quinta-feira, julho 12, 2007

Foice em seara alheia

Ando, neste momento, a ler a tradução brasileira da Cartuxa de Parma do famoso Estendal. Nada de mais dirá o leitor! É verdade, com as mãos no coração confesso que tal facto não seria surpreendente e, por esse motivo, não havia razão de entediar os meus oito leitores com literatura transpirenaica.
Porém, digo à puridade que a questão não está propriamente na obra de Henri Beyle, conquanto a ache consideravelmente inferior ao Vermelho e Negro, mas na introdução e profusas notas que acompanham a edição da autoria de Henri Martineau. Eu sei que esta não é a minha área e existe nesta barrica gente mais qualificada que eu para sustentar as críticas (se elas eventualmente tiverem provimento), não é verdade, Alexandre?
Talvez, por outro lado, seja uma atenuante o comentário ser dos anos 50 (a edição brasileira é de 1961). Contudo, a despeito de tudo, informarem-nos que a rua Angulini se chama agora Garibaldi (nem todos os nomes citados correspondem fielmente à obra), que o palácio Finazzi não é em Parma mas em Bolonha, que o trajecto descrito não poderia ser feito no tempo referido, que a descrição dos edifícios, ruas e monumentos corresponde fielmente à realidade, que de Parma a Sacca, ou de Lecce a Como pois tem de se ir pelo lago à volta, é impossível ir de cavalo em menos de 15 minutos (nem com o Pégaso?), que a condessa Pietranera é o retrato fiel duma obscura amante italiana de Beyle e outras merdices do género, obliterando a chauvinice típica dos franceses que a obra aborda e as notas reforçam de modo enfadonho, parecem-me ser coisa de “lana caprina”.
De facto, que interesse tem o facto de Camilo, num pequeno conto, que não me ocorre o título neste momento, tenha chamado António, Joaquim e Pedro ao mesmo personagem em questão de uma dúzia de páginas, ou ao facto de Dostoievsky, no seu romance O Adolescente, cujas duas partes escreveu com anos de intervalo, chamar a uma das personagens principais, na primeira parte Mascha e na segunda Sveta (Mariazinha e Luz em vernáculo), qualquer desses factos diminui o valor da obra de arte?
Porém, oiço já a objecção típica: então, porque as lês? Por duas razões, sendo estas numa média de 2 por página, espero sempre que alguma me venha a esclarecer coisas importantes do romance (estatística: 5% cumprem este objectivo) e, segundo motivo, porque sendo notas de rodapé dificilmente se podem ignorar, se as notas se encontrassem no final do romance teria eu poupado forças a escrever isto e o leitor teria economizado tempo a lê-lo.

4 Comments:

Blogger Alexandre Dias Pinto said...

Caro Z.

Achei o seu texto muitíssimo interessante. Como o meu caro amigo, eu também presto muita atenção às notas de rodapé, ora me irritando ora me deliciando com elas. Normalmente não as perco e algumas são umas pérolas.

Lembro-me de um livro intitulado "The footnote", de Anthony Grafton, que muito me agradou e me explicou sobre a arte de uma nota bem escrita.

Um outro livro (melhor dito, uma outra edição) em que a nota é celebrada e se torna uma parte fundamental da obra é o famoso, 'The annotated Alice'. Trata-se de uma edição híper-anotada da 'Alice no país das maravilhas' e de 'Do outro lado do espelho'. Muitíssimo interessante.

(A propósito, saiu uma nova edição da 'Alice' da Relógio d'Água: encadernada, bonita e com tradução da nossa amiga Margarida [Vale de Gato].)

Não compreendo essa da foice em seara alheia. Então a literatura não é território de todos nós?

Por outro lado, o seu trocadilho com o Estendal recordou-me saudosamente a idêntica piada que uma certa flor transalpina fazia para me irritar quando eu tinha os meus 19 anos e andava a ler o 'Vermelho e o Negro'.

9:31 da manhã  
Blogger Xor Z said...

Caro Alexandre
A literatura talvez, mas eu referia-me à questão das edições anotadas em literatura e se seria norma notas deste género, eu penso, humildemente, que não e estava a espera que me dissese algo enquanto especialista. O livro que fala sobre as notas de rodapé deve ser interessante, tenho que pedir, um dia destes, que mo empreste. A dona edelweiss também nomeava o escritor assim? Eu tenho de confessar que por qualquer razão que não sei explicar sempre li o nome assim - Estendal, a maior parte das vezes com uma associação particular à roupa.

12:23 da manhã  
Blogger Woman Once a Bird said...

Sobre os meus hábitos falo: mesmo quando as notas surgem no final do livro, não resisto a conferi-las, o que torna a leitura um processo doloroso permanentemente interrompido pelo virar de páginas. Tem razão, maioritariamente não esclarecem sobremaneira sobre o que se lê. Abro excepção para as traduções de Derrida, realizadas por Fernanda Bernardo: as notas são excessivas. Texto no interior do texto, transbordantes, mas absolutamente indispensáveis.

Maior impressão me fez saber que lê uma tradução brasileira. Sou absolutamente tendenciosa: detesto ler traduções brasileiras. Faço um esforço, mas é sempre a contragosto que termino. Alguns, confesso, abandono indecentemente à estante.

9:47 da tarde  
Blogger Xor Z said...

Cara WOB, as traduções brasileiras que leio foram, por sinal, uma espécie de herança e que contemplam alguns livros que nunca tinha lido, como é o caso da Cartuxa, dos contos e romances de Voltaire, que citei um excerto aqui atrasado, etc. Na verdade, as traduções brasileiras não me chateiam se exceptuarmos alguns termos esquisitos para nós como súdito, indenização ou outros no género em que eles subtraem letras que nós lemos. Quanto às notas no fim do livro são uma chatice e, muitas vezes, leio-as de carreirinha. Em muitos livros as anotações são preciosas, mas no caso da Cartuxa a maior parte é uma perda de tempo e o que mais me chateia é que muitas vezes nos quebra a leitura do romance e nos interrompe o prazer, daí o meu "lamento".
Cumprimentos

3:42 da tarde  

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