segunda-feira, dezembro 22, 2008

DIANTE DE UM PRESÉPIO


Deus – e não um deus, mas Deus, - vê-se hoje na figura de um menino pobre, deitado e risonho sobre a palha humilde. Palpita oculta nesta imagem breve uma ideia imensa que será talvez (quem poderá negá-lo?) a ideia humana superior e eterna: a noção de que a força que domina os corpos não é tal um atributo do verdadeiro Deus, e que só o é a grandeza espiritual estreme, a que ao puro espírito se revela e impõe. Deus é um menino, um menino é Deus. É um sopro de vida sobre um berço humilde, onde o bem das almas se concentra e jaz. Eis aí como ele pousa, tão menininho e frágil: sem sombra de domínio, sem poder algum… Adorai-o por isso, sem poder algum: e digamos agora que este mundo triste só terá uns longes de esplendor divino quando a última nuvem da superstição da Força se dissipar no cariz do alvorecer das almas, e admirarmos somente o que é Forma pura, amplíssima caridade, aspiração sem termo: - conforme à imagem do Natal do Cristo, que no divino presépio se nos mostra e ri. Deus é um menino, um menino é Deus!

Passou em triunfo um glorioso César, dominador e forte: e deram-lhe não só uma reverência externa, que poderá ser prestável para o bem dos corpos, senão que o próprio coração dos homens se prostrou com ímpeto e se rojou humilde, adorando e orando; e em triunfo o Opulento, como um novo César… Mas o Deus-menino sobre a palha riu, nulo no braço porque tem a Ideia, sopro de vida que é um menino e Deus…

O menino riu, voltando-se sempre com ternura límpida para as almas dos que negam a divindade física, o deus omnipotente e regedor dos átomos, responsável da maldade deste mundo mau; sorriu para os que odeiam a adoração da Força, para os que afirmam que o divino é uma Bondade nua, um puro Inteligível, uma Beleza inerme… Entendei o Presépio, ó irmãos que o adorais: Deus é um menino, um menino é Deus!

(Natal de 1925)

António Sérgio, Ensaios VI, 1971.

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