite surge inesperadamente [Guerra] Junqueiro e pergunta logo: - O cavador? Onde está o homem? – Fui-lho buscar. E tenho pena de não poder reproduzir textualmente a ironia que faiscou e durou um minuto irisada como uma bola de sabão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O senhor que é na sua terra?&lt;br /&gt;- Cavador.&lt;br /&gt;- Então como é que Deus existe?&lt;br /&gt;- Porque foi ele que criou tudo isto.&lt;br /&gt;- Quem criou tudo isto não foi Deus, foi o Diabo. Deus não pode criar senão uma obra perfeita. Ora tudo no mundo é imperfeito e o homem é mau. O senhor na sua vida nunca encontrou anjos.&lt;br /&gt;- Mas, segundo a doutrina dos nossos maiores, no Paraíso o homem era bom.&lt;br /&gt;- No paraíso o homem já era mau. (...) &lt;strong&gt;»&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A “doutrina dos nossos maiores” não era a dos católicos, que Lourenço dizia não ser: no Paraíso o homem era &lt;em&gt;inocente &lt;/em&gt;do bem e do mal. Junqueiro, por seu lado, num dos seus repentismos famosos de cómica caricatura, improvisava &lt;em&gt;ad hoc&lt;/em&gt; um dualismo maniqueu para confundir o pobre com o problema do mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos em 1911. Não demorariam muitos anos para que o satirista Junqueiro, sem aparentemente nenhuma “irisação de faiscante ironia”, confidenciasse estas reflexões ao seu amigo Raul Brandão no dia 9 de Julho de 1921: « Também para mim o Inferno não existia. Hoje sei que há Inferno, o Inferno existe! Bem vê que Deus é infinitamente bom e infinitamente justo; portanto, o Inferno tem de existir, para as almas que durante a eternidade se não arrependerem. Mas há almas que não se arrependam durante a eternidade?... O cristianismo é uma verdade eterna. Melhor: existiu sempre, existiu antes de Cristo... »&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-4776710659247985016?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/07/guerra-junqueiro.html#links' title='UM ENCONTRO EM OUTUBRO DE 1911'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/4776710659247985016/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=4776710659247985016&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/4776710659247985016'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/4776710659247985016'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/07/um-encontro-em-outubro-de-1911.html' title='UM ENCONTRO EM OUTUBRO DE 1911'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-7629042599560447753</id><published>2010-07-20T11:00:00.004+01:00</published><updated>2010-07-23T23:09:39.981+01:00</updated><title type='text'>O PESO MAIS PESADO</title><content type='html'>« O século XVIII usou a palavra “Lisboa” como hoje usamos a palavra “Auschwitz”. Que peso pode uma referência cruel transportar ? Não é preciso mais que o nome de um lugar para se obter este significado: o colapso da mais básica confiança no mundo, o ponto que torna a civilização possível. Ao perceberem isto, os leitores actuais podem sentir-se melancólicos: ditosa a época em que um tremor de terra podia fazer tais estragos. O terramoto de 1755, que destruiu a cidade de Lisboa e matou tantos milhares de pessoas, abalou o Iluminismo até à Prússia Oriental, onde um desconhecido académico menor chamado Immanuel Kant publicou três ensaios sobre a natureza dos terramotos num jornal de Konigsberg. Kant não estava sozinho. A reacção ao terramoto foi tão alargada como rápida.... »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tais são as primeiras palavras da Introdução de Susan Neiman ao seu livro &lt;em&gt;O Mal no Pensamento Moderno&lt;/em&gt; (original de 2002).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa das atoardas tão ao seu jeito, dizia o filósofo Nietzsche que tinha como seu ideal de humanidade um indivíduo que juntasse em si a inteligência subtil duma mulher judia com a disciplinada resistência do soldado prussiano. Eu acho que a resistência disciplinada a encontraria ele na maior parte das mulheres judias, não por judias, mas por serem mulheres; e que o tal ideal assenta tão bem ao próprio Nietzsche quanto à filósofa que foi capaz de escrever este livro. Mas isto não se deverá tanto a ser judia como simplesmente a não ter esquecido uma certa vocação: « como tantos outros, vim para a filosofia para estudar questões relacionadas com a vida e a morte, e ensinaram-me que a profissionalização exigia que as esquecesse. Quanto mais aprendia, mais me convencia do contrário: a história da filosofia era, de facto, animada pelas questões que nos levaram a ela. » É o que excelentemente diz a terminar a Introdução, mostrando no mesmo passo quanto o Mal está de facto presente desde as primeiras páginas do seu livro ( &lt;em&gt;a profissionalização exigia que as esquecesse&lt;/em&gt;...), e que estamos diante alguém capaz de o enfrentar ( e fazer bem ao leitor que queira verificá-lo por si).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A referência a Lisboa ocorre em não poucas passagens do livro e, muito especialmente, nas págs. 270-280 do cap. IV, titulado “Sem-Abrigo”. O terramoto surge como o que de facto foi para a consciência europeia do tempo: um paradigma do “mal natural”, caído em cheio no meio do Iluminismo setecentista. O outro acontecimento é Auschwitz, como paradigma do “mal moral” que os humanos nos podemos fazer uns aos outros, num século iluminado pelos fornos crematórios e pela bomba atómica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a autora, « o que se passou nos campos da morte de Auschwitz foi de um mal tão absoluto, como nenhum outro em toda a história da humanidade, que desafiou a capacidade humana de compreensão.» Desafiou e desafia. E o leitor verá se, quanto a isto, a filósofa Susan Neiman conseguiu ir mais além do que foi outra mulher judia de inteligência subtil – a filósofa Hannah Arendt. Julgo defensável que sim, mas descubra-o o leitor, que lhe recomendo vivamente o livro.&lt;br /&gt;Se a capacidade humana de conhecimento terá limites kantianos, os da imaginação não parece possível demarcá-los “a priori”. Veja-se este contra-teste com que o filósofo italiano Georgio Agamben pretendeu responder ao teste de Nietzsche:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;« Vamos imaginar que repetimos a experiência que Niezsche propôs, sob o título “O Peso Mais Pesado”, em &lt;em&gt;A Gaia Ciência&lt;/em&gt;. Um dia ou uma noite, um demónio desliza para junto de um sobrevivente e pergunta-lhe: - “Queres que Auschwitz volte a acontecer repetidamente, vezes sem conta, queres que cada instante se repita pela eternidade, regressando-se eternamente à exacta sequência em que tudo aconteceu ? Queres que isto aconteça repetidamente por toda a eternidade ?” Esta simples reformulação da experiência é quanto basta para a sua refutação sem qualquer dúvida, excluindo-se a possibilidade de vir sequer a ser proposta. »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de mais comentário, uma palavra é devida ao leitor que não tem de conhecer uma teoria que Nietzsche retomou e retocou da filosofia pré-cristã nestes termos: para uma Natureza eterna, espacialmente finita e temporalmente infinita, constantes os mesmos elementos fundamentais, as forças e leis que sobre eles actuam – então tudo o que aconteceu, acontece e acontecerá nesta Terra ( e no restante universo) com todos os seres que a ela vêm, já aconteceu e acontecerá infinitas vezes, com exactamente os mesmos seres e acontecimentos, numericamente iguais entre si e pela mesma sequência, incluindo o esquecimento disso. Mas ao filósofo alemão interessava mais o aspecto existencial e ético da questão: só uma vontade capaz de aceitar e querer um tal cenário é que passaria o teste duma genuína “fidelidade à Terra” e total aceitação dos “valores da vida” (com seus bens e seus males).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A proposta de Agamben-Nietzche pode ter consequências inesperadas. – Suponha-se que o “eterno retorno do mesmo” é a verdade, e há uma casta de “sobrehomens” dignos da revelação de “Zaratustra” que o sabem e, portanto, não estão afectados pelo esquecimento. Tais seres sabem que Auschwitz aconteceu e voltará a contecer infinitas vezes... - no seu passado; e podem determinar-se a que isso não aconteça para si e seus descendentes. Nesse caso, Auschwitz &lt;em&gt;nunca mais&lt;/em&gt; aconteceria para eles e seus descendentes (sempre e só para os seus ascendentes de memória curta).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eis a importância de preservar a memória de Auschwitz. -&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente há outra alternativa, mais congruente com o teste proposto. Um Mega Zaratustra viria anunciar que tais “sobrehomens”, ao permitirem-se seleccionar e excluir no passado coisas tidas como males “insuportáveis”, provavam com essa tentativa de fuga que ainda não tinham uma inteira “fidelidade à terra” e que,“demasiado humanos”, não estavam ainda completamente “para além do bem e do mal”. (Implícita, uma vez mais, a atracção da soberana equanimidade estóica diante do bem e do mal...) Os novos “hiper-sobrehomens” não só não deveriam recear como deveriam querer um Auschwitz ainda maior, para limpar esse pecado de ressentimento e fraqueza...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, como é patente, também as consequências da famosa doutrina do filósofo que se queria “para além do bem e do mal” são trivialmente boas e más, como as de qualquer doutrina “demasiado humana”, com esta diferença a desfavor: não se vê o que esteja nela a fazer uma “vontade de poder” que é só servil duma Necessidade cósmica inexorável. Menos ainda: não se vê para que existe uma qualquer “vontade”, postulada a aceitação incondicional de tudo, incluindo todo o bem e todo o mal. E ainda menos, &lt;em&gt;nada&lt;/em&gt;: nenhuma vontade; nenhuma diferença substantiva entre o bem e o mal, ambos constituintes essenciais da vida; e, se igualmente necessários, nenhuma possibilidade de um “para além” do bem e do mal que não seja afinal redutível à sobredita impassibilidade estóica, que temos lembrado aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por seu lado, comenta Susan Neiman: « A experiência mental de Agamben é decisiva. Uma vez formulada, não pode imaginar-se ninguém suficientemente grotesco para a levar a cabo. » Não suficientemente “grotesco”, mas alguém suficientemente sádico: um torcionário nazi escapado impune aos campos de morte. Como vê, leitor, não nos livramos facilmente do senhor de Sade. A ver se no próximo postal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ Apesar de neste ponto se ter esquecido dele, o capítulo dedicado ao marquês pela autora no seu livro ( citei a trad. port. de Vítor Matos, 2005) é notabilíssimo, até pelo correctivo de razoabilidade que dá às fantasias dalguns &lt;em&gt;maitres à penser&lt;/em&gt; franceses em moda de mancomunar Sade com Kant (!). ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-7629042599560447753?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/7629042599560447753/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=7629042599560447753&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/7629042599560447753'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/7629042599560447753'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/07/o-peso-mais-pesado.html' title='O PESO MAIS PESADO'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-6406033976356428348</id><published>2010-07-16T10:13:00.003+01:00</published><updated>2010-07-16T10:18:14.215+01:00</updated><title type='text'>O DIÁRIO DE NOAGA</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TEAjM37SNUI/AAAAAAAAAm0/3Juj3f_8qpA/s1600/african.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 243px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5494430249470014786" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TEAjM37SNUI/AAAAAAAAAm0/3Juj3f_8qpA/s320/african.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;16 de Julho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;« Gostava tanto de saber o que fazem as crianças nos outros países do mundo. Será que um dia poderei vir a sabê-lo? »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ Última entrada do diário &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/08/o-diario-de-noaga_10.html#links"&gt;começado aqui&lt;/a&gt;. ]&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-6406033976356428348?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/06/o-diario-de-noaga_25.html' title='O DIÁRIO DE NOAGA'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/6406033976356428348/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=6406033976356428348&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/6406033976356428348'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/6406033976356428348'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/07/o-diario-de-noaga.html' title='O DIÁRIO DE NOAGA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TEAjM37SNUI/AAAAAAAAAm0/3Juj3f_8qpA/s72-c/african.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-6173091372735398710</id><published>2010-07-13T00:15:00.002+01:00</published><updated>2010-07-13T00:28:04.310+01:00</updated><title type='text'>SADE CONTRA KANT</title><content type='html'>« Não nos prova a Natureza até que ponto a nossa multiplicação a incomoda? .... Não nos põe ela à prova pelos flagelos com que nos atormenta sem cessar, pelas divisões, pelas discórdias que semeia entre nós .... por essa inclinação para o assassínio que a todo o momento nos inspira? .... Assim as mortes que as nossas leis punem com tanto rigor, as mortes que nós julgamos ser o maior ultrage que é possível infligir-lhe, não só, como vedes, não lhe causam nem podem causar dano algum, como são mesmo, de algum modo, úteis a seus olhos, pois que a vemos imitá-las tão frequentemente; e é bem certo que ela o faz só porque desejaria o aniquilamento total das criaturas lançadas em jogo, a fim de gozar da faculdade que tem de lançar em jogo outras criaturas. O maior celerado da terra, o criminoso mais abominável, o mais feroz, o mais bárbaro, não é senão um instrumento das suas leis .... senão o móbil da sua vontade e o mais seguro agente dos seus caprichos .... Nunca se cometerão suficientes crimes à face da terra perante a sede ardente que a Natureza tem deles. »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alinha por este teor o &lt;em&gt;Système de la Nature&lt;/em&gt; que numa obra da maturidade literária (&lt;em&gt;La Nouvelle Justine&lt;/em&gt;) o marquês de Sade põe na boca... de um Papa. Acha o marquês na “Natureza” o vazadouro conveniente das “&lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/07/o-sistema-do-nada.html#links"&gt;paixões fortíssimas&lt;/a&gt;” e o meio de alijar a responsabilidade delas, que afinal fazia cobrar na pele dos seus semelhantes. (Mas, para o &lt;em&gt;grand seigneur&lt;/em&gt; do &lt;em&gt;Ancient Régime&lt;/em&gt;, podiam lá ser as prostitutas de Marselha pessoas humanas suas “semelhantes”!...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não interessa aqui tanto o caso particular do indivíduo Donato de Sade, aliás não sem interesse: vinte e sete anos preso sob os diferentes regimes políticos que se foram sucedendo na sua coetânea França, parecem configurar o perfil dum citoyen intratável e irredutível à sociabilidade normal do homem “por natureza” político, de que nos falava Aristóteles; sem que sequer possamos falar da associabilidade de um &lt;em&gt;therion&lt;/em&gt;, &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2009/11/animais-apoliticos.html#links"&gt;um ser monstruoso&lt;/a&gt;, porque o sádico precisa de sociabilizar e insinuar-se junto das vítimas que quer maltratar. Aqui temos já um ponto interessante, a sublinhar e endossar aos defensores duma teoria naturalista do fenómeno político. Mas não é isso que me traz hoje aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vimos no postal anterior que, para o &lt;em&gt;philosophe scélérat&lt;/em&gt;, a existência ou não existência da liberdade era, no fim de de conta, irrelevante; nem há contas finais nenhumas: as mais unânimes ou discordes decisões dos vivos têm as mesmas terminais consequências para todos – o nada da morte aniquiladora. Mas... não sabemos. E se também de apodíptica e irrefutável verdade se não sabe se há realmente liberdade, - sabe-se ao menos isto: temos duas crenças radicalmente contrárias em confronto e, portanto (livre ou não livre) a possibilidade de uma alternativa. – Uma alternativa existencialmente actualizada em pelo menos dois casos conhecidos e parentes de Sade - Gilles de Rais, no séc. XIV, e Ted Bundy, no XX  -, indiciando que a pretensa “fatalidade” ou não existe ou pode ser superada. É que não se entende que a mesma necessidade (a existir) gere resultados contraditórios : o remorso e arrependimento; ou a obstinação incontrita. E fiquem desde já claros os termos da alternativa: uma decisão (mais ou menos consciente) a favor da transmissão e protecção da vida, seja esta meramente biológica, meramente restante, residual e ferida de morte neste mundo; em contra a indiferença ou a apologia da aniquilação de qualquer forma de vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto à lei moral, é esta, kantianamente, a lei da própria razão prática e, por isso, Imanuel Kant não concebe como propriamente humana – sim diabólica – uma &lt;em&gt;razão&lt;/em&gt; de tal maneira independente da lei moral que pudesse agir de contínuo e sustentado ânimo contra a lei moral, como se fosse um “dever”. Concedo não haver aqui por que falar em razão, mas de aí não segue a impossibilidade da intenção enquanto mera disposição: esta, por um lado, não tem de ser racional (e sucede-lhe abominar qualquer razão); depois, é tanto mais poderosamente motivado quanto, no sadismo, a violação da lei moral é imediatamente compensada com um prazer que, na conduta moral, o simples cumprimento do dever não garante à pessoa virtuosa (antes muitas vezes paga com penoso sofrimento e até o sacrifício da própria vida). Uma motivação poderosa e tanto mais facilmente acessível porque facilmente associada à “natural” agressividade do animal predador que tem de recorrer à violência para “sobreviver”.  Eis o bastante para entendermos o facto da “natural” propensão humana para fazermos mais facilmente o mal do que o bem. E eis como, neste mundo, a vantagem está à partida do lado do sádico; e o terrível paradoxo da perversão é este: convém-lhe a existência de uma lei moral, o que lhe assegura o máximo de prazer na violação dela. Onde é que então o sádico (se) perde ? Julgo que em duas afirmações sem caução racional nenhuma, porém congruentes com a desresponsabilização das “paixões fortíssimas”, que sente em si próprio, e com a “sede ardente” da erupção vulcânica delas, que imputa à “Natureza”. Tais são: - que a lei moral existe e deve existir (para ser pervertida), mas apartada de qualquer justiça; e que não há nenhuma justiça triunfante neste ou nalgum outro mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compreende-se, deste ponto de vista, que Sade nunca tenha reconhecido sua a autoria da sua primeira &lt;em&gt;Justine ou les Malheurs de la Vertu&lt;/em&gt;, cujo final viria anos depois a corrigir na &lt;em&gt;Nouvelle Justine&lt;/em&gt;, associada a &lt;em&gt;Juliette ou les Prosperités du Vice&lt;/em&gt; : na primeira, a vida longamente seviciada de Justine (a Justa) acaba fulminada por um raio do céu, mas cujo relâmpago ilumina a conversão subsequente da viciosa irmã Juliette, que enfim arrependida procura remissão na vida religiosa; na segunda, Justine acaba da mesma maneira, mas o raio é entendido como a cúmplice participação final duma “Natureza” maléfica, que incita a comparsaria dos torcionários a levarem o sadismo até à necrofilia. (Vemos, pois, que aquela alternativa existencial atrás referida não deixou de ser literariamente contemplada na obra de Sade.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que não há nenhuma justiça triunfante em nenhum mundo possível, é uma crença que nos confronta com o outro postulado essencial à razão prática kantiana: o da imortalidade da alma humana. O ódio à vida levou o marquês a imaginar-se uma final auto-destruição total da “Natureza”, menos congruente com a sua apologia do “amor” pela crueldade, mais com algum fundo desejo duma final absolução de tudo no “nada”. Mas, também aqui, há outras alternativas. A kantiana parece a mais digna de ser crida por um ser racional; porém, é precisamente aqui que a objecção sadeana cobra toda a sua dura pertinência: como dar conta, num ser “racional”, não somente duma inclinação “natural” para um “amor de si” (já incapaz de compreender um indivíduo que assume o desejo da auto-extinção de si e de tudo o mais), mas a vontade feita e satisfeita de fazer sofrer todos os seres vivos o mais possível, por todos os meios? Julgo que fica neste ponto transparente a insuficiência duma ética cuja “lei moral” se deixou ficar “nos limites da simples razão” &lt;em&gt;humana&lt;/em&gt;, limites que só na especulação abstracta se pode pretender fixar, mas que na concreta existência das pessoas são limites muito mais difusos do que o grande filósofo alemão gostaria. Ora, neste campo, a insuficiência não é nenhum defeito apenas conceptual, corrigível com aprofundamentos ou correcções da teoria : significa uma &lt;em&gt;incapacidade &lt;/em&gt;prática para a afirmação existencial do valor. E é por isso que não vejo nenhuma vantagem, mas perigo mortal, na substituta versão que para consumo filosófico deu Kant da &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/06/immanuel-kant-dois-trechos-notaveis.html#links"&gt;Lei das leis&lt;/a&gt;, como ele próprio lhe chamava:  - &lt;em&gt;Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo&lt;/em&gt; . Aqui temos clara a razão maior humana e única suficiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um traço comum à primeira e segunda versões da história de Justine, que não é demasia sublinhar e decisivamente importa não esquecer: apesar de submetida a todos os sofrimentos e maus tratos imagináveis pela imaginação sádica, a Justa, embora sofrendo também essa tentação, nunca jamais é levada a fazer o mal ou a comprazer-se com ele de qualquer modo, e permanece até ao fim “escrava da Divindade no coração”. Isto quando outras personagens de boa índole são levadas a fazê-lo, o que é o cúmulo do prazer para esse prototípico ministro do mal que Sade personificou na figura a que chamou &lt;em&gt;Saint Fond&lt;/em&gt; (que soa: &lt;em&gt;Sem Fundo&lt;/em&gt;). Como se houvesse no fundo um limite irredutível, intratável, &lt;em&gt;invencível&lt;/em&gt;: e há, de facto, na maravilhosa e terrível experiência humana neste mundo, casos de pessoas que, submetidas aos maiores suplícios da tirania sádica, não se submeteram nem traíram. Como se, mesmo neste mundo, fosse possível uma Justiça invicta, que obrigasse o sadismo desesperado a jogar na morte – e a acabar na necrofilia amarrado a um cadáver. Mas, nestes casos, não sa dará e dirá então que a simples lei moral kantiana é afinal suficiente contra Sade e o sadismo? Parece-me clara a resposta: - Sim, se a imortalidade da alma é mais que um “postulado”, e Deus mais que uma ideia da “simples razão”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-6173091372735398710?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/6173091372735398710/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=6173091372735398710&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/6173091372735398710'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/6173091372735398710'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/07/sade-contra-kant.html' title='SADE CONTRA KANT'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-8096948661906430830</id><published>2010-07-08T00:16:00.005+01:00</published><updated>2010-07-08T00:25:35.374+01:00</updated><title type='text'>O SISTEMA DO NADA</title><content type='html'>« MORIBUNDO: - Escuta... Criado pela natureza com gostos ardentes, com paixões fortíssimas, unicamente colocado neste mundo para a elas me entregar, para lhes dar satisfação, e sendo estes efeitos da minha criação meras necessidades relacionadas com os grandes objectivos da natureza ou, se preferires derivações essenciais dos seus prejectos a meu respeito, em total acordo com as suas leis, de uma só coisa eu estou arrependido: o não ter reconhecido devidamente o seu poder soberano (...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PADRE: - Mas por certo haveis de admitir que existe alguma coisa depois desta vida, é impossível que o vosso espírito não se tenha alguma vez comprazido a penetrar na espessura das trevas da sorte que nos espera... E que sistema pode satisfazê-lo melhor do que um sem número de penas para aquele que vive mal e uma eternidade de recompensas para o que vive bem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MORIBUNDO: - Qual, meu amigo? O do nada! Nunca me assustou, considero-o consolador e simples; todos os outro são obra do orgulho, só este é obra da razão. Além disso, não é repugnante nem absoluto, o nada. Não tenho eu diante dos olhos o exemplo da natureza que constantemente se vai gerando e regenerando ? Nada perece, meu amigo, nada neste mundo se destrói; homem hoje, amanhã verme, depois de amanhã mosca, não será tudo isso existir? Por que haverias tu de querer que eu receba recompensa por virtudes de que não tenho mérito algum ou castigo por crimes que não pude dominar? Poderás pôr de acordo a bondade do teu pretenso deus com este sistema, poderá ele ter desejado criar-me para ter o prazer de me punir, em consequência de uma opção que eu não sou senhor de tomar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PADRE: És, sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MORIBUNDO: - De acordo com os teus preconceitos, sim; mas a razão derruba-os e o sistema da liberdade do homem foi por vós inventado somente para forjar o da graça, que tão favorável era aos vossos devaneios. Qual é o homem que, vendo a forca ao lado do crime, cometeria este se fosse livre de não o cometer? Somos arrastados por uma força irresistível, e nem por um instante somos senhores de escolher outra coisa senão aquela para a qual estamos inclinados. Não há uma só virtude que não seja necessária à natureza e, reversivelmente, não há crime de que ela não tenha necessidade, e é no perfeito equilíbrio por ela mantido entre uma coisa e outra que consiste toda a ciência; mas poderemos nós ser responsabilizados pelas inclinações que ela nos dá? Não mais do que a vespa que te espeta na pele o ferrão. (...) »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui ficam alguns trechos do &lt;em&gt;Diálogo Entre um Padre e um Moribundo&lt;/em&gt;, obra da primeira fase literária de Sade, ainda muito influenciada pelo naturalismo materialista de Helvetius, d’Holbach e La Mettrie (o título mais famoso deste último é todo um programa: &lt;em&gt;L’Homme Machine&lt;/em&gt;...). Posteriormente, a Natureza deixa de aparecer-lhe dotada de uma epécie de Razão auto-regulada e providencial (à maneira do Logos estóico), para a qual concorrem tanto o bem como o mal, e o marquês parece mais inclinado a outra perspectiva: a Natureza cósmica como criação monstruosa de um Deus monstruoso, legitimando todo o mal que o homem é capaz de sentir e de fazer. Sem alternativa nem esperança de nenhum Deus bom, que não existe. (Rejeita-se, pois, a alternativa maniqueia.) É a apoteose do mal, e qualquer aparente bem concebível não passa de um mal insciente ou impotente. Mas, neste opúsculo, o autor ainda alega respeitos à “razão” e a uma lei moral, mesmo se é incongruente e, afinal, impotente diante as “paixões fortíssimas”. Temos, assim, as premissas existenciais suficientes para uma posição radiacalmente contrária à de Kant.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Repare-se naquele “nada” oposto ao “sistema” de que fala o padre. Pretensamente referido a um pós-vida, afinal reverte e nadifica toda a existência vivida &lt;em&gt;ante mortem&lt;/em&gt;, a começar pela liberdade. – Suponha o leitor que aceitamos a necessidade ou fatalidade com uma espécie de &lt;em&gt;amor fati&lt;/em&gt; nietzscheano: não só aceitar o mal, como também querê-lo. Mas, se é uma fatalidade, por que deve ser querido o que de facto e de qualquer modo se tem? E porquê o que, querido ou não querido, de facto e de qualquer modo concluiria no “nada”? Nenhuma razão e nenhum motivo: nada. Mas suponhamos então que haveria alguma genuína liberdade de escolha. - O mesmo resultado: se, no fim, nada, porquê antes o mal do que o bem, ou o inverso ? Apenas meras conveniências tácticas de interesse pessoal, meu ou dos meus. Mas, neste caso, bem ou mal são apenas sinais do que favorece ou prejudica o interesse; e concluímos no mesmo nada: existiriam apenas interesses em concorrência. Aliás provisórios e sem mérito ou valor relativos nenhuns, porque tudo no final terminaria para todos no “nada”. Portanto, ou com a fatalidade ou com a liberdade, tudo remonta ao mesmo e tudo é no fim indiferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi por isso que o último Sade (ao que parece) e o alemão Nietzsche viram que, se há uma vontade que vale, o valor de o que quer não pode ficar totalmente confinado e esgotado na mera (e única) existência espacio-temporal do indivíduo. – A teoria do “eterno retorno”é consistente com uma vontade que “quer para a eternidade” o que quer. Neste caso, não se conclui no nada. Haveria então outra existência? Não exactamente &lt;em&gt;outra&lt;/em&gt;. A “fidelidade à terra” do filósofo alemão (e a sua vontade de preservar os valores da “vida” incontaminados de qualquer vírus cristão), levá-lo-ia, como se sabe, a falar dum eterno retorno do &lt;em&gt;mesmo&lt;/em&gt; : num tempo infinito, o conjunto de elementos finitos que forma (por acaso) um mundo, voltarão, com o tempo, a formar (por acaso) um mesmo mundo, com as mesmas leis e os mesmos acontecimentos e seres a elas submetidos. E assim eternamente. Portanto, não o “nada”, mas sempre mais do mesmo. Eis a prova suprema do &lt;em&gt;amor fati&lt;/em&gt; por este mundo e esta vida. Mas, como é evidente, a mesma total indiferença perante o bem ou o mal (ambos retornam igualmente, de igual forma). Deste ponto de vista, Nietzsche colocava-se efectivamente “para além do bem e do mal”. Contudo, para o efeito, não era preciso tanta repetição de mundos: bastava, num único mundo, a repetição das gerações à lei do interesse amoral protagonista da &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/06/lei-natural-e-lei-moral.html"&gt;história que contámos aqui&lt;/a&gt;, enquanto há combustível para alimentar a chama da “vida”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Combustível é o que não falta no texto de Sade para alimentarmos outros postais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ Os trechos citados, com outras obras menores de Sade, encontram-se num livrinho titulado &lt;em&gt;A Verdade &lt;/em&gt;(título de um poema de 1787), trad. port. de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes, Lisboa, 1989. ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-8096948661906430830?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/8096948661906430830/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=8096948661906430830&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/8096948661906430830'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/8096948661906430830'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/07/o-sistema-do-nada.html' title='O SISTEMA DO NADA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-5680541843607000650</id><published>2010-07-06T09:28:00.005+01:00</published><updated>2010-07-06T09:38:31.002+01:00</updated><title type='text'>GUERRA JUNQUEIRO</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TDLqBJ4mELI/AAAAAAAAAms/gqwS2Yhvqfk/s1600/guerra-junqueiro.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5490708201272119474" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 230px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TDLqBJ4mELI/AAAAAAAAAms/gqwS2Yhvqfk/s320/guerra-junqueiro.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;No dia 7 de Outubro de 1910, Raul Brandão registava a publicação deste telegrama enviado pelo seu amigo Guerra Junqueiro, que começava e terminava assim:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;« Ao Governo Provisório da República Portuguesa – Lisboa –. Saúdo na República a libertação magnânima e sublime do grande povo português. (...) Esperemos agora que a República seja sinónimo de ordem e de harmonia, de inteligência e de trabalho, de amor e de justiça, de liberdade e beleza, para que a história de Portugal esplenda no mundo novamente. Viva a pátria republicana! Viva Lisboa, a cidade heróica! »&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A 17 de Maio de 1911, cerca de um mês após aprovação da Lei da Separação Estado-Igrejas, que o poeta classifica de uma “lei estúpida” que “só o mau padre ou o bandalho podem aceitar”, pronuncia-se assim sobre o ambiente político: « A república ou se modifica ou morre. Isto não resiste a quarenta tumultos por esse país fora. Junte ao movimento religioso os ódios, as paixões, a gente que conspira na fronteira. E ainda por cima não há maneira de formar um ministério homogéneo: o Afonso [Costa] e o Almeida [António José de] não se podem ver; o Camacho não esconde o seu desprezo pelo António José.... »&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Meses depois, a 31 de Dezembro, Brandão regista estas palavras : « Mas Junqueiro, como sempre, sintetiza muito melhor a situação nestas palavras: - Já hoje, se fosse possível fazer um plebiscito ao país, não com papéis, mas dentro da consciência de cada um, na escuridão do seu quarto, a maioria monárquica era esmagadora. Havia menos republicanos do que antes do 5 de Outubro. »&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O poeta foi, entre 1911-1914, o embaixador de Portugal na Suíça. Alguns anos depois, no último capítulo do 2º volume das suas &lt;em&gt;Memórias&lt;/em&gt;, um registo intitulado “Os últimos anos de Junqueiro”, sem data:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;« Fala sempre dos homens da república com grande amargura e desprezo: - Todos se anicham nos melhores lugares, eles e as famílias. Fora o Almeida [António José de] e mais dois ou três, o resto devora. »&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;E, com data de 9 de Julho de 1921, faz acta do seguinte:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;« Ontem fui ao Porto, chamado por Junqueiro. Conheci o grande poeta em diferentes épocas da vida, mas nunca me fez tanta impressão como agora, posto diante de mim, magro e doente, com os braços estendidos e as mãos abertas: - Pesei o bem que fiz e o mal que fiz... (...) Toda a minha obra fica por fazer – exclama. O que publiquei é nada. Tenho dosi poemas, um e outro concluídos, perfeitos, admiráveis desde a primeira à última palavra, aqui... – aponta a cabeça – e não os posso escrever! A minha filosofia, em que trabalho há anos, aí fica fragmentária... Venha ver. Está no meu cofre.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Levanta-se, leva-me ao quarto. Mostra-me maços de manuscritos. [ Eram mais de quatro mil páginas de anotações, em que o poeta, que se dedicou também a vasto e longo estudo das ciências naturais, trabalhava há cerca de trinta anos e que projectava publicar com o título &lt;em&gt;A Unidade do Ser&lt;/em&gt;. ] - Está aí tudo. Em seis meses concluía-a – mas não posso, não posso!... Tenho-a pronta, o problema da vida resolvido, desde o átomo ao santo, desde o santo a Deus. E não posso!... O que aí está são tentativas que fui escrevendo pela vida fora até descobrir a verdade. (...) Durante oito anos deixei de trabalhar por causa dessa [sic] miserável república – e agora não posso, não posso! E eu nunca fui republicano. O que disse numa nota da &lt;em&gt;Pátria &lt;/em&gt;[1896] foi que tudo dependia do rei... O rei foi D. Carlos – e então a república impôs-se. Mas o mal não é do regímen, o mal é da nação E agora vamos acabar... »&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Num registo de Maio de 1923, Brandão fala-nos de um segundo telegrama:&lt;br /&gt;« Desde que adoeceu, isto é, pelo menos desde 1921, Junqueiro não cessa de debater com a sua consciência o mesmo problema. Arreda tudo. Quando em 1922 pensaram em lhe fazer uma grande manifestação nacional, Junqueiro respondeu a António José de Almeida num telegrama, pouco mais ou menos nos seguintes termos: - Paz – silêncio – morte. »&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Guerra Junqueiro faleceu no dia 7 de Julho de 1923. São estas as últimas linhas que Raul Brandão dedica ao amigo, e fecham também o seu livro:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;« Morreu naquela cama de ferro hoje de manhã, às cinco horas menos dezassete minutos, depois duma breve agonia. Não soube que morria. No caixão com o fatinho preto e coçado, espiritualizou-se ainda mais. Barba em bico, testa enorme, duas farripas aos lados e mãos esguias e brancas: parecia a figura de Nun’Álvares. Nem um livor cadavérico. A sala da frente está escura. À cabeceira brilha a chama de duas velas dum e doutro lado dum crucifixo com violetas. Sombras amarfanhadas ao fundo, e ao lado do caixão uma figura imóvel, com a manta pela cabeça, a velha Ana, que parece uma imagem de retábulo ou um daqueles humildes de que tanto falava e que lhe chamavam Senhor Poeta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Olho-o e não me atrevo a julgá-lo. Nem por sombras! É exactamente o mesmo que me acontece com o atormentado Camilo. Se estes homens praticaram alguns erros, pagaram-nos bem caros, com dias de tortura e e de sensibilidade exasperada, dando-nos em espectáculo as suas dúvidas e a sua dor, em consciências que a sensibilidade é tão grande que até pesa fantasmas – enquanto os outros comem e digerem, digerem e comem, morrendo com a serenidade dos animais e dos justos. Sofrer é talvez um sinal da misericórdia de Deus. A vida eterna não se fez para as bestas!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;[ Citações tiradas do vol. II (1925) das &lt;em&gt;Memórias&lt;/em&gt; de Raul Brandão, ed. 1999 por José Carlos Seabra Pereira. Não é costume citar-se esta extraordiária confissão de Junqueiro: “Nunca fui republicano”!... Mas, o mais importante parece-me : O “mal” não era do regime... Quanto ao “vamos acabar”, já temos visto aqui no Tonel que nunca mais acabamos... de acabar. É um velho temor do muito amor. ]&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-5680541843607000650?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/06/uma-separacao-litigiosa.html' title='GUERRA JUNQUEIRO'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/5680541843607000650/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=5680541843607000650&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/5680541843607000650'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/5680541843607000650'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/07/guerra-junqueiro.html' title='GUERRA JUNQUEIRO'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TDLqBJ4mELI/AAAAAAAAAms/gqwS2Yhvqfk/s72-c/guerra-junqueiro.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-8597112982327452782</id><published>2010-06-29T12:33:00.005+01:00</published><updated>2010-06-29T13:00:05.852+01:00</updated><title type='text'>IMMANUEL KANT : DOIS TRECHOS NOTÁVEIS</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TCnaVVChzoI/AAAAAAAAAmk/x2yBCZfCK4I/s1600/Kant_1798+Emanuel+Bardou.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 225px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5488157680887516802" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TCnaVVChzoI/AAAAAAAAAmk/x2yBCZfCK4I/s320/Kant_1798+Emanuel+Bardou.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A LEI DAS LEIS&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;« &lt;strong&gt;&lt;em&gt;Dever&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;!, nome grande e sublime, que nada em ti incluis de deleitável, trazendo em si a adulação, mas exiges a submissão, e no entanto nada ameaças que excite no ânimo uma aversão natural e cause temor; mas, para mover a vontade, propões simplesmente uma lei que por si mesma encontra acesso na alma e obtém para si veneração (embora nem sempre obediência), ainda que contra a vontade; lei perante a qual emudecem todas as inclinações, se bem que secretamente contra ela actuem : - que origem é digna de ti e onde se encontra a raiz da tua nobre linhagem, que recusa nobremente todo o parentesco com as inclinações, e da qual origem descender é a condição indispensável daquele valor que os homens unicamente a si mesmos podem dar ? –&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Nada de inferior pode ser àquilo que eleva o homem acima de si mesmo (enquanto parte do mundo sensível), que o religa a uma ordem das coisas que apenas o entendimento pode pensar e que, ao mesmo tempo, a si submete todo o mundo sensível e, com ele, a existência empiricamente determinável do homem no tempo e o conjunto de todos os fins, que é o único adequado a leis práticas incondicionais, como a lei moral). Nenhuma outra coisa é senão a &lt;strong&gt;&lt;em&gt;pessoalidade&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;, isto é, a liberdade e a independência relativamente ao mecanismo da Natureza inteira, e que ao mesmo tempo é considerada como a faculdade de um ser que está submetido a leis peculiares, a saber: às leis puras práticas dadas pela sua própria razão. (...)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Nesta origem se fundam várias expressões que especeficam o valor dos objectos segundo ideias morais. A lei moral é &lt;strong&gt;&lt;em&gt;santa &lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;(inviolável). O homem não é certamente assaz santo, mas a &lt;strong&gt;&lt;em&gt;humanidade&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; deve para ele ser santa na sua pessoa. Em toda a criação, tudo o que se quiser e sobre que se tem algum poder pode também utilizar-se &lt;strong&gt;&lt;em&gt;simplesmente como meio&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;; unicamente o homem, e com ele todo a criatura racional, é um &lt;strong&gt;&lt;em&gt;fim em si mesmo&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;. Ele é efectivamente o sujeito da lei moral que é santa, em virtude da &lt;strong&gt;&lt;em&gt;autonomia&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; da sua liberdade. Justamente por causa desta, toda a vontade, mesmo a vontade própria de cada pessoa e dirigida para si própria, está restringida à condição de um acordo com a autonomia do ser raconal, isto é, de não a submeter a objectivo algum que não seja possível segundo uma lei que possa brotar da vontade do sujeito passivo; por conseguinte, a nunca utilizar este sujeito simplesmente como meio, mas ao mesmo tempo também como um fim. Impomos com razão esta condição mesmo à vontade divina relativamente aos seres racionais no mundo, enquanto suas criaturas, na medida em que ela assenta na sua pessoalidade, graças à qual exclusivamente constituem fins em si.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Eis com o que se harmoniza muito bem a possibilidade de um mandamento como: &lt;strong&gt;&lt;em&gt;Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; (*). Com efeito, ele exige, enquanto mandamento, o respeito por uma lei que &lt;strong&gt;&lt;em&gt;ordena &lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;o amor e não deixa à escolha arbitrária o faxer dele um princípio. Mas o amor a Deus como inclinação [ como “apetite imediato para a fruição de um bem” ] é impossível, porque Ele não é um objecto dos sentidos. Quanto ao amor pelos homens, é possível, sem dúvida; mas não pode ser mandado, visto que não está no poder de homem algum amar alguém simplesmente por ordem. Portanto, só o amor &lt;strong&gt;&lt;em&gt;prático &lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;é que se apreende neste cerne de todas as leis. Amar a Deus significa, neste sentido, cumprir &lt;strong&gt;&lt;em&gt;prontamente&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; os seus mandamentos; amar o próximo significa praticar de &lt;strong&gt;&lt;em&gt;bom grado&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; todos os deveres em relação a ele. (...)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Essa lei de todas as leis apresenta, pois, como todos os preceitos morais do Evangelho, a disposição moral em toda a sua perfeição, a qual, enquanto um ideal de santidade, não é atingível por criatura alguma, constituindo no entanto o arquétipo para o qual devemos esforçarmo-nos por nos aproximar e ao qual, num progresso ininterrupto e infinito, devemos procurar assemelharmo-nos. »&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;em&gt;Crítica da Razão Prática&lt;/em&gt; (1788), trad. de Artur Morão, Lisboa, 1989.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;[ Ao asterisco corresponde a seguinte nota do A.: « O princípio da felicidade própria, de que alguns querem fazer o princípio supremo da moralidade, produz um estranho contraste com esta Lei. Tal princípio soaria assim: &lt;strong&gt;&lt;em&gt;Ama-te a ti mesmo sobre todas as coisas, e a Deus e ao próximo por amor de ti mesmo&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;. » ]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;MOTIVOS &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2007/12/l-espoir-maintenant.html#links"&gt;DE ESPERANÇA&lt;br /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;« A esperança de melhores tempos, sem a qual um desejo sério de fazer algo de útil ao bem geral jamais teria aquecido o coração humano, sempre teve influência na actividade dos que rectamente pensam. (...)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;No triste espectáculo, não tanto dos males que por causas naturais oprimem o género humano, sobretudo antes por causa dos que os homens se fazem uns aos outros, o ânimo sente-se, apesar disso, incitado pela perspectiva de que as coisas podem ser melhores no futuro; e, é evidente, sente-o com uma benevolência desinteressada, pois já há muito teremos morrido e não colheremos para nós os frutos que em parte semeámos. As razões empíricas contrárias à obtenção destas resoluções inspiradas pela esperança, são aqui inoperantes. Pois pretender que o que ainda se não conseguiu até agora também jamais se levará a efeito, não justifica sequer a renúncia a um propósito pragmático ou técnico (como, por exemplo, a viagem aérea com balões aerostáticos); menos ainda a um propósito moral que, se a sua realização não for provadamente impossível, se torna um dever. Além disso, há muitas provas de que o género humano no seu conjunto progrediu efectivamente e de modo notável, sob o ponto de vista moral, no nosso tempo, em comparação com todas as épocas anteriores (as paragens breves nada podem provar em contrário); e que o clamor acerca do irresistível abastardamento crescente da nossa época provém precisamente de que, por se encontrar num estádio superior da moralidade, tem diante si um horizonte ainda mais vasto, e que o seu juizo sobre o que somos, em comparação do que deveríamos ser, com que se autocensura, se torna tanto mais exigente quanto maior o número de estádios da moralidade que, no conjunto do curso do mundo de nós conhecido, já escalámos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Se perguntarmos agora por que meios se poderia manter este progresso incessante para o melhor, e também acelerá-lo, depressa se vê que este sucesso, que mergulha num horizonte ilimitado, não depende tanto do que nós fazemos (por exemplo, da educação que damos aos jovens) e do método segundo o qual devemos proceder, para o produzir, mas do que a &lt;em&gt;&lt;strong&gt;natureza&lt;/strong&gt; &lt;/em&gt;humana fará em nós e connosco para nos &lt;em&gt;&lt;strong&gt;forçar&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; a entrar num trilho, a que por nós mesmos não nos sujeitaríamos com facilidade. Pois só dela, ou melhor da &lt;em&gt;&lt;strong&gt;Providência&lt;/strong&gt; &lt;/em&gt;(porque se exige uma sabedoria superior para a realização desse fim) é que podemos esperar um sucesso que diz respeito ao todo e a partir dele às partes, uma vez que, pelo contrário, os homens com os seus &lt;strong&gt;&lt;em&gt;projectos&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; saem apenas das partes, mais ainda, permanecem apenas nelas; e ao todo enquanto tal, que para eles é demasiado grande, podem sem dúvida estender as suas ideias, mas não a sua influência; e sobretudo porque eles, mutuamente adversos nos seus desígnios, com dificuldade se associariam em virtude de um propósito livre próprio. »&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Sobre a Expressão Corrente: &lt;em&gt;Isto Pode Ser Certo na Teoria Mas de Nada Vale na Prática&lt;/em&gt; (1793), in A Paz Perpétua e Outros Opúsculos, trad. de Artur Morão, Lisboa, 1990.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;[ As ênfases, em ambos os textos, são do A.. Busto em mármore de Kant por Emanuel Bardou, 1798. ]&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-8597112982327452782?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/8597112982327452782/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=8597112982327452782&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/8597112982327452782'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/8597112982327452782'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/06/immanuel-kant-dois-trechos-notaveis.html' title='IMMANUEL KANT : DOIS TRECHOS NOTÁVEIS'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TCnaVVChzoI/AAAAAAAAAmk/x2yBCZfCK4I/s72-c/Kant_1798+Emanuel+Bardou.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-4280120819376517351</id><published>2010-06-29T12:13:00.005+01:00</published><updated>2010-06-29T12:53:35.379+01:00</updated><title type='text'>DIREITOS HUMANOS : UMA QUESTÃO DE DIGNIDADE</title><content type='html'>Na série de postais &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/04/inalienaveis-direitos-humanos.html#links"&gt;que aqui venho dedicando &lt;/a&gt;ao assunto, pus-me a mim e ao leitor uma primeira questão – se os Direitos Humanos eram inamissíveis ou, como se diz, “renunciáveis” -, questão suscitada publicamente por alguns juristas portugueses (desde pelo menos Jorge Reis Novais, em 1996). Respondi que a pretensão de tal renúncia equivalia a renunciar alguém a ser o que é: um ser humano. Entre outras, sobrou-nos a questão primaz, de fundo, a que necessariamente tem de responder o defensor dos Direitos Humanos inalienáveis: - o que é que há no animal humano de tão valioso que o faça titular digno de Direitos respeitáveis absolutamente em todos os indivíduos da espécie.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vimos que da História contada ao modo naturalista darwiniano retirávamos uma indicação preciosa: tínhamos de encontrar esse Valor noutro lado. Era a contraprova da imperativa lição kantiana: não é na animalidade do humano, sim na humanidade do animal que o encontraremos. O grande filósofo alemão falou-nos duma Lei Moral livre e libertadora do “mecanismo da Natureza inteira” e das inclinações naturais do animal para a auto-preservação a qualquer custo, a busca do prazer e a evitação da dor (mas não necessariamente contrária a estas inclinações). Disse &lt;em&gt;livre&lt;/em&gt;, e creio dizê-lo com a máxima propriedade kantiana: porque só quando o livre-arbítrio age moralmente (regrado por essa Lei Moral) é que a liberdade seria &lt;em&gt;valiosa &lt;/em&gt;e, portanto, digna de respeito. Como tal Lei não deriva nem é imposta por nada de exterior à própria razão no homem, ela é para cada indivíduo a regra da sua própria autonomia enquanto pessoa racional convivente com outras pessoas racionais. Poderia, pois, defender-se que tal Lei é a condição única de toda a liberdade possível ? Não, não a possível, mas a razoável num ser racional. De facto, como o realista Kant não ignorou, é possível agir à margem ou até mesmo conceber-se um propósito (“maligno”, como lhe chama) de agir &lt;em&gt;contra&lt;/em&gt; a Lei Moral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, temos então um problema: se essa Lei é a regra duma autonomia, agir contra ela não pode significar agir livremente (ou teríamos de distinguir entre autonomia e liberdade); e se o sujeito não age livremente quando age contra a Lei Moral, então como pode ser moralmente responsável e culpado pelo que faz ? Kant, firme na sua posição de sempre, manteve que, mesmo assim, tratava-se duma genuína liberdade – só que não uma liberdade digna de um ser racional e, portanto, não moralmente valiosa. Só que isto parece fazer a dignidade humana condicionada: se o livre-arbítrio decide por uma accção segundo a Lei Moral, portanto eticamente valiosa, o sujeito seria digno de respeito; se não, ele estaria a tomar a sua própria pessoa ou as outras pessoas apenas como meios, a acção dele seria moralmente não valiosa, e não se vê que direito (moral) tivesse ele ao respeito dos outros, que em casos extremos de legítima defesa pessoal ou colectiva poderiam até matá-lo. (Kant, é de lembrar, não questionou a permissibilidade moral e legal da pena de morte... ) Mas, neste caso, qual a diferença entre a acção amoral ou anti-moral do sujeito e a de alguém que não tivesse &lt;em&gt;&lt;strong&gt;de si&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; Direitos inalienáveis, ou que tivesse “renunciado” a eles?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis o problema que nos força a reexaminar os termos em que &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/05/livre-arbitrio-e-liberdade-etica.html#links"&gt;já o tínhamos posto aqui&lt;/a&gt;. – O “motivo determinante suficiente do arbítrio” ou “princípio determinante da vontade” (expressões usuais kantianas), precisamente enquanto só &lt;em&gt;motivo&lt;/em&gt;, enquanto &lt;em&gt;princípio&lt;/em&gt;, é transcendente às categorizações da “razão” e da “consciência moral”, como se pode supor quando o indivíduo age contra toda a razão e sem quaisquer escrúpulos; mas também nas muito banais e inofensivas decisões eticamente indiferentes e completamente irrelevantes (e. g.: quero levantar o braço que tenho pousado sobre a mesa e, com efeito, assim posso e assim acontece) para a vontade “legisladora universal” que a Lei Moral kantiana supõe. Mas, então, esse princípio, radicado para além do bem e do mal, que valor concebível teria? Nestes sentidos e termos (nem sempre lembrados) da mesma lexical família da palavra “valor” : uma força &lt;em&gt;válida &lt;/em&gt;e &lt;em&gt;valente &lt;/em&gt;para se impor por si; e que se faz ou faz &lt;em&gt;valer&lt;/em&gt;. Vale como poder determinante. Um poder determinante não determinado por nenhum elemento daquela ordem de coisas que chamamos “Natureza”, e que em seu princípio é também transcendente às categorias da razão e da consciência moral; poder de determinar-se por si a favor ou contra a Lei Moral, e de produzir determinados efeitos dessa escolha: - é &lt;strong&gt;Liberdade&lt;/strong&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E valioso também nestes sentidos e termos : tal princípio de autodeterminação, que é a essência da vontade humana, não há nenhuma razão para crer que não se encontre igualmente em todos os indivíduos da mesma espécie, por isso mesmo (mas não só por isso) identificada em todos como “humana”. Por conseguinte, se aquela liberdade é valiosa, também a &lt;strong&gt;Igualdade&lt;/strong&gt; da sua presença em todos o é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É fácil de ver a compatibilidade destas duas propriedades com a revelação que o Cristianismo trouxe ao conhecimento do homem (para o homem se conhecer a si). – Se tal liberdade não pode ser explicada por nada na Natureza, a razão suficiente da sua existência há-de encontrar-se num Deus que a deu a todos os humanos. Todos são, por isso mesmo (mas não só por isso), “filhos” de Deus e, por conseguinte, é valiosa também a &lt;strong&gt;Fraternidade&lt;/strong&gt;. (Ou “Solidariedade”, como hoje prefere-se dizer.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De facto, a revelação cristã torna ainda mais transparente a dignidade da natureza humana. – Se esse princípio de livre (auto)determinação da vontade, que não pode ser determinada por nada do universo natural, também o não pode ser sequer pelo próprio Deus, então bem pode dizer-se existir no humano “à imagem e semelhança” de um Deus que livremente nos quis assim. (Está claro na narrativa do &lt;em&gt;Genesis &lt;/em&gt;que a humanidade aparece primeiro à margem, mas prevenida, dos “frutos do conhecimento do bem e do mal”, de que podia ou não provar: a tal transcendência da Liberdade relativamente à Lei Moral.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero deixar de (apenas) citar outro Valor, inexplicado (e para mim tenho que inexplicável) por qualquer causalidade naturalista, e não menos valioso que a Liberdade: o da consciência humana como consciência &lt;em&gt;pessoal &lt;/em&gt;– relação de si a si, como um “eu”, e relação a “outro” (humano, cósmico ou divino), e também como consciência &lt;em&gt;moral &lt;/em&gt;precisamente, axiologicamente sensível a coisas como ideais e deveres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ficou parece o bastante para responder à nossa questão da valiosidade duma natureza humana digna de Direitos absolutamente respeitáveis em todos os indivíduos, seja qual for a idade e condição natural ou social da sua passagem por este mundo. - Uma liberdade que nem o próprio Deus (se existe) pode obrigar, parece-me a mim coisa maximamente valiosa e respeitável. Mas sem a racional regra duma Lei Moral de igualdade e fraternidade também me parece coisa maximamente perigosa e indesejável: a “imagem e semelhança” pode muito depressa confundir-se com o próprio Deus, e nós temos visto o que deu a religião secularizada da idolatria da Liberdade, aplicada à política, desde o “Terror” revolucionário francês de finais de setecentos até aos vários terrorismos de hoje...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixo sobre o meu dois textos do grande alemão que, na História da Filosofia, arquitectou o terminal monumento do classicismo ao equilíbrio possível duma Razão haurida nas originais fontes greco-latina e hebraico-cristã, levantado quando já por toda a parte começavam a crescer os impacientes romantismos da força “dionisíaca” da libertação de todos os limites. Deste ponto de vista, Kant teve contemporânea uma personagem de não menor grandeza, a que já aludi num certo parágrafo do meu postal anterior, e que deitou assombradoras vistas para nós hoje, não menos (ou mais) familiares: o sr. marquês De Sade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ver se lhes marcamos aqui um encontro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-4280120819376517351?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/4280120819376517351/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=4280120819376517351&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/4280120819376517351'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/4280120819376517351'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/06/direitos-humanos-uma-questao-de.html' title='DIREITOS HUMANOS : UMA QUESTÃO DE DIGNIDADE'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-3616394291034263976</id><published>2010-06-25T10:58:00.001+01:00</published><updated>2010-06-25T11:01:00.360+01:00</updated><title type='text'>O DIÁRIO DE NOAGA</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TCR926PRHVI/AAAAAAAAAmc/iIkAAddDL-Q/s1600/African.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 256px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5486648628343807314" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TCR926PRHVI/AAAAAAAAAmc/iIkAAddDL-Q/s320/African.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;25 de Junho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabaram as aulas. Começam os trabalhos do campo. Haverá muito que fazer para ajudar a Mãe e o Pai.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-3616394291034263976?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/06/o-diario-de-noaga.html' title='O DIÁRIO DE NOAGA'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/3616394291034263976/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=3616394291034263976&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/3616394291034263976'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/3616394291034263976'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/06/o-diario-de-noaga_25.html' title='O DIÁRIO DE NOAGA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TCR926PRHVI/AAAAAAAAAmc/iIkAAddDL-Q/s72-c/African.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-2553694336221558187</id><published>2010-06-23T10:10:00.008+01:00</published><updated>2010-12-13T09:59:39.825Z</updated><title type='text'>NAUFRÁGIOS</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TCHPzw1fCrI/AAAAAAAAAmU/F02X401-30w/s1600/G%C3%A9ricault+La+M%C3%A9duse.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 217px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5485894309303487154" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TCHPzw1fCrI/AAAAAAAAAmU/F02X401-30w/s320/G%C3%A9ricault+La+M%C3%A9duse.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Pouparei o caro leitor aos pormenores macabros por que passaram os sobreviventes do naufrágio da fragata &lt;em&gt;La Méduse&lt;/em&gt;, acontecimento que tanto impressionou o pintor Géricault como a opinião pública da época, e que representa bem a condição da existência humana tal como no-la pinta o actual quadro naturalista e evolucionista : cada indivíduo ou grupo faz o que pode para salvar-se de qualquer maneira e manter-se vivo sobre a jangada (Terra); e a evolução desta no mar do espaço e do tempo não tem outro propósito a não ser o de as gerações sobreviventes se irem arranjando meios de passarem de barcos menos seguros para outros aparentemente mais seguros. Como já vimos, não há aqui que falar de valores e leis morais, senão como meros artifícios que a razão (ou a “consciência moral” ou o que se queira) iria inventando para, como quaiquer outros artefactos do engenho racional, tornar a viagem menos perigosa. E é tudo.&lt;br /&gt;Mas acontece que essa razão foi capaz de chegar a uma Lei Moral, e esta tem curiosas implicações. Relembremo-la, na sua final formulação kantiana:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;« Age de tal maneira que uses a humanidade, na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro [indivíduo], sempre e simultaneamente como um fim e nunca simplesmente como um meio. » Isto é, os fins da minha vontade – enquanto ser racional -, &lt;em&gt;devem &lt;/em&gt;sempre ser tais que possam ser queridos como fins de quaisquer outros seres racionais. Como se sabe, o imperativo kantiano é categórico, absoluto, sem reservas ou excepções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suponha-se agora um barco com nove pessoas kantianas a bordo, do mesmo sexo e idades próximas. Por um imprevisto acidente natural qualquer, longe da costa, o barco começa a afundar-se e há apenas disponível um bote salva-vidas com capacidade para cinco pessoas. O que fazer? Se tivessem tempo para pensar, pareceria evidente que o que cada um e todos devem querer é que &lt;em&gt;todos&lt;/em&gt; se salvem; nenhum deles tem mais direito ao bote que qualquer outro; e nenhum deles tem qualquer direito a usar a sua pessoa apenas como um meio, para dar lugar a qualquer outro (o que aliás nenhum outro aceitaria). A vida de cada um vale igualmente tanto como a vida de qualquer outro e a de todos. Parece, pois, que nesta situação, não sendo possível qualquer outro tipo de entreajuda para se salvarem todos, - todos devem perder-se. Tal parece ser a lei de uma &lt;em&gt;comunidade ética&lt;/em&gt; ( há exemplos desta conduta na História humana), e a lei kantiana tem uma conhecida formulação mais simples neste prolóquio popular: &lt;em&gt;um por todos e todos por um&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece haver algo de suspeito na racionalidade duma ética que deixa por utilizar uma balsa que poderia salvar cinco vidas, preferindo a perda de nove. O verbo “utilizar” vem a propósito, porque uma ética utilitarista proporia solução diferente. Mas qual, na circunstância ? Maximizar o bem natural da conservação da vida implicaria necessariamente não deixar de aproveitar a capacidade máxima do bote, que permite salvar um maior número de pessoas. Mas, quem individualmente aproveitaria desse bem escasso? Como decidir, na circunstância ? Falando em “bens escassos”, já o meu leitor intuiu que mareamos nas banais marés da vida “económica” e nas correntias soluções dos seus maximizadores utilitaristas: concorrência, competição, posições dominantes no mercado, etc. Tudo coisas congruentes com a “survival of the fittest”: no caso, somos informados que cinco dos passageiros eram parentes ou amigos, e associados na empresa de afastar os outros quatro competidores, conquistaram o “nicho de mercado” do bote salvador. E fica transparente como a ética utilitarista (ao menos numa sua versão popular) não parece ser ética nenhuma: um qualquer bando de macacos na disputa duma banana agiria da mesma maneira. De maneira que, leitor amigo, receio que as nossas suspeitas acerca da racionalidade kantiana, no caso, não fossem mais que acobertados clamores do nosso animal “instinto de sobrevivência”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis a extraordinária implicação possível duma ética do estrito e absoluto cumprimento dum dever racional, por simples dever de respeito pela igual e universal dignidade das pessoas, enquanto seres racionais, sejam quais forem as consequências: a subalternização ou até o completo sacrifício da inclinação natural para a felicidade indidual ou grupal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas últimas décadas, a “sociobiologia”, travestida agora de “psicologia evolucionista” tem tentado acomodar, com relativo sucesso, o sacrifício altruísta, incluindo o da própria vida individual, no esquema geral da História naturalista. Mas bastava a mera possibilidade de ideação duma ética racional (como a kantiana) com eventuais efeitos (como os descritos) de tal maneira contrários ao que o senso comum naturalista tem por hábito chamar “vida” (biológica) e “felicidade” (o maior prazer ou menor dor possíveis para o maior número), para lançar a suspeita de que a História naturalista não é toda a história e pode estar toda errada. (Mesmo estando toda aparentemente certa...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kant estava bem ciente de que uma ética racional não poderia deixar de tomar em consideração essa apetição natural das pessoas à felicidade, tanto mais que também estava perfeitamente ciente de que, neste mundo, os mais virtuosos são muitas (ou a maior parte das) vezes infelizes, enquanto morrem ricos e fartos os malfeitores indiferentes ou sadicamente promotores e gozadores dos “infortúnios da virtude”. Isto é, a Lei Moral teria, para ganhar pleno sentido racional, de compreender e satisfazer também a felicidade e a justiça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o grande filósofo alemão seguiu coerentemente até ao fim o caminho que a razão lhe abria: era então racionalmente necessário pressupor que a existência das pessoas racionais não estaria limitada a este fragmento espacio-temporal a que chamamos “vida” – mas sobrevive-lhe (a imortalidade da alma) ; e era necessário pressupor uma Inteligência Pessoal tão capazmente ordenadora da ordem moral que tivesse o poder de conduzir à justa harmonização, em todas as pessoas, do exercício da vontade com as merecidas felicidade ou infelicidade (a existência de Deus).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece-me uma solução que leva completamente a sério a liberdade da vontade de pessoas racionais – e que confere um amplo sentido existencial à natureza e uso dessa liberdade. É muito de notar que a imortalidade da alma humana e a existência de Deus não são aqui conlusões lógica ou cientificamente demonstráveis e demonstradas, de tal maneira que a razão não pudesse não crer; são, sim, implicações existenciais que dão pleno sentido à Lei Moral e ao imperativo absoluto de lhe obedecer. E como a Lei Moral é uma lei da liberdade racional, assim também se ressalva a liberdade de a razão crer ou não crer em tais implicações do seu uso prático (ético).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse “um amplo sentido existencial”. Na próxima semana tentarei mostrar por que pode (e deve) aplicar-se tal sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TCHPtZUO1fI/AAAAAAAAAmM/q8UHpb1_Fuo/s1600/Gericault+M%C3%A9duse.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 256px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5485894199910782450" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TCHPtZUO1fI/AAAAAAAAAmM/q8UHpb1_Fuo/s320/Gericault+M%C3%A9duse.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-2553694336221558187?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/2553694336221558187/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=2553694336221558187&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/2553694336221558187'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/2553694336221558187'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/06/naufragios.html' title='NAUFRÁGIOS'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TCHPzw1fCrI/AAAAAAAAAmU/F02X401-30w/s72-c/G%C3%A9ricault+La+M%C3%A9duse.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-6614662640646735454</id><published>2010-06-17T09:54:00.002+01:00</published><updated>2010-06-17T18:14:59.228+01:00</updated><title type='text'>UM PAÍS PERDIDO</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TBnjIvaiuBI/AAAAAAAAAmE/k80lMFBZt0g/s1600/e%C3%A7a+e+ramalho.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5483663760606541842" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 210px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TBnjIvaiuBI/AAAAAAAAAmE/k80lMFBZt0g/s320/e%C3%A7a+e+ramalho.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;« O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Perfeita, absoluta indiferença, de cima a baixo! Toda a vida espiritual, intelectal, parada. O tédio invadiu todas as almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce. As falências sucedem-se. O pequeno comércio definha. A indústria enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário diminui. A renda também diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste &lt;em&gt;salve-se quem puder&lt;/em&gt; a burguesia propietária de casas explora o aluguer. A agiotagem explora o juro. A ignorância pesa sobre o povo como uma fatalidade. O número de escolas só por si é dramático. O professor é um empregado de eleições. A população dos campos, vivendo em casabres ignóbeis, sustentando-se de sardinha e de vinho, trabalhando para o imposto por meio de uma agricultura decadente, puxa uma vida miserável, sacudida pela penhora; ignorante, entorpecida, de toda a vitalidade humana conserva unicamente um egoísmo feroz e uma devoção automática. No entanto, a intriga política alastra. O país vive numa sonolência enfastiada. Apenas a devoção insciente perturba o silêncio da opinião com &lt;em&gt;padre-nossos&lt;/em&gt; maquinais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é uma existência, é uma expiação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: o país está perdido! Ninguém se ilude. Diz-se nos conselhos de ministros e nas estalagens. E que se faz ? Atesta-se, conversando e jogando o voltarete, que de norte a sul, no Estado, na economia, na moral, o país está desorganizado – e pede-se conhaque!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim todas as consciências certificam a podridão; mas todos os temperamentos se dão bem na podridão. »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim  começava a primeira &lt;em&gt;Crónica Mensal da Política, das Letras e dos Costumes&lt;/em&gt; que no dia 17 de Junho de 1871, sob o título geral &lt;em&gt;As Farpas&lt;/em&gt;, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, lançaram em Lisboa. Propunham-se “perturbar o silêncio da opinião” e publicar  “o que nenhum periódico português ousaria publicar integralmente nas suas colunas”.  Eça colaborou com Ramalho até Setembro-Outubro do ano seguinte; depois foi Ramalho sozinho que sustentou o propósito até 1882.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veja-se, no mesmo número, esta tirada sobre os dois principais movimentos políticos do liberalismo, que se iam alternando à vez no poder: para um lado, à direita, o Partido Regenerador, “constitucional, monárquico, intimamente monárquico, e que lembra nos seus jornais que é necesária a economia”, para o outro, à esquerda, o Partido Histórico, mais conhecido (a partir de 1876) por Progressista,“que é constitucional, bastante monárquico e que prova irrefutavelmente que é assaz aproveitável a ideia da economia”.... –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;« Na sua acção governamental as dissenções são perpétuas. Assim o partido &lt;em&gt;histórico&lt;/em&gt;&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;propõe um imposto: porque não há remédio, é necessário pagar a religião, a centralização, a lista civil, a diplomacia... – propõe um imposto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Caminhamos para a ruína! - exclama o presidente do conselho -. O &lt;em&gt;deficit&lt;/em&gt; cresce! O país está pobre! A única maneira de nos salvarmos é o imposto que temos a honra, etc...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas então o partido &lt;em&gt;regenerador&lt;/em&gt;, por exemplo, que está na oposição, brame de desespero (...) :&lt;br /&gt;- Como assim ! – exclamam todos -. Mais impostos ?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então contra o imposto escrevem-se artigos, elaboram-se discursos, conspira-se; rodam as carruagens de aluguer levando, a trezentos réis por corrida, inimigos do imposto. Prepara-se o &lt;em&gt;cheque &lt;/em&gt;ao ministério histórico, vem a votação... Zás! Cai o ministério histórico. E ao outro dia o partido &lt;em&gt;regenerador&lt;/em&gt;  no poder, triunfante, ocupa as cadeiras de S. Bento.  (...) Abre-se a sessão parlamentar: o novo ministério regenerador vai falar. Os senhores taquígrafos aparam as suas penas mais velozes. O telégrafo está vibrante de impaciência para comunicar aos governadores civis e aos coronéis a regeneração da pátria. Os senhores correios de secretaria têm os seus corcéis selados. Porque enfim o ministério tegenerador vai dizer o seu programa, e todo o mundo se assoa, com alegria e esperança. Tem a palavra o novo presidente do conselho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O &lt;em&gt;novo presidente&lt;/em&gt;: - Um ministério nefasto caiu perante a reprovação do país inteiro. Porque, senhor presidente, o país está desorganizado, é necessário restaurar o crédito. E a única maniera de nos salvarmos... (Murmúrios.Vozes: &lt;em&gt;Ouçam! Ouçam!&lt;/em&gt;) é por isso que eu peço que entre já em discussão... (Atenção ávida: sente-se palpitar por baixo dos fraques o coração da maioria...) que entre em discussão – o imposto que temos a honra, etc. (&lt;em&gt;Apoiado! Apoiado!)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nessa mesma noite reúne-se o centro histórico, ontem no ministério, hoje na oposição. Todos estão lúgubres:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meus senhores - diz o presidente, e a sua voz é cava -, o país está perdido! – E dando uma punhada: - O ministério regenerador ainda ontem subiu ao poder e doze horas depois já entra pelo caminho da anarquia e da opressão, propondo um imposto! Empreguemos todas as nossas forças em poupar o país a esta última desgraça! Guerra ao imposto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não! com estas divergências tão profundas é impossível a conciliação dos partidos!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como vê, caro leitor, não devíamos estar a comemorar hoje apenas cem anos de República...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-6614662640646735454?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/6614662640646735454/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=6614662640646735454&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/6614662640646735454'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/6614662640646735454'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/06/um-pais-perdido.html' title='UM PAÍS PERDIDO'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TBnjIvaiuBI/AAAAAAAAAmE/k80lMFBZt0g/s72-c/e%C3%A7a+e+ramalho.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-703817471376412755</id><published>2010-06-14T13:13:00.005+01:00</published><updated>2010-06-17T18:21:10.700+01:00</updated><title type='text'>UMA SEPARAÇÃO LITIGIOSA</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TBYdDYJsOfI/AAAAAAAAAl8/bIU54PUdR8o/s1600/RF-Marianne-04.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5482601540230068722" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 251px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TBYdDYJsOfI/AAAAAAAAAl8/bIU54PUdR8o/s320/RF-Marianne-04.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;« Está admiravelmente preparado o povo para receber essa lei; e a acção da medida será tão salutar que em duas gerações Portugal terá eliminado completamente o catolicismo, que foi a maior causa da desgraçada situação em que caiu. »&lt;br /&gt;Afonso Costa, Março de 1911.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;« A Separação, tal como foi redigida, e na forma em que foi executada, constitui uma das mais fortes causas do divórcio duama grande parte da opinião pública em face da República. »&lt;br /&gt;José Relvas, &lt;em&gt;Memórias Políticas&lt;/em&gt;, vol. 1 (1977, 1ª ed.).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;« As leis de Afonso Costa eram, sem sombra de dúvida, de perseguição, de ataque à Igreja, ao clero e à própria religião. »&lt;br /&gt;Oliveira Marques, &lt;em&gt;Afonso Costa&lt;/em&gt;, 1975 (2ª ed.).&lt;br /&gt;_________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A perseguição legal começou logo três dias após o triunfo da revolução republicana. Mas quão sintomático é que, no último dia da Monarquia, a 4 de Outubro, tenha saído no &lt;em&gt;Diário do Governo&lt;/em&gt; monárquico de Teixeira de Sousa uma portaria que mandava dissolver a residência da rua do Quelhas, sede dos Jesuítas!... A 8 de Outubro, um decreto de Afonso Costa, indigitado ministro da Justiça do governo provisório, repunha em vigor as leis do ditador monárquico Pombal contra os Jesuítas e as de Joaquim António de Aguiar relativas às casas religiosas. A 18 de Outubro foram abolidos todos os juramentos de carácter religioso, substituídos por “declarações de honra”; a 22, suprimia-se o ensino da doutrina cristã nas escolas primárias, substituída por uma “educação cívica”; a 23, eram abolidos dos estatutos da Universidade de Coimbra todas as obrigações religiosas (como a do juramento do dogma da Imaculada Conceição, que vinha desde os tempos de D. João IV) e suprimia-se a sua Faculdade de Teologia (e a 21 de Janeiro do ano seguinte proibia-se o culto religioso na capela da mesma universidade, que devia ser transformada em “museu de arte”) ; a 26 do mesmo Outubro, mandava-se que fossem considerados dias normais de trabalho todos os feriados religiosos; a 27, dava-se poderes aos governadores civis para dissolverem os corpos administrativos das irmandades e confrarias, substituindo-os por comissões da confiança do Governo; a 31, proíbe-se aos membros das ordens religiosas o exercício de actividades educativas e o uso de hábito religioso. A 3 de Novembro novo decreto-lei institui quase irrestritamente o divórcio, então inexistente à face do direito civil português; a 28 é proibido aos membros do exército e da marinha que intervenham em solenidades e cerimónias religiosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Redigida em finais de Novembro ou Dezembro, em carta pastoral colectiva - a primeira da história eclesiástica portuguesa - os bispos portugueses põem-se e respondem à questão: “Em face das instituições actuais, qual é o dever dos católicos portugueses ? Acatá-las sem pensamento reservado, obedecer às autoridades e respeitar os poderes constituídos. Ainda que nos sejam desfavoráveis ou se nos mostrem hostis, sejamos-lhes sujeitos, obedeçamos fielmente às suas determinações em tudo o que não for contrário à consciência.” Foi publicada apenas em Fevereiro, sem a devida autorização do governo, o que levou Costa a proibir a sua leitura l nas igrejas e a destituir os bispos desobedientes, como foram os do Porto e de Beja. Entretanto, parece que a maior parte dos padres, nas suas paróquias preferiram antes obedecer às autoridades políticas e abstiveram-se de ler ou interromperam a leitura da pastoral nas missas. Era a força da obediência multissecular à velha tutela do Beneplácito Régio, que vinha dos medievais tempos da 1ª Dinastia e que os republicanos cuidadosamente mantiveram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia de Natal de 1910 (que o decreto-lei de 26 de Outubro denominava “dia da família”) saem as chamadas “leis da família”, que consideravam o matrimónio “contrato puramente civil”- único com exclusiva validade legal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos princípios de 1911 desencadeiam-se assaltos, saques e destruições de sedes do movimento social católico e suas organizações, juvenis, operárias e de imprensa. A 15 de Fevereiro eram revogados os artigos 130 e 131 do Código Penal, de 1886, que cominavam penas de prisão a quem faltasse ao respeito devido à religião do Reino e privava de direitos políticos por vinte anos a quem apostasiasse ou renunciasse à religião católica. A 18 do mesmo mês promulga-se a lei do “registo civil” obrigatório e remunerado, e a sua precedência sobre quaisquer actos religiosos que correspondam ao nascimento, casamento ou óbito. A 28, outro decreto-lei chega ao pormenor de proibir na datação dos documentos oficiais a tradicional referência à “era do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo”, por razões de “simplificação”, “inutilidade” e “atentatória da liberdade de consciência”. Pela Páscoa, proibiram-se as procissões e outras cerimónias religiosas que não fossem autorizadas oficialmente ou se realizassem fora dos recintos previamente destinados para esse efeito. A 20 de Abril era enfim publicada famosa “Lei de Separação do Estado das Igrejas” (&lt;em&gt;sic&lt;/em&gt;), que motivou o corte de relações diplomáticas entre Portugal e a Santa Sé; com efeitos a partir de 1 de Julho seguinte, visava-se a expropriação dos bens móveis e imóveis da Igreja, a quem se retira personalidade jurídica; é o desrespeito da autonomia eclesiástica em assuntos religiosos, e da hierarquia e liberdade religiosa, com a criação das associações cultuais, com a ingerência do poder civil na vida dos seminários, com a proibição do uso dos hábitos talares fora dos lugares de culto e com a proibição de outras manifestações públicas de culto ou de fé; é a afronta dos sentimentos morais católicos com a atribuição de pensões às viúvas e filhos ilegítimos dos padres, que os bispos consideram ‘convite à indisciplina e à imoralidade’; é a reposição do beneplácito que se continua a exigir para a impressão e publicação de documentos papais e episcopais no País; é a proibição da fundação de associações religiosas, etc. Era uma genuína lei &lt;em&gt;ad odium&lt;/em&gt; (como se dizia na altura) e na linha da revolucionária &lt;em&gt;Constitution Civil du Clergé&lt;/em&gt;, de 1790, ainda aprovada por Luís XVI.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A 24 de Abril, um domingo, acompanhado de mais de mil e quinhentos excursionistas seus partidários, Afonso Costa desloca-se a Braga, onde teria proferido as afirmações constantes da primeira epígrafe supra. Quer a lenda que tenha sido na “capital do ultramontanismo português” que ele disse tal. Certo é que o jornal &lt;em&gt;O Tempo&lt;/em&gt; já reportava tais afirmações em Março desse ano, no resguardo duma sessão do Oriente Lusitano. Outras, de teor semelhante, seriam do grão-mestre da Maçonaria, Sebastião de Magalhães Lima: “Dentro de alguns anos não haverá quem queira ser padre em Portugal: os seminários ficarão desertos. ”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reagem com um “protesto colectivo” de 6 de Maio os bispos, contra a “escravização da Igreja”, exprobrando o “pequeno número de exaltados, de fanáticos anti-religiosos, que decretou a lei de 20 de Abril” contra “a maioria dos portugueses, que professam o Catolicismo”; e por isso consideram tal lei violadora do “eterno e inviolável princípio do justo” e não democrática. O papa Pio X, pela carta encíclica &lt;em&gt;Jumdudum in Lusitania&lt;/em&gt;, de 24 de Maio de 1911, aliás dirigida a todo o orbe católico, considera tal lei como o cume (&lt;em&gt;fastigium&lt;/em&gt;) da obra abominável (&lt;em&gt;opus nefarium&lt;/em&gt;) que se vinha prosseguindo desde Outubro; denuncia-lhe o objectivo de “separar a Igreja de Portugal, que espoliaram e oprimiam, não da República, conforme eles queriam fazer acreditar, mas sim do Vigário de Jesus Cristo”, isto é (digo eu), o velho ideal regalista pombalino de uma igreja lusitana desligada da obediência a Roma. E determinava o pontífice que devia ser tido por “nulo e de nenhum valor” tudo o que a lei dispunha contra os direitos da Igreja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Agosto, Afonso Costa era obrigado a reconhecer, contrafeito, no Parlamento, que apenas duzentos e oitenta e sete padres tinham requerido a subvenção financeira que a lei lhes prometia. Desta vez, a grande maioria dos sacerdotes tinha seguido a recusa dos bispos. O efeito desta atitude digna foi o recrudescimento das perseguições e violências nos três anos seguintes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;[ Não se faz hoje ideia do nível de violência a que chegou, de norte a sul do país, a perseguição anti-clerical, na imprensa e na rua, com prisões arbitrárias, espancamentos, assaltos e expulsões de residência, e toda a casta de vexames, que não pouparam sequer os bispos. Nas páginas 95-129 do livro historiadora Maria Lúcia Moura, &lt;em&gt;A Guerra Religiosa na Primeira República&lt;/em&gt; (2004), tem-se uma boa perspectiva do que aconteceu. Um exemplo só da retórica jacobina propagandeada pelo país, tirado do jornal &lt;em&gt;Defeza&lt;/em&gt;, de Sobral de Monte Agraço (1.05.1911) : “Para nós o padre é sempre um animal parasita cujo seu valor corresponde bem ao algarismo que tem marcado no alto da cabeça.” ]&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-703817471376412755?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/05/renascenca-portuguesa.html#links' title='UMA SEPARAÇÃO LITIGIOSA'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/703817471376412755/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=703817471376412755&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/703817471376412755'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/703817471376412755'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/06/uma-separacao-litigiosa.html' title='UMA SEPARAÇÃO LITIGIOSA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TBYdDYJsOfI/AAAAAAAAAl8/bIU54PUdR8o/s72-c/RF-Marianne-04.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-8501561547088103177</id><published>2010-06-10T00:10:00.006+01:00</published><updated>2010-06-23T12:05:42.955+01:00</updated><title type='text'>PADRÕES LUSÍADAS</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TBAftzB2HZI/AAAAAAAAAl0/8ajwhao4M2c/s1600/cam%C3%B5es.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 283px; DISPLAY: block; HEIGHT: 315px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5480915618162417042" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TBAftzB2HZI/AAAAAAAAAl0/8ajwhao4M2c/s320/cam%C3%B5es.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Já a manhã clara dava nos outeiros&lt;br /&gt;Por onde o Ganges murmurando soa,&lt;br /&gt;Quando da celsa gávea os marinheiros&lt;br /&gt;Enxergaram terra alta pela proa.&lt;br /&gt;Já fora de tormenta e dos primeiros&lt;br /&gt;Mares, o temor vão do peito voa.&lt;br /&gt;Disse alegre o piloto melindano:&lt;br /&gt;- « Terra é de Calecu, se não me engano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta é por certo a terra que buscais&lt;br /&gt;Da verdadeira Índia, que aparece;&lt;br /&gt;E se do mundo mais não desejais,&lt;br /&gt;Vosso trabalho longo aqui fenece.»&lt;br /&gt;Sofrer aqui não pôde o Gama mais,&lt;br /&gt;De ledo em ver que a terra se conhece;&lt;br /&gt;Os joelhos no chão, as mãos ao Céu,&lt;br /&gt;A mercê grande a Deus agradeceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As graças a Deus dava, e razão tinha,&lt;br /&gt;Que não somente a terra lhe mostrava,&lt;br /&gt;Que com tanto temor buscando vinha,&lt;br /&gt;Por quem tanto trabalho experimentava,&lt;br /&gt;Mas via-se livrado tão asinha&lt;br /&gt;Da morte que no mar lhe aparelhava&lt;br /&gt;O vento duro, férvido e medonho,&lt;br /&gt;Como quem despertou de horrendo sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por meio destes hórridos perigos,&lt;br /&gt;Destes tarbalhos graves e temores,&lt;br /&gt;Alcaçam os que são de fama amigos&lt;br /&gt;As honras imortais e graus maiores:&lt;br /&gt;Não encostados sempre nos antigos&lt;br /&gt;Troncos nobres de seus antecessores;&lt;br /&gt;Não nos leitos dourados, entre os finos&lt;br /&gt;Animais de Moscóvia zibelinos;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não co’os manjares novos e esquisitos;&lt;br /&gt;Não co’os passeios moles e ociosos;&lt;br /&gt;Não co’os vários deleites e infinitos,&lt;br /&gt;Que afeminam os peitos generosos;&lt;br /&gt;Não co’os nunca vencidos apetitos,&lt;br /&gt;Que a Fortuna tem sempre tão mimosos,&lt;br /&gt;Que não sofre a nunhum que o passe mude&lt;br /&gt;Para alguma obra heróica de virtude;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Mas com buscar, co’ o seu forçoso braço,&lt;br /&gt;Que ele chame próprias suas;&lt;br /&gt;Vigiando e vestindo o forjado aço,&lt;br /&gt;Sofrendo tempestades e ondas cruas,&lt;br /&gt;Vencendo os torpes frios no regaço&lt;br /&gt;Do Sul e regiões de abrigo nuas,&lt;br /&gt;Engolindo o corrupto mantimento&lt;br /&gt;Temperado c’um árduo sofrimento;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E com forçar o rosto, que se enfia,&lt;br /&gt;A parecer seguro, ledo, inteiro,&lt;br /&gt;Para o pelouro ardente que assobia&lt;br /&gt;E leva a perna ou braço ao companheiro.&lt;br /&gt;Destarte o peito um calo honroso cria,&lt;br /&gt;Desprezador das honras e de dinheiro,&lt;br /&gt;Das honras e dinheiro que a ventura&lt;br /&gt;Forjou, e não virtude justa e dura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Destarte se esclarece o entendimento,&lt;br /&gt;Que experiências fazem repousado,&lt;br /&gt;E fica vendo, como de alto assento,&lt;br /&gt;O baixo trato humano embaraçado.&lt;br /&gt;Este, onde tiver força o regimento&lt;br /&gt;Direito, e não de afeitos ocupado,&lt;br /&gt;Subirá (como deve) a ilustre mando,&lt;br /&gt;Contra vontade sua, e não rogando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.......................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um ramo na mão tinha... Mas, oh cego,&lt;br /&gt;Eu, que cometo insano e temerário,&lt;br /&gt;Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,&lt;br /&gt;Por caminho tão árduo, longo e vário!&lt;br /&gt;Vosso favor invoco, que navego&lt;br /&gt;Por alto mar, com vento tão contrário&lt;br /&gt;Que, se não me ajudais, hei grande medo&lt;br /&gt;Que o meu fraco batel se alague cedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhai que há tanto tempo que, cantando&lt;br /&gt;O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,&lt;br /&gt;A Fortuna me traz peregrinando,&lt;br /&gt;Novos trabalhos vendo e novos danos:&lt;br /&gt;Agora o mar, agora experimentando&lt;br /&gt;Os perigos mavórcios inumanos,&lt;br /&gt;Qual Cánace que à morte se condena&lt;br /&gt;Numa mão sempre a espada e noutra a pena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, com pobreza aborrecida,&lt;br /&gt;Por hospícios alheios degradado;&lt;br /&gt;Agora, da esperança já adquirida,&lt;br /&gt;De novo mais que nunca derribado;&lt;br /&gt;Agora, às costas escapando a vida,&lt;br /&gt;Que dum fio pendia tão delgado,&lt;br /&gt;Que não menos milagre foi salvar-se&lt;br /&gt;Que para o rei judaico acrescentar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ainda, Ninfas minhas, não bastava&lt;br /&gt;Que tamanhas misérias me cercassem,&lt;br /&gt;Senão que aqueles que eu cantando andava&lt;br /&gt;Tal prémio de meus versos me tornassem:&lt;br /&gt;A troco dos descansos que esperava,&lt;br /&gt;Das capelas de louro que me honrassem,&lt;br /&gt;Trabalhos nunca usados me inventaram,&lt;br /&gt;Com que em tão duro estado me deitaram!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vede, Ninfas, que engenhos de senhores&lt;br /&gt;O vosso Tejo cria valerosos,&lt;br /&gt;Que assim sabem prezar, com tais favores,&lt;br /&gt;A quem os faz, cantando, gloriosos!&lt;br /&gt;Que exemplos a futuros escritores,&lt;br /&gt;Para espertar engenhos curiosos,&lt;br /&gt;Para porem as coisas em memória&lt;br /&gt;Que merecerem ter eterna glória!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois logo, em tantos males, é forçado&lt;br /&gt;Que só vosso amor me não faleça,&lt;br /&gt;Principalmente aqui, que sou chegado&lt;br /&gt;Onde feitos diversos engrandeça:&lt;br /&gt;Dai-mo vós sós, que eu tenho já jurado&lt;br /&gt;Que não no empregue em quem o não mereça,&lt;br /&gt;Nem por lisonja louve algum subido,&lt;br /&gt;Sob pena de não ser agradecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem creiais, Ninfas, não, que fama desse&lt;br /&gt;A quem ao bem comum e do seu rei&lt;br /&gt;Antepuser seu próprio interesse,&lt;br /&gt;Imigo da divina e humana lei.&lt;br /&gt;Nenhum ambicioso que quisesse&lt;br /&gt;Subir a grandes cargos cantarei,&lt;br /&gt;Só por poder com torpes exercícios&lt;br /&gt;Usar mais largamente de seus vícios;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhum que use de seu poder bastante&lt;br /&gt;Para servir a seu desejo feio,&lt;br /&gt;E que, por comprazer ao vulgo errante,&lt;br /&gt;Se muda em mais figuras que Proteio;&lt;br /&gt;Nem, camenas, também cuideis que cante&lt;br /&gt;Quem, com hábito honesto e grave, veio,&lt;br /&gt;Por contentar o rei no ofício novo&lt;br /&gt;A despir e roubar o pobre povo;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem quem acha que é justo e que é direito&lt;br /&gt;Guardar-se a lei do rei severamente,&lt;br /&gt;E não acha que é justo o bom respeito&lt;br /&gt;Que se pague o suor da servil gente;&lt;br /&gt;Nem quem sempre, com pouco experto peito,&lt;br /&gt;Razões aprende - e cuida que é prudente -&lt;br /&gt;Para taxar, com mão rapace e escassa,&lt;br /&gt;Os trabalhos alheios que não passa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqueles sós direi que aventuraram&lt;br /&gt;Por seu Deus, por seu rei a amada vida,&lt;br /&gt;Onde, perdendo-a, em fam a a dilataram,&lt;br /&gt;Tão bem de suas obras merecida.&lt;br /&gt;Apolo e as Musas, que me acompanharam,&lt;br /&gt;Me dobrarão a fúria concedida,&lt;br /&gt;Enquanto eu tomo alento, descansado,&lt;br /&gt;Para tornar ao trabalho, mais folgado.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2008/06/dia-de-cames.html#links"&gt;Luís de Camões&lt;/a&gt;, &lt;em&gt;Os Lusíadas&lt;/em&gt;, VI, 92-99 e VII, 78-87.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TBAfoHwW4zI/AAAAAAAAAls/TzRsjjmn3c0/s1600/ant%C3%B3nio+vieira~1.JPG"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 309px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5480915520646996786" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TBAfoHwW4zI/AAAAAAAAAls/TzRsjjmn3c0/s320/ant%C3%B3nio+vieira~1.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;« Em tempos passados havia neste colégio da Baía um escravozinho comprado, com pouco mais de doze anos de idade, de raça negra, natural do interior da barbaria de Angola, já feito cristão, bem instruído nos mistérios da nossa fé e apontado a dedo pela inteligência vivaz e pronta que bem mostrava. Perguntei-lhe eu certo dia: - “ Ó Bernardo (tal se chamava), diz-me cá e diz-me a verdade: Estás contente com a tua servidão? E dás tu graças a Deus, que te arrancou às trevas da cega gentilidade, e que, trazendo-te ao Brasil, quis que servisses, não a um senhor secular, mas aos religiosos da nossa Companhia de Jesus, vivendo do alimento dos mistérios e da moral cristãos, para morreres encaminhado ao Céu? De outro modo, se tivesses permanecido onde nasceste, irias para o Inferno torturado pelas chamas eternas onde abrasam teus antepassados, que não conheceram a Deus... ”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele deteve-se um pouco, consultando-se consigo, de senho levantado, e respondeu intrépido e seguro de si: - “ Os meus avós e os meus antepassados não estão no Inferno.” E não houve de perguntar-lhe porquê, acrescentando logo:- “ Porque, se eles não conheceram a Deus, como podia Deus mandá-los para o Inferno? Ou como podiam eles tanto ofender a Deus ignorado, que merecessem tais tormentos?” Admirado com a lógica claríssima e a resposta inesperada do teólogo negrinho, para o apanhar noutro laço, e como que minimizando e ridicularizando o que eu antes dissera, insisti: - “Na tua terra e entre essas gentes os roubos, os adultérios, os homicidíos e outras coisas assim não são considerados maus, injustos e contrários à razão?” – “Com certeza”, respondeu. E rematei: - “Portanto, se os teus antepassados fossem desculpados do Inferno porque não conheceram a Deus, pelo menos seriam justissimamente castigados com essas penas por tão graves crimes”. – “Esse (volveu ele) é outro motivo que mesmo assim me não parece bastante para que sejam eternas e sem fim as penas a que hão de ser condenados. Na verdade, dá-se com os brancos que se um matar outro é morto na forca, suplício que acaba em um momento. E, assim, que perde o enforcado? A vida, é certo; e de facto é justo que perca a vida quem privou a outro da vida, para que haja uma compensação igual e a pena equivalha a culpa. Mas, nem a vida do assassinado nem a do assassino haviam de durar perpetuamente; portanto, como é que um homicida que não conheceu a Deus deverá ser castigado por Deus (e Deus de infinita misericórdia), não com suplício temporal e finito, mas com perenais penas no Inferno, que hão de durar eternamente, para compensar uma vida mortal, que de si não dura perpetuamente? »&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quedei como assombrado de ouvir o nosso Bernardo a filosofar com tão clara mente sobre ponto tão obscuro; mas louvei-me de ter notícia, por uma criança inda longe de adulta e inda há pouco gentia, de como era conhecida pela luz natural da razão uma conclusão que os mais doutos teólogos trazem muito disputada e digladiando entre si. »&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2008/03/o-paiau.html#links"&gt;Padre António Vieira&lt;/a&gt;, &lt;em&gt;Chave dos Profetas&lt;/em&gt;, Livro III, cap. IV, § II. (Edição crítica e tradução do latim por Arnaldo Espírito Santo, 2001)&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-8501561547088103177?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/8501561547088103177/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=8501561547088103177&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/8501561547088103177'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/8501561547088103177'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/06/padroes-lusiadas.html' title='PADRÕES LUSÍADAS'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TBAftzB2HZI/AAAAAAAAAl0/8ajwhao4M2c/s72-c/cam%C3%B5es.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-7493373463468312530</id><published>2010-06-07T09:27:00.002+01:00</published><updated>2010-06-07T09:31:33.086+01:00</updated><title type='text'>O DIÁRIO DE NOAGA</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TAytnn9XckI/AAAAAAAAAlk/LUkMmki6SZQ/s1600/africa.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 306px; DISPLAY: block; HEIGHT: 204px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5479945742855926338" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TAytnn9XckI/AAAAAAAAAlk/LUkMmki6SZQ/s320/africa.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;7 de Junho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje finalmente choveu! Há 140 dias que eu não via uma gota de água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Allahanjiulinoi!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-7493373463468312530?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/05/o-diario-de-noaga.html#links' title='O DIÁRIO DE NOAGA'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/7493373463468312530/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=7493373463468312530&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/7493373463468312530'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/7493373463468312530'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/06/o-diario-de-noaga.html' title='O DIÁRIO DE NOAGA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TAytnn9XckI/AAAAAAAAAlk/LUkMmki6SZQ/s72-c/africa.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-646452115252078490</id><published>2010-06-03T00:06:00.002+01:00</published><updated>2010-06-03T00:15:06.606+01:00</updated><title type='text'>LEI NATURAL E LEI MORAL</title><content type='html'>A consciência moral é a consciência do bem e do mal, e estes termos claros e singelos têm a primária vantagem de evidenciar imediatamente a sua universalidade no género humano, pelo menos no “sapiens” moderno, com cerca de centena e meia de milhares de anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que os sujeitos de tal consciência moral tenham Direitos Humanos que, por serem iguais em todos os indivíduos, todos igualmente devem querer respeitar, põe imediatamente uma questão fundamental : a da Dignidade. – O que é que há em todos os humanos de tal maneira &lt;strong&gt;&lt;em&gt;valioso&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; que eu não deva querer por qualquer maneira atentar contra esses Direitos, na minha pessoa e na dos outros? (Ao menos não sou eu “proprietário” de mim e, livremente, com “autonomia”, não teria eu o direito de renunciar a eles na minha pessoa?...) De outra maneira equivalente: como é que do facto da existência de uma razão ou de uma consciência moral chegamos a um valor tal – a Dignidade -, que obrigue a um respeito absoluto, irrestrito a quaisquer circunstância ou alheios fins?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suponha o leitor este cenário baseado numa História em voga, que  decerto lhe é já familiar. –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há cerca de quinze milhões de anos, no sul de África, uma espécie de símios terá sido o tronco de onde brotaram dois ramos diferentes: um, de onde viriam a surgir os símios antropomorfos actuais (orangos, gorilas, chimpanzés); outro,  de onde sairia milhões de anos depois uma espécie de hominídeos chamados “australopitecos”; e deste ramo brotaram outros ramos, dos quais um chamado “homo sapiens”; deste ainda derivariam (pelo menos) dois ramos diferentes: o dos “neandertais”, que se extinguiu há cerca de trinta mil anos, e o outro que sobreviveu no tempo e somos nós hoje. (Não tão diferentes assim: as últimas informações vão no sentido de um cruzamento genético dos dois ramos, de que a nossa &lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2008/10/morte-de-portugal-ii.html#links"&gt;criança do Lapedo &lt;/a&gt;era já tida como um raro exemplar conhecido.) Como se sabe, tal evolução nada tem de diferente da das mais espécies vivas: todas elas evoluem no tempo sujeitas a uma lei natural de selecção das mais bem sucedidas na adaptação ao meio e na reprodução dos respectivos genes; as outras, eventualmente acabam por extinguir-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora bem, coisas como a “razão”, a “vontade”, a “consciência moral” poderiam não ser mais, no sapiens moderno titular delas, senão efeitos necessitados e causas necessitantes da nossa adaptação e sobrevivência; por outras palavras, a explicação (única) de termos sido nós os seleccionados sobreviventes ( e não os neandertais, por exemplo). Aí está, se quisermos falar uma linguagem mais humana ou humanista, o seu “valor” e “dignidade”: é o prémio de um triunfador evolutivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já temos o preciso para ver bem que, nesta perspectiva, o que possa  haver nos humanos de “valioso” é meramente instrumental e submisso à sobredeterminação de uma Lei Natural (biológica) estritamente impessoal e aparentemente indiferente (como todas as leis naturais) ao facto de existirem ou deixarem de existir seres humanos de qualquer espécie. E, relativamente a todas as espécies vivas, nós não temos nada de excepcional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais ainda. A História continua, continua o tempo, a evolução não pára. Nada garante a priori que se o assunto “Direitos Humanos” pôde ter algum circunstancial interesse evolutivo (se não foi só o restritamente político de revoluções classistas e de etnocentrismos em processo de hegemonia global), esse interesse não se venha a desvanecer, alteradas as condições do meio; ou não se torne mesmo perigoso, pelo menos para aqueles que persistem em atribuir-lhe um valor irrestrito e incondicionado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, nada garante que tais Direitos não tenham de vir a ser desconsiderados e, com o tempo, desaparecidos e esquecidos por uma espécie nova de seres em processo de emergência a partir do sapiens actual. Uma tal espécie seria diferente se, por exemplo, não tivesse qualquer “consciência moral”, e para ela a questão dos Direitos Humanos faria tanto sentido como o (não) teria para as espécie precedentes do género “homo” ou coexistentes com o sapiens (como os neandertais).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se esta História é tudo o que, basicamente, de mais significativo há para contar – porque é o que mais conta! -, e se o humano é (como cria Nietzsche) um ser “a ultrapassar”, parece que não haveria mais valor senão este: abrir lugar para o “ubermensch”, saudar a sua chegada, eventualmente servi-lo por um certo tempo e, depois, desaparecer no cemitério das espécies extintas. Isto poderia ser... morrer com “dignidade”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cenário naturalista é precioso. – Em primeiro lugar, porque há quem, com aparente boa fé, o credite verdadeiro e... pode ser verdadeiro. Em segundo, porque, colocando-nos num cenário o mais próximo possível dum mundo amoral (os “valores” e “deveres” morais seriam, como tudo no mundo, nada mais que fenómenos da Natureza favoráveis ou desfavoráveis à evolução da espécie), dá-nos em contrapartida um sinal de o que poderia ser de tal maneira estranho (alheio) a esse mundo que nos daria uma razão ou critério suficiente de uma Dignidade substanciadora de Direitos respeitáveis em todos os indivíduos da espécie. O que é que poderia ser tal? Se o cenário naturalista não nos propõe senão leis naturais, procuremos do lado de uma Lei a mais afastada possível desse género de leis, e de tal modo afastada que sobrepassa (e pode opor-se) a todas as considerações da primazia do interesse subjectivo dos indivíduos, dos fins da felicidade individual ou grupal e - até! - da sobrevivência biológica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trata-se, como o leitor já adivinhou, da Lei moral kantiana, que é como um princípio formal – que trata da forma da minha vontade, enquanto ser racional, mais que do seu conteúdo psicológico concreto – que serve de regra para todas as leis que pretendam ser propriamente morais : os meus actos são eticamente relevantes se a lei da minha vontade puder valer, em todos os casos, igualmente como lei da vontade de todos os mais indivíduos racionais. Isto faz da lei (moral) da vontade de um indivíduo uma lei universal : - « e &lt;strong&gt;&lt;em&gt;a dignidade&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; da humanidade consiste precisamente nesta capacidade de ser [o sujeito racional] legislador universal, se bem que com a condição de estar ao mesmo tempo submetido a essa mesma legislação », diz Kant, e sublinho eu. De facto, o que pode haver de mais digno para mim do que poder a forma da minha própria vontade valer universalmente ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teríamos, pois, encontrado na natureza racional do homem uma Lei (moral) para a comunidade universal dos seres racionais – uma comunidade a que o mesmo filósofo chama &lt;em&gt;Reino dos Fins&lt;/em&gt; (um reino em que todos são soberanos). Sob o império desta Lei, a minha pessoa e todas as mais pessoa não podem ser apenas um meio intrumental da minha vontade – se é uma vontade&lt;strong&gt;&lt;em&gt; boa&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; -, mas sempre e simultaneamente devem valer como fins em si; isto é, como sendo, enquanto pessoas racionais, fins respeitáveis em si e por si mesmas, que não podem subordinar-se  a outros. Mais ainda: se eu posso fazer aquilo que quero (&lt;em&gt;bem&lt;/em&gt;) e essa é a minha vontade própria (enquanto propriamente racional), então nenhuma outra qualquer vontade (&lt;em&gt;boa&lt;/em&gt;) de qualquer ser racional – nem mesmo Deus! – poderá limitar ou opor-se à minha vontade; por isso, se a minha vontade pode ser legisladora universal, também pode ser ilimitadamente livre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora convido o leitor a considerar por si se esta Lei Moral kantiana responde cabalmente à questão posta na entrada deste apontamento de hoje. Conferirei em breve consigo a minha resposta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-646452115252078490?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/646452115252078490/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=646452115252078490&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/646452115252078490'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/646452115252078490'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/06/lei-natural-e-lei-moral.html' title='LEI NATURAL E LEI MORAL'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-4732154249744089363</id><published>2010-05-31T10:56:00.005+01:00</published><updated>2010-06-04T09:41:53.529+01:00</updated><title type='text'>RENASCENÇA PORTUGUESA</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TAOJXYGK3LI/AAAAAAAAAlc/5atDjZYyjn8/s1600/A+Aguia.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 214px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5477372606510980274" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TAOJXYGK3LI/AAAAAAAAAlc/5atDjZYyjn8/s320/A+Aguia.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;« Abro hoje a &lt;em&gt;República&lt;/em&gt;, passeio os olhos enjoados por aquela prosa de meia-tijela e, de súbito, qundo em repulsas do estômago ia arrojar de mim o estupor da gazeta, dou com esta coisa sublime: o Sr. Raul Sangreman Proença foi nomeado 2º conservador da Biblioteca... Foi uma grande alegria, palavra. Dê cá um abraço, Homem! »&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Era o dia 6 de Fevereiro de 1911, e Jaime Cortesão projectava assim na insípida prosa dum jornal emblemático do novo regime a preocupação de que a República não trouxesse as soluções novas que pediam velhos problemas portugueses. Noutra carta ao amigo Raul Proença, a 26 do seguinte mês de Julho, Cortesão fala da « necessidade de fundar uma Associação dos artistas e dos intelectuais portugueses com o fim de exercer a sua acção, isenta de facciosismos políticos, dentro da actual sociedade. Acção social orientadora e educativa num meio como o nosso, onde não há grandes ideias, nem grandes homens que se imponham. Você sabe: são os burros que triunfam e portanto a burrice também. » Ora, terminava por esse altura a 1ª série do quinzenário cultural portuense &lt;em&gt;A Águia&lt;/em&gt;, cujo primeiro número saíra no dia 1º de Dezembro de 1910, dirigida por Álvaro Pinto, e de que Jaime Cortesão fora um dos principais colaboradores. E o director manifestava-se aberto a que a revista continuasse, agora como órgão literário duma dessa Associação que se propunha « dar um contéudo renovador e fecundo à revolução republicana ». É o que se diz na mesma carta, onde parece que temos o primeiro testemunho histórico da origem desse importante movimento cultural, pedagógico e cívico que teve o nome de &lt;em&gt;Renascença Portuguesa&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;« O que existe incontestavelmente é uma aspiração esparsa, latente, em nebulosa – uma &lt;em&gt;atmosfera&lt;/em&gt;, como dissemos -, um sentimento de mal-estar que é a primeira condição de movimento, e um desejo de &lt;em&gt;alguma coisa&lt;/em&gt; – não se sabe bem o quê -, que nos incite, que nos impulsione, que nos una, que nos salve. » As ênfases são do autor – Raul Proença -, e o trecho é do manifesto do grupo de Lisboa (a que pertenciam António Sérgio e Jaime da Câmara Reys) que ele redigiu, em 1911, para o lançamento da Renascença. Aqui temos o mesmo “mal-estar” de que falava Manuel Laranjeira em 1897, na sua primeira série de artigos sobre &lt;em&gt;&lt;a href="http://toneldiogenes.blogspot.com/2008/01/o-pessimismo-nacional-i-sintomas.html#links"&gt;O Pessimismo Nacional&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;. Não é a única semelhança. Quer na etiologia, quer na terapêutica, o cotejo de ambos os textos revelaria mais que semelhanças: identidades de pontos de vista.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;“Alguma coisa” e “não se sabe o quê”. Quem o deveria saber parece que seriam as elites, e este movimento propunha-se precisamente « criar em Portugal estas duas coisas absolutamente novas: uma elite consciente, uma opinião pública esclarecida.» E com que meios ? Com « a escola, o livro, a revista, o panfleto, o manifesto, a conferência, a exposição, o inquérito, a viagem de informação e de estudo. » E de tudo isto teve e com tudo isto cumpriu a &lt;em&gt;Renascença Portuguesa&lt;/em&gt;. Até mesmo a “viagem de estudo e de informação”, cumpriu-a Raul Proença (que temos vindo a citar) na extraordinária iniciativa que dirigiu, já nos anos 20, em colaboração com tantos dos melhores escritores e especialistas da época, que foi o magnífico &lt;em&gt;Guia de Portugal&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Relativamente à escola, cumpre lembrar a iniciativa da fundação de várias &lt;em&gt;Universidades Populares &lt;/em&gt;que, entre 1912 e 1928, abriram e funcionaram no Porto, Coimbra, Póvoa do varzim, Vila Real e Lisboa. Desde a Filosofia à História da Arte até à Higiene Infantil e Escrituração Comercial, passando pela História Social e Política, a Botânica, o Magnetismo e a Electricidade, foi um muito meritório esforço de muitos professores com formação especializada de nível médio e superior para levar a cultura letrada ao “povo”. Parece, todavia, que pelo menos no Porto a receptividade não teria correspondido completamente ao «entusiasmo e dedicação dos seus organizadores». Num balanço de actividades, o já citado Álvaro Pinto, então secretário da revista &lt;em&gt;A Águia&lt;/em&gt;, comparava com a experiência passada já feita na extinta Universidade Livre - muito apoiada pela imprensa republicana, sustentada com “os contributos pecuniários das associações operárias” e que tinha sido um baluarte de oposição à Monarquia; e constatava agora a « indiferença com que muitos vêem a Universidade Popular, à qual muitos trabalhadores não ocorrem porque, sem mancha alguma política nem comités, esta [Universidade] não manejava uma bandeira de oposição à República ou às instituições políticas que lhe são afectas. » Era um sintoma claro do divórcio social entre as classes operárias e o regime da pequena e média burguesia triunfante no 5 de Outubro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Não era o único divórcio. O “manifesto” citado de Raul Proença não chegou a valer como tal e como tal nunca foi publicado. Era ele já uma alternativa a um primeiro manifesto, redigido anteriormente por Teixeira de Pascoaes, em nome do grupo do Porto, que suscitara reservas nos de Lisboa. E assim o movimento lançou-se sem manifesto, ficando a valer por ele o editorial da 2º série da &lt;em&gt;Águia&lt;/em&gt;, reaparecida em Novembro de 1911 como órgão principal da &lt;em&gt;Renascença Portuguesa&lt;/em&gt;. Foi nas suas páginas que, em 1913, viria a surgir a célebre (e rude) polémica entre Pascoaes e António Sérgio sobre as teorias do &lt;em&gt;Saudosismo&lt;/em&gt;, a qual consumaria o afastamento do grupo de Lisboa –esse que, uma década depois, estará na na origem da Seara Nova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ A Águia parece que é antes Fénix. Ei-la renascida mais uma vez, aqui: &lt;a href="http://novaaguia.blogspot.com/"&gt;http://novaaguia.blogspot.com/&lt;/a&gt; ]&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-4732154249744089363?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/05/dois-portugueses.html#links' title='RENASCENÇA PORTUGUESA'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/4732154249744089363/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=4732154249744089363&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/4732154249744089363'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/4732154249744089363'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/05/renascenca-portuguesa.html' title='RENASCENÇA PORTUGUESA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/TAOJXYGK3LI/AAAAAAAAAlc/5atDjZYyjn8/s72-c/A+Aguia.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-4967140975189759222</id><published>2010-05-27T09:10:00.006+01:00</published><updated>2010-05-27T09:37:44.601+01:00</updated><title type='text'>LIVRE ARBÍTRIO E LIBERDADE ÉTICA</title><content type='html'>Já aqui uma vez tentei mostrar que &lt;a href="http://http//toneldiogenes.blogspot.com/2010/01/desejo-de-poder-e-poder-da-vontade.html#links"&gt;o poder da vontade é coisa diferente da e-moção &lt;/a&gt;mais ou menos forte e forçosa do desejo; e também,&lt;a href="http://http//toneldiogenes.blogspot.com/2010/03/dificil-liberdade.html#links"&gt; noutra ocasião&lt;/a&gt;, que o poder da vontade de um agente que se conhece, que se dá si mesmo uma regra de acção (autonomia) e os meios para realizar essa vontade, - deixa-se aparentemente descrever em termos tais que &lt;strong&gt;&lt;em&gt;dispensa &lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;qualquer referência a valores e a normas da consciência moral, que pelo menos não sejam redutíveis e anuláveis no puro arbítrio da vontade do indivíduo e no poder de esta se impor a ele próprio e a outros. Isto parece à primeira vista estranho, porque estamos predispostos a considerar a liberdade da vontade – do livre arbítrio – como intrinsecamente valiosa, e tendemos a considerar como um dever respeitá-la. Confusão habitual, e usualmente de funestas consequências. Tentemos clarificar, ajudados dum exemplo. –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo indivíduo foi julgado e condenado justamente em todas as competentes instâncias judiciais, com todas as garantias jurídicas de defesa e recurso. Finalmente a cumprir pena de prisão, dá-se a si mesmo o propósito de fugir na melhor oportunidade. Com habilidade, paciência e dissimulação veio a conseguir para si os meios precisos para o efeito. Surgida a oportunidade, logrou realizar o intento com êxito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claramente: tal indivíduo – mesmo fisicamente preso -, conseguiu preservar um poder de deliberar por si, de dar-se a si uma regra de acção (autonomia) e os meios de sobrepor a vontade própria a circunstâncias fisicamente adversas. E claramente também: toda a acção dele pode descrever-se e entender-se dispensando de todo qualquer referência a valores e normas morais. Logo, como é que uma tal liberdade pode ser intrinsecamente valiosa, quando não menos claramente se vê que há frontal violação da justiça?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O indivíduo sempre conservou o seu poder de arbítrio, e esta liberdade de escolher entre ficar a cumprir a pena ou tentar a fuga é&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;natural&lt;/strong&gt; &lt;/em&gt;, porque inerente, inalienável a um sujeito racional, capaz de deliberar sobre cursos alternativos de acção. Ora, como a consciência moral é também parte inerente de sujeitos racionais, pode acontecer (e acontece de facto) atribuir-se valor a coisas que o não têm ou o não merecem, pelo menos em certos momentos e modos do seu exercício (como no caso). Em conclusão: esse poder de arbítrio da liberdade, dito natural, não parece implicar por si uma natureza &lt;strong&gt;&lt;em&gt;moral&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;; e dar-se o agente uma regra ou norma de acção conforme a sua vontade própria não é, por si, nenhuma norma ou lei moral (como também fica evidente no exemplo dado).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De aqui o cuidado com que há-de ler-se o expresso no Artigo 1 da Declaração Universal de 1948, que citámos integralmente num postal anterior: o “todos os seres humanos &lt;em&gt;nascem&lt;/em&gt; livres e iguais em direitos” – não está a valorizar nenhuma natureza física (como já tive ocasião de dizer), mas sim uma natureza racional na justa medida em que esta razão &lt;strong&gt;&lt;em&gt;não dispensa&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; de tomar em consideração a dignidade de todas as mais pessoas, igualmente dotadas duma consciência moral e titulares de iguais Direitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É evidente que tal consideração está ausente da consciência moral do sujeito agente no exemplo dado. De facto, só entramos no domínio da Ética propriamente quando temos um livre arbítrio duma vontade que delibera e decide informada por valores e normas morais que tornam essa vontade &lt;em&gt;valiosa &lt;/em&gt;e, portanto, com direito ao devido respeito de outros seres racionais dotados de consciência moral. Aliás, vem a ponto notar que é somente quando chegamos ao nível desta necessária condição existencial duma relação com valores e leis morais, que a autonomia do arbítrio individual ganha o estatuto de propriamente &lt;em&gt;pessoal&lt;/em&gt;, isto é, de um indivíduo em relação de si a si (como um “eu”) e em relação a outros (“eus”). Mais ainda: parece que só quando está conscientemente advertida uma lei moral (que implica a possibilidade da sua desobediência) é que racionalmente podemos pressupor a existência de uma liberdade num arbítrio que, sem a lei moral, poderia sempre suspeitar-se determinado por leis da Natureza, mesmo quando se decidisse contra alguma destas. (É, como se sabe, a posição de Kant.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portanto, a autonomia da pessoa individual, se é valiosa e digna de respeito, tal valor parece que lhe adviria duma dignidade que lhe é conferida por uma razão moralmente consciente (capaz de julgar e decidir em função do dever) mas não por ela própria, isto é, pelo mero facto da sua existência e exercício. Tal o sentido do 2º parágrafo da minha resposta à srª profª MacCrorie &lt;a href="http://http//toneldiogenes.blogspot.com/2010/05/direitos-humanos-renunciaveis.html#links"&gt;num postal anterior&lt;/a&gt;: o arbítrio, mesmo quando expressão de uma livre vontade, parece por si só moralmente irrelevante,ou apenas relevante para os valores que um indivíduo arbitrariamente em algum momento escolhe para si; não pode, por conseguinte, reivindicar algum direito (moral) que só é conferido e conferível adentro duma ordem moral partilhada por uma comunidade de pessoas racionais (com os mesmos recíprocos direitos e deveres fundamentais).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um problema fundamental da Ética seria então o de encontrar uma Lei desta ordem moral que garantisse ao arbítrio de todas as pessoas uma liberdade valiosa e igualmente respeitável em todas as mais pessoas enquanto seres racionais. Seria a Lei duma liberdade ética, e também o fundamento e superior critério para avaliar a valiosidade de todas as outras normas morais e acções dos agentes por elas regidas. O filosofar espontâneo do senso comum racional dos povos não deixou de procurar essa Lei, que foi tida como fundamento tanto da ordem natural, como da ordem moral, indissociadas. Como vimos, ainda para os estóicos não se punha o problema de como é que um Logos cósmico impessoal podia ser uma Lei para pessoas capazes de se darem leis a si e aos mais seres da Natureza, confrontando as leis desta, como para escapar ao império delas. Como prisoneiros que só pensassem em escapar duma prisão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As considerações precedentes, se clarificam alguma coisa, contudo não clarificaram nada do ponto decisivo. – Quando a existência de um livre arbítrio é um mero facto da natureza humana, por que é que o mero facto da existência de uma razão e de uma consciência moral implicam nessa natureza um valor e dignidade tais que aos indivíduos (se bem considerassem) não lhes deveria sequer ocorrer o pensamento de “renunciar” aos Direitos (e deveres) que essa comum natureza lhes dá ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis o que temos de considerar melhor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23131426-4967140975189759222?l=toneldiogenes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/feeds/4967140975189759222/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=23131426&amp;postID=4967140975189759222&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/4967140975189759222'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/23131426/posts/default/4967140975189759222'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://toneldiogenes.blogspot.com/2010/05/livre-arbitrio-e-liberdade-etica.html' title='LIVRE ARBÍTRIO E LIBERDADE ÉTICA'/><author><name>Pedro Isidoro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10483082178151799547</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='17' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_icLh0gHYFAM/R37D_jKvQ-I/AAAAAAAAAEo/GDRs-iJ4Lo0/S220/DarPor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-23131426.post-7335725070613893817</id><published>2010-05-24T10:46:00.007+01:00</published><updated>2010-05-24T14:54:41.827+01:00</updated><title type='text'>DOIS PORTUGUESES</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/S_pNtR1IlXI/AAAAAAAAAlU/KuhwB8uUQYI/s1600/machado+santos.jpg"&gt;&lt;img style="MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 172px; FLOAT: right; HEIGHT: 235px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5474773737297974642" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/S_pNtR1IlXI/AAAAAAAAAlU/KuhwB8uUQYI/s320/machado+santos.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/S_pNnxxMsCI/AAAAAAAAAlM/s1_vCPTCimg/s1600/Paiva_Couceiro.jpg"&gt;&lt;img style="MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 170px; FLOAT: left; HEIGHT: 236px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5474773642792185890" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/S_pNnxxMsCI/AAAAAAAAAlM/s1_vCPTCimg/s320/Paiva_Couceiro.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/S_pLJii0WGI/AAAAAAAAAlE/jXj14yiO1T8/s1600/machado+santos.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_icLh0gHYFAM/S_pLD_qCrzI/AAAAAAAAAk8/pF856S2HmbY/s1600/Paiva_Couceiro.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;HENRIQUE DE PAIVA COUCEIRO (1861-1944)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;« Este era bem o último campeão da Monarquia. A madrugada de 5 de Outubro encontrara-o ainda combatendo, quando já as forças da marinha secundavam vigorosamente as de terra, pondo entre dois fogos o último reduto dos monárquicos. Quando o general Gorjão [um dos estrategos da resistência monárquica, centrada no Rossio] propunha aos oficiais, reunidos num derradeiro conselho, a assinatura duma acta – a certidão de óbito da Monarquia portuguesa – Couceiro exclamava: - “Combati ontem. Combati hoje. Estou pronto a combater ainda. Com actas nada tenho. O meu destino é defender a Monarquia no norte.” »&lt;br /&gt;José Relvas, &lt;em&gt;Memórias Políticas&lt;/em&gt;, vol. 1, 1977 ( 1ª ed.).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Militar, batedor e governador em África (1889-1909), o herói de Magul tinha combatido ontem, 4 de Outubro, no alto de Campolide, com quatro peças que trouxe de Queluz e os 50 soldados sobrantes dos que lhe fugiram pelo caminho, enfrentando as peças republicanas do quartel de Artilharia 1 e do acampamento da Rotunda. Combatera hoje, na madrugada de 5, no alto do Torel, na Penha de França, descarregando sobre a Rotunda até ficar sem munições. No dia imediato, foi procurado na sua casa de Cascais por um emissário do Governo Provisório, a quem declarou “reconhecer as instituições que o povo reconhecer”. A 8 pediu a demissão do Exército, mas o governo provisório recusou-a, patrioticamente, afirmando-lhe que contava com a sua “limpa e destemida espada”; e a 14 convidava o ex-governador geral de Angola para estudar a colonização de Benguela. Recusou. No ano seguinte, a 18 de Março requer publicamente a realização “por meio de eleições gerais libérrimas” um referendo nacional sobre a nova situação política. Como não obtivesse resposta, apresentou-se no Ministério da Guerra e declarou a quem o recebeu: - “Vou-me revoltar contra a República para salvar a Pátria.” E demitiu-se do Exército. À saída, mais declarou: “O povo é a origem de toda a soberania. Ninguém tem o direito de lhe impôr soberanos com as armas na mão. O povo tem o direito de escolher.” Para que a nova situação política fosse objecto do referendo popular, e considerando não livres nem justa as eleições de Maio para a Constituinte, combateria amanhã, em Outubro de 1911 e Julho de 1912 no norte, a partir da Galiza. Combateria ainda em Janeiro de 1919, quando conseguiu restaurar a Monarqu
