quinta-feira, setembro 25, 2008

Barroco, Guercino e Góngora



Acho curiosa esta pintura de Guercino. Não a acho bela. Não tem a delicadeza de um Boucher, nem a sensualidade de certos Fragonards e muito menos a expressividade de um Poussin. A meu ver não tem. Mas o gesto mordaz e paródico que o quadro encerra é subtil.

O motivo da Arcádia era cândido, harmonioso e sereno. A Arcádia, recorde-se, era aquele lugar campestre e idílico onde os pastores e as pastoras tocavam as suas flautas (tocavam as suas flautas?) e se amavam e onde o tempo parecia não passar. Este foi um motivo que muito cativou a Antiguidade greco-latina, depois a estética renascentista e, por fim, o Neoclassicismo.

O que há de subtil e interessante neste quadro de Guercino, pintor Barroco? Ora, o Barroco é a arte do excesso, da intensidade; é a arte que tematiza a morte e a fugacidade da vida. Pois neste quadro, que retoma o motivo da Arcádia (e que se intitula, como outros, Et in Arcadia Ego), os dois pastores espreitam por entre uns troncos e são surpreendidos pela presença da caveira e da morte no seu paraíso idílico. E o que aconteceu à luminosidade e à vegetação ora verde ora dourada pelo sol de outros quadros sobre a Arcádia? São agora cores foscas, "natureza morta", ruínas e ensombramento.

Remato o post com um poema emblemático do mestre dos poetas barrocos espanhóis, Luís Góngora, sobre a acção do tempo sobre o ser humano e, sobretudo, sobre uma mulher bela (maior tragédia não há!):


Mientras por competir con tu cabello,
oro bruñido al sol relumbra en vano;
mientras con menosprecio en medio el llano
mira tu blanca frente el lilio bello;

mientras a cada labio, por cogello,
siguen más ojos que al clavel temprano;
y mientras triunfa con desdén lozano
del luciente cristal tu gentil cuello:

goza cuello, cabello, labio y frente,
antes que lo que fue en tu edad dorad
aoro, lilio, clavel, cristal luciente,

no sólo en plata o vïola troncadas
e vuelva, mas tú y ello juntamente
en tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.


2 Comments:

Blogger Alexandre Dias Pinto said...

P.S. Acabo de reparar no escopro que um dos pastores segura na mão esquerda e no buraco que perfura a caveira. É certo que a cavareira já é caveira há alguns anos. Mas como não estabelecer uma associação entre os elementos, ainda que simbólica.

11:16 da tarde  
Blogger Pedro Isidoro said...

Caro Alexandre:

O pastor trocou o cajado por um escopro? Mas ele tem diante a escultura acabada do tempo!
Pode talvez pensar-se numa craniotomia para libertar a Arcádia dos maus espíritos...

Onde viu um "buraco", outros vêem uma... mosca! (Acompanhando o roedor rato, do lado esquerdo.)

Perdoe-me estas simbólicas pouco poéticas, e venha mais Góngora!

12:01 da manhã  

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