quinta-feira, outubro 02, 2008

"S. Martinho de Anta, 2 de Outubro de 1958"

« Há certos momentos em que apetece desanimar do nosso camponês. É difícil a gente harmonizar as suas imensas virtudes com o emparedamento humano em que se obstina. Irmão gémeo, mas atardado, do proletário, que, embora à custa dum certo desenraizamento, pode aprender nos meios citadinos a exigir das classes dominantes uma progressiva dignificação, não tem, como ele, a mais leve sombra de disponibilidade revolucionária. Resignou-se de tal modo à condição de filho infeliz da vida, de lama da espécie, que não dá, nem quer dar, um passo para além do seu quotidiano sem esperança. Lutar, sim, mas pela couve de que faz o caldo, ou pelo balde de água com que há-de regar a couve. Como um simples bicho instintivo, defende simplesmente o osso que rói. Fora disso, acobarda-se, e regressa sornamente ao comodismo das sujeições presentes. Talvez porque o despojaram sempre, em nome de Deus e de César, apenas vê gadanhas, mais aguçadas ainda, nas mãos do futuro. Um fisco com aperfeiçoados ardis e uma caixa de esmolas com duplicadas bocas. Rotineiro empedernido, qualquer experiência o perturba, e nenhuma aventura verdadeiramente o seduz. Muito rogado ou muito apertado pela necessidade, lá se deixa às vezes convencer a semear na vida uma semente inédita. Mas é quase certo, mormente se os resultados do ensaio não são evidentes à primeira vista, desamparar a insólita novidade antes da desmama. Analfabeto e suspicaz, desconfia da cultura e da força das ideias, agarra-se ao nada que tem com unhas e dentes, e é, paradoxalmente, um pedinte e um reaccionário. »

Miguel Torga, Diário, vol VIII.

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