sexta-feira, janeiro 04, 2008

Glossário

Continuando na minha egocêntrica produção de pilhar textos aqui e ali reproduzo, nesta ocasião, um texto ou glossário que já conta uns anitos, mas, ao contrário dos seus irmãos, não atingiu ainda a vetusta duração de 200 anos. Neste caso, imagino que nem o Pedro consiga determinar a sua origem e, se fosse um indivíduo abastado, atribuiria ainda um prémio para o decifrador da sua origem (como vêem, agora, mudei das campanhas para atribuir prémios para a sua verdadeira concreção). Isto já vai mais longo que eu algum dia suporia. It missa est.
Abstinência – só os abstémios pensam que beber é bom; Alavanca – não há pior alavanca do que a que não move nada; Anões – os anões têm uma espécie de sexto sentido que lhes permite reconhecerem-se à primeira vista; Contradição (Princípio da) – se não fosse pela contradição os contrários deixariam, por assim dizer, de existir, e diga-se de passagem, de se contradizerem; Contradictio in Adjecto – a Sinfonia Incompleta é a obra mais acabada de Schubert; Cristianismo e Igreja – as ideias que Cristo nos legou são tão boas que houve necessidade de criar toda a organização da Igreja para combatê-las; Escritor nasce, é ou faz-se? – digam o que disserem, o escritor nasce, não se faz. Pode acontecer que, finalmente, alguns nunca morram; mas desde a Antiguidade é raro encontrar algum que não tenha nascido; Fragmentos (1) – um fragmento é às vezes mais pensamento que todo um livro moderno. No seu afã de sintetizar, a Antiguidade chegou a cultivar muito o fragmento. O autor antigo que melhores fragmentos escreveu, fosse por disciplina ou porque assim o decidiu, foi Heraclito. Consta que todas as noites, antes de se deitar, escrevia o correspondente a essa noite. Alguns eram tão pequenos que se perderam; Guerra –se não fosse a Segunda Guerra Mundial, os aliados jamais teriam sonhado ganhá-la; Heraclitiana – quando o rio é lento e temos uma boa bicicleta ou cavalo, sim, é possível tomar banho duas vezes (e até três, de acordo com as necessidades higiénicas de cada um) no mesmo rio; História e Pré-História – Antes da História pode dizer-se que tudo era pré-história; Inteligência – a inteligência comete asneiras que só a asneira pode corrigir; O Artista e o seu tempo – quem nos diz que os bisontes das Grutas de Altamira não foram pintados por homens do seu tempo? O Heraldo, “Deve o artista pertencer ao seu tempo e vice-versa?” (esta vai com a respectiva referência, de outra forma não tem piada); Plágio – uma fatalidade. É uma coisa detestável mas às vezes deve aceitar-se, pois apesar do grande número de ideias que Platão nos legou, a Natureza é tão injusta que a muitos homens (e mulheres) não lhes coube ideia alguma e, assim, têm de recorrer às alheias para transmitir as suas ideias, geralmente, espúrias se não concordam com as nossas, se é também que a nós nos coube alguma; Universo – há poucas coisas como o Universo!
Ficou um pouco quilométrico, como os do Alexandre no tempo da cafeína, o que quer dizer que dos meus oito leitores só quatro vão ler até ao fim. Se foi esse o seu caso, deixe-me congratulá-lo.

2 Comments:

Blogger Pedro Isidoro said...

Caro Xor Z:

Trata-se do guatemalteco Augusto Monterroso, popularmente: Tito Monterroso. Certo? Se está, dê-se por satisfeito de não ser abastado.

Quando falou em textos quilométricos, se não era uma crítica aos meus (pelo interposto amigo, que a pagou), pareceu-me que estaria a dar-nos alguma pista. No caso, para o escritor que na entrevista fala com apreço do lado aforístico grego e que é famoso pela brevidade dos seus contos.

11:14 da tarde  
Blogger Xor Z said...

Pois é mesmo! O quilométrico tem a ver com o autor, conhecido por... (você já disse). Ainda bem que não sou abastado!

2:06 da manhã  

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