terça-feira, dezembro 16, 2008

"Coimbra, 16 de Dezembro de 1942"

« Um inferno de dores. Mas quanto mais esta carne apodrece, mais me convenço que, duma maneira ou doutra, só dela posso arrancar a salvação. Nenhuma esperança de melhorar, evidentemente. (…) Não. Refiro-me a uma salvação mais profunda: de individual renúncia biológica e de cósmica confiança. É que nem a terra me come se vou para a sepultura em pecado mortal de desespero. A pior traição que o homem pode fazer à natureza é ser durante a vida uma cega urtiga raivosa, eriçada no seu egoísmo. Tenho, pois, de reagir. (…) Coragem, companheiros! Chegai à janela, e olhai em redor. É um maravilhoso formigueiro que se move. Há flores, há rios, e há, sobretudo, paz – uma paz humosa, funda, ampla, universal, que nenhuma inquietação particular perturba. Nós? Nós somos apenas grãos de areia dessa grande praia coberta de sol e de agitação! Somos da terra, amigos. »

Miguel Torga, Diário, vol. II.

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