quinta-feira, março 25, 2010

ALCIPE




ODE

Insónia em a noite de 8 de Outubro de 1824

Infeliz noite, só te não pareces,
De agitada, co’a morte soturna!
Morrer é nada; é mais o que padeço
Nesta noite funesta.

Que multidão de mágoas me percute,
Aterrada, a penosa fantasia!
Como a ígneos ferros me traça e marca
O quadro de meus males!...

Esposo, filhos, pais, irmãos que amava,
Que nunca mais verei, com que dureza
Mos dá a ver a corrupção voraz
No sepulcro fechados!...

Do parentesco os vínculos suaves,
Os laços formosos da amizade,
Em pedaços desfeitos, ou trocados
Pla indifr’ença fria!

O bando dos prazeres carinhosos,
Por acerbos pesares suplantado,
Expulsa-o de meus lares a tristeza,
A desdita o espanta.

Aplacai-vos, ó Fúrias, oh Saudades!
Já não cabeis no peito... Ou crescei tanto
Que se apague este sopro que alimenta
Minha infeliz vida!

Dos passados instantes mil imagens
Vêm funestar de novo o pensamento;
E a dor, que o tempo noutros aniquila,
Em mim se perpetua.

Se ao menos mais ditosa a Pátria visse!
Se as luzes, se as virtudes a adornassem!
Grata o suspiro extremo em paz soltara,
Os Céus o acolheriam.

Pátria! Nome sagrado! Com que fúria
Me persegue um cruel pressentimento...
Quão inúteis lições lhe deu a Sorte
-Terramotos, revoltas...


Sorveu a terra as torres, os palácios,
Sumiu a morte as gentes a milhares:
Desta lição tão cruel os preceitos
Anulou o descuido.

Das ideias erradas o fermento
Acresceu de lêvedos infortúnios:
Fomos Francos, Ingleses, só não fomos
Sensatos Portugueses.

Ah! Se não renascer co’a Pátria a glória,
Se Ciência e Justiça inda dormem,
Se a Moral não desperta, a Indústria acorda,
- Ao Nada caminhamos!





D. Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre (1750-1839), condessa de Oeynhausen e marquesa de Alorna, foi poeticamente crismada Alcipe por seu tutor na língua e literatura portuguesa e latina, Francisco Manuel de Nascimento, a que ela chamou Elísio, Filinto Elísio.

Vistos os apelidos, vejamos o certificado da nobreza da mulher. Está na seguinte carta escrita para seu pai, D. João de Almeida Portugal, preso nas masmorras da Junqueira às ordens de Pombal por espaço de dezoito anos, como sua mulher e filhas no convento de Chelas. À jovem Leonor, leitora e apreciadora dos mais avançados philosophes da época, escrevia-lhe o marquês que não se lhe dava nada de mandar Voltaire a torrar na Inquisição. E ela:

« Eu me lastimo dos seus erros, mas não posso deixar de confessar que me vieram lágrimas aos olhos quando vi que V. Exª dava sentença de queima. De que servem homens queimados, meu querido pai ? Porventura reconhecem eles a verdade na fogueira? Não é Deus que deve pôr termo aos nossos dias ? Se Deus sofre os homens miseráveis sobre a terra, que direitos têm os outros homens para os não sofrer? Eu conheço que V. Exª tem muita virtude e muito juízo para decidir bem, mas eu, que sou mulher, com o coração muito pequeno, quando se fala em matar, sempre me aflijo pelo sentenciado, seja quem for. Não está mais na minha mão. Deus terá piedade de minha fraqueza, se não é boa, em consequência do preceito de amar o próximi como a mim mesmo. Queira Deus que eu nisto não diga alguma tolice que desagrade a V. Exª, mas copiei meu sentimento pelo coração, e não sei fingi-lo. »

Bons tempos em que as filhas davam aos pais tratamento de Excelência com lições de muita virtude e juízo!

Depois do cerne, vejamos o estilo. –

« A prosa portuguesa, até então plasmada por oradores e cronistas, novelistas e poetas, preocupados sobretudo de efeitos oratórios ou brincos de engenho e, de qualquer modo, adstritos a moldes codificados na retórica, precisava de alguém que a aproximasse da linguagem falada, lhe desse o calor natural, a maleabilidade airosa, a graça espontânea da vida, de onde lhe resultasse aquele mínimo de à-vontade exigido pela expressão artística. As cartas de D. Leonor de Almeida realizam, sem modelos anteriores nem sugestões alheias, esse tipo de comunicação, naturalmente elegante. »

Quem o diz (com não menos elegância) é o editor moderno das cartas e outros inéditos, o professor Hernâni Cidade.

A vida atribulada de D. Leonor e do seu tempo, pediu-lhe muito mais do que a prosa portuguesa lhe pedia, mas não conseguiu secar a poesia e o amor da pátria na mulher que viveu e sobreviveu a terramotos de vária e desvairada natureza. A ode de 1824 dá conta dos infortúnios passados de uma e da outra. É este o poema aqui já referido por outro e prometido por mim.

Na nossa noite funesta, vamos sabendo que não são infortúnios passados.

Não se admire o caro leitor de termos em um verso dum obscuro poema mais que centenário o prognóstico exacto do que veio depois, quando os insensatos portugueses, invadidos por franceses e tutelados por ingleses, ensaiavam (com as intentonas de 1823 e Abril de 24) os primeiros episódios da guerra civil armada, cujos efeitos se replicaram até 1974-75: as últimas intervenções – 25 de Abril e 25 de Novembro, terminais – que tentaram resolver pela força armada questões do fundo da política - que são de ordem moral, cultural, existencial (vejam-se os antepenúltimo e penúltimo versos).

Não, não é de admirar, porque D. Leonor de Almeida, fibra de mulher de acção, de largo escopo político e cultural, foi mais empenhada e sofrida portuguesa que sofrível poeta. Com os setenta e quatro anos de idade que carregava nessa noite de insónia, tinha visto muito para trás e lucidez bastante para o por vir. E tal não é mais admirável que a prognose feita por outro não menos patriota, e melhor poeta, que lembrei aqui.

Quanto ao Nada, em que já estamos... - Muito tem que se lhe diga!...

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

« Àquela mulher extraordinária, a quem só faltou outra pátria que não fosse esta pobre e esquecida terra de Portugal, para ser uma das mais brilhantes provas contra as vãs pretensões de superioridade do nosso sexo, é que eu devi incitamento e protecção literária, quando ainda no verdor dos anos dava os primeiros passos na entrada das letras. »

Alexandre Herculano, 1844.

8:24 da tarde  

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