quinta-feira, dezembro 18, 2008

ETTY HILLESUM (1914-1943)


“3 de Julho de 1942. Sexta-feira às oito e meia.”

« (…) Essa é uma certeza que tenho dentro de mim, que não é perturbada pela nova certeza: que querem o nosso extermínio. Também isso eu aceito. Sei-o agora. Não vou incomodar outros com os meus medos, não vou ficar amargurada se outras pessoas não entenderem do que se trama para nós, judeus. Esta certeza não vai ser corroída ou invalidada pela outra. Trabalho e vivo com a mesma convicção e acho a vida prenhe de sentido, cheia de sentido apesar de tudo, embora já não me atreva a dizer uma coisa dessas em grupo. O viver e o morrer, o sofrimento e a alegria, as bolhas nos meus pés gastos e o jasmim atrás da porta do quintal, as perseguições, as incontáveis violências gratuitas, tudo e tudo em mim é como se fosse uma forte unidade, e eu aceito tudo como uma unidade e começo a entender cada vez melhor, espontaneamente para mim, sem que ainda o consiga explicar a alguém, como é que as coisas são. Gostava de viver longamente para, no fim, mais tarde, conseguir explicar; e se isso não me for dado, pois bem, nesse caso uma outra pessoa irá fazê-lo e então um outro continuará a viver a minha vida, ali onde a minha vida foi interrompida, e por isso tenho de viver a minha vida tão bem e tão completa e convincentemente quanto possível até ao meu derradeiro suspiro, para o que vem a seguir a mim não precise de começar de novo nem tenha as mesmas dificuldades. (…) »


É um trecho do Diário (1941-1943), traduzido directamente do neerlandês por Maria Leonor Raven Gomes. O livro saiu cá em Abril deste ano. Sim, muito oportuna e apropriadamente no nosso Abril português, o tempo da nossa Paixão.

A autora foi uma mulher « refinada, suficientemente experiente para figurar entre o número das boas amantes » (diz ela), que podia ter passado a vida a jogar jogos de sedução e poder com os homens; era uma intelectual que podia ter sido uma escritora socialmente prestigiada; podia ter sido uma empenhada revolucionária anti-fascista; uma sionista que podia ter fugido da Holanda natal e ser contada hoje como uma das fundadoras do Estado de Israel. Escolheu ficar.

Tornou-se « a rapariga que não conseguia ajoelhar-se e que afinal aprendeu a fazê-lo no tapete áspero de fibra de coco de uma casa de banho desarrumada ». Preferiu oferecer-se para trabalho voluntário no campo de concentração holandês de Westerbork. Entrou lá em Agosto de 42, com uma Bíblia e dois livros de Rilke. Lá acabou aprisionada com a família. No dia 7 de Setembro de 1943 saiu num comboio para Auschwitz. Tinha 29 anos de idade. Nesse mesmo dia, um amigo preso no campo holandês escrevia aos amigos de Etty: « (…) Mas nós continuamos, enquanto eu escrevo isto vai tudo continuando mais e mais longe em direcção a leste, para onde realmente queria ir fervorosamente. Acho que na realidade ela estava satisfeita por ir agora viver esta experiência, por ir ver agora tudo e compartilhar esta vivência que nos foi preparada. E havemos de voltar a vê-la, sobre isso estamos nós (os amigos especiais aqui) de acordo. Depois da partida, falei com a pequena russa e várias das suas outras protegidas. E só o modo como reagiram à partida dela ilustra bem o amor e confiança que deu a estas pessoas. »

O livro que os leitores portugueses agora temos acessível, e é útil e oportuno como poucos, conta-nos como é que naquelas circunstâncias um ser humano pode chegar a “realmente querer fervorosamente…” Acontece o senso comum não ser as mais das vezes capaz de discernir entre a sabedoria e a alienação mental. Mas para vencer Auschwitz era precisa mais que uma medida comum. Era, e será.

O amigo prisioneiro dizia: - “havemos de voltar a vê-la…” Não se enganou, falando só deste mundo. Na década de 70 do século passado, a consciência nacional judaica começou a articular publicamente as questões cruciais: - “Aonde estava Deus?”… - “Como falar de Deus depois de Auschwitz?”… -

… Em 1981, na Holanda, saía a primeira edição do Diário.

Os leitores cientes de que Auschwitz não é um assunto entre alemães e judeus – e que “o nosso extermínio” não é uma questão resolvida do passado -, faríamos bem agora em reparar nas últimas palavras do primeiro transcrito: « para o que vem a seguir a mim não precise de começar de novo nem tenha as mesmas dificuldades. »

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