sexta-feira, julho 18, 2008

UM REGRESSO ÀS CAVERNAS
















Deixámos no anterior o polido e educado gentleman Henry Fielding, recém chegado a Lisboa em Agosto de 1754, a comer “uma boa ceia numa espécie de café muito aprazivelmente situado no cume de um monte” e a “desfrutar uma excelente vista do rio Tejo, desde a cidade até ao mar”. O inglês era um bom garfo, apreciador da boa mesa e do bom convívio à volta dela. Só por isto merecia que o trouxéssemos aqui à boca do Tonel. E esse desfrute terá suavizado por uns momentos a doença que o afligia, e afastado então os “pensamentos inquietantes” que ainda nos afligem agora. Infelizmente, ficámos os portugueses privados da continuação do Diário deste viajante instruído e observador minucioso, o seu tanto prolixo: dois meses depois, os padecimentos agravaram-se, faleceu e na nossa terra ficou sepultado. Pensamos, melancolicamente, na cópia de preciosas notícias que sobre nós podia ter deixado. O general francês Dumouriez, o grande estratego militar dos exércitos revolucionários franceses antes de Napoleão, que também esteve entre nós, considerava os ingleses “os mais penetrantes observadores da humanidade”. Não sem razão. O nosso Fielding, ainda antes de desembarcar do navio que o trouxe, nos primeiros portugueses que viu, funcionários públicos, não lhe escapou logo, em uns o zelo, noutros a balda para a corrupção, em todos o serem… mal pagos. Teríamos de esperar uns vinte anos por William Beckford, e mais outros tantos por Robert Southey, para termos entre nós alguns comparáveis a Fielding. E, no caso de Southey, espero em breve possamos aqui saudar na pessoa do nosso Alexandre Pinto a prova inédita e definitiva de que foi um dos mais apaixonados lusófilos.

Mas já é tempo de irmos às cavernas, como prometido. Quem está de embarque é um da raça dos “mais penetrantes observadores”: um polido e educado scholar, ensaísta e colunista dum prestigiado jornal britânico, Timothy Garton Ash; o cais não é de navios mas a aerogare dum destes mega-aeroportos internacionais que temos nestas partes ricas do mundo, passadeiras de negócios e turismos globalizados. O ano é 2005 e o furacão Katrina acabara de afogar Nova Orleães e trazer à tona de água não apenas a multidão dos cadáveres como também a multidão dos saqueadores, violadores e assassinos. Para Ash, a “descivilização” da humanidade seria uma ameaça muito mais iminente e premente do que a “guerra das civilizações”, de Huntington: « a civilização em que vivemos é protegida por uma camada extremamente fina; basta um pequeno rasgo e ela estala, passando cada um a lutar furiosa e instintivamente pela vida como cães selvagens.» E a nossa economista e jornalista Graça Franco, que o leu directamente, no-lo resume assim: « Para Ash, o homem dito civilizado permanece vulnerável a transformar-se no velho hominídeo, não apenas em situações de enorme catástrofe natural. A catástrofe pode dever-se ao homem, como nos tempos do Holocausto, ou mais recentemente na Bósnia. Aliás, ao mais pequeno factor desencadeado pelo stress teríamos já sinais preocupantes do risco de regresso à barbárie. A simples perda de um voo num aeroporto internacional, exemplificava ele, seria suficiente para vermos um bando de elegantíssimos e civilizadíssimos homens de negócios, formados pelas melhores escola de gestão mundiais, transformados numa espécie de macacos sem princípios nem compostura.» O irresistível “factor banana” parece especialmente perigoso: a horda dos “macacos formados em Oxford” a correr, a atropelar-se, a agredir-se na desvairada disputa dum bilhete para um voo alternativo, aterrados com a perspectiva de passarem uma noite incómoda e promíscua no chão do aeroporto. Parece que o inglês exemplificou com a experiência própria. Espero eu que o violento ataque de stress “descivivilizador”, que num pronto o despoliu e deseducou, não tenha levado o seu médico a recomendar-lhe (como a Fielding) alguma viagem a Lisboa. No presente estado caótico da nossa capital, o factor-banana é muito mais letal: basta o mínimo gesto equívoco ou sinal mais impaciente de algum, e logo vemos os desvairados automobilistas a saltarem dos carros para se atacarem a tiro ou à marretada. Apanhado no meio disto, teríamos na certa de lamentar mais um eminente escritor inglês falecido entre nós.


O paciente leitor do nosso postal anterior já terá notado as semelhanças e diferenças: as “criaturas selvagens” e os “seres brutos”, de Fielding são agora os “cães selvagens” e “macacos” de Ash, as mesma pobres espécies do género moral do “bode expiatório”; sem esquecer o inevitável “hominídeo” cavernoso, que o nosso polimento cultural e científico projecta das íntimas cavernas psicológicas para outras distantes no espaço e no tempo. E onde estão os “demónios”, de Fielding? Pois digo-lhe que Ash ainda fala de “anjos”. São “anjos temporários”, a socorrer e a proteger os mais fracos e necessitados; mas que, presume-se, no abismo aberto desse estado hiper-hobbesiano de catástrofe natural e de extermínio recíproco, são anjos que não demorariam a cair…



[ Não caia o leitor turista, interessado e seduzido pelas fotografias, em viajar até ao Ocean Dome de Miyasaki, Japão. Parece que encerrou há uns meses atrás. Terão descoberto que tinham praias e o mar oceano ali… umas centenas de metros ao lado.]

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