quinta-feira, janeiro 24, 2008

O "PESSIMISMO NACIONAL" ( 4 ) : TERAPÊUTICA


No seu último artigo de Janeiro de 1908 para O Norte, assere Manuel Laranjeira que “o nosso pessimismo quer dizer apenas isto: que em Portugal existe um povo em que há, devorada por uma polilha parasitária e dirigente, uma maioria que sofre porque a não educam, e uma minoria que sofre porque a maioria não é educada.”

Ainda se não provou que a “raça portuguesa” é “incapaz de adaptar-se à vida moderna”: Ora, “educar é adaptar”. Portanto, sublinho eu, “submeta-se [sic] este desgraçado povo, criminosamente desprezado e levianamente caluniado, à prova decisiva: eduquem-no, intensivamente, tenazmente, sem desfalecimento, e vê-lo-ão florescer e progredir como os povos cheios de saúde. (…) Pois que queriam que fizesse um povo que nem sequer sabe ler? (…) Ninguém lhe ensinou os seus direitos e os seus deveres. Ele dos direitos do Homem tem apenas a noção secular, tradicional – obedecer. Os seus direitos de cidadão livre? Mas como querem que ele os defenda, se nem sequer sabe que eles existem?...”

Para Laranjeira, “é preciso avançar desde o princípio”; “é preciso refazer tudo, refundir a sociedade portuguesa de baixo a cima, incansavelmente…”; é preciso recuperar o tempo perdido desde 1820, quando nos chegara “a rajada transformadora de redenção humana” que nos “soprou de França” o “espírito novo (que) demolia as velhas sociedades” e “inaugurar a era dos Direitos do Homem.” Teria sido preciso desde esse ano “reconstituir desde os alicerces sociedades novas”, mas, em vez disso, “a polilha daninha e parasitária começara a sua obra de devastação.” Por isso, “contar a história da enfermidade nacional seria contar a história do nosso constitucionalismo.”

A “Educação”… Tal a terapêutica do nosso médico, que o leitor paciente já teria adivinhado, de ouvir a tantos, antes e depois de Laranjeira, invocar essa musa. Escrevia o médico republicano num diário republicano a menos de três semanas do Regicídio que poria termo aos “dias terríveis” da ditadura franquista. Dois anos depois seria a vez de outra “quadrilha messiânica”, a qual se propunha “republicanizar o país”, nas palavras de um dos seus mais renomados pedagogos: João de Barros. E meteram mãos à obra logo dez dias depois da revolução do 5 de Outubro de 1910, não sem a 8 começarem por proibir o ensino público aos membros das “associações religiosas”. No dia 15, saía um decreto do Governo provisório a nomear uma comissão para elaborar um projecto de regulamento para a “instrução militar preparatória” das crianças, a partir dos 7 anos de idade, onde se dizia: “convém incentivar e radicar nos ânimos o espírito militar desde a primeira adolescência”… Desta comissão fazia parte o mesmo João de Barros. Grande novidade revolucionária? Era a reposição dos “batalhões escolares” que tinham sido criados por iniciativa do ministro Elias Garcia em 1881, para as crianças da instrução primária, as quais, na véspera de Natal de 82, tinham garbosamente desfilado no Arsenal de Marinha, fardadas e de espingarda ao ombro…

O leitor lembra-se:”começar de baixo a cima”… “refazer tudo”… E o “desgraçado povo” tinha de “submeter-se”…



[ Na imagem La Muse au Lever du Soleil, de Alphonse Osbert (1857-1939) ]


2 Comments:

Blogger Alexandre Dias Pinto said...

Esta série sobre Laranjeira e o pessimismo nacional resultou num excelente, embora inquietante, conjunto. Face à crise sócio-político-económico-mental que o país atravessava, apontou Laranjeira a educação como a solução final. A mestria deste postal reside, tristemente, no desencanto do seu desfecho: se a educação era a solução apontada pelos republicanos, as medidas avançadas foram insuficientes e, pelo menso algumas, insatisfatórias.

Os agentes da pedagogia contemporâneos continuam a acreditar na mesma panaceia universal para a crise que a Humanidade atravessa. Que paralelo há, pois, entre a política educativa do regime republicano de há um século atrás e as medidas ministeriais do presente? Leio nas entrelinhas que o autor do postal nos quer mostrar que este governo que se diz enamorado pela educação pratica uma política educativa que enferma pelo mesmo mal do exemplo republicano aqui descrito: palavras apelativas e acções contraproducentes.

11:05 da tarde  
Blogger Pedro Isidoro said...

Contos largos, meu caro Alexandre, contos largos... Havemos de voltar a esta fantasmática e pálida musa a olhar os "amanhãs que cantam"...

11:25 da tarde  

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