segunda-feira, setembro 22, 2008

"Praia de Mira, 22 de Setembro de 1987"

« Portugal não parece o mesmo. Em meia dúzia de anos perdeu o carácter. Quem familiarmente lhe conhecia as feições que o singularizavam, fica espantado quando agora o percorre. Tudo mudou. As casas, as ruas, os trajes, os hábitos. Da praia de Mira que trazia na memória, e onde, num cenário mágico e a comungar com almas que o mereciam, vivi algumas das horas mais autênticas da minha vida de poeta, restam o mar, sempre revolto, e a capela, de madeira ainda, como os castiços palheiros de antanho. E é neles que consolo os olhos desiludidos. O velho oceano, na sua imutável e fascinante inquietação, e o templozinho de tábuas, nas sua incorrupta e amorável rusticidade, dão não sei que razão calada ao meu espírito desencantado dum progresso que não sabe melhorar sem desfigurar. »

Miguel Torga, Diário, vol. XV.

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