domingo, abril 25, 2010

Onde perdemos nós Abril?


Gosto de usar o nome do mês de Abril - simplesmente a palavra"Abril" - para me referir à Revolução dos Cravos e ao Portugal que dela emergiu. Não sou o único a fazê-lo, mas para mim a associação entre o mês em que a Primavera ganha força e a ideia de que Portugal pode regenerar-se é uma espécie de casamento poético que me diz muito. A data e o que ela representa continuam a ter um profundo significado e continuam a ser um mote de esperança.

Contudo, este não é o Abril que eu sonhava. Se nos dias que se seguiram à revolução se acreditou que tudo era possível e que o Homem Novo seria mais solidário, menos materialista, menos individualista, este mês de Abril tem sido, ano após ano, uma manhã de nevoeiro em que a transformação social não se opera e em que a mentalidade dos homens não muda. Se houve um Portugal de Abril, no ano de 74, parece que esse é um país imaginário e idealizado, com outra gente e outros costumes. Ao ver documentários e ao ler testemunhos sobre os anos quentes do PREC, fica-nos a impressão (provavelmente errada) que dominava um outro espírito, uma outra crença, entre as pessoas. E essa gente parecia ser outra. Mas, estranhamente, foi esse mesmo povo português aquele que agora revela o seu fascínio pelo consumismo, o seu vazio intelectual, o seu burguesismo, a sua falta de civismo e de consideração pelo outros, o seu egoísmo.

Onde, neste percurso de trinta e seis anos, perdemos nós Abril?

3 Comments:

Blogger Pedro Isidoro said...

«...fica-nos a impressão (provavelmente errada) que dominava um outro espírito, uma outra crença, entre as pessoas.»

Caro Alexandre:

Se confiro as suas com as minhas próprias impressões e vivências desses dias maravilhosos (em particular a semana de 25 a 1 de Maio), diria antes que é provadamente certa.

Esse é o mesmo espírito e essa é a mesma gente que, ainda não há muito, em 2002,se mobilizou para apoiar e dar um empurrão talvez decisivo (junto à embaixada dos EUA) para a libertação de Timor Leste.

O problema de fundo é sempre o mesmo: esperar uma "regeneraçãO" do homem do lado de onde ela pode eventualmente ser ajudada, mas não plenamente estabelecida: do lado da Política.

Não esqueça que, na cultura ocidental (e universal), o primeiro a falar (literalemnte) num "homem novo" foi S. Paulo...

10:56 da manhã  
Blogger Pedro Isidoro said...

Este comentário foi removido pelo autor.

10:56 da manhã  
Blogger Pedro Isidoro said...

Correcção:

As enormes manifestações cívicas de Lisboa foram em Setembro de 1999, quando as milícias pró-indonésias empreendiam novo massacre na sequência dos resultados que lhes foram desfavoráveis no referendo promovido pelas Nações Unidas no mês anterior.

Confundi com o ano da independência de Timor.

12:23 da manhã  

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