sábado, junho 21, 2008

O RISO DE DEMÓCRITO AFOGADO NAS LÁGRIMAS DE HERACLITO



Estava o nosso padre António Vieira em Roma havia cinco anos, já pregador famoso na língua italiana como era na portuguesa, quando, em 1674, no palácio da ex-rainha Cristina da Suécia, de quem Vieira era confessor, e com a assistência de muitos cardeais e monsenhores, se propôs a debate o seguinte problema: qual dos dois filósofos fora o mais sábio, se Demócrito, que sempre ria; ou se Heraclito, que sempre chorava. Foram chamados a debater tão candente problema os dois campeões vivos da oratória sacra: o nosso jesuíta, que fez questão de conceder ao opositor a parte que quisesse defender; o outro, da mesma Companhia, era Jerónimo Cataneo, que tomou partido por Demócrito, não sabemos se rindo do cavalheiroso gesto do confrade. Também nos não chegou directa notícia de quem na ocasião recolheu mais sufrágios de vencedor, por mais ter convencido. Sabe-se que o Geral dos jesuítas, João Paulo Oliva, enviava no dia 13 de Março de 1675 uma carta a Vieira em que, a propósito do panegírico de Santo Estanislau, pregado pelo nosso no dia anterior, dizia isto do que nos importa agora: « Este Panegírico de V. Reverência não cede a outro algum dos seus discursos, exceptuando o das Lágrimas, em que V. Reverência venceu não só todos seus companheiros, mas também a si mesmo, impossibilitando-se de sair à luz com outro parto igual.»

Não há encarecimento lisonjeador. Não precisava dele um orador capaz de demonstrar, no mesmo parágrafo, que Demócrito “não ria”; que “ria sempre, logo nunca ria”… Recolhamos algumas lágrimas do discurso prodigioso:

« (…) Entrando pois na questão, se o mundo é mais digno de riso ou de pranto; e se à vista do mesmo mundo tem mais razão quem ri, como ria Demócrito, ou quem chora, como chorava Heraclito; eu, para defender, como sou obrigado, a parte do pranto, confessarei uma cousa e direi outra. Confesso que a primeira parte do racional é o poder rir; e digo que a maior impropriedade da razão é o riso. O riso é o final do racional, o pranto é o uso da razão. Para confirmação desta, que julgo evidência, não quero mais prova que o mesmo mundo, nem menor prova que o mundo todo. Quem conhece verdadeiramente o mundo, precisamente há-de chorar; e quem ri, ou não chora, não o conhece.

« Que é este mundo senão um mapa universal de misérias, de trabalhos, de perigos, de desgraças, de mortes? E à vista de um teatro imenso, tão trágico, tão funesto, tão lamentável, aonde cada reino, cada cidade e cada casa continuamente mudam a cena, aonde cada sol que nasce é um cometa, cada dia que passa um estrago, cada hora e cada instante mil infortúnios, que homem haverá (se acaso é homem) que não chore? Se não chora, mostra que não é racional; e se ri, mostra que também podem rir as feras. (…)

« Como pois se ria ou podia rir-se Demócrito do mesmo mundo e das mesmas cousas que via e chorava Heraclito? A mim, senhores, me parece que Demócrito não ria, mas que Demócrito e Heraclito ambos choravam, cada um ao seu modo.

« Que Demócrito não risse, eu o provo. Demócrito ria sempre; logo, nunca ria. A sequência parece difícil, mas é evidente. O riso, como dizem todos os filósofos, nasce da novidade e da admiração; e cessando a novidade e a admiração, cessa também o riso; e como Demócrito se ria dos ordinários desconcertos do mundo, e o que é ordinário e se vê sempre não pode causar admiração nem novidade, segue-se que nunca ria, pois não havia matéria que motivasse o riso.

« Nem se pode dizer que Demócrito se incitava a rir de alguma cousa que visse ou encontrasse de novo; porque sempre e em todo o lugar se ria, e quando saía de casa já saía rindo; logo ria do que já sabia, logo ria sem novidade nem admiração; logo o que nele parecia riso não era riso. Confirma-se mais esta verdade com o motivo e intenção de Demócrito; porque não pode haver riso que se não origine de causa que agrade: tudo o de que Demócrito se ria não só lhe desagradava muito, mas queria mostrar que lhe desagradava; logo não se ria; e, se não ria, que era o que fazia, a que todos chamavam riso ? Já disse que era pranto e que Demócrito chorava, mas por outro modo. Ora vede.

« Há chorar com lágrimas, chorar sem lágrimas e chorar com riso. Chorar com lágrimas, é sinal de dor moderada; chorar sem lágrimas é sinal de maior dor; chorar com riso é sinal de dor suma e excessiva. (…)

« A ironia tem contrária significação do que soa: o riso de Demócrito era ironia do pranto; ria, mas ironicamente, porque o seu riso era nascido da tristeza, e também a significava: eram lágrimas transformadas em riso por metamorfoses da dor; era riso, mas com lágrimas (…).

« Heraclito chorava com os olhos, Demócrito chorava com a boca. O pranto dos olhos é mais fino, o da boca é mais mordaz, e este era o pranto de Demócrito. De sorte que na minha consideração, não só Heraclito, mas Demócrito chorava, só com a diferença de que o pranto de Heraclito era mais natural, o pranto de Demócrito era mais esquisito; e tudo merece este mundo, digno de novos e esquisitos prantos, para ser bastante chorado. Mas porque esta minha suposição me separa do problema e pode parecer que, como muitas vezes sucede, me aparte da opinião comum para fugir da dificuldade, seja embora o riso de Demócrito verdadeiro e próprio riso, apareçam em juízo um e outro filósofo para que, ouvidos ambos, se veja claramente a razão de cada um, e confio do merecimento da causa que será tão justa a sentença que Demócrito saia chorando e Heraclito rindo.

« Séneca, no livro De Tranquilitate, falando destes dois filósofos, dá a razão por que sempre ria um e chorava outro, com estas judiciosas palavras: Hic, quoties in publicum processerat, flebat, ille ridedat; huic omnia, quae agimus, miseriae, illi ineptiae videbantur. Demócrito ria porque todas as coisas humanas lhe pareciam ignorâncias; Heraclito chorava, porque todas lhe pareciam misérias; logo maior razão tinha Heraclito de chorar que Demócrito de rir, porque neste mundo há mais misérias que não são ignorâncias, e não há ignorância que não seja miséria. (…)

« E como nem todas as misérias são ignorâncias e todas as ignorâncias são misérias, e as maiores misérias, muito maior matéria e muito maior razão tinha Heraclito de chorar que Demócrito de rir; antes digo que só Heraclito tinha toda a razão e Demócrito nenhuma. Todas as misérias humanas eram o assunto de Heraclito, e o de Demócrito só uma parte delas; e como toda a miséria é causa da dor e nenhuma dor pode ser causa de riso, o riso de Demócrito não tinha causa nem motivo algum que o justificasse. (…)

«E se o fim destes dois filósofos (como verdadeiramente era) foi manifestar ao mundo o desconcerto de seu estado e persuadir aos homens o erros dos seus juízos, a desordem dos seus desejos e a vaidade das suas fadigas, também para este fim tinha muito maior razão Heraclito de chorar que Demócrito de rir. (…)

« Finalmente, Demócrito ria sempre, e Heraclito sempre chorava; este sempre também era parte de Heraclito e contra Demócrito: por parte de Heraclito, porque era o seu pranto mais eficaz; contra Demócrito, porque ser o seu riso contínuo o fazia ridículo. (…) Tal era a eficácia invencível do pranto de Heraclito e tal a debilidade ridícula do riso de Demócrito. (…) »

Tal a eficácia dum discurso que, se o opositor Cataneo antes se decidira pelo pranto, nos deixa a certeza de que seria na mesma invencível! Pois se a “primeira e final parte do racional” é o riso, e se tal orador avança de si capaz de “confessar uma coisa e dizer outra”… E tais os tempos felizes em que o mundo não estava tão desconcertado que não tivesse rainhas sábias como Cristina, renunciando soberanamente à vacuidade do poder político; ou cardeais e monsenhores que se distraíam dos fadigosos trabalhos do governo da Igreja universal com inocentes quanto eruditos torneios oratórios. Mas hoje, o “teatro imenso” está de tal maneira “trágico, funesto, lamentável”, que o pranto de Heraclito pranteado por Vieira é capaz de soltar a muitos, se não uma gargalhada demócrita, algum leve e cínico sorriso… E, no futuro, se dirá de hoje que o mundo não estava tão desconcertado que hoje achasse algum sábio que não tivesse renunciado ao poder político; e muita gente bem-disposta capaz de soltar, se não uma gargalhada… Assim o discurso engenhoso se “venceu a si mesmo” e deixa vencedor aquele bom senso comum sabedor que – no fim, ou seja in dies ille, ou seja in aeternum, sempre há-de ser toante com a “parte final” do racional – o último a rir é quem rirá melhor ! Será Demócrito, que nem “sempre ria”, como vimos aqui? Será o nosso patrono Diógenes, que sempre ria quando não se podia lavar duas vezes nas mesmas águas do rio, dizendo que assim ficava mais bem lavado?...

Não sei. Só sei que eu confesso uma coisa e digo a mesma: Jesus Cristo, no livro da Boa Nova, dá a razão por que sempre riem melhor os últimos, com as judiciosas palavras dum divino Juízo: «Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. (…) Alegrai-vos por aquele dia e exultai...»



[ Na imagem, Heraclito, que não parece lá muito choroso, e o polido sorriso de Demócrito mostram que o sóbrio classicismo de Donato Bramante (1444-1514) não dava para passionadas emoções. Mas não arranjei nada melhor. ]

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