terça-feira, junho 29, 2010

IMMANUEL KANT : DOIS TRECHOS NOTÁVEIS


A LEI DAS LEIS
« Dever!, nome grande e sublime, que nada em ti incluis de deleitável, trazendo em si a adulação, mas exiges a submissão, e no entanto nada ameaças que excite no ânimo uma aversão natural e cause temor; mas, para mover a vontade, propões simplesmente uma lei que por si mesma encontra acesso na alma e obtém para si veneração (embora nem sempre obediência), ainda que contra a vontade; lei perante a qual emudecem todas as inclinações, se bem que secretamente contra ela actuem : - que origem é digna de ti e onde se encontra a raiz da tua nobre linhagem, que recusa nobremente todo o parentesco com as inclinações, e da qual origem descender é a condição indispensável daquele valor que os homens unicamente a si mesmos podem dar ? –

Nada de inferior pode ser àquilo que eleva o homem acima de si mesmo (enquanto parte do mundo sensível), que o religa a uma ordem das coisas que apenas o entendimento pode pensar e que, ao mesmo tempo, a si submete todo o mundo sensível e, com ele, a existência empiricamente determinável do homem no tempo e o conjunto de todos os fins, que é o único adequado a leis práticas incondicionais, como a lei moral). Nenhuma outra coisa é senão a pessoalidade, isto é, a liberdade e a independência relativamente ao mecanismo da Natureza inteira, e que ao mesmo tempo é considerada como a faculdade de um ser que está submetido a leis peculiares, a saber: às leis puras práticas dadas pela sua própria razão. (...)

Nesta origem se fundam várias expressões que especeficam o valor dos objectos segundo ideias morais. A lei moral é santa (inviolável). O homem não é certamente assaz santo, mas a humanidade deve para ele ser santa na sua pessoa. Em toda a criação, tudo o que se quiser e sobre que se tem algum poder pode também utilizar-se simplesmente como meio; unicamente o homem, e com ele todo a criatura racional, é um fim em si mesmo. Ele é efectivamente o sujeito da lei moral que é santa, em virtude da autonomia da sua liberdade. Justamente por causa desta, toda a vontade, mesmo a vontade própria de cada pessoa e dirigida para si própria, está restringida à condição de um acordo com a autonomia do ser raconal, isto é, de não a submeter a objectivo algum que não seja possível segundo uma lei que possa brotar da vontade do sujeito passivo; por conseguinte, a nunca utilizar este sujeito simplesmente como meio, mas ao mesmo tempo também como um fim. Impomos com razão esta condição mesmo à vontade divina relativamente aos seres racionais no mundo, enquanto suas criaturas, na medida em que ela assenta na sua pessoalidade, graças à qual exclusivamente constituem fins em si.

(...)

Eis com o que se harmoniza muito bem a possibilidade de um mandamento como: Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo (*). Com efeito, ele exige, enquanto mandamento, o respeito por uma lei que ordena o amor e não deixa à escolha arbitrária o faxer dele um princípio. Mas o amor a Deus como inclinação [ como “apetite imediato para a fruição de um bem” ] é impossível, porque Ele não é um objecto dos sentidos. Quanto ao amor pelos homens, é possível, sem dúvida; mas não pode ser mandado, visto que não está no poder de homem algum amar alguém simplesmente por ordem. Portanto, só o amor prático é que se apreende neste cerne de todas as leis. Amar a Deus significa, neste sentido, cumprir prontamente os seus mandamentos; amar o próximo significa praticar de bom grado todos os deveres em relação a ele. (...)

Essa lei de todas as leis apresenta, pois, como todos os preceitos morais do Evangelho, a disposição moral em toda a sua perfeição, a qual, enquanto um ideal de santidade, não é atingível por criatura alguma, constituindo no entanto o arquétipo para o qual devemos esforçarmo-nos por nos aproximar e ao qual, num progresso ininterrupto e infinito, devemos procurar assemelharmo-nos. »

Crítica da Razão Prática (1788), trad. de Artur Morão, Lisboa, 1989.

[ Ao asterisco corresponde a seguinte nota do A.: « O princípio da felicidade própria, de que alguns querem fazer o princípio supremo da moralidade, produz um estranho contraste com esta Lei. Tal princípio soaria assim: Ama-te a ti mesmo sobre todas as coisas, e a Deus e ao próximo por amor de ti mesmo. » ]


« A esperança de melhores tempos, sem a qual um desejo sério de fazer algo de útil ao bem geral jamais teria aquecido o coração humano, sempre teve influência na actividade dos que rectamente pensam. (...)

No triste espectáculo, não tanto dos males que por causas naturais oprimem o género humano, sobretudo antes por causa dos que os homens se fazem uns aos outros, o ânimo sente-se, apesar disso, incitado pela perspectiva de que as coisas podem ser melhores no futuro; e, é evidente, sente-o com uma benevolência desinteressada, pois já há muito teremos morrido e não colheremos para nós os frutos que em parte semeámos. As razões empíricas contrárias à obtenção destas resoluções inspiradas pela esperança, são aqui inoperantes. Pois pretender que o que ainda se não conseguiu até agora também jamais se levará a efeito, não justifica sequer a renúncia a um propósito pragmático ou técnico (como, por exemplo, a viagem aérea com balões aerostáticos); menos ainda a um propósito moral que, se a sua realização não for provadamente impossível, se torna um dever. Além disso, há muitas provas de que o género humano no seu conjunto progrediu efectivamente e de modo notável, sob o ponto de vista moral, no nosso tempo, em comparação com todas as épocas anteriores (as paragens breves nada podem provar em contrário); e que o clamor acerca do irresistível abastardamento crescente da nossa época provém precisamente de que, por se encontrar num estádio superior da moralidade, tem diante si um horizonte ainda mais vasto, e que o seu juizo sobre o que somos, em comparação do que deveríamos ser, com que se autocensura, se torna tanto mais exigente quanto maior o número de estádios da moralidade que, no conjunto do curso do mundo de nós conhecido, já escalámos.

Se perguntarmos agora por que meios se poderia manter este progresso incessante para o melhor, e também acelerá-lo, depressa se vê que este sucesso, que mergulha num horizonte ilimitado, não depende tanto do que nós fazemos (por exemplo, da educação que damos aos jovens) e do método segundo o qual devemos proceder, para o produzir, mas do que a natureza humana fará em nós e connosco para nos forçar a entrar num trilho, a que por nós mesmos não nos sujeitaríamos com facilidade. Pois só dela, ou melhor da Providência (porque se exige uma sabedoria superior para a realização desse fim) é que podemos esperar um sucesso que diz respeito ao todo e a partir dele às partes, uma vez que, pelo contrário, os homens com os seus projectos saem apenas das partes, mais ainda, permanecem apenas nelas; e ao todo enquanto tal, que para eles é demasiado grande, podem sem dúvida estender as suas ideias, mas não a sua influência; e sobretudo porque eles, mutuamente adversos nos seus desígnios, com dificuldade se associariam em virtude de um propósito livre próprio. »

Sobre a Expressão Corrente: Isto Pode Ser Certo na Teoria Mas de Nada Vale na Prática (1793), in A Paz Perpétua e Outros Opúsculos, trad. de Artur Morão, Lisboa, 1990.

[ As ênfases, em ambos os textos, são do A.. Busto em mármore de Kant por Emanuel Bardou, 1798. ]

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