sexta-feira, fevereiro 01, 2008

O “PESSIMISMO NACIONAL” REVELADO ( 5 ) : UMA “FATÍDICA SABEDORIA”?


“Escreva, escreva o seu livro sobre Portugal. É preciso que alguém diga a verdade de nós.”
O incitamento endereçava-o Manuel Laranjeira ao seu amigo Miguel de Unamuno, na primeira carta que lhe escreveu de Espinho, a 24 de Agosto de 1908. O livro viria a ser Por Terras de Portugal y España. Respondia-lhe o grande humanista basco, lembrando uma visita há pouco feita a Alcobaça, aos túmulos de Pedro e Inês. “Essa visita me ha hecho pensar en todo lo que de trágico, y trágico a la griega tiene Portugal”… E prosseguia, na mesma: “Hay veces en que creo que ustedes sin saberlo, por un acto de sabiduría colectivamente subsconsciente, han llegado al más triste fondo de la verdad humana, à la vanidad de todo esfuerzo, al final fracaso de toda vida individual o nacional, y entonces Antero se me aparece como un terrible profeta, vocero de todo un pueblo. Portugal, que es el extremo occidente, no se dará la mano com el extremo oriente y no habrá llegado à la terrible verdad que descubrio el Buda? Debajo de toda la podedumbre política, protegida acaso por ella, palpita una fatídica sabiduría: la consciência dolorosa de que es ilusión el motor da la civilización humana. No sé si lo que ahí les pasa es locura o no es, más bien, la cordura final de Don Quijote, la cordura precursora de toda muerte.”

Era o porta-voz Antero, como aliás poderia ser Camilo (a quem Laranjeira dedicara um ensaio que merece ser considerado dos primeiros tentames fundamentais de interpretação de conjunto da vida e obra). Mas não só eles: « Fué Laranjeira quien me ensenó a ver el alma trágica de Portugal…» E respondia-lhe o nosso: «Tem razão: Portugal é uma terra trágica, “trágica a la griega” (…). Este princípio de “fatídica sabedoria” ter-nos-á permitido chegar, como V. às vezes crê – “al más triste fondo de la verdada humana”? Talvez, amigo, talvez. Afinal, o Homem através da sua insaciável conquista de verdades, o que é que tem conseguido? Desfazer ilusões, desfazer ilusões, desfazer ilusões. [sic] Desmanchar ilusões é reduzir o coeficiente de felicidade e por consequência diminuir a possibilidade de chegar à terra prometida… ou desejada. O Homem só adquire uma verdade à custa duma desilusão; como vê, por um preço desmedidamente doloroso. A última verdade será a que nos desmanchar a última ilusão, - a ilusão da imortalidade. No dia em que o Homem, assassinada a última esperança pela última verdade, adquira a certeza de que a sua passagem na terra é um traço efémero, e que o seu desejo de eterno é um desejo perdido e vão; nesse dia trágico, em que o Homem tenha de renunciar à sua loucura de absoluto… - já se sabe, D. Quixote também ficou cuerdo… para morrer. Para o suicídio! – não será afinal este o sentido da vida, da vida humana, pelo menos? Talvez, talvez. »

Certo, certo é que esta “terra trágica”, que podia surgir figurada neste “Espinho enervante e melancólico” tinha, apesar disso, seus atractivos. – Três anos depois, enquanto em Salamanca Unamuno trabalhava no seu Del Sentimento Trágico de la Vida, escrevia a 17 de Março de 1911 ao nosso Laranjeira: “Qué bien me vendría ir al más olvidado rincón de esa tierra, tan dolorosa pero para mí tan sedante, y acharme al pie de un pino y ver pasar las nubes por entre sus ramas!”

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