sexta-feira, setembro 05, 2008

TO GAR AUTÓ NOEIN ESTÍN TE KAÍ EINAI


Não, caro leitor, não são ininteligíveis sons articulados por alguém que bebeu imoderadamente do fino aqui no Tonel!

Serão palavras dalguma divindade, uma linguagem estranha aos humanos? Intérprete delas, quem as proferiu em grego acreditava que sim. E quem era este grego? – « …aquele ser único que é Parménides. Parménides parece-me ser “venerável” (aidoios) e ao mesmo tempo “temível” (deinos), como diz Homero. De facto, encontrei-me com o homem quando eu era muito novo e ele muito velho, e pareceu-me que tinha o porte duma raça nobre. » Eis o que Platão faz dizer a Sócrates, citando dois adjectivos de um verso da Ilíada, que fala de um deinê te kaí aidoie theós – “um deus que se teme e reverencia”. Nada mais, nada menos. Tal era o respeito que os dois atenienses – o espadaúdo descendente dos reis de Atenas (não poucas vezes mordido pela canina irreverência do nosso Diógenes, como já vimos aqui) e o seu mestre Sócrates – tinham pelo filósofo de Eleia. E já que lembrei a luz da lanterna de diogénio, que procurava um homem sob a luz do Sol, as palavras citadas sugerem que Sócrates poderia ter sido mais afortunado na busca que o nosso patrono.

Parménides traduziu a voz da divindade num poema em versos hexâmetros, como os da epopeia homérica. É, de facto, uma deusa, anónima, que fala na quase totalidade dos versos que chegaram até nós em 16 fragmentos. Deste, o canonicamente considerado como 3º contém apenas meio verso. Costuma em português traduzir-se assim:

« Pois o mesmo é pensar e ser »...

Tal é o título deste postal, e eis o que diz a deusa. Parece-nos uma voz familiar? Nos caminhos habitados pelo nosso pensamento habitual, pensamos (na verdade) o que é (realmente/a realidade) ? E por quais critérios, umas vezes, acreditamos que pensamos o que é e, outras vezes, o que não é ? Então, o que pensamos e o ser nem sempre são “o mesmo”? (Se é que o que pensamos é “o pensar”, ou um pensar que pensa como nós que pensamos, quando pesamos que é pensar, ou pensa o mesmo que pensamos, etc.)

Ora bem, aqui está: se começássemos a pensar na palavra da deusa, logo começaríamos a pegar nos fios (-pensar-ser-não ser-verdade-realidade-aparência-crenças-identidade-) e a entretecer o grande tecido fiado ao longo dos tempos no tear da tradição intelectual europeia. O leitor fique descansado, que não o vou fazer: posso desbordar todos os limites do postal blogueiro, mas não chego a tanto! O que tenho de dizer é que, com apenas meio verso, o grande Parménides (ou a deusa) condensou a legenda e traçou o temporal destino de tudo isso a que chamamos “filosofia”, e da filha que esta pariu e baptizámos com o nome de “ciência”.

Digo também, com o grande sofista Górgias, que Platão era um grande ironista. Pois que pensar de um indivíduo que nos diz – por escrito – que o mais importante do que tem a dizer e tanto lhe custou a descobrir, não o dirá nunca… por escrito?! Pois se falando por cerca de 20 anos com um Aristóteles se queixou de não ter sido entendido, que remédio lhe restava, passando o tempo e chegando a morte para lhe cortar a voz? Escreveu… E, como era um grande escritor, escreveu nas linhas e nas entrelinhas. E o que ele escreveu, mais que uma vez, foi que Sócrates (que nos parece o tipo excelente do ironista), quando aparece em cena Parménides, fica pequenino (“muito novo”), teme-se de falar do pensamento do Eleata e, de facto, cala-se e é substituído por outras personagens menores (uma delas chama-se “Aristóteles”, outra tem o mesmo nome “Sócrates”…). E quando Platão não escreveu, encarregou-se a tradição de escrever isto: falecido mestre Sócrates, o discípulo Platão dirigiu-se e refugiou-se junto dum condiscípulo socrático – Euclides, que, na cidade de Mégara, continuava os ensinamentos do mestre ateniense, neste notável sentido: unia o eticismo socrático com o ontologismo parmenidiano. Ora, no poema de Parménides, só há um único vestígio explícito, aliás reduzido a uma única palavra (o adjectivo stugeroio, “vergonhoso”, “repugnante”, “ascoroso”), de uma qualquer conotação ou conexão com uma axiologia ou uma ética humanas… Que quero eu dizer com tudo isto? Que deviam ter muito cuidado os intérpretes que falam dum “parricídio” cometido por Platão relativamente ao “pai” Parménides, e tanto mais quando quem fala em “parricídio” e em “pai” - num diálogo em que se trata de caçar O Sofista no mesmo terreno em que este caça, e com as mesmas armas - é uma protagonista personagem nomeada apenas como “estrangeiro de Eleia”; isto é, uma personagem que, tirada a máscara, pode mostrar o rosto do próprio… Parménides.

Mas deixemos os intérpretes, e preocupemo-nos mais connosco. O que quero dizer é que devíamos ter muito cuidado quando ouvimos uma voz (a voz de uma deusa) vinda lá de há 2 500 anos a falar connosco sobre o que é e o que não é. Como nós os humanos somos uns animais palradores, que passamos a maior parte dos nossos dias a sentenciar sobre o que “é” e que “não é” (assim ou assado, frito ou cozido), a voz da deusa pode parecer-nos tão familiar que não reparamos, não vemos. Não vemos o quê? Pelo menos, que os deuses, quando nos falam, podem dizer-nos coisas bem estranhas, que precisam de ser bem vistas e medidas, como as do oráculo délfico – que levaram o prudente Sócrates a investigações que duraram uma vida (todas as vidas… as de cada um de nós). Pelo mais, que o que a deusas “pensa” que é ou que não é pode estar muito afastado dos caminhos por onde nós os mortais erramos a pensar que é ou não é, vagueando como uma “multidão de surdos e cegos, sem entendimento” (palavra de Parménides)…

Então que há-de dizer um pobre homúnculo a este titã triunfador de Ícaro, que nos saiu de Eleia num esplêndido carro de muitos e bem treinados cavalos, obedientes à competente brida das sedutoras “filhas do Sol”? Pois apenas lembrar um comezinho facto, que deve ter passado despercebido ao supremo ironista que foi Parménides. – Pouco mais ou menos pela mesma altura em que o titã se metia a altas cavalarias, cá em baixo nas terras da Palestina uns obscuros sacerdotes ou doutores da Lei passavam a escrito umas palavras, que os famosos Setenta tradutores do séc. II a. C. verteriam em grego e opuseram às poéticas revelações do grego Parménides. Estão no livro do Êxodo, capítulo três, versículo catorze…

Parece que falar de poesia a propósito do poema do Eleata, só fechando os olhos ao cego Homero, de tão inábil e fruste é a arte literária do filósofo, segundo os entendidos. Pois mesmo assim (mais uma ironia) dizem que lá tem um dos mais belos versos da poesia grega de todos os tempos. É este:

Nuktifaés perí gaián alômenón alótrion fôs.

( Luz alheia ao redor da terra errante alumiando a noite… )

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