quarta-feira, junho 25, 2008

PESSOAS EM PORTUGAL




À sombra dum toldo no convés do navio em que embarcara, por Junho de 1754, as primeiras terras que o escritor inglês Henry Fielding avistou de Portugal foram as Berlengas. Era a porta de entrada desse grande cemitério de navios que ficava entre o Carvoeiro e o Baleal. Mas o dia estava de sol aberto, com boa visibilidade, o mar banzeiro e a nortada branda: para o velho Fielding, gotoso, hidrópico, asmático – o esquife era o seu próprio navio. Com o florete da ironia e artilharia de vasta erudição, ia tentando enredar a pescadora morte. Morreria, sim, mas só em terra, pouco após desembarcar, com bonomia na alma e as armas que ele escolhera para si nas mãos. Um tal, que deixou os ossos na nossa terra, merece que voltemos a falar dele.

Pois à vista do forte da Berlenga Grande, ia o inglês discreteando sobre a notícia que tinha do respectivo forte estar provido duma guarnição de presidiários, e logo citava da Antiguidade exemplificações eruditas de semelhante prática, que o ex-magistrado da polícia londrina avaliava com interesse profissional. Não saberia, no entanto, que os primeiros moradores da ilha eram bem diferentes e, se não eram bem náufragos, eram outra espécie de salvados: monges eremitas de S. Jerónimo, que em 1513 aqui tinham posto pé e pedra. Procuravam edificar moradia de mais robusta alma, e resistiram por cinquenta e sete anos. Falta de água potável? Dureza extrema do clima? Pergunta bem o leitor sensato, porém mal advertido da bruta insensatez dos homens que lhe responde assim: - Nada disso; foram os assaltos e roubos dos piratas. Os berberescos e os compatriotas de mr. Fielding não se contentavam com roubar os poucos mantimentos e pobres alfaias dos monges: levavam-nos para os vender como escravos no norte de África. E nem o forte que D. João III mandara começar a construir os detinha.

Portanto, ficamos a saber que no Portugal do séc. XVI já havia monges que não conseguiam encontrar sossego. Lembre-se disso o leitor do séc. XXII quando, com esquivas astúcias de lince da Malcata, quiser escapar aos 90% de população amontoada nos 30 kms de faixa litorânea. Já fica advertido de duas coisas: primeira, que os homens bons dos bons conselhos que restarem não poderão mais contar no deserto interior com fortalezas construídas por reis que serão piratas da pior casta, e terá de se haver lá com eles quem tiver a veleidade de fugir à escravatura; segunda, que se o januário escritor destas linhas tem andado por aqui a mirar e remirar o passado, isso é porque tem dois olhos bem abertos para o futuro. Nem é preciso advertir uma terceira: impossível um novo refúgio nas Berlengas, que já terão soçobrado ao peso das miríades de turistas, ecologistas e… gaivotas. Isto posto, tornemos ao conto.

Com o abandono dos monges abandonou-se a fortaleza, que só depois D João IV mandaria reparar, no contexto da Guerra da Restauração. Um caso sucedido já no reinado de seu filho, D. Afonso VI, demonstraria a previdência do rei Restaurador. Estávamos no ano de 1666 quando se deu isto, que terá “passado despercebido” ao grande António Vieira, então preso em Coimbra, que mais temia dos portentosos acontecimentos que aguardava para esse ano que dos longos, miudinhos e moedores inquéritos a que a Inquisição o trazia sujeito. Enquanto o grande visionário esguardava encobertos poderes e descobertos cometas e seus efeitos, os grandes senhores viam no casamento do rei D. Afonso VI com D. Maria Francisca de Sabóia, filha do conde de Nemours,mais uma oportunidade de sustentar a independência portuguesa. Ajustado o casamento no ano anterior, saía o séquito da princesa de La Rochelle por mar a Portugal. Mas eis que de Cádis sai também uma armada castelhana ao encontro dela, para lhe embargar o desembarque e as núpcias. No dia 27 de Junho de 1666 estão e pairam ao largo das Berlengas catorze naus e uma caravela, capitaneadas por D. Fernando Ibarra. Estão à vista do forte e do olhar do cabo António Avelar, com 28 soldados e 9 peças de artilharia espreitando das muralhas. Ou porque o soberbo castelhano não lhe sofre o olhar, ou para entreter a espera e afinar a pontaria, ei-lo mandando desfilar as naus e dar bordada sobre bordada no forte. Respondem os nossos com a voz uníssona e bem ritmada dos poucos canhões. E respondemos durante três dias inteiros, até que a falta de pólvora e pelouros nos impediu de continuar a festejar os castelhanos. Desembarcaram estes umas centenas para submeterem o que restava dos nossos, já submetidos pelo desânimo de verem o seu cabo deitado sobre os mortos, gravemente ferido. Não conseguiram os castelhanos arrasar as grossas muralhas de 22 metros de altura, como pretendiam, contentando-se com levar as 9 peças que lhes afundaram uma nau e forçaram outras duas a retirar para Cádis a reparações, que se afundaram no caminho. Do forte comandante da fortaleza, que, já ferido, não teve forças para se opor a ir morrer a bordo duma nau castelhana, o último nome não era Avelar, como disse. O último nome dele quero lembrá-lo a outro grande visionário que, como vimos há duas semanas, também gostava de esguardar bandarras profecias e sinais nas estrelas. - Hoje, quando o pacífico turista vai de folgança até às Berlengas a enxotar gaivotas, se repara no nome do maior barco disponível, eis o que lê: “Cabo António Avelar Pessoa”. E não será o primeiro a perguntar se o nome era dalgum avoengo daquela pessoa que gostava de encontrar em certas datas “acontecimentos despercebidos”, e que também foi um jovem pintor de brasões que blasonava de pintar “Pereiras” e “Sousas” antigos como antepassados…

E não me esqueça lembrar-lhe outro – André Pessoa -, capitão duma nau que, na primeira metade deste XVII, naufragou na carreira da Índia, porque quero acabar o postal com outro naufrágio e na companhia de mais estas pessoas da melhor nobreza que há: José Olhinha; Joaquim Cativo; Teodoro Gomes; Joaquim Combóio; Pedro Pescador, Lúcio Freitas; Veríssimo Guitarra. Infelizmente, não consegui saber os outros dois nomes que faltam dos heróicos pescadores que se lançaram ao mar, com espias amarradas à cintura, para tentarem salvar, na madrugada de 20 de Dezembro de 1943, os tripulantes dum navio que o nevoeiro e as vagas tinham encalhado nos rochedos do Baleal, a cem metros da praia. Consegui saber que era um navio espanhol, e fixei-lhe o nome: Fernando Ibarra


[ Vai um quadro do holandês Hendrick Cornelisz Vroom (1566-1640), que em 1590 naufragou na Berlenga, que os jerónimos já tinham abandonado. Salvaram-se todos apenas com a roupa que traziam vestida. Entre os restos da carga que foram dar à costa estavam “alguns dos quadros religiosos mais belos” de Vroom; foram estes que chamaram a atenção dos frades do convento do Bom Jesus, de Peniche, à beira-mar. Olhando para as Berlengas conseguiram divisar a grande bandeira que os náufragos tinham feito com as roupas. Quando foram resgatados da prisão do mar e da fome nua e crua, já se aprestavam a lançar sortes sobre qual deles seria o primeiro a matar a fome dos outros...]

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

O seu trabalho é muito interessante.
Uma pequena nota: Vroom não era dinamarquês. Era holandês.
Os quadros de Vroom não eram quadros (telas) mas sim um retábulo flamengo com diveras cenas da Paixão de Cristo. Os restos deste retábulo - 6 peças de madeira esculpida - ainda podem ser vistos em Peniche numa Galeria de Arte Sacra da Santa Casa da Misericórdia de Peniche.

1:52 da manhã  
Blogger Pedro Isidoro said...

Caro Anónimo:

Fico-lhe muito agradecido pela correctiva informação e pelo interesse.

12:52 da manhã  

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