sábado, julho 04, 2009

UMA EXPERIÊNCIA VITAL ( III )

Consideremos um arco temporal abrangendo desde os inícios do Neolítico até ao ano… de 1789 d. C.. E tenhamos em vista aquelas sociedades dos nossos dias que os antropólogos costumavam e ainda alguns apodam de “primitivas”, que estejam o menos influenciadas por contactos com a nossa cultura ocidental. O que logo salta à vista do observador imparcial é isto: a experiência do numinoso ou do sagrado, com as correlativas práticas ritualizadas que motiva, a que chamamos “religiosas”, impregnam e condicionam todos os aspectos da vida e organização social, bem como dos factos e etapas mais marcantes do ciclo de vida dos indivíduos. Por outras palavras, e em mais amplo sentido: não se conhece nenhuma sociedade histórica indiferente ao religioso e, quanto mais recuamos no tempo a partir daquele ano revolucionário, tanto mais essa dimensão da vida humana se impõe ostensivamente ao observador. Tais universalidade e totalidade merecem explicação, mas o que mais me interessa pensar, não sem conexão com elas, é a fenomenologia da experiência do sagrado (habitualmente confundida ou reduzida às práticas religiosas, como temos visto) e os problemas que levanta, de diversa ordem: cognitiva, epistemológica, existencial, ontológica. Hoje pegarei num que pegou moda a partir dos anos 60 do século passado, lembrando as “plantas psicadélicas” que Henri Hatzfeld também lembrava no último trecho que dele aqui citámos na semana passada. O problema é este: será que a experiência da ingestão de substâncias psicotrópicas (naturais ou artificiais) pode causalmente induzir uma genuína experiência do sagrado? Uma questão que imediatamente exorbita daquele arco temporal para um muito maior, abrangendo o maior período da história da humanidade: o das sociedades recolectoras e caçadoras pré-agrícolas. Como o que interessa aqui não é a factologia histórica mas a fenomenologia psicológica, nos sequentes comentários suponho em vista indivíduos anatomofisiologicamente semelhantes a nós, da espécie sapiens.

Suponha agora o leitor que por toda a parte no passado indivíduos da nossa espécie se tinham deparado e apropriadamente usado das tais plantas “psicadélicas”, ou “enteogénicas”, como hoje preferem alguns dizer a propósito do nosso assunto. Sim, eu disse: em toda a parte; mesmo nos desertos gelados do Árctico, se não eram plantas, os pescadores tinham pescado alguma espécie de peixes psicadélicos… Suponhamos ainda que tal conhecimento se tinha “democratizado” por todos os indivíduos e havia impressionado a todos do mesmo modo, isto é: convencendo toda a gente de que tinham tido uma experiência do “sagrado”. Ainda mais : que tal experiência seria, por qualquer modo, originariamente e causalmente explicativa das mais díspares crenças e práticas da religiosidade ctónica e astral. Não sei que mais conceber em benefício da hipótese, e julgo não a trair na seguinte narrativa ordenada dos pontos essenciais : (a) desde há mais de cem mil anos, em todas as sociedades de indivíduos da espécie sapiens eram conhecidas e usadas substâncias psicotrópicas de qualquer género; (b) tais indivíduos têm uma experiência cognitiva e comportamental inédita : p. e. percebem entidades estranhas, nunca antes percebidas; ou percebem qualquer aspecto anormal em entidades normais já conhecidas; (c) sentem que essa experiência é de tal maneira importante para eles que a procuram reproduzir e, de facto, têm-na reproduzido e refinado até hoje; (d) alguns dos experimentadores, pelas entidades que perceberam e pelos próprios sentimentos ou comportamentos que adoptam, julgam-se em contacto ou participantes de um “outro mundo” (sagrado), diferente do mundo normal (profano); (e) ao longo dos tempos e das gerações, sempre outros membros do grupo, impressionados pelas narrações e acções dos experimentadores, retomam a mesma experiência ou meramente a transmitem por tradição radicada e consensual.

Não questionemos (a) também a benefício do argumento, embora seja de notar que outras causas naturais muito diferentes (experiências de “quase morte”, epilepsia, sonhos, música, dança e outras) poderiam provocar efeitos semelhantes. Por outro lado, o mesmo tipo de causas (noutros quadros culturais) pode gerar efeitos dissemelhantes : na nossa sociedade ocidental actual, não serão muitos os experimentadores a acreditar que as drogas os “religam” a um “outro mundo” real e a entidades reais ultramundanas, e não parece que seja por isso que as consomem. E este facto não é sem importância para a avaliação de (d) adiante.

Um dos problemas está em (c) : por que é que tal experiência é sentida como dramaticamente relevante para a existência humana ? Note-se que não está em causa a maturidade neurofisiológica do cérebro, que supusemos tão desenvolvido como o nosso actual; o que quero dizer é isto : às mesmas impressões sentidas os seres humanos podiam ter respondido de diferentes maneiras: ou sem lhe dar demasiada importância; ou com indiferença ou aversiva evitação. A “psicologia evolucionista” tem uma resposta à mão : no processo de hominização e humanização vêm a fixar-se as atitudes e crenças que provaram ser as mais vantajosas para a adaptação e sobrevivência dos grupos; seria o caso dessa resposta “religiosa”, que aliás não deve absolutizar-se nem, muito menos, pensar-se como uma característica inalterável de uma natureza humana permanente : quando a evolução tecnológica vier a dar aos humanos um domínio suficientemente grande sobre o ambiente natural, pode atenuar-se ou vir a desaparecer o suplemento de reforço adaptativo que as práticas religiosas nos davam (invocando “poderes” e “forças ocultas” para compensar as fracas forças humanas) ; e começar a impor-se a resposta de indiferença ou evitação, como se vai observando já hoje nas sociedades mais “evoluídas”. Tal é a teoria, nos anos recentes obrigada a versões mais matizadas, que não interessa examinar agora. Salientarei apenas o seguinte. - Compreende-se perfeitamente que as propriedades terapêuticas das plantas representassem um poderoso factor de adaptação e sobrevivência, mas é assim menos explicável o interesse de alucinogénios que alienavam ou distraíam os indivíduos da percepção normal e da atenção precisa ao meio ambiente, fragilizando a segurança dos indivíduos e do grupo, mesmo se tomadas por raros indivíduos ou apenas em ocasiões especiais. Por outro lado, o alheamento ou evitação relativamente à dimensão religiosa, não implicam nenhuma atenuação no seduzido interesse pela experimentação e a frequência desta. Antes pelo contrário, e é por isso que alguns crêem que tendo a prática religiosa normal frustrado nos indivíduos a reactualização da experiência do sagrado estaríamos, ou perante uma substituição dela, ou a tentativa de a recuperar. O que implica com (d).

Mas fiquemo-nos em que a aludida teoria de uma “selecção natural memética” é de razão suficiente para (c), e não disputemos se é de exclusiva razão suficiente, à parte alguma outra possível que tenha pelo menos equivalente razão suficiente (e que, de facto, está disponível). A meu ver, o mais forte problema que ela enfrenta tem a ver com o sentido do quadro geral da narrativa apresentada, e que está implícito muito especialmente em (d). Eis a questão : a conjunção de (a) até (e) dá-nos a garantia de que estamos perante uma genuína experiência do sagrado, como se julga em (d) ? A meu ver, nenhuma. O mais que podemos ter é uma simulação dela. Mas, para me explicar melhor, tenho de fazer ao leitor um pedido e um convite. O primeiro é que não perca de vista as notas essenciais características duma experiência do sagrado. E o convite é de vir comigo a revisitarmos a Caverna platónica, se ao caro leitor deste Tonel não repugna muito ir às caves do soberbo contemptor do nosso Diógenes.

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