quinta-feira, março 06, 2008

O LEGADO DE LARANJEIRA: UM “DRAGÃO DE CEM CABEÇAS”


Até agora, “preferi deixar falar largamente este espírito doloroso. Ouvi-lo é debruçarmo-nos sobre uma das vidas portuguesas mais trágicas do nosso tempo”, tal como dizia Vitorino Nemésio num artigo que dedicou ao autor feirense. Laranjeira faleceu em 1912, mas Nemésio fala em 58 do nosso tempo. Joel Serrão, por seu lado, que larga e compreensivamente trata do nosso autor no notável estudo que fez “Em Torno da Experiência Oitocentista do Tédio”, - diz e sublinho isto: “ Ora a verdade é que, independentemente das filosofias e vivências pessoais, a qualquer mente reflexiva deste nosso agora, que busque situar-se, com a objectividade possível, no nosso tempo histórico se deparará um dragão de cem cabeças que se mostra disposto a devorar-nos a todos, se não soubermos ou pudermos defendermo-nos. É o tedium vitae…” A “experiência oitocentista”, afinal, é do “nosso agora”, do “nosso tempo”. E do sopro do dragão, vem “essa desagregação do psiquismo ocorrida no nosso tempo e revelada, entre tantos outros índices, pela visão picassiana, pelo surrealismo, pela pintura abstracta, pelos romances de Sartre, pelas filosofias do absurdo e do nada…” “Desagregação”, dizia o prof. Joel. E o leitor lembra-se do que tinha dito Laranjeira: “dissolução”.

Tem de facto muitas cabeças o dragão. A monástica acedia; o entejo; a “menencoria” (já tão finamente analisada pelo nosso rei-filósofo D. Duarte no séc. XV); o nojo, o aborrecimento, o romântico tédio, a “inércia” (de que se queixava Antero ao tempo em que destruiu o seu praticamente concluso Programa de Trabalhos Para a Geração Nova) e a náusea existencialista; as prolixas etiquetas médicas – astenia, psicastenia, neurastenia, distimia… E a popular “depressão”, que a Organização Mundial de Saúde prevê como a segunda causa de morte no mundo dentro de vinte anos. Tais e tantas são as cabeças da policéfala avantesma. Entenda-se: no nosso mundo obeso e rico, atolado na abundância e fartura de pão e circo, que as carências dos pobres são de outra ordem.

Do legado de Laranjeira cabe-nos o advertido reconhecimento de algumas feições da hidra. Deixou-nos ele pano para mais que mangas: um inteiro vestido, que temos de vir a provar de quando em vez, a ver se não é camisa de madeira forrada de chumbo. Mas, por agora, não quero entediar mais o leitor desta série sobre tédio e pessimismo. Um só derradeiro aceno para o homem que nos acompanhou.

Era um filho de pedreiro e lavradeira, nascido numa obscura aldeia das terras da Feira. Pobre e filho de pobres, nasceu num país onde era possível aos 30 anos de idade ser médico, com influências, apoios e competências que o motivaram para candidatar-se à direcção da Escola onde se formara; era um intelectual superiormente informado; era um cidadão civicamente empenhado. Tinha bastantes amigos, alguns muito capazes de o compreender e admirar. Era atraente para não poucas mulheres, e não se desaproveitava disso. Tinha uma posição social invejável, e com o triunfo próximo do regime republicano podia ter tido uma não menos invejável posição política, ao menos local. Quando padecimentos físicos sem remédio se vieram somar aos outros, sentindo ele que não podia ser mais útil a ninguém, antes pelo contrário, não teve dúvidas (como havia prevenido há anos) em recorrer sozinho ao que já hoje holandeses, belgas e luxemburgueses têm à legal disposição da vontade assistida.

O leitor reparou: já hoje. E repare também no que Laranjeira dizia: “tenho a impressão de que deveria ter nascido daqui por dois séculos”… Parece então que nos não podemos despedir assim sem mais do “entediado-mor da sua geração” (Joel dixit), antes vamos despedidos ao encontro de alguém que se antecipou e nos espera… “Isto”, continua connosco. Na semana passada, num estudo da SEDES – uma organização informal de gente bem colocada e bem informada, que há mais de 34 anos apresenta estudos periódicos sobre o desenvolvimento social e económico do nosso país – pode ler-se: “sente-se hoje na sociedade portuguesa um mal-estar difuso, que alastra e mina a confiança necessária à coesão social”… Mas não serão apenas assimetrias de rendimentos, défices orçamentais, sobre-endividamentos (há pessoas com mais de 2000 euros de rendimento mensal a recorrerem ao Banco Alimentar contra a Fome)… “Isto”, será outra coisa – “passada na alma de cada um”, como vimos e veremos.

Por falar em hidra, o caro leitor lá verá se tem consigo a hercúlea clava para mantear a besta. Ou se tem força para levar o bordão que Torga aqui lhe deixou no passado 22 de Fevereiro. Não se esqueça também da lanterna de diogénio, para não andar nem bater às cegas. Não são trabalhos novos para uma “geração nova”: são os de sempre.

Agora, se me vem dizer que não pode, que nada disso lhe serve… Veremos se achamos alguma coisa que mais lhe possa servir.

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