domingo, julho 16, 2006

"O Navio de Espelhos", de Mário Cesariny




O Navio de Espelhos


O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

E no mastro espelhado
uma espécie de porta

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ála
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo


Mário Cesariny


(Desenho de Chris Becker intitulado Traveller)

4 Comments:

Anonymous helena said...

o poema é muito belo assim como a imagem.

3:59 da tarde  
Blogger A. said...

...tenho de vir deixar o meu abraço.apenas.sem mais palavras.porque tantas vezes precisamos de um certo dilêncio.
Alexandre...obrigada.
um beijo meu.

11:28 da tarde  
Blogger Alexandre Dias Pinto said...

Fico contente por saber que alguém gostou do poema. Eu acho-o fortíssimo e intenso.

11:49 da tarde  
Blogger Diogo Pestana said...

Boa noite
Para as pessoas entendidas deste assunto, alguém me pode dar uma ajuda na interpretação do poema. Tenho como trabalho fazer uma "novela gráfica" de forma a poder o interpretar. Com lettering e imagens. Se poderem agradecia. diogovareta@hotmail.com Diogo Vareta

1:41 da manhã  

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