quinta-feira, fevereiro 14, 2008

UM (NORMAL) PESSIMISMO NÃO NACIONAL ?


O denunciante polémico das “podridões” da Escola Médico-Cirúrgica portuense, o médico que nela se licenciara com uma elogiada tese sobre A Doença da Santidade (a experiência mística como uma forma de patologia), havia publicado uma série de seis artigos no Porto Médico, entre 1905-1906, sobre aquela terrible verdad que descubrio el Buda. Sob o título geral “O Nirvana. Interpretação Psicopatológica dum Dogma”, Manuel Laranjeira discorda que o budismo possa ser interpretado como um “sistema especulativo integralmente pessimista”; e explica o erro e a voga de que ele vinha gozando na Europa culta da época: “porque a Europa atravessa precisamente neste momento uma intensíssima crise de pessimismo”. Acrescentava logo depois: “A vida social europeia de há cem anos para cá vai atravessando uma crise afectiva, que define os grandes períodos de transição. Desaba um mundo e um mundo germina. A humanidade, como espécie em plena evolução ainda, ensaia uma nova adaptação. Adaptação penosa, adquirida a custo através duma luta impiedosa, feroz. Há um mal-estar geral, vago, como a das crises de adolescência. O homem esboça um novo homem. O sentido evolutivo da humanidade, aquilo que os poetas chamam o sentido da vida, parece enigmático e há uma inquietação indefinível pelo futuro. (…) Essa dificuldade adaptativa, essa desarmonia entre o homem e o mundo que o cerca, traduz-se por um síndrome colectivo: é pessimismo, é a tristeza contemporânea, é o tédio dos tempos.”

Esta “intensíssima crise de pessimismo” europeia já lembrou ao leitor aqueloutra “crise sobreaguda” do pessimismo português. E voltamos também à diagnose inicial: dificuldades de adaptação evolutiva não podem confundir-se com degenerescência, embora eventualmente possam sintomatizá-la. Mas não necessariamente. “Para que ele [o pessimismo] representasse degenerescência colectiva, seria preciso que, como no degenerado, ele correspondesse a uma absoluta inadaptabilidade da espécie, o que seria duma demonstração duvidosa. A espécie humana, como o homem normal, tem um fundo de resistência, um coeficiente de variabilidade, uma capacidade adaptativa, que não existe no degenerado.”

Contra a “corrente (sustentada principalmente por psicólogos e psiquiatras) que dá ao pessimismo contemporâneo uma interpretação psicopatológica e lhe explica a etiologia e a patogénese pela degenerescência”, o médico Manuel Laranjeira opõe o que, em carta ao amigo Amadeu de Sousa Cardoso, chama “o evangelho dos homens de hoje” – a “biologia”. É um evangelho optimista: “O pessimismo contemporâneo significa apenas que o homem evolui, que no seio da espécie se está operando uma revolução lenta e fecunda, uma melhor adaptação em suma.”

Moderadamente optimista, aliás, porque a possibilidade, também ela biológica, de uma “degenerescência”, não pode ficar a priori excluída. Foi mesmo prevista uma enigmática modalidade suicida, como vimos no postal anterior. Não faltam, com efeito, motivos de estranheza. O último artigo desta “Boa Nova” anunciada no Porto Médico é de Julho de 1906. Três meses depois, a 27 de Outubro, em carta ao mesmo Sousa Cardoso, temos esta afirmação terminante: “Eu não aceito a vida.” E poucos dias após, em nova carta ao mesmo: “A vida é que está mal regulada (…). É a engrenagem da vida que está mal montada, amigo. Não é minha a culpa.”

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