quinta-feira, maio 29, 2008

EPITÁFIOS



« N’este momento Portugal é um mysterio. É impossível a gente calcular o que virá a ser delle! É uma Patria que a noite envolve, entregue aos morcegos e ás aves agoureiras. Aqui não se vê um palmo adeante do nariz; é tudo confusão e sombra. »


Isto, na ortografia do tempo, era o que escrevia Teixeira de Pascoaes ao seu amigo Miguel de Unamuno, em carta de Outubro de 1908. E prosseguia: « Quem está longe talvez veja mais claramente; e por isso espero anciosamente o seu livro, que ha de fazer alguma luz.» Era o mesmo mês de Outubro em que o filósofo basco recebia aquela carta, que já aqui citei de Manuel Laranjeira, onde também lemos isto:
« Portugal atravessa uma hora indecisa, gris, crepuscular, do seu destino. Será o crepúsculo que precede o dia e a vida, ou o crepúsculo que antecede a noite e a morte? Não sei, não sei, não sei…» O catedrático de filologia grega e reitor de Salamanca não estava de facto longe; o livro de que o nosso poeta das Sombras (1907) esperava alguma luz viria a ser o Por Tierras de Portugal y de España, com o célebre capítulo “Un Pueblo Suicida” onde incluía cópia integral da carta de Laranjeira; capítulo terminado e datado de Lisboa, “noviembre de 1908”. Comentando um dos inolvidáveis prefácios-ensaio que Camilo Castelo Branco usava antepor às suas novelas (A Mulher Fatal, no caso, e um em que o mestre de Ceide, “aquella alma tormentosa y apasionada”, vai discreteando sobre o riso, e as espécies deste que mais rimos entre nós por cá, sem lhe esquecer o riso de Demócrito…), tem depois Unamuno as seguintes palavras, naquele citado capítulo: « Y pienso que este pueblo, que moteja de duro y áspero al castellano, es mucho más duro, mucho más áspero que él. La blandura, la meiguice portuguesa, no está sino en la superfície; riscadla, y encontrareis una violencia plebeya que llegará a assustaros. Oliveira Maritins conocía bien a sus compatriotas. La blandura es una máscara. El lenguage de la prensa sobrepuja aqui en violencia a todo lo más violento que se escriba en España. Alli non habrían podido escribirse nunca paginas como las que Fialho de Almeida dedicó en sus Gatos a la muerte del rey Don Luís y a la proclamación de Don Carlos, el que luego fue muerto por Buíça. Y en literatura nuestros más fogosos escritores tienen que ceder en fuerza a los de aquí. Este es un pueblo non solo sentimental sino apasionado, o mejor dito, antes apasionado que sentimental. La pasión lo trae a la vida, y la misma pasión, consumido su cebo, lo lleva a la muerte. »

Já em Julho, ainda do mesmo 1908, de Espinho, poucos dias antes de conhecer Laranjeira., dissera:
 « Tienen la cólera de ciervo o la del carnero, que les lleva a actos de violência frenética. Cuando el borrego se irrita, arremete com el primero que encuentra, y luego todo sigue lo mismo que antes. Así se explica el regicídio y sus consecuencias. Rebeldía, sí; independencia, no. Aqui, como en Galicia, puede florecer el anarquismo, pero no el sentimiento de la liberdad. Y la anarquia es la sevidumbre.» “Independencia, no”… -Deixando os subreptícios laivos de despectiva inveja que neste e noutros passos do livro se pressentem no natural do País Basco, permita-me o leitor uma terceira citação, doutro capítulo: o que dedicou ao regicídio, escrito em Salamanca, no mês de Fevereiro, e que intitulou “Epitafio”: « El pueblo portugués tiene, como el gallego, fama de ser un pueblo sufrido y resignado, que lo aguanta todo sin protestar más que pasivamente. Y, sin embargo, con pueblos tales hay que andarse com cuidado. La ira más terrible es la de los mansos.»

O “pueblo antes apassionado que  sentimental” corria a comprar e a venerar como de santos os retratos dos regicidas, “mártires” da liberdade, que logo apareceram em montras das Baixa lisboeta e noutras localidades; e acudia com prontidão e volumosa generosidade à recolha de fundos que a imprensa republicana então promoveu, para amparo dos dois órfãos de Manuel Buíça. Mas não só. Nas semanas seguintes ao regicídio, entre as barracas da feira de Algés, ouvia-se um cego a cantar esta quadra: « Já mataram o rei gordo / E o magrinho também. /Acabem com o que ficou / Depois liquidem a mãe.»

“Una violencia plebeya”… Ou como “la cólera del ciervo”, “la ira terrible” não estava aplacada; ou tão só, simplesmente, que de maneira nenhuma se que “luego todo sigue lo mismo que antes”.

O ferino cantar do cego ecoava o que se podia ler numa folha anarquista – A Revolta -, que circulara clandestinamente em Agosto de 1907: « Os povos que querem a liberdade conquistam-na. Nada se consegue sem luta, por vezes violenta, feroz, mas sempre purificadora. A vida dum ser é precedida do derramamento de sangue; a atmosfera torna-se mais pura depois dum temporal. (…) Massacraremos a dinastia. Não pensemos no rei e façamos a Revolução!» Assim era “el lenguage de la prensa “, muitas vezes acompanhada de caricaturais desenhos em que “el ciervo” se comprazia a figurar o rei como um cerdo.

Era amigo do incitador público ao massacre da Família Real um jovem colaborador de prosas bombásticas e engenhos bombistas, que, dois meses mais tarde, noutra folha – Germinal – corroborava: «Esta inércia de séculos só a gritos é que pode abalar-se, tornando-se a púrpura rubra do massacre o raiar duma aurora. » Anos mais tarde, já escritor famoso, faria no romance Lápides Partidas um vivido e pormenorizado quadro do adensar do “temporal”, como dizia o anarquista, ou da “exaltação em que tudo isto estava” em 1907-08, como dizia o moço rei D. Manuel. Aquilino Ribeiro, no primeiro retrato que nos dera publicamente, na Seara Nova, dos dois “primos” regicidas que tão bem conheceu, por seu lado suspendia sobre “os destinos da República” a interpretação clarificadora do “Epitáfio” de que falava Unamuno. Acabando de traçar o perfil de Alfredo Costa, de quem fora mais íntimo amigo, declarava isto, em 1922:

« Assassino puro, ou Guilherme Tell, os destinos da República estão lavrando a Costa e a Buíça um destes epitáfios. Mal deles, se a frase do sr. José Barbosa proferida a 5 de Outubro de 1910, na Câmara Municipal nos braços do sr. Israel Anahory, fosse o lema permanente e irrevogável dos republicanos que dirigem esta terra:
«- Eles já comeram muito, chegou agora a nossa vez.
« ‘Eles’ eram os monárquicos. O qualificativo porém depende do bom ou mau êxito global das instituições que ajudaram a fundar. Porque é desnecessário demonstrá-lo, a República implantou-se ali no Terreiro do Paço, naquela tarde trágica de Fevereiro; implantaram-na Buíça e Costa pese embora aos senhores pausados, vazios e bons burgueses que disso e doutros desatinos sobem a sacudir as mãos na varanda de Pilatos. »

Uma “hora crepuscular e gris”… O “raiar duma aurora”… Actualizemos a ortografia: - “Neste momento Portugal é um mistério”.

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