sábado, julho 22, 2006

Desafios à interpretação #2


Propõe-se aos leitores do Tonel que construam uma (ou mais) interpretação(ões) da escultura Maman (1999), de Louise Bourgeois (há mais fotos aqui). Sugere-se que se apresentem leituras globais desta peça (de dez metros de altura) que tenham em conta o simbolismo de alguns aspectos na sua fundamentação. As linhas de leitura que avanço são apenas algumas janelas que se podem abrir na análise da obra para se chegar a uma interpretação global. Cá vão:

1. Porque tem a figura um tamanho descomunal?
2. Porque são as “pernas” da aranha tão longas e finas (tendo em conta que a escultura é pesada e enorme)
3. O que nos lembra a disposição das pernas da aranha?
4. Porque é esta aranha negra? Como se relaciona esse facto com o título?
5. As aranhas tecem teias. O que poderia representar esse elemento aqui omitido?
6. Como se relaciona o título com a escultura? E que significado podemos atribuir ao facto de o título da peça ser Maman (e não Mother ou Mère)?

Não sei se é irritante ou se soa condescendente ter linhas de leitura que chamem a atenção para aspectos simbólicos da peça. Se for, digam-me.
Aproveito para agradecer os contributos muito entusiásticos de mais vários leitores na análise da escultura de Vespeira (Menino Imperativo) nos "Desafios à interpretação #1" (ver aqui e aqui).

21 Comments:

Blogger salomé said...

Exigem-me o tempo e a preguiça mental uma representação avulsa:

Na mais imediata interpretação, a aranha é a mão em tensão. Pronta a aprisionar alguém pelo medo de se sentir prisioneiro. Daí a ausência da teia. Nada realmente encarcera a não ser uma qualquer dívida. Um sentir-se preso pela possibilidade de prisão. Soa-me a este jogo, a imagem: ao gozo da ameaça. Sem o verdadeiro propósito de esmagar. Daqui se infere a relação com a mãe (vigilante, a ver pela cabeça da aranha - atenta; que persegue com o olhar). A aranha (normalmente frágil às passadas do tempo) eleva-se numa grandeza paradoxal. Negra. Por tantas vezes a “aptidão” protectora da mãe confundir-se com esta mão que aprisiona. Uma dualidade de intenções que se afigura nesta mesma “mão semicerrada”. A mãe que se eleva com o intuito de proteger, prendendo? Ou a mãe que se alteia como ameaça de castigo que se confunde com protecção? Funciona, para mim, aqui o medo como uma lupa sentimental. E vemos o ser indefeso transcender-nos. Esmagar-nos apesar da sua habitual pequenez.

Que me seja perdoado o delírio (e o atraso na resposta aos desafios).

6:46 da tarde  
Blogger salomé said...

Acabei de me lembrar que há determinadas espécies de aranhas que comem os seus parceiros… mas isso levaria a uma interpretação completamente diferente. Talvez até ao complexo de Electra… Mastigarei o assunto.

7:02 da tarde  
Blogger Xor Z said...

Bem cá vai a minha interpretação da peça, espero que não fique muito longa.
Para mim, embora o chefe da barrica lhe chame logo aranha (se assim quiserem a minha interpretação nada muda), trata-se dum polvo. O polvo é talvez o caçador mais eficiente do mundo animal, isto é apenas um dado, pois o polvo, se bem se lembram, é o nome dum filme italiano sobre a Camorra que, aqui há uns anos, passou na televisão. Logo, esta escultura representa os longos tentáculos do poder e a forma como ele se insinua de modo subreptício. A salomé já falou da parecença entre a aranha e a mão que agarra e detém, no caso do polvo ele também forma um membro superior. Estamos, portanto. perante uma peça que representa os caminhos ínvios do poder (peço desculpa, mas para mim os caminhos do poder são sempre esconsos).
O título além de fazer uma relação entre mafia e a mãe que cuida, garante e protege, ainda atesta o poder da mãe que, como Freud tentou provar, é uma figura poderosa por inerência, a fonte da vida (isto se calhar devia ir aspado).

1:07 da manhã  
Blogger Alexandre Dias Pinto said...

Isto promete!

Interessantes análises e duas leituras que evitam a interpretação mais certinha e previsível. Foi um óptimo arranque. Como serão as leituras que aí vêm?

O Xor Z tem toda a razão: a figura não tem de representar uma aranha. Foi um erro meu ter escrito tal ideia porque esse dado condiciona a forma como os outros vêem a peça.

1:33 da manhã  
Anonymous O crítico said...

Para mim a grande aranha é uma espécie de um totem, a imagem de uma divindade de uma sociedade primitiva. Isso explica o seu tamanho desmesurado. Trata-se de uma deusa "negra", uma força negativa e com poder destrutivo. Mas, como mito, é uma figura fundadora da sociedade que a adoptou e uma explicação para a origem da humanidade, do mundo, etc. (Por isso se intitula Maman.) A pernas agressiva e poderosas e a teia aludem à sua capacidade destruidora.

3:50 da tarde  
Anonymous O crítico said...

Para mim a grande aranha é uma espécie de um totem, a imagem de uma divindade de uma sociedade primitiva. Isso explica o seu tamanho desmesurado. Trata-se de uma deusa "negra", uma força negativa e com poder destrutivo. Mas, como mito, é uma figura fundadora da sociedade que a adoptou e uma explicação para a origem da humanidade, do mundo, etc. (Por isso se intitula Maman.) A pernas agressiva e poderosas e a teia aludem à sua capacidade destruidora.

3:51 da tarde  
Blogger UrsaM said...

O que Louise Bourgeois pretendeu só ela sabe mas que sua obra traz o apelo ao inconsciente com seus padrões ancestrais, fica claro até através deste desafio.
Cada um percebe a sua verdade projetada e a primeira coisa que me ocorre é a função de fiandeira, como no mito de Aracne. De fato ela trama mas é prisioneira de sua própria teia e do fio condutor de seu destino, como a moira. De acordo com a história da infância familiar da escultora é bem provável que o mito de aracne esteja por trás desta obra, explicando, inclusive o nome escolhido.
A prisão narcísica, a teia e à mãe, lembra o estágio da criança presa ainda a identidade de sua "Maman". Assim a Aranha, imensa, tanto pode representar a figura materna assustadora (como já disseram acima) e que, entretanto, está presa ao seu destino, como a aranha-infanta que perdeu o fio condutor e que se pretende imensa, solta, talvez adulta mas carrega a mesma sina da mãe terrível.
Outra visão mais banal mas bem provável dentro da temática e da infância de Louise, poderia ser a imagem da vagina, peluda e negra que devora as presas em sua teia lubrificada.

1:55 da manhã  
Blogger Woman Once a Bird said...

Com a fobia que tenho, não consigo ver para além do óbvio, aranha com as suas patas horríveis e articuladas. Na minha perspectiva (de terror), o tamanho da escultura evoca o que vejo quando tenho a infelicidade de me cruzar com uma criaturinha destas... Para mim, assumem descomunal tamanho, mesmo quando minúsculas.
No que diz respeito ao título, só consigo evocar aquele péssimo hábito de carregarem as criancinhas, no milagre da multiplicação.
E mais não quero ver, porque me desagrada mesmo.

12:46 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Penélope,o modelo de perseverança, de fidelidade, eternizada através do mito da teia... "é notório o respeito que todos tributam a Penélope. E esta veneração pela mulher, sinal seguro de progresso nos costumes, igualmente se evidencia no país dos Feaces, a cuja Rainha, Ulisses se apresenta em primeiro lugar como suplicante". ( palavras de uma autoridade máxima nos estudos ´da cultura clássica, M.ª Helena Rocha Pereira)
H.

11:12 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Mas esta é a minha leitura, pois sei (é mt mais que provável) que a criadora foi movida por outros sentimentos... (fiz alguma pesquisa... : ))

11:18 da tarde  
Blogger Alexandre Dias Pinto said...

Cara Aschnoor: obrigado pela análise inspirada e pelas possibilidades de leitura que ela abre.

Cara WoaB, compreendo a sua repugnância, embora não a partilhe. Percebo como ela inibe o seu comentário. Mas o que escreveu acaba por ser uma contribuição interessante.

Cara H[elena?]:interessantíssima a sua análise. A aranha como Penélope Excelente. Discordo redondamente que a nossa interpretação tenha de ir ao encontro da da autora. A obra de arte, quando tornada pública, autonomiza-se e semanticamente corta o cordão umbilical que a ligava ao seu criador.

11:40 da tarde  
Blogger intruso said...

...a minha leitura é em alguns aspectos semelhante à já exposta pela Salomé... não consigo desenvolver muito mais o tema.

(e neste caso, com um título tão expressivo (e irónico...) não consigo fugir à dualidade entre a protecção e a prisão, o sentido "afectuoso" do titulo e a escala ameaçadora da escultura... formas subtis de prisão, intencionais ou inconscientes...)

mas mais do que falar daquilo que a peça pode ou não representar, ela é uma escultura criadora de espaço, pelo que a experiência de estar fora ou pelo contrário estar dentro/debaixo desta "maman" será determinante... na definição do que é a obra.
(sair e entrar e passar entre as pernas deste "monstro"... e senti-la à distancia como se aproximasse de nós... ou senti-la em cima, ameaçadora... ou protectora através de uma frágil "campanula" de espaço abrigado, não fechado...)
o sentido que ela adquire tb é um pouco diferente, estando num espaço contido e encerrado ou pelo contrário num vazio liberto como uma praça... situações diferentes de tensão, ameaça, possibilidade, instante parado... por pouco tempo.

(...este é tb um daqueles casos em que o título "define" uma atitude/postura/conjunto de sentidos possiveis por parte da autora... de algum modo direcciona mentalmente o observador... mas podemos sempre ignorar o título, ou nem sequer entender uma relação directa com a peça...
a questão dos "titulos" na obra de arte é sempre complexa...

12:12 da manhã  
Blogger musqueteira said...

Porque é que uma imagem nos lembra outra?!... Porque se teima em interpretar a "peça" ou "peças" que os srtistas expõem?!... Porque queremos dar referênciais a tudo... se "tudo" faz parte de um "todo" que na maior parte das vezes... nem os artistas pretendem retratar os inúmeros porquês que nos completam nesse maravilhoso "todo" universo?!É isso que me lembra esta peça... um ponto casual de um todo que se abeira a um novo desafio, colocado alí mesmo á sua frente: a escalada de mais um ponto que pertence a um "todo"...cujo objectivo é caaminhar até ao limite do seu topo!

3:13 da tarde  
Blogger Isabel Magalhães said...

Não venho responder ao apelo da possível - minha -interpretação por absoluta falta de tempo mas não posso deixar de dizer da experiência inesquecível de ter visto a exposição de Louise Bourgeois no CCB, na década de 90, da qual faziam parte as 'aranhas'.

Das obras expostas tb me marcou profundamente uma escultura em mármore branco de um 'Pointer' sentado mas com outras simbologias.

Gostei de ter passado por cá. :)

5:07 da tarde  
Blogger salomé said...

Sendo uma questão que me parece pertinente (musqueteira: porque se teima em interpretar a "peça" ou "peças" que os srtistas expõem?!), aproveitei para desenvolver algumas linhas acerca do tema, no mein kampf.

6:30 da tarde  
Blogger Alexandre Dias Pinto said...

Começo por lhe agradecer os contributos interpretativos que a Salomé deixou no Tonel de Diógenes e por ter levado o problema da interpretação da arte para o seu interessantíssimo blogue, o Mein Kampf (http://100-sem-tido.blogspot.com/2006/07/porque-se-teima-em-interpretar-pea-ou.html#comments).

Concordo com muito do que aí diz - como não podia concordar? são ideias geralmente aceites na teoria da arte. Avanço apenas uma discordância com a musqueteira (que deixou um comentário no Tonel) e outra em relação a um ponto de que a Salomé aqui parte.

A Musqueteira questiona-nos sobre a necessidade de se interpretar uma obra de arte (i.e., porque havemos de achar que uma obra de arte tem de ser interpretada? Porque não vê-la apenas como uma entidade, um objecto em si?). O facto é que uma obra de arte é um elemento significativo construído pelo artista para comunicar com o espectador/leitor/ouvinte. Tal implica que cada obra contém um conjunto de signos ou elementos com significado. A obra potencia uma série de interpretações e significados. Não é um "mono", mas sim um objecto semiótico. Pede uma interpretação porque se trata de um objecto artístico.

Em relação ao que a Salomé diz, apenas uma discordância. A nossa interpretação deve centrar-se na leitura dos significados potenciados pela obra. Não devemos pois andar à procura da intenção do autor na produção da obra nem do significado que ele deu à sua criação. A "falácia da interpretação" é falível e redutora. Não é o caminho a seguir. Como a Salomé afirma a certa altura, importa sim ver que leituras o público consegue produzir.

9:03 da tarde  
Blogger Xor Z said...

Caro Alexandre
A interpretação da obra radica, na minha opinião, no horror do vazio. Quero eu dizer com isto que o ser humano tem tendência a preencher aquilo que vê (o mundo, entendido no sentido lato) de acordo com as categorias humanas, isto é, racionais e com ele construir uma visão do mundo (passo o significado filosófico subjacente). Objecto sem sentido é objecto invisível e vice-versa. De qualquer modo, deixando-nos de teorizações, se não pudéssemos postular significados para as coisas que sentido teria a vida (o sentido da vida, diz-nos Camus, é não ter sentido nenhum. Com todo o respeito por esta opinião eu perfiro os Monty Pithon). Quem, no meio da rua, não tentou construir histórias (significados) acerca dos passantes?
Se ninguém tentasse interpretar as obras não seria, também, uma frustração para o artista?

11:45 da tarde  
Blogger Alexandre Dias Pinto said...

Caro Z:

Não sei se a minha verborreia me atraiçoou e se o que eu pretendi dizer saiu ao contrário.

Se dúvidas há, esclareço-as. É como o Z diz: uma obra de arte está prenhe de sentidos potenciais, que o observador pode actualizar, realizar. É a obra que tem os signos dessa interpretação. Era isto que eu queria dizer.

Por outro lado, há uma diferença entre os sentidos de uma peça artística e os dos fenómenos biológicos ou sociais. Na primeira, existe uma intencionalidade de um artista em criar um processo comunicativo. (A obra de arte é um artefacto com significado cultural.) Uma obra de arte distingue-se de um fenómeno biológico ou social porque este não foi CRIADO por ninguém com propósitos culturais (embora possam ser fenómenos culturais). Veja o exemplo, três pessoas que decidam atravessar o Louvre a correr com a intenção de tornar este acontecimento (este happening) um acontecimento artístico, tornam-no uma obra de arte porque existe essa intencionalidade à partida e porque o tornam um acto significativo e... estético.

Não concorda, Z?

12:38 da manhã  
Blogger Xor Z said...

Exactamente. E mesmo que a sua intenção não fosse essa ela poderia ser interpretada nesse sentido (a das 3 pessoas a correr). Por essa razão é que dizemos: que se lixe o que o artista queria ou tinha intenção. Por isso é que eu vi na peça da aranha, na perspectiva da fautora, um polvo e continuo a vê-lo.

4:30 da tarde  
Blogger rouxinol de Bernardim said...

São três polvos distintos e um só polvo verdadeiro!
Não, não é o Pai, Filho e Espírito Santo! Isso seria uma interpretação blasfema!!!

Vejamos: é o polvo da corrupção, a copular o polvo da comunicação social, dando origem ao filhote-polvo, chamado Alberto João!

Vejam lá no meu blog!

Esta escultura poderia ser o símbolo do meu blog!!! Hei-de pensar nisso!!!

12:36 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

gostei do que li.....massssssss
lembram-se de Aracné????????
belo mito o de Aracné e da sua teia....

8:52 da tarde  

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