quinta-feira, setembro 18, 2008

POESIA E CIDADANIA


Encontra-se já disponível ao público leitor português uma obra rara, se não mesmo única, e que logo por isso não mereceria passar sem reparo. Trata-se de uma antologia de 90 poemas das tradições literárias dos países de língua oficial portuguesa, desde o século XVI aos nossos dias, organizada em torno do conceito de Cidadania. O título, tirado de um verso de Mário Cesariny, é O Nosso Dever Falar e são seus autores Alexandre Dias Pinto, Carlota Miranda, Orlanda de Azevedo e Pedro Valente.

A obra pode ser apreciada como uma antologia poética em si mesma, contendo uma amostra significativa e proporcionalmente bem distribuída de autores lusófonos, que decerto agradará aos estudiosos e amadores deste género literário. De facto, é uma amostra relevante e capaz de responder à seguinte questão: - nas particulares circunstâncias de tempo e lugar que viveram, que aspectos da vida social é que mais feriram a sensibilidade dos poetas e como é que estes lhes responderam? Mas o livro tem outro propósito, não menos importante e valioso. Os autores, sendo professores, não esqueceram os seus alunos – “que são os destinatários principais desta obra” – nem as finalidades pedagógicas duma formação cívica e da educação para a cidadania, que alegadamente se tem procurado promover na escola portuguesa, até a nível do currículo formal. (Cabe aqui uma palavra de reconhecida lembrança a um Ministro da Educação – José Augusto Seabra – que foi o primeiro, atenuados os frenesins propagandísticos do sectarismo revolucionário pós-1974, a tentar promover seriamente uma formação cívica na escola. Já o tínhamos lembrado aqui, a propósito de um escritor português que teria entrada obrigatória numa antologia desta espécie com textos em prosa, e que os autores desta de poesia bem nos poderiam dar a seguir…)

E assim é que a presente colectânea apresenta um grupo de 30 poemas acompanhados, cada um deles, de instrumentos didácticos de apoio à leitura e interpretação dos textos, disponibilizando também actividades de motivação; roteiros de leitura dos poemas; comparação e propostas de reflexão, discussão e produção de respostas pessoais e criativas aos poemas apresentados. E assim sendo, temos achada e tem de ser sublinhada a maior valia desta obra: o ser ela, em si mesma, um caso exemplar de intervenção cívica. Exemplar e oportuno.

Sobre tão instante e urgente oportunidade, não posso deixar de citar um importante trecho do prof. dr. Manuel Gusmão – que prefacia o livro e é ele próprio um dos poetas antologiados:

« Embora vivamos numa época em que se acumularam imensas forças sociais e humanas, de natureza científico-técnica e cultural, estamos também a viver tempos em que os poderes de decisão parcem cada vez mais longínquos e cada vez mais empenhados na redução de direitos que ainda recentemente eram considerados como adquiridos civilizacionais, por diferentes grupos culturais.
« Esta situação, a tendência para uma submissão “inexorável” do poder político ao poder económico, o desequilíbrio injusto na distribuição social de direitos e deveres, a ideia profundamente degradada que os cidadãos parecem ter da acção “política” e dos “políticos”, os sinais de crise da representação política na Europa, a quebra das relações de pertença e a fragmentação da figura do cidadão nos seus diferentes “papéis” – o de consumidor, utente, cliente, telespectador, eleitor, etc. – tudo isto parece tornar necessária a Educação para a Cidadania e, ao mesmo tempo, coloca-lhe algumas exigências para que não fique prisioneira da endoutrinação. Uma dessas exigências é a da exposição da pluralidade das versões de cidadania; uma outra deverá ser a explicitação tão rigorosa quanto possível das diferenças que marcam essas versões.
« Uma exigência e uma dificuldade decisivas surgem quando assumimos que a educação para uma cidadania democrática deverá ser ela própria uma formação democrática. A resposta poderá estar na procura e na participação dos estudantes enquanto protagonistas da sua aprendizagem e sujeitos activos da avaliação. Esta participação não prescinde do professor, antes implica a sua destreza, a sua arte e a sua honestidade intelectual. »

Permita-se-me um leve comento sobre a “dificuldade decisiva”, no quadro da situação acima descrita. Infelizmente, a “participação dos estudantes enquanto protagonistas da sua aprendizagem” é uma condição ideal cada vez mais problemática, se os “principais destinatários” deste livro e do acto educativo têm cada vez mais dificuldades em suportar a escola (mais precisamente: as “aulas”, de qualquer tipo que sejam). São ponderosas dificuldades de vária ordem, das quais ocorre imediatamente uma, por mais e mais patente aos estudantes e às famílias: as saídas profissionais não compensam (para a grande maioria) os muitos anos de vida passados na escola. É uma situação literalmente quase sem saída. Portanto: que “formação cívica”, para jovens que (na grande maioria) terão cada vez menos trabalho, e esse precário e explorado, na sociedade a que pertencem? Mas, sublinho, esta é apenas uma dificuldade, socialmente a mais aparente e a mais ligada à natureza e função paradigmáticas da instituição escolar. (Outra tem a ver com aquela denúncia de Torga aqui posta no passado 12, com a diferença de que hoje vamos vendo melhor que a “comunidade de solidões” não é comunidade nenhuma… e as “impulsões” se fixam e exaurem na inerme apatia duma insensibilidade embrutecida, ou tolhida pelo medo… ) Por isso e pelo mais, bem se apela à imprescindibilidade e habilidade dos srs. professores (e, já agora, dos pais… se eles não estivessem mentalmente cada vez mais parecidos com os filhos). Seja. Desde que a “destreza” e a “arte” dos srs. professores ao menos consiga satisfazer uma elementar e básica condição de qualquer eficácia pedagógica: - em situação de aula, serem uma autoridade capaz de suscitar o respeito dos alunos, e preparada para proteger os interesses dos que têm uma mínima boa vontade de aprender. É que, hoje mais que nunca, a “cidadania” e os “direitos humanos”, ou começam no vivo e exemplar comportamento imediato dos responsáveis próximos, ou são contraproducentes aos valores que pretendem servir.

Tudo isto é extrínseco aos autores deste livro. Mobilizando e utilmente preparando o acesso a vozes que importa ouvir, os autores cumpriram um exemplar acto de cidadania. Bem hajam por isso. É connosco agora o… nosso dever falar!




[ N. B. Como disse, esta antologia trata de poetas lusófonos, não exclusivamente de portugueses. Estimaríamos saber que alguma competente entidade interessada em serviço público, algum dos mil e um institutos, comissões, secretariados e fundações, não se dedignou apreciar a importância desta obra e promover a sua divulgação nos países lusófonos. ]

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