sexta-feira, outubro 03, 2008

A “MORTE DE PORTUGAL” ( II )



Miguel Real assina o restante do seu livro da aldeia de Fontanelas, ao lado das Azenhas do Mar. É uma para tão boa “corte na aldeia” como foi a de Cabeceiras de Basto para Sá de Miranda, e até já experimentada e aprovada: foi em Fontanelas que Vergílio Ferreira concebeu e escreveu muito da sua obra; e não longe de lá reinava também Maria Gabriela Llansol, que hoje estará na corte do Céu a ouvir “a cotovia”…

Em tal sítio, e com tais patronos, Miguel Real e nós teremos de pensar se não serão os “exílios interiores” e “sentimentos de decadência” condições existenciais benéficas para termos poetas com uma obra do quilate da de Miranda ou de Pessoa. Certeiramente diz ele, Real, que o « esgotamento da realidade histórica chamada “Portugal” » se daria « menos por efeito de um decadentismo político»… - que afinal nos deu Os Lusíadas. O que me traz à lição que prometi tirar na semana passada.

Cifra-se numa ponderável possibilidade: - se, como lembrei, temos vivido desde sempre com a “decadência” e conflituosos “divórcios”, talvez que o maior perigo de “morte” para nós seja… a ausência deles.

Ora é precisamente aqui que os termos da tese do autor começam a tomar vulto de credível ameaça. Se nos “descristianizamos e nos desumanizamos”, se ficamos submersos numa “tecnocracia científica anónima”, se da “nobre arte da política” resta apenas a manipulação electrónica de amorfas multidões e a gestão informatizada de ciclos e contraciclos económicos para ávidos consumidores, - temos para lutar o quê e contra quê?... E é precisamente aqui que assombra o terrível verso duma ode da senhora Marquesa de Alorna, que o autor pôs como epígrafe no seu livro e que ainda talvez veremos na íntegra: a nobre D. Leonor de Almeida bem no merece. Diz apenas isto o verso final do poema, com a terrível maiúscula: « - Ao Nada caminhamos! »

Ora, se ficamos sem nada contra “o Nada”…

Deixemos para já esta sombra niilista, que o nosso diarista Torga agudamente sentiu num certo 22 de Outubro de 1950, como lembraremos no dia próprio. Entretanto, não liquidemos em nada a razão. Há que pensar. Ponhamos também de remissa a tal “arte da política”, que eu não vejo tempo algum em que foi ou possa vir a ser “nobre”. Fixemo-nos aqui: diz o autor que “o que está a chegar ao fim” é a “constelação cultural e civilizacional por que emergiu uma realidade histórica chamada ‘Portugal’.” Este “fim” é um “limite de esgotamento” – e não um “desaparecimento”. Contudo, se a identidade histórico-cultural esgotada é, como ele diz, transformada, não ficamos com “nada”, mas sim uma coisa outra, cujo nome – “Portugal” – pode perdurar como região entre outras duma Ibéria também ela transformada; ou, até, vir a desaparecer gradualmente numa “União Europeia” que só lhe guardará o nome nos arquivos da História. Desaparece o nome que foi o de uma entidade política autónoma. Pode ser até que nesse processo a língua se transforme de tal modo que, no futuro, um linguista só reconheça a língua portuguesa na que encontrará então falada em África ou no Brasil…

Que temos, pois? - Que a língua lusitânica com o tempo se transformou na novilatina portuguesa, e esta se pode transformar num europês qualquer. Que o nome “Portugal” pode ser no futuro uma memória tão longínqua e enigmática como hoje é o nome “Lusitânia”. (E fique a fama de análogo e venerando prestígio!). Assim, o que temos aqui é a ordem normal das coisas neste mundo; a qual, aliás, se tem hoje visos de plausível, nem por isso temos de crer está predeterminada ou é inevitável.

Mas, que temos mais? O que é que, antes de por meados do séc. IX aparecer documentado o nome “Portugal” ( a terra Portugalis, que se estendia entre o Ave e o Vouga) tínhamos aqui neste nosso território? E o que foi feito desses famosos “lusitanos”? E antes da “Lusitânia”, não tínhamos aqui nada nem ninguém? Então e aqueles que, há cerca de 4000 anos a. C. terão de aqui difundido a cultura megalítica e campaniforme até à Irlanda e às Ilhas Britânicas? E os que há 14 000 anos decoravam com finos desenhos o vale do Côa? -

Respondo que tínhamos e temos o mesmo que há 25 000 anos: pessoas. Pessoas que, geração após geração, século após século vão compondo e recompando os associativos e dissociativos laços da convivente sociabilidade. Ou chamem-se “lusitanos”, “portugueses” ou “europeses”, a questão é que sejam mais, e não menos, humanas. E pessoas com talvez uma feição original como já há 25 000 anos era a de um certo menino do Lapedo : um tipo raro de miscigenação do “neanderthal” com o “sapiens sapiens”, que até há pouco nunca tinha sido encontrado.

Respondo que temos os que nascem e vivem ou vieram viver para este canto do continente, uma nação de nativos e migrantes que se forma e transforma com o tempo, na mistura de muitas e diferentes etnias. Uma nação etnicamente tão rica e adaptável, pode dar-se até ao luxo de perder o nome “Portugal” e… - fazer melhor!

Ou não…



[ Devidamente composto para a fotografia, exibe-se o paleolítico esqueleto achado em Novembro de 1998 no lugar do Lagar Velho, vale do Lapedo, Leiria. Um hábil artesão de Hollywood encarregou-se de reconstituir o rosto deste primeiro “português”, que o leitor pode ver aqui: http://forum.g-sat.net/showthread.php?t=121130 ]

Sobre o livro de Real, veja também aqui o leitor interessado as cartas de 2 e 9 de Março do filósofo e guardião português Pinharanda Gomes.




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