terça-feira, novembro 18, 2008

FILINTO ELÍSIO: CARTA A UM AMIGO

Lembras-me, amigo Brito, quando a pluma
para escrever, magnânimo, meneio.
Ama o meu Brito a lusitana língua,
pura como ele, enérgica e abastada,
estreme de bastardo francesismo
e que a joio não trave de enxacoco;
e quando lê, rejeita a frase espúria
sem senão que mal-assombrado afeie
asseada escritura e ideia nobre,
de legítimos, lusos termos digna;
mas discreto critica e faz justiça,
sem torpe inveja, sem paixão obscura.
Que, amigo, muitos mordem nos bons versos
do fecundo Garção, Dinis prestante,
sem de Horácio ter lido um só conselho,
sem que acaso divino entusiasmo
nunca na alma encharcada lhes fervesse.
Muitos querem, vaidosos, dar penada
na língua portuguesa, que as correntes
das cristalinas águas não gostaram,
vertentes dos volumes caudalosos
de Barros, Brito, Sousa e de Lucena,
de Ferreira e de Camões. Fartura arrotam
de português, porque inda hoje remoem
as mesquinhas migalhas, que das bocas
de amas vilãs, de brejeirais lacaios
na recente memória lhes caíram.
Afeitos a tão magra, oca pitança,
se amuam contra as raras iguarias
com que os brindam os Clássicos bizarros
em suas mesas guapas e opulentas.

(…)

Não que à língua francesa em ódio tenha,
que fora absurdo em mim. Ninguém confessa
mais sincero o valor de seus bons livros,
de todo o bom saber patentes cofres,
de polidez e de eloquência ornados.
Bastara em seu louvor, se o carecera,
ser bem vista e prezada em toda a Europa,
das cortes e dos sábios no universo,
conter em si, ou próprio ou traduzido,
quanto Minerva pôs no peito humano:
as fadigas das artes, das ciências
e os enfeites do florido discurso.
Mas, como fora escarnecido em França
o que pretendesse impar de frases lusas
um discurso francês em prosa ou verso,
assim pede entre nós ser apupado
o tareco doutor, que à pura força
quer atochar de termos bordalengos
o nativo desdém da nossa fala.
Se temos de pedir a alguma bolsa
termos que nos faleçam, seja à bolsa
de nossa mãe latina, que já muito
nos acudiu em pressas mais urgentes,
quando em bronca escassez já laborámos,
ao sairmos das mãos da bruta gente.

(…)

Dar com vozes valor ao pensamento,
dar-lhe cor, dar-lhe vida, é o grande estudo,
a grã venida de imortais autores.
Que não basta dar pasto são à mente,
se não vem adubado de bom gosto;
e assim é que a verdade cala na alma,
louçã, c’os atavios da eloquência;
e assim também resvala dos ouvidos,
se vem seca, ou ensossa, ou mal-trajada.
Uma palavra nova ou renovada,
que com estranho som, mas bem-cadente,
desperta o ouvido, é saudável toque;
pois inclinam à preguiça, ao desatento,
os ânimos de ouvintes distraídos,
que a corda da atenção por longo tempo
não podem ter tão rija que não bambe.
Para a atesar de novo, o bom poeta
varia o tom do canto com figuras,
com descrições; ousado, já apostrofa
homens e numes… Quantas vezes, quantas
o intrépido poeta arrisca o enleado
hipérbato, que embaça a inteligência
à prima vista, mas que apraz, namora,
quando abre todo o senso? Assim de Horácio
e dos romanos Clássicos polidos
apraziam transpostos os vocábulos;
e fora riso e escárnio dos ouvintes
dar-lhes odes de sentido corriqueiro,
fluentes como o usado padre-nosso.


(…)

Demos que ressuscite – o que hoje é fácil –
Vieira, e ouça falar certos peraltas,
pregoeiros de afrancesada língua.
Parece-me que o vejo franzir beiços,
encrespar o nariz, perguntar logo:
Vieira – Quem vos torceu as falas à francesa,
meus pardais novos de amarelo bico?
Peralta – Lemos livros de fita, e é nesses livros
Que nós puisamos o falar à moda,
No mais charmante tom, mais seduisante.
Vieira – E quem trouxe essa moda, meus meninos?
Peralta – Ele é, pois que exigis, que com justeza
rapporte
o renomado chefe, é esse o
tradutor do “Telémaco” capado,
de sermões vicentinos precedido,
avantcorrores desta nova escola.
Vieira – Vou-me lá – diz Vieira. Ei-lo que bate
à porta do Ribeiro e pede novas
desta nova eloquência galo-lusa.
Vieira – Quem prega cá melhor? Quem faz bons versos?
Ribeiro – Eloquência, monsieur, tem alto rango,
é o affaire do dia; os meus eleves,
belos esprites, chefes do bom gosto,
têm dado à linguagem tais nuanças,
que nunca em golpe de olho remarcaram
os antigos, na afrosa obscuridade.
Vieira – Pare, pare, senhor, c’o sarrabulho
de loquela franduna. Eu fui a França,
nunca lá me atolei nesses lameiros,
nunca enroupei a língua portuguesa
com trapos multicolores, gandaiados
nessa feira da ladra. Os meus latinos
me deram sempre o precioso traje
com que aformosentei a lusa fala.
Com Deus fique, senhor. Tal gíria esconsa
de insosso mistifório bordalengo
só medra co’ esses tolos, que se enfronham
em língua estranha, sem saber a sua,
e dão, co’ essa mistura, e vera efígie
do apupado, ridículo enxacoco.

(…)

Lede, que é tempo, os Clássicos honrados,
herdai seus bens, herdai essas conquistas,
que em reinos dos romanos e dos gregos
com indefesso estudo conseguiram.
Vereis então que garbo, que facúndia
orna o verso gentil, quando, sem eles,
é delambido e peco o pobre verso.
Lede, que é grã cegueira esse descuido,
antes bruteza! Mal se ganha o prémio
do alto saber sem ímproba fadiga.
O meditado estudo aço é, que rijo
Fere do nosso engenho a aguda escarpa;
e os pensamentos de subtil arrojo
faíscas são brilhantes, que ressaltam
do batido fuzil aporfiado.
Se usamos escrever, destas centelhas
ordenadas com próvido artifício
se compõe formosíssimo luzeiro
ou astro, que nos rudes olhos fere
do vulgo, e que a prudentes muito agrada.
Como pois esperais compor luzeiros,
se os bons não estudais, se da memória
os cofres não proveis com abastadas
jóias, que os livros bons doar só podem?
Eles dão, co’a louça, valente frase
preço à sentença aberta e pura,
e ao subtil quadro da ficção ditosa
dão a cor, dão a luz com que realça.
O verdadeiro toque que, árduo, abona
a força, a veia do escritor prestante,
é quando entorna, como em pronto vaso,
com suco e com calor na alma do ouvinte
inteiro o néctar das ideias suas,
tão suave e no gosto tão activo
como ele o preparou no alto conceito,
tal que ao leitor colore e embeba a mente,
tão fundo e vivo qual no autor nascera.

(…)

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