sexta-feira, março 31, 2006

Roberto Nobre e a sua amizade com Ferreira de Castro


Transcrevo (com autorização da autora) um excerto de um texto de Filipa Palma (que em 2003 era aluna do 11º ano da E. S. de São Brás de Alportel) sobre o tema em epígrafe. O texto completo encontra-se no livrinho Roberto Nobre: Fragmentos de um Legado.


“Roberto Nobre e Ferreira de Castro eram dois tecelões de sonhos literários e artísticos, sonhos que se ligavam aos seus anseios de fraternidade e justiça. Segundo Ferreira de Castro, foram companheiros nas alegrias e nas dores e só no fim das suas vidas os elos que os uniam se quebraram. Afirmou o autor de A Selva que, com o desaparecimento de Nobre, alguma coisa morrera dentro nele para sempre.

Ferreira de Castro vivia então da escrita que produzia para diversas publicações. Quando Nobre chegou a Lisboa, Castro solidarizou-se com ele e pediu aos directores dos jornais para encarregarem o jovem sambrasense das ilustrações dos seus trabalhos. Mas a ligação entre os dois prolongava-se para lá do trabalho. Todas as noites Ferreira de Castro e Roberto Nobre se reuniam com Assis Esperança numa pastelaria da Avenida da Liberdade, quando esta estava deserta. No verão sentavam-se ao ar livre, à mesa de uma esplanada de raros clientes onde pouco dinheiro despendiam. Em conjunto sonhavam não apenas com o seu futuro artístico, mas também com uma sociedade justa para todos os homens. Além disso, noite após noite, com uma persistência elevada, Nobre decorou o pequeno gabinete de trabalho que Ferreira de Castro tinha na Rua do Diário de Notícias, no número 44. […]

Roberto Nobre teve então um casamento precoce que dificultou ainda mais a sua vida. Assim empenhou-se arduamente, redobrou os seus esforços quotidianos, trabalhando desesperadamente em várias revistas que a Bertrand publicava na altura. […]

Algum tempo depois, o lar de Nobre desmoronou-se e ele voltou ao convívio antigo com Ferreira de Castro. Ilustrou, então, um livro de Ferreira de Castro intitulado Pequenos Mundos e Velhas Civilizações, como já dez anos antes havia ilustrado a Epopeia do Trabalho. Mas com o passar do tempo a actividade de ilustrador foi dando lugar à de ensaísta, que se tornou dominante. À crítica de cinema juntou a de artes plásticas, onde, segundo Ferreira de Castro, triunfou também. […]”

Ricardo António Alves editou e publicou o livro: Ferreira de Castro e Roberto Nobre: Correspondência, 1922-1969, Lisboa, C. M. de Sintra, 1994. Na fotografia estão, claro está!, os dois artistas. Desconheço quem foi o autor da foto.

1 Comments:

Blogger RAA said...

Que interessante ver a fotografia aqui! Retirei-a da revista «Eva», de 1953, mas reporta-se a duas décadas antes, na esplanada da «Veneza», onde se situava a tertúlia deles. «A tertúlia dos anarquistas», como alguns a denominavam...

12:05 da manhã  

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