segunda-feira, julho 13, 2009

FORTALEZA (COM JASMIM DENTRO)


Domingo de manhã, 12 de Julho de 1942.

« São tempos temíveis, meu Deus. Esta noite, pela primeira vez, passei-a deitada no escuro de olhos abertos e a arder, e muitas imagens de sofrimento humano desfilavam perante mim. Vou prometer-te uma coisa, Deus, só um a ninharia: não irei sobrecarregar o dia de hoje com igual número de preocupações em relação ao futuro, mas isso custa um certo exercício. Cada dia já tem a sua conta. Vou ajudar-te, Deus, a não me abandonares, apesar de eu não poder garantir nada com antecedência. Mas torna-se-me cada vez mais claro o seguinte: que tu não nos podes ajudar, que nós é que temos de te ajudar e, ajudando-te, ajudamo-nos a nós próprios. E é esta a única coisa que podemos preservar nestes tempos e também a única que importa: uma parte de ti em nós, Deus. E talvez possamos ajudar a pôr-te a descoberto nos corações atormentados de outros. Sim, meu Deus, quanto ás circunstâncias pareces não ter lá grande influência sobre elas, “é evidente que fazem parte indissolúvel desta vida”. Também não te chamo à responsabilidade por isso; tu é que podes mais tarde chamar-nos à responsabilidade. E, quase a cada batida do coração, torna-se-me isto mais nítido: que tu não nos podes ajudar, que nós devemos ajudar-te e que a morada em nós onde tu resides tem de ser defendida até às últimas. Existem pessoas, a sério que é verdade, que no último momento põem aspiradores a salvo e garfos e colheres de prata em vez de ti, meu Deus. E há gente u quer salvar o corpinho no qual se acolhem somente mil medos e rancores. E dizem: “A mim não me lançam eles a garra.” E esquecem-se de que ninguém fica nas garras de ninguém, estiverem nos teus braços. Recomeço a ficar um bocadinho mais calma, Deus, por causas desta conversa contigo. Hei-de ter mais conversas contigo no futuro próximo e, deste modo, impedir que me fujas. Também hás-de viver tempos de maior privação em mim, meu Deus, não serás alimentado tão fortemente pela minha confiança, mas acredita que continuarei a trabalhar e a ser-te fiel e não te expulsarei do meu território.

Para o grande sofrimento heróico tenho forças suficientes, meu Deus, mas são as mais de mil pequenas ralações darias que às vezes, de repente, saltam para cima de mim como se fossem parasitas que te atacam. Enfim, por enquanto coço-me um bocadinho e digo todos os dias para mim mesma: do dia de hoje ainda se cuidou, as paredes protectoras de uma casa hospitaleira ainda envolvem os teus ombros como uma familiar peça de roupa muito usada, a comida chega para hoje e a tua cama, de lençóis brancos e cobertores quentes, espera-te de novo esta noite. Portanto não deves desperdiçar um único átomo que seja da tua energia com as tuas pequenas preocupações materiais. Usa e utiliza cada minuto deste dia e transforma-o num dia frutuoso; mais uma pedra sólida no fundamento em que os nossos próximos, pobres e temerosos dias se possam apoiar um pouco.

O jasmim nas traseiras da minha casa encontra-se agora completamente destruído pelas chuvadas e temporais dos últimos dias. As suas florzinhas brancas bóiam dispersas nas lamacentas poças negras do telhado raso da garagem. Mas, algures em mim, esse jasmim continua a florir sem impedimentos, tão exuberante e delicado como sempre floriu. E espalha os odores pela casa onde habitas, meu Deus. Como vês, trato bem de ti. Não te trago somente as minhas lágrimas e pressentimentos temerosos; até te trago, nesta tempestuosa e parda manhã de domingo, jasmim perfumado. E hei-de trazer-te todas as flores que encontre pelo caminho, meu Deus, e a sério que são muitas. Hás-de ficar sinceramente tão bem instalado em minha casa quanto é possível. E já agora, para te dar um exemplo ao acaso: se eu estivesse encerrada numa cela acanhada e uma nuvem passasse ao longo da minha janela gradeada, então eu iria trazer-te essa nuvem, meu Deus, se pelo menos ainda tivesse forças para isso. Não posso prometer nada antecipadamente, mas as intenções são óptimas, hás-de notar. »


Etty Hillesum, Diário 1941-1943.



SALMO 44

Tu nos esmagaste na região das feras
E nos envolveste em profundas trevas.

Por causa de ti, estamos todos os dias expostos à morte;
Tratam-nos como ovelhas para o matadouro.

Desperta, Senhor, por que dormes?
Desperta e não nos rejeites para sempre!
Por que escondes a tua face
E te esqueces da nossa miséria e tribulação?
A nossa alma está prostrada no pó,
E o nosso corpo colado à terra.
Levanta-te! Vem em nosso auxílio;
Salva-nos pela tua bondade!


[ Tradução de José Augusto Ramos, para a Nova Bíblia dos Capuchinhos, 1998. ]

1 Comments:

Blogger Pedro Isidoro said...

Do salmo bíblico, foram transcritos os mesmos versículos citados por Bento XVI na sua terceira visita a Aushwitz-Birkenau, em 28 de Maio de 2008. E disse então Sua Santidade:

« Não podemos perscrutar o segredo de Deus. Vemos apenas fragmentos, e enganamo-nos se pretendemos eleger-nos juízes de Deus e da História. Não defendemos, nesse caso, Deus e o homem, mas contribuiremos apenas para a sua destruição. Não, em definitivo: devemos elevar um grito humilde mas insiste até Deus: - Desperta! Não te esqueças da tua criatura, o homem! E o nosso clamor deve ao mesmo tempo ser um grito que penetra o nosso próprio coração: para que desperte em nós a presença escondida de Deus, para que aquele seu poder que Ele depositou nos nossos corações não seja coberto e sufocado em nós pela lama do egoísmo, do medo dos homens, da indiferença e do oportunismo. Levantemos este grito diante de Deus, dirijamo-lo ao nosso próprio coração, precisamente NESTA NOSSA HORA PRESENTE, na qual parecem emergir de novo dos corações dos homens todas as forças obscuras…. »

11:44 da manhã  

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