quinta-feira, maio 13, 2010

AVÉ MARIA


- “Avé, Maria!” – Esvoaça
Alto pronúncio em redor :
É a viração que passa ?
Ou são as asas e a graça
De algum Anjo do Senhor ?

Inda há instantes subi,
Desci montes, devagar,
Como se tudo o que vi
O trouxesse, aqui e ali,
Acarretado no olhar.

Sobe o fumo dos casais
Nas várzeas silenciosas
Ou por entre os pinheirais;
Voltam pombas aos pombais;
Cheira a fruta, cheira a rosas.

Quais joelhos de oiro fino
Dobrando, na argêntea luz,
As badaladas dum sino
Chamam ao Nome divino,
Lembram a Mãe de Jesus.

- “Avé, Maria!” – Esvoaça
Não sei que vulto, em redor :
Será a luz ? ou a cor ?
Tal como outrora, é a graça,
São os Anjos do Senhor.

- Avé, Maria!” – E reboa
Esta palavra bendita,
Já nos céus por Deus escrita
Antes de haver, em pessoa,
Quem sobre o mundo a repita.

Às Vidas Celestiais
Não se atribui escultura :
Apenas acidentais
Humanas formas, se mais
Teatro vivo as procura.

Inda assim, talvez me atreva
A pensar que foi Maria
Quem o Senhor antevia
Quando trouxe o corpo de Eva
À graça da luz do dia.

E qundo, - oh terra florida ! –
Maria andou em mulher,
Quão formosa e parecida,
Embora tão outra em vida,
Com Eva devia ser !

De Adão a Adão (cruz a inteiro
Arrastada mundo além)
Tudo foi por nosso bem...
Teve mulher o primeiro,
Para o Segundo ter Mãe.

(...)

Mãezinha dos Céus, Rainha,
Ó primeira criatura
Que Deus (olhando ao que vinha...)
Havia jurado e tinha
Tão venerada na Altura :

Sem heresia à verdade,
Cego de amor a quem és,
Já cismei alguma vez :
- “E não poder a Trindade
Alargar-se aquém dos Três!”

O Filho, é Deus coeterno,
De si mesmo em geração;
À Virgem, de outra feição
Deus a formou ao mais terno
Aceno da Criação :

Donde se vê e pondera
(Qual ao Mistério convém)
Que o filho o Filho já era
Antes de haver quem houvera
De vir a ser sua Mãe.



António Corrêa d’Oliveira (1879-1960), in Elogio da Monarquia, 1944.

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