quinta-feira, novembro 01, 2007

OS LATIDOS DE DIÓGENES ( 2º )



O grande rei Alexandre foi regiamente tratado. Não tanto assim uns foliões em prandial galhofa sobre lauta mesa e que, vendo por ali passar o nosso Diógenes, lhe atiraram um osso; pois o Cão chegou-se a eles e, alçando uma perna e o manto, regou-os bem regados: - “Se comeram bem, agora bebam melhor!..” E não se pejava de masturbar-se em público, lançando esta curiosa jaculatória: - “Prouvera aos deuses que bastasse despejar assim a barriga para acabar com a fome!” A ele bastavam-lhe azeitonas, figos secos e tremoços; carne crua também marchava, mas parece terá sido a única coisa cuja repugnância não conseguiu vencer de todo.

Candidatos a discípulos eram muitos, mas poucos perseveraram. Um, que repetidamente dizia querer segui-lo e escutá-lo, foi convidado a seguir o mestre com um carapau na boca, apertado entre os lábios; pois não demorou muito a sair vencido das troças e da vergonha: deixou cair o carapau da boca e foi-se embora. Comentou Diógenes, com tristeza: - “Vede como basta um carapau para cortar uma relação e fazer fugir um homem!” Como carapaus não faltavam, por isso é que Diógenes andava de lanterna em pleno dia a ver se pescava um homem. E levou a rebusca até aos bordéis da cidade. Quando lhe fizeram reparo destas incursões, respondeu que a luz do sol também ilumina as latrinas… e não se suja. Em conclusão, disse que em Atenas só tinha encontrado mulheres.

Os discípulos não lhe impediram a mendicidade nem a escravatura. Já entrado em anos, indo de barco para Egina, sofreu a abordagem de piratas, que o aprisionaram e puseram à venda no mercado. Perguntaram-lhe o que sabia ele fazer: - “Comandar!” E, voltando-se para o pregoeiro: -“Grita bem alto se alguém quer comprar um mestre!” Um homem rico de Corinto comprou-o, e não fez nada mau negócio, tão bem o Cão lhe amestrou os filhos e guardou a casa. Amigos solícitos quiseram comprar-lhe a liberdade, mas levaram como reposta: - “Os leões não são escravos dos que os alimentam.” Mesmo se demoram onde curtas vistas vêem grades e jaulas. Argumentavam os amigos que ele se fazia velho e precisava de descansar… Ouviram-no pela última vez: - “Correndo no estádio, parece-vos que os melhores atletas, vendo a meta próxima, param, ou não será que se lançam com todas as forças para a meta?” Aos cerca de 90 anos de idade, o escravo-atleta da liberdade cortou a meta. Conta-se que empregou as últimas forças em suspender a respiração até se fazer parar o coração…

1 Comments:

Blogger Alexandre Dias Pinto said...

Fenomenal a lenda de que Diógenes teria morrido por sua própria acção, ao suster a respiração até à morte - como sabemos, é impossível conseguirmos parar de respirar deliberadamente (por isso os suicidas optam pelo afogamento.) Claro que se percebe que a ideia desta historieta é demonstrar o perfeito autocontrolo do filósofo.

Apesar de termos combinado não entrar numa de "sociedade do elogio mútuo", quero saudar este excelente post de divulgação! Proponho um desafio. Porque não debatermos aqui a lição que o modo de vida de Diógenes nos dá aos nossos tempos de "too fast to live, to fast to die... so much to buy".

9:49 da manhã  

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