sábado, março 01, 2008

Educação, contra-informação e ruído de fundo

A democratização do exercício da cidadania é uma conquista da Terceira República. Trinta e quatro anos após a Primavera de Abril, a democracia e a cidadania em Portugal são ainda adolescentes incautos que não conseguiram ainda chegar à maturidade. Várias manifestações existem deste fenómeno. Aqui, centro-me num. Se é certo que o português sabe agora reivindicar mais e ousa opinar sobre vários assuntos, nem sempre o faz com propriedade informada, com honestidade intelectual e com respeito pela Verdade (quem quer que essa senhora seja). Lembro aqui a frase inglesa que assim reza: "Opinions are like asses: everybody has got one". Os meios de comunicação social contribuem certamente para estas deficiência cívica do povo português; mas não são os únicos responsáveis.

O intróito verborreico serve para analisar as declarações do Presidente da República e de Albino Almeida (presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais - Confap) sobre os protestos dos professores contra as reformas educativas. Ambos decidiram fazer um frete ao Governo. Ponto comum às declarações de ambos: acusar os docentes de estar a criar um clima crispado no ensino que prejudica o ano escolar e o processo educativo dos alunos. Ora, se não há desonestidade nestas palavras, há ignorância irresponsável.

Resumo, de forma bem resumidinha, a minha ideia. Os protestos dos professores, que estão a decorrer em horas não lectivas (após as 18h30 e aos sábados), em nada estão a prejudicar o andamento das aulas nem o aproveitamento dos alunos – nenhum docente leva para as aulas os protestos contra as medidas governamentais. Que desonestidade imbecil daqueles que afirmam o contrário.

O que o auto-proclamado e limitado presidente da Confap não quer compreender é que esta reforma prejudicará a vários níveis os jovens alunos. Explico apenas um desses níveis. A avaliação dos docentes, por ser burocraticamente muito pesada, irá roubar aos docentes tempo precioso para investir no trabalho escolar: preparação de aulas, inovação didáctica e envolvimento em actividades extracurriculares. Também esta é uma reforma que desencoraja os docentes a investir na sua formação, ou seja, a se tornarem melhores professores. Por fim, esta reforma não contribui para um melhor ensino porque pressiona os docentes para não serem exigentes com os seus alunos. Tudo está feito para promover a permissividade avaliativa: o regime de faltas será ilusório, a aprovação dos alunos revelar-se-á quase automática e a ideia será completar a escolaridade secundária sem trabalho nem esforço, a bem das sacrossantas estatísticas.

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