sexta-feira, abril 14, 2006

A Biblioteca Nacional



O segundo parágrafo do romance Possession, de A.S. Byatt, inicia-se com a seguinte frase: “The London Library was Roland’s favourite place”. Não sei bem o que é isso de “lugar preferido”, mas direi que a Biblioteca Nacional é um dos lugares onde mais gosto de estar e um dos que mais me deslumbra. Não pelo edifício em si, mas pela sensação de calma daquele espaço e pelas iguarias intelectuais que me servem à mesa. É formidável sentarmo-nos nas poltronas da sala de leitura, que, estando no centro da cidade, parece encontrar-se “fora do espaço e do tempo”. Foi aí que, na quarta-feira passada, me deslumbrei na leitura da edição de 1618 da Coronica de los Reis de España, de Jaime Bleda, experiência inolvidável.

Outra coisa me fascina também na BN. É que lá encontro amigos, colegas e conhecidos com quem é excelente conversar e com quem aprendo muito. Isso acontece com o Carlos “antropólogo”, a Margarida, o Paulo, o Agostinho e o Luís Augusto Costa Dias, entre outros. Às vezes encontro lá o Gianlucca, outras o Mário, outras ainda a Carina, quando vem do Algarve, ou a Helena, quando está em Portugal.

Há um último aspecto que me faz amar a Biblioteca Nacional. Cerca de um quarto dos funcionários (estimativa minha) são pessoas que têm algum tipo de deficiência (visual, motora, mental, ou outra) e que aí encontraram um espaço onde podem trabalhar e sentir integrados. Sem piedadezinha nem favor nenhum. Uns são jardineiros, outros trabalham na reprografia, outros ainda directamente com os livros. Aquece-me por dentro esta mobilização de indivíduos a quem são confiadas as tarefas que sabem e podem desempenhar. (Não creio que o sector privado empregaria tantos numa mesma instituição.) Esta vocação humanitária e cívica da BN é uma espécie de cereja no topo do bolo.

4 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Obrigado pela parte que me toca. É verdade que partilho grande parte dos teus sentimentos em relação a essa casa.
Paulo

8:28 da tarde  
Anonymous Margarida Vale de Gato said...

Obrigada também pela minha parte. Só para acrescentar que esses empregados, bem como os outros, são na sua grande maioria de uma simpatia incontrolável, o que é raro encontrar no funcionalismo público.
Ah, e claro, há outra mais-valia democrática na BN, que é o facto de as ditas poltronas, situadas na varanda com vista para árvores, serem o espaço ideal e acessível para os fumadores, mesmo ao lado dos livros, e sem terem de agredir a saúde de outrem. Por outro lado, e enquanto fumadora mas respeitadora, julgo que o espaço do bar devia ser repensado, visto na prática os fumadores estarem pêle-mêle com outros investigadores de hábitos mais saudáveis. De resto, viva a BN.

12:34 da tarde  
Blogger RAA said...

Belo post, que subscrevo integralmente. Infelizmente, tenho andado afastado dela; espero, em breve, aí fazer umas incursões.

10:44 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Apoiado! (aqui pelos vistos pensaste antes de escrever)

4:50 da tarde  

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