sexta-feira, janeiro 02, 2009

PINTAR O 8



2008 passou num ápice. E tantas efemérides que me escaparam nestes efémeros postais! Sob o signo do 8, número particularmente fasto para os nossos amigos chineses, que tanto vibraram com os seus jogos e a olímpica ejaculação de foguetões para o espaço, - quantos acontecimentos dignos de lembrança! Não o será decerto o crash bolsista e bancário, com total descrédito dos superinteligentes e hipersofisticados gestores doutorados por Harvard em esquemas de Ponzi e outros, sob a pericial e mediúnica orientação da nossa catedrática portuguesa Dona Branca. Se nesta nossa parte do mundo afundada em fundos de alto risco, não vivêssemos numa civilização senilizada para a memória de curto prazo, teríamos aprendido alguma coisa com o crash de 1998 e os quatro mil e seiscentos milhões de dólares perdidos pelo Long Term Capital Management, então endrominado com a bênção de dois eminentíssimos prémios Nobel da Economia, que ambos tinham ganhado no ano anterior… E então, como hoje, a solução encontrada pelo tesouro público americano foi exactamente a mesma…

Mas deixemos as periódicas crises do capitalismo bancário ganancioso e predador (que se sucedem desde pelo menos 1797), descaradamente acobertadas agora pelos sócios políticos delapidadores dos dinheiros públicos. Em monótona e diabólica paráfrase, isto é mais sempre o mesmo acerca do mesmo, para lembrar o título de um poderoso ensaio do grande helenista e filósofo luso-brasileiro que foi Eudoro de Sousa. A “economia” é a especular inversão simétrica da ontologia. A cada um, no seu “foro íntimo”, cabe o juízo final de decidir pelo que lhe há-de ocupar mais o coração e “levar mais a peito”: se vale mais preocupar-se com a alimentação da efémera combustão a que biologicamente chamamos “vida”; ou se, para além da ração, o racional tem desde já aqui razões de mais e maior vida a convidá-lo para além do animal sequioso e esfomeado…

Por isso quero antes cingir-me aos nossos portugueses (que em nossa casa sempre fomos e continuamos tão deficitários e mal sucedidos em “economia”) dignos de boa memória; e, já que falei nos portentosos chineses, gostaria de ter memorado o jesuíta Tomás Pereira (falecido em 1708), missionário na China, que por mais de três décadas foi dos raríssimos humanos a privar com o imperador, que nem por ser “celeste” deixou de querer ter aulas de aritmética, álgebra e música com o nosso padre; a este se deve, aliás, a construção de um monumental carrilhão em Pequim e a publicação chinesa do primeiro tratado sobre música europeia; mas também foi diplomata ao serviço da política imperial (sem descurar os interesses portugueses), erudito no budismo e perito em relojoaria e calendários: foi mesmo nomeado pelo amigo imperador para o cargo de “Administrador do Calendário”. Eu é que por aqui me atrasei nas homenagens que lhe são devidas.

Mas, muito e muitos mais!

Tinha de lembrar Vitorino Nemésio (pois que é para mim uma das cinco quinas da poesia portuguesa do séc. XX), mas não esqueço Jorge de Sena, que também se distanciou de nós no mesmo 1978. Outro poeta, Hamilton de Araújo, falecido aos 20 de idade nesse ano de 1888 tão auspicioso para o Encoberto em Pessoa (como vimos, deixando por ver o homicídio do seu presidente-rei Sidónio Pais, em Dezembro de 1918); esse mesmo finissecular 88 em que outro jovem, com 25 anos, António Fogaça, só teve tempo de publicar os seus Versos da Mocidade… e morrer. Jovem de 21 anos de idade tinha, quando partiu em 1918, o músico António de Lima Fragoso que, no juízo autorizado de Luís de Freitas Branco, podia ter sido "o maior compositor português de todos os tempos"... Também desejara ter lembrado as duas cartas do sr. Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes – de Julho de 1958 a Salazar, e a menos famosa mas não menos importante, de Julho de 68, endereçada ao sr. cardeal patriarca de Lisboa -, tão cruciais para o entendimento das relações Estado-Igreja no nosso século XX português. Mas talvez ainda haja tempo para mim, neste entrado ano em que passam 50 sobre a partida para o exílio de D. António e 40 sobre o seu regresso à cadeira episcopal do Porto, um ano após o sr. reitor Salazar ter caído da sua cadeira política. Esse mesmo 1958 em que falecia o notável filósofo e historiador da cultura que foi o figueirense Joaquim de Carvalho (um mestre de Vitorino Nemésio saudado e reconhecido), cujo filho, o advogado e estimável escritor Joaquim de Montezuma de Carvalho nos deixou em Março de 2008, com 80 anos de idade.

E ainda outros, tantos outros. Desde a saída no transacto 2008 da Nova Águia, novíssimo ensaio de reatar, em âmbito ainda mais ostensivamente lusófono, com a Nova Renascença da década de 80 do séc. XX, e com os novos fundamentos que a esse século queria pôr a Renascença Portuguesa (que Teixeira de Pascoaes desejara por si se tivesse chamado “Renascença Lusitana”)… Até ao ano 1128 da batalha de S. Mamede (Guimarães), após a qual vitoriosa o nosso Afonso Henriques, com a bênção de Braga, começa a governar efectivamente o Condado Portucalense… Até 1058, quando é reconquistada definitivamente a minha amabilíssima Viseu… Até 868, quando da incorporação do Porto na resistência goda asturiana ( e por aqui viríamos às folclóricas comemorações do acto em 1968, satirizadas numa das citadas cartas de D. António)…

O tempo contado é apenas um pretexto para contar. Para mim, não há dias vencidos num arquivo morto. E o meu fiel Borda d’Água deixa-me antever uma provida colheita de efemérides para este 2009.

Não falo ao leitor em bom ano “novo”, porque novidade nova mesmo será a do Oitavo Diadies octavus aeternus, qui Christus resurrectione sacratus est . O que lhe desejo é que passe bem o tempo; e bem será se o tempo o não deixar passado a si, feito num oito, por certo burlão Caricaturador que gosta de pintar o sete…

E que nos reencontremos aqui no próximo 8 (deste mês).




[ Sobre a minha, uma colagem de Kevin Cherry. ]