quarta-feira, maio 28, 2008

“Negrões, Barroso, 28 de Maio de 1955”

Por mais que tente, não consigo reduzir estas vidas de planalto a uma escala de valores comuns. Foge-me das mãos não sei que força incomensurável, que, exactamente por ser assim, se alcandora nos olimpos possíveis do mundo. Nada existe aqui de notável a testemunhar uma actividade humana superior ou singular. Seres esquemáticos, num ambiente esquematizado. E, contudo, cada indivíduo parece trazer à sua volta um halo de inteligibilidade divina. Talvez seja a própria pobreza do meio que, despindo-os de todo o acessório, lhes evidencie a essência. E a nossa perturbação diante deles seria a perplexidade de pobres Adões cobertos de folhas diante dos irmãos que permanecem nus.»

Miguel Torga, Diário, vol. VII.

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