domingo, abril 04, 2010

CHRISTUS TRIUMPHANS


Porque buscas o Vivente entre os mortos ?
Não está aqui: ressuscitou!
Lc 24, 5

« A epístola da missa da Páscoa faz ressoar cada ano aos nossos ouvidos o convite que o Espírito Santo dirige a todos os cristãos pela boca de Paulo: “ Portanto, já que fostes ressuscitados com Cristo, procurai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus " ( Aos Colossences, 3, 1). Esta pequena frase contém a mais extraordinária das afirmações. Significa, com efeito, que não só Cristo ressuscitou e que ressuscitaremos um dia com Ele, mas que já ressuscitámos com Ele pelo Baptismo. Nesta afirmação está contido todo o mistério da existência cristã. Aparentemente, nada mudou na condição humana. Contudo, a ressurreição de Cristo já realizou a sua operação transfiguradora no mundo secreto das almas, de modo que o cristão já não espera senão a manifestação daquilo que substancialmente já se realizou n’Ele. S. Paulo, com efeito, continua: “ A vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, vossa vida se manifestar, então também vós aparecereis com Ele em glória ”.

Perguntámo-nos, primeiramente, o que significa a própria palavra “ressurreição”. (...)
Trata-se, não dum simples regresso à vida mortal, mas da passagem da condição mortal, que é a condição natural, a uma condição imortal, transcendente a toda a vida natural, porque é uma misteriosa participação na vida de Deus. Esta imortalidade não consiste na imortalidade filosófica, que é a persistência da alma na existência. Esta persistência pode ser uma morte espiritual. É antes a vivificação dum ser mortal pelas energias divinas que lhe comunicam uma incorruptibilidade sobrenatural e o elevam acima da condição mortal.

O mistério cristão da ressurreição consiste precisamente nisto. Por si mesma, a natureza humana está orientada para a morte, como tudo aquilo que pertence à biosfera da qual faz parte, devido ao seu corpo animal. Mas o verbo de Deus, que desde o princípio tinha chamado a natureza human à imortalidade, introduzindo-a no paraíso e destinando-a a alimentar-se do fruto da árvore da vida, vem restabelecer esta natureza que o pecado de Adão tinha reduzido à condição mortal. Pela Sua ressurreição, Cristo comunica-lhe uma vida incorruptível, que é a Sua. Pela Sua ascensão exalta-a à direita do Pai. E a Sua humanidade glorificada torna-se o princípio de ressurreição para todo o homem que nela é enxertado pelo baptismo.

A ressurreição significa, portanto, a elevação da humanidade acima de si, ao mundo inacessível de Deus. Ela é a Boa Nova por excelência, o maravilhoso destino ao qual o amor do Pai chamou a humanidade no seu Filho único, pelo dom do Espírito. Ela é essa inaudita aventura pela qual esse seres de carne e sangue, que somos nós, tão próximos do mundo animal, são mergulhados no fogo depurador da vida trinitária, que destrói tudo o que é mortal e comunica a incorruptibilidade: “ a fim de que tudo o que é mortal seja absorvido pela vida” ( 2ª Aos Coríntios, 5, 4). Isto só é possível devido ao gesto de Deus que, em Cristo, desce à nossa natureza mortal e, assumindo-a, a eleva às alturas, para a conduzir às profundidades do Pai, “onde Cristo está sentado à direita de Deus”.
(...)
Esta força da ressurreição de Cristo atinge a totalidade do homem. Atingirá, um dia, os nossos corpos adormecidos na morte, quando a centelha do Seu fogo se lhes pegar; levantá-los-á de novo e vivificá-los-á com uma vida que não será apenas a da carne e do sangue, mas a do Espírito incorruptível, que comunicará aos nossos corpos mortais a Sua incorruptibilidade. Mas ela atinge, desde já, as nossas almas mortas – mortas pelo pecado que nos privava da vida de Deus; toca as nossas almas mortas e suscita nelas a vida do Espírito Santo, que converte as nossas inteligências e os nosso corações, os fortifica, os vivifica e os torna capazes de conhecer a amar as coisas divinas, por uma misteriosa participação no conhecimento e no amor com que Deus ama e Se conhece a Si próprio. »

Jean Daniélou, A Ressurreição, trad. port. de Pedrosa Ferreira, Porto, 1971.

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