quinta-feira, agosto 07, 2008

JOGOS OLÍMPICOS


« Coimbra, 25 de Julho de 1980.
Jogos Olímpicos. O que o homem é capaz de fazer do homem! Até onde se pode levar o desrespeito pela sua condição! Aquelas medalhas de oiro, prata e cobre, em vez de honrarem a espécie, celebram apenas a desumanidade do nosso tempo, que confunde a mecânica com a fisiologia, e põe no mesmo pé de igualdade a máquina que sai de uma oficina e um corpo que nasce dum ventre. Que exige, com igual insensibilidade, mil rotações a um motor e outras tantas pulsações a um coração.»

Miguel Torga


Quando eu ainda tinha tempo e paciência para ver televisão, lembra-me das vezes que assisti, horrorizado, àquelas gigantescas paradas de uniformismo colectivo das “massas”, exibindo cenografias rigorosamente orquestradas num gigantesco mecanismo esmagador de qualquer saliência ou identidade das pessoas individuais, cujos gestos serviam apenas para compor a figura do idolatrado líder ou os símbolos do Partido. Não custa prever que na “festa de abertura” de amanhã, adentro da policiadíssima “Great Firewall of China”, teremos uma versão politicamente correcta desse espectáculo degradante em que chineses e norte-coreanos são especialistas, colaborado e refinado com as tecnologias da comunicação e da propaganda comercial “ocidentais”. O que ainda não há muitos anos parecia impensável a não poucos ingénuos aí está: a mediatizada síntese perfeita entre o despotismo totalitário do mandarinato imperialista chinês e a ideologia tecnocrática e capitalista das chamadas “democracias”. É a festiva demonstração de como o capitalismo convive muito bem com os mais díspares e aparentemente antagónicos regimes políticos.

Se me lembra bem, foi pelos anos em que Torga acusava no registo em epígrafe a total perversão do “espírito olímpico”, que eu ouvi falar de atletas na União Soviética que eram obrigadas a ter relações sexuais (às vezes com os próprios treinadores) para engravidarem e, ao fim de 2-3 meses de gravidez, abortarem pouco antes dos Jogos: era uma maneira de conseguirem um nível hormonal óptimo com efeitos na força e resistência musculares… Mas já antes e depois se vinham desenvolvendo outros métodos de “treino” pouco convencionais. Nos anos 90, uma investigação levada a cabo na ex-República Democrática Alemã revelou um vasto, sistemático e continuado plano, desde meados de 60, de experimentação bioquímica e dopagem maciça de milhares de atletas, com óbvia ênfase nos de alta competição. Abertos e vistoriados os arquivos do Ministério da Segurança do Estado (o “Stasi”), lá estava bem documentado, com a habitual minúcia burocrática alemã, o envolvimento de cientistas e académicos “ilustres”, investigadores, médicos, treinadores, etc. As cobaias e vítimas eram os atletas, muitas vezes enganados com “tabletes vitamínicas”, quando não forçados sob ameaça de represálias de natureza social e profissional. Lá estão detalhados também os lesivos efeitos secundários, físicos e psicológicos, sofridos principalmente pelas jovens atletas, às vezes expostas a esses tratamentos desde os 9 anos de idade. Tudo, evidentemente, submetido à planificação central dos órgãos estatais e dos quadros superiores do Partido.


É de lamentar e de temer que aquilo que, a Leste, estava tão bem documentado, formalizado e centralizado, tenha andado e ande muito mais informalmente, disperso, oculto e inacessível ao escrutino público nas nossas sociedades “abertas”, que gostamos de pensar livres, democráticas, respeitadores dos direitos humanos e muito bem aconselhadas por múltiplas “comissões de ética”.

De maneira que, desde os nos 70 do passado século, sempre mais e mais, os “jogos olímpicos”, afora a competição política dos nacionalismos e a comercial entre patrocinadores oficiais e não oficiais, são principalmente competições entre a equipa dos estimulantes, esteróides anabolizantes, injecções de androgénios e eritrócitos - e a equipa dos testes de despistagem. Ora, como aquela se reforça todos os dias com novas drogas de síntese ainda não detectáveis e métodos de iludir as já detectáveis… Está a ver o leitor quem é que leva a medalha, e quem é que tem a partida tão perdida que nos deixa a impressão de que os testes, os comités anti-doping e os badalados casos apurados e sancionados são mera propaganda para manter no público a crença de que o “espírito olímpico” está vivo e há jogo limpo. Mas, se “o público”, seja lá como for, o que quer é “vibrar” com recordes e recordistas cada vez mais “espectaculares”… Pois o respeitável público bem pode contar com mais animação, porque já se voltou a curva e já se começa a correr na pista da engenharia genética: quando se injectarem genes directamente nos músculos, pulmões e demais órgãos e tecidos relevantes para melhorar o rendimento “desportivo”… Para já, só nos animais, depois… Como é que eles serão detectáveis?... E qual é a meta para onde correm? – Deixemos dissipar-se a nuvem de poluição que cobre Pequim, uma vez que os déspotas ordenaram a transitória paragem na laboração de centenas de fábricas na cidade e arredores, a ver se distinguimos mais nítida a meta. Então, que temos?...

… Temos suposta a história que normalmente se conta sobre a “evolução” do género Homo neste mundo. Temos as tecnologias precisas para intervir nessa evolução. Temos as cada vez maiores pressões ambientais, ou sejam as decorrentes do dinamismo natural, ou sejam as precipitadas pelos despóticos frenesins desenvolvimentistas, como esses que estão a destruir rapidamente a maravilhosa e variada paisagem da China. Por outro lado, temos as multidões identificadas com os triunfadores dos Jogos, que eram uma espécie de heróis semi-divinos, laureados pelos deuses. E estes sonhados deuses fazem tudo o que os humanos gostam de fazer, mas em grande e, sobretudo, livres da decadente velhice e dos sofrimentos da mortalidade. Eis a meta. Os atletas são seres humanos modificados para competição. Os humanos somos seres modificados pela “evolução”. Parece não haver boas razões para discernir ao certo, em última análise, as modificações “naturais” das “artificiais”; e muito menos para decidir se aquelas seriam necessariamente “boas”, e estas necessariamente “más”. Subindo as encostas do Olimpo, a meta é modificarmo-nos para sermos o que sempre desejámos ser: - deuses.

Mas, todos nós, dando por isso ou não, querendo isso ou não? Os pendores olímpicos são escarpados, cada vez mais íngremes, os cumes estreitos: são precisos bons equipamentos, pulmões bem oxigenados, nem que seja a poder de eritropoietina… Leitor amigo: não lhe esqueça que a corrida evolutiva é uma competição, e que há uma “selecção” – natural ou artificial! Já ouviu por certo falar do “sobrehumano”, vaticinado por um famoso filósofo do XIX que também gostava de escalar cumes. Menos conhecidos são os “parahumans” previstos por Joseph Fletcher, e concebidos para ficar a meia-encosta… Foi já em 1974, no livro The Ethics of Genetic Control, e o seu autor é tido como um do padrinhos da “bioética”(!)…

“Parahumanos” é um nome significativo. Em 2001, nos laboratórios da universidade de Stanford, o biólogo Irving Weissman injectou células estaminais do tecido neural de fetos humanos abortados no cérebro de fetos de ratos: as humanas evoluíram normalmente para células neuronais e gliais, aparentemente bem integradas no tecido cerebral do rato e constituindo 1% deste. Já em 1996 o neurologista de Yale Eugene Redmond tinha feito o mesmo com macacos caribenhos. Ambos continuavam os trabalhos pioneiros de hibridação feitos por Ilya Ivanov, na União Soviética dos anos 20. Falando de norte-americanos e russos, falemos de chineses para voltarmos àquela festiva síntese multicultural de que a festa de amanhã há-de ser um grandioso símbolo. Seja pois o dr. Ying Chen e colaboradores da universidade de Xangai que, em 2003, trnsferiram núcleos de células somáticas humanas para ovócitos enucleados de coelhas; deixaram os embriões desenvolver-se até aos 14 dias e depois mataram-nos; como resultado, as células estaminais produzidas (e colhidas, escusado será dizer) continham o genótipo humano e genes mitocondriais das coelhas… - Homens ou coelhos?... Homens ou macacos?... Homens ou ratos?... – “Parahumanos”…

Quanto à outra face da desumanização que ressentiu o nosso Torga, os engenheiros Ian Pearson, Chris Winter e Peter Cochrane, que nos anos 90 trabalharam nos laboratórios da British Telecom no projecto chamado “Soul Catcher” já propuseram nomes para as várias espécies do “sobrehumano” que sucederão ao Sapiens: Homo Cyberneticus… Homo Hybridus… Homo Machinus…

Isto é uma ínfima amostra do que publicamente se sabe, a confrontar com o que ficou dito acima sobre o ambiente de confiança e transparência que creditamos às nossas sociedades “abertas”. Acresce o facto de, na China e vizinhanças, não existirem “comissões de ética” a empecilhar o caminho. A perversa vantagem disso é que, às vezes, aparece gente a falar directo e claro. Como exemplo, fiquemos por hoje com estas palavras de um político de Singapura, em entrevista ao jornal Boston Globe, de 29.04.1994, que eu dedico (sem grandes esperanças) aos nossos comissários de ética e (com mais esperanças) ao leitor que sabe que tem de fazer ou refazer, em sua consciência – enquanto a tem… enquanto pode… - as opções decisivas que urgem. Dizia o sr. Lee Khan Yew: « Para nós, na Ásia, um indivíduo é uma formiga. Para vocês é um filho de Deus. »



[ A comunicação “Hormonal doping and androgenization of athletes: a secret program of the German Democratic Republic government”, bem como as mais feitas por ocasião 16º Congresso Internacional de Química Clínica - subordinado ao tema Doping in Sport and Society: Misuse, Analytical Tests and Legal Aspects -, realizado em Londres, 1996, pouco tempo antes dos Olímpicos de Atlanta, podem ser lidas integralmente aqui: http://www.clinchem.org/cgi/collection/doping

A linda caveira da fotografia supra está desvestida da pele sintética tatuada com o respectivo nome de fabrico. Neste artigo da Wikipedia, o leitor interessado tem uma boa notícia introdutória acerca do nome e finalidades da empresa fabricadora: http://en.wikipedia.org/wiki/Transhumanism

Se quiser ouvi-la falar, um dos teóricos mais famosos dessa empresa, actualmente na universidade de Oxford, faz aqui uma curta e atraente sessão de propaganda:
http://www.youtube.com/watch?v=Yd9cf_vLviI

Aqui, ameaçam-nos com certas “unpleasant consequences”, se não aderirmos à campanha:
http://www.youtube.com/watch?v=455wiqupFw0

E aqui verá o leitor outro exemplo de reputadas universidades que patrocinam e cada vez mais publicamente vão cobrindo a campanha: http://sss.stanford.edu/ ]

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Olímpica igualmente é a insistência no cultivo da citação, Pedro, ainda que seja da maior elevação... ;)))
Um abraço.

11:16 da tarde  
Blogger Pedro Isidoro said...

Caro Anónimo:

Agradeço o justíssimo reparo. São disfuncionais tiques profissionais.
A ver se me modero.

12:17 da manhã  

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