quinta-feira, março 02, 2006

O Erro de Antero

Da mesma forma que António Damásio anuncia uma falha no pensamento cartesiano como estratégia de marketing editorial, também eu achei que podia apontar um "erro" nos escritos de Antero de Quental para levar os leitores a prestarem atenção a este post.
Nas suas “Causas da decadência dos povos peninsulares…”, Antero aponta três explicações para a crise estrutural de que Portugal não consegue recuperar no século XIX. Segundo o pensador, a nossa decadência devia-se, então, ao Absolutismo do Antigo Regime, à influência asfixiante da Catolicismo da Contra-Reforma e, economicamente, ao facto de a nossa economia se basear na exploração das colónias. Três propostas apresentava Antero para ultrapassarmos esta situação: o pensamento livre e a tolerância religiosa, a ascensão política e económica da classe média e o desenvolvimento da indústria nacional. No século XIX, eram estas, de facto, as três medidas mais avisadas mas as que se implementaram tenuemente no século XX.

Antero não conseguiu prever – e daí o erro que deslealmente lhe apontei – que, no séculos XX e XXI, e apesar da tolerância religiosa, a Igreja Católica continuaria a ter a influência suficiente e o monopólio dos meios estatais que lhe permitiam continuar formatar a mente dos portugueses e, desta forma, a conseguir que o país se mantivesse a sua situação de nação mais atrasada do Ocidente. No Estado Novo, a Igreja foi mesmo o principal Aparelho Ideológico do Estado (cf. Althusser). A ela se deve, em grande parte, o conservadorismo autoritário que ainda hoje domina a sociedade portuguesa. Também não previu Antero que a classe média imporia um sistema capitalista de especulação e de exploração, um sistema individualista que não se revelou caminho para fazer de Portugal um país com mais justiça social, melhor qualidade de vida e uma cidadania mais sã. Não pôde o doutrinador da Geração de 70 antever que a classe média emburguesada e bronca afundaria ainda mais este “reino da estupidez” no lodo da acefalia existencial e cultural e do consumismo vão; nem que esta classe média investisse tanto a tentar recuperar uma hierarquia social, que é cruel para os desfavorecidos e para as minorias e contra a qual ela tinha lutado em 1820.

1 Comments:

Anonymous Margarida Vale de Gato said...

Quanto à Igreja, não sei, mas em relação à classe média opulentada acho que sim. Olha o soneto depois da Comuna de Paris, "Tese e Antítese": "Já não sei o qu vale a nova ideia, / Quando a vejo nas ruas desgrenhada, / Torva no aspecto, à luz da barricada, / Como bacante após lúbrica ceia!"

8:09 da tarde  

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