quinta-feira, abril 01, 2010

FERIA QUINTA IN CENA DOMINI 1963


Já uni os artelhos para a morte.
Minha mãe velha espera o tempo nos seus ais.
Quinta-feira Maior ainda: a quantas vi a tarde roxa!
No lava-pés dos pobres ardia o pão consumado.
Mas o Senhor não toca o seu fogo a quem quer,
Nem por já ser o dia há-de ser a lembrança.
O pecado é maior que a escara, a compressa, a bugia,
E o peso real da morte é alto na balança.
Como uma agulha o nosso coração posponta o tempo e mal alcança.
Sinos, parai! Desnudemos os ossos sem altares:
Que toda a imagem cesse aos olhos vãos sem o sal da pena.
Pecámos a extensão da vida reparada,
Fez-se-nos a noite à estrada e a lâmpada é pequena.
Se ao menos aquele pálido Atoalhado
Dos Rins – me enviasse pedra ou flor de sangue ao charco!
O Pendente na Noite, agrimensor a braços, cravo a cravo do dia.
Por que lívido o tenho na parede, ou a que intenção,
Se desselo sem Ele as mensagens corruptas da vidraça,
Acenos da manhã, logo ao mal induzidos,
A persuasão do dia amorfo e lento nos meus gestos,
O dormir e acordar perpétuo em lama e ardor?...
Oh radical pendido e alanceado, só chamado Senhor!
Agora que na cal te estampas, todo sombra,
Só com um rubi a arder na virilha enfaixada,
Da morte triunfas,sim, mas não da minha alma,
Que quieto te deixei sem prece ou lume brando,
Pregado como o insecto, em V esquecido,
No alívio dos joelhos reparando.
Ah, não a morte (alta era a esperança) ou a culpa
Tornada chão sem dar o vinho próprio de hoje.
Pudera outra monção compor-me as coisas
Sem esta altura de unhas na rapina,
Sem a espreita do enfarte ou o orgasmo morto
Na miséria alcalina.
Nem o hino comosso, se voltasse,
Empinaria já trombetas claras nas labiais dos Anjos
(Loa ou bando de Juízo?) :
Que só nos convém saco e cinza agora,
Só pó mordido e algum morrão de endoença
Na hora morte de alma e vida a corpo aberto,
Esta dor viva nele aberta, que ainda pensa.


Vitorino Nemésio, in Canto de Véspera (1966).


[ Em nenhum dos principais dicionários (Morais, Aulete, Figueiredo, Machado, Houaiss, Academia) encontrei a palavra “comosso”, que infelizmente ainda não pude ver se permanece na edição da Poesia Completa, da Imprensa Nacional. Não se tratará antes de comisso? Tínhamos esta antigamente com o significado de culpa, pecado, o que joga com o saco do remorso e a cinza do arrependimento quaresmais trazidos até ao tempo de Endoenças (das indulgências ganhas pela Misericórdia do Pendido na Cruz). Mas pode ser que também o Poeta deliberadamente troque o nome substantivo pelo particípio passado adjectivado commissus, do verbo latino comitto: unido, entregado, confiado, começado, iniciado, mas também: o que incorreu numa falta e tornou-se merecedor de castigo ( em face da trombeta angélica anunciadora do final Juízo). Teria, portanto, aqui, preferido o Poeta o latinismo comisso ao nosso cometido, que lhe terá parecido semanticamente mais estrito e mais fraco. Não esquecer que o eruditíssimo Nemésio, além de Mestre de Humanidade, fora da academia, era academicamente doutorado em filologia românica.

Se não é gralha, talvez tenhamos de recorrer ao italiano, não ao latim, segundo a preciosa sugestão que o leitor e eu ficamos a dever ao administrador deste bolgue, Alexandre Dias Pinto. Na terminologia musical (e o Poeta era um executante amador de guitarra) temos as indicações mosso (movimentado, veloz) e moto, con moto, que jogam com o derivado comosso (comovido), sugestões todas pertinentes no contexto. Mas, neste caso, seria de esperar que a palavra aparecesse em itálico, o que não acontece na impressão de 1966.

Não faltam enigmáticos pormenores no poema maior que aqui fica. Não faço eu enigma da relação entre este e o da semana passada, da nobre senhora Marquesa de Alorna. - O outro prevenia-nos do Nada, em que estamos; este tem muito que lhe dizer e opor nestes tempos de enfarte e enfartados, de rapina sem indulgências (nem comoção: a quantos, falantes do europês, já nada diz...), da única oposição viável hoje: a comungante e crucificada com O Pendente na Noite.

Na imagem, inciso gravado por um prisioneiro numa parede de Auschwitz. ]

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