quinta-feira, fevereiro 21, 2008

UM MÉDICO ENFERMO


“Eu creio que sim, que isto se pode salvar ainda, embora este meu acto de fé represente apenas (…) a última ilusão, a mais vivaz e menos destrutível das ilusões – a ilusão da imortalidade.” Era o que escrevia Manuel Laranjeira no segundo dos artigos para O Norte. “Isto”, como temos visto, há cem anos como hoje, era o estado social, político e mental português. Meses depois, a 9 de Agosto de 1908, encontra em Espinho um homem com “hambre de inmortalidad”: o basco Miguel de Unamuno. E desde 10 até ao 17 não se fala no Diário Íntimo do nosso português de mais nada nem de ninguém senão da sorte que coube a ele e não ao nosso Diógenes em Atenas: “o prazer de encontrar um homem – digo: um homem – através desta vida ordinária e triste”.

A 28 de Outubro desse 1908 escrevia o escritor feirense ao professor de Salamanca: “Há meses ainda, quando Portugal atravessava os dias terríveis da ditadura franquista, eu cria que íamos ressurgir. Nessa ocasião publiquei uns artigos fervorosos de optimismo e crença. Hoje, porém, há uma tranquilidade podre que me assusta deveras. Não falta mesmo por aí que isto não é já um povo, mas sim – o cadáver dum povo.” É a célebre carta que Unamuno traduziu no artigo intitulado "Un Pueblo Suicida", depois inserido no volume Por Terras de Portugal y España. E continua o nosso: “acerca dos males da minha terra não falo como médico, falo como enfermo. (…) E, como acontece a quasi todos os enfermos o meu espírito tem intercadências de abatimento e entusiasmo, de fé e desânimo, de crença e desesperança.”

Os artigos de “fervoroso optimismo” eram os publicados no Norte, como médico. Agora, diz o enfermo: “Crer! Em Portugal, a única crença ainda digna de respeito é a crença – na morte libertadora.” Já numa entrada do Diário, de 19 de Fevereiro deste mesmo 908, apenas um mês depois de terminados os citados artigos, ele dizia: “Creio que isto é uma raça perdida. Começo a crer que a nossa decadência degenerativa é manifesta. Não se trata apenas da desagregação da alma colectiva, trata-se duma dissolução mais funda, mais íntima, passada na alma de cada um.” O leitor de 2008, que eu não quero assustar com a “tranquilidade podre”, permita-me a ênfase e o eco: passada na alma de cada um.

Mas, “apesar disso, ainda há em Portugal muita nobreza moral…” A suficiente para este amigo de João de Barros (que precisamente em 1908 publicava A Escola e o Futuro) e de João de Deus Ramos intervir publicamente na Liga da Educação Nacional, candidatar-se à direcção da Escola Médico-Cirúrgica portuense na esperança de reformar o ensino médico; e nos jornais, em conferência e congressos bater-se pelo grande ideal republicano da reforma da educação e das mentalidades. Para o exterior, lutava contra “a herança trágica, secular duma ignorância podre e duma corrupção criminosa”. Para si próprio, lutava contra a “psicastenia”, os “nervos doentes”, o “aborrecimento mortal da vida”, os progressos da sífilis e da tuberculose. Como dizia ao seu amigo Amadeu de Sousa Cardoso: “E a prova de que não sou um homem morto nem sequer falido é que me insurjo.” Comprova-o Unamuno: “En él, como en Antero, la cabeza y el corazón riñeron recia batalla.” Batalha desigual, porém: “Eu sou um filho deste século, deste século de tristeza, de ansiedades impossíveis de satisfazer, - de tédio, em suma. O espírito do homem contemporâneo voou muito alto, a uma altura que o coração humano não pôde atingir. O resultado é o homem pedir (exigir – é o que é) à vida coisas que ela não pode dar.”

O resultado é que também lembramos as derradeiras palavras do postal anterior: “É a engrenagem da vida que está mal montada”…

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