quarta-feira, abril 09, 2008

LA LYS




« 24 de Dezembro de 1914. Véspera de Natal. Frio. O termómetro da nossa janela marca zero.» Não achou mais neste dia que falar senão só do tempo o nosso ministro em Paris, João Chagas. Figura das mais gradas e prestigiadas do novel regime republicano, em que já fora ( e voltaria a ser) efémero primeiro-ministro, a prosa habitualmente minuciosa e estirada do Diário ficou a documentar um dos políticos que, desde a primeira hora, mais se bateram pela nossa intervenção europeia na Guerra. Ainda no dia 23 anterior escrevia mais uma longa carta, esta endereçada ao recém-empossado ministro português dos Estrangeiros, a contrastar “a nossa intervenção na guerra” com a neutralidade assumida pela “retrógrada e reaccionária Espanha”: - “é um novo Aljubarrota” (sic)!...

Nessa mesma noite, a frente do “teatro de operações” está em sossego, como suspensa das cenas inauditas a que vai assistir: das linhas alemãs irrompe, não a voz da metralhadora mas a dum anónimo soldado a cantar uma canção tradicional de Natal. Outras se lhe juntam em coro; e, quando acabam, são os antagonistas na trincheira em frente que lhes respondem com outras inglesas… Na manhã de 25, quando o nosso ministro passeava placidamente pelas ruas de Paris em automóvel e chauffeur emprestados pela condessa de Carvalhido, soldados britânicos e alemães organizavam na “terra de ninguém” um jogo de futebol… Esta “terra de ninguém” era o nome da área que ficava no meio das primeiras linhas de trincheiras em confronto. Ficaria ela conhecida entre os nossos soldados pelo nome de “avenida Afonso Costa”, em justiceira honra do chefe político que viria a impor a nossa intervenção.

De facto, chegavam ao sul da Flandres em Janeiro de 1917 os primeiros soldados do Corpo Expedicionário Português, que se previa vir a contar com cerca de 50 mil homens, mais 10 mil do que os que enviámos para África nos quatro anos de guerra. A esposa do nosso embaixador Chagas já andava a coser meias para os soldados desde os princípios da guerra; porém, os nossos primeiros mortos foram amortalhados numa serapilheira cosida e envoltos na bandeira britânica, por não haver nenhuma portuguesa disponível, e tiveram de ser os nossos capitães a cotizarem-se para mandarem confeccionar umas tantas…. Mas no Inverno de 18, que naquelas planuras da Flandres foi ainda mais agreste que o costume, os nossos tinham recebido umas sobrecasacas de pele de carneiro sem mangas, semelhantes aos pelicos usados pelos pastores alentejanos; uma indumentária que os alemães, na trincheira em frente, a menos de 100 metros, receberam com um gozador coro de “mé-més”!...

Até que veio a madrugada de 9 de Abril de 1918, no vale da ribeira de La Lys, com a divisão portuguesa, fustigada pelo Inverno e pelos ataques repetidos ao longo do mês de Março, à espera de ser rendida por uma divisão britânica, o que estava combinado para o dia seguinte. E é precisamente no sector desta divisão que oito divisões alemãs irão concentrar a investida, preparada desde as 4.15 da manhã com uma fortíssima barragem de artilharia pesada que varreu as linhas recuadas dos postos de comando e neutralizou as comunicações com as primeiras linhas de defesa. Às 7.50 iniciava-se o assalto da infantaria, a coberto do nevoeiro que se fazia sentir, em grupos de 20-30 homens de baioneta armada e precedidos por metralhadoras ligeiras. A batalha viria a terminar às 15.40, com a retirada dos batalhões luso-britânicos para Saint Venant. Ficaram aí mortos nesse dia mais de um milhar dos nossos. Nas zonas conquistadas pelos alemães, em algumas bolsas que tinham resistido sem rendição nem recuo, foram depois encontradas umas toscas cruzes de madeira com este dizer: “Hier ruth ein Taffer Portuguiese Krieger”: “Aqui jaz um valente soldado português”.

Não ficou anónimo e desconhecido entre os mortos de La Lys um transmontano de Murça cuja fotografia encima este postal. Já notado e elogiado nesse dia, o soldado Aníbal Augusto Milhais, três meses depois, “em Huit Maisons atacou com grande vigor o avanço inimigo, não abandonando o posto senão quando portugueses e escoceses já haviam retirado, salvando alguns destes de caírem nas mãos do inimigo, pois protegeu a retirada de todos manejando a sua metralhadora, indiferente à artilharia e metralhadoras inimigas.”

A 11 de Novembro, às 12.55 horas, terminava a 1ª Guerra Mundial com cerca de 20 milhões de mortos, militares e civis. Depois da epidemia de tifo, que tínhamos sofrido em 1917, os nossos soldados regressavam a Portugal com a “pneumónica” que, entre nós, em dois anos, terá feito mais de 150 mil mortos, e em todo o mundo mais de 50 milhões de mortos. Os vírus, as pulgas e os piolhos tinham provado serem mais letais que as armas inventadas pelos homens. A lição que estes tiraram foi alistar os micróbios nas forças armadas e pô-los de prevenção em culturas de laboratório, para alguma futura guerra bacteriológica.

A 8 de Maio de 1919 assinava-se o Tratado de Versalhes. Os nossos 7 908 mortos na guerra valeram-nos a restituição de Quionga, em Moçambique, que aos alemães haviam tomado, e o direito de pertencermos à comissão fundadora da Sociedade das Nações… João Chagas apontava no seu Diário: «… o parlamento francês celebrou já a apoteose dos aliados da França. Falou-se em todos: não se falou em nós. De resto, é de toda a evidência que existe o propósito de ocultar o caso de Portugal…» O outro paladino da nossa nunca consensual, adiada e finalmente desastrada intervenção europeia, o dr. Afonso Costa, chefiara a delegação diplomática portugesa às negociações do Tratado. Pelo facto, receberia dias depois a medalha da Ordem da Torre e Espada. A mesma que condecorava o peito do soldado Milhais.


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