terça-feira, novembro 18, 2008

UM “AVIADOR DE VERSOS”



Temos falado de um Francisco Manuel (de Melo). Falemos agora de outro. Era Francisco Manuel do Nascimento lisbonense, filho de pescador e peixeira vindos de Ílhavo. Inclinado aos estudos, pôde fazê-los e chegar a ser ordenado padre. Por alturas do terramoto de 1755 era tesoureiro da igreja das Chagas. Vivia desafogadamente, e a década de 68 a 78 foi a dos anos felizes em que, nos “outeiros” dos muitos conventos, trocava versos por toucinhos-do-céu e barrigas-de-freira. No de Chelas, dava aulas de latim e de música à jovem marquesa de Alorna, aí reclusa com sua mãe e irmã às ordens do ditador Pombal. Crismou a poetisa com o nome de Alcipe, e esta retribuiu-lhe com o nome com que o padre entraria na nossa História literária: Filinto Elísio.

Os poetas da Arcádia Lusitana davam o nome de “Elísia” à terra portuguesa. Apesar dos terramotos (o telúrico e o pombalino), era uma terra em que as brumas do Atlântico se desfaziam em música pastoril ao toque duma arcádica luz, onde dava gosto viver: havia muitos pastores músicos e não faltavam ninfas para os ouvir. (Ainda nos começos do século seguinte o invasor francês Junot, que chegou num farrapo a Lisboa, poucos meses após dizia que era a melhor terra da Europa para viver e começou a pensar fazer-se “rei de Portugal”.) Infelizmente, pairava uma sombra sobre essa Arcádia, maior que a do Pombal no seu ocaso: a Inquisição. Acusado de leitor de “filosofias modernas” e defensor de proposições heréticas, o nosso padre Nascimento, disfarçado de carregador de laranjas, consegue entrar num barco sueco e passar a França. Tinha 44 anos e amargou as saudades de Elísia até à morte, em 1819, aos 85 de idade. Deixou como espólio uns míseros 100 francos, que mal chegaram para pagar o enterro, e papéis escritos no valor de 22 volumes, na 2ª edição das suas Obras Completas, incluídos os originais e as muitas traduções que fez para iludir a fome no exílio. Mas o gosto fez mais que a necessidade: Filinto Elísio tinha unhas para a lira e desunhou-se a escrever. Eis como ele se explica aos leitores que “têm reparado na super-exorbitante caterva de trovas que tem parido a minha cachimónia”, e que não se coibiam de “taxar-me alguns versos de mal torneados e mal polidos”… Nas contas que apresenta, aparece somado o homem ao escritor que foi padre mestre da nossa língua:

« Claro está que os ociosos que tais reparos fazem nunca aviaram tantos versos como eu. Ora é muito natural que a quem tantos desbarata, pela malha lhe escapem muitos com seu senão. Amigos e inimigos censores, eu sou de boa avença e com o coração nas mãos convenho dos meus erros. Aí vai verdade nua crua. Contanto que os tais versinhos não saiam do ventre do engenho tortos nem aleijados, lá os deixo ir a Deus e à ventura. Além de que, meus amabilíssimos senhores, tenham a pachorra de se inteirar comigo que desde a idade de catorze anos faço versos. (…) De catorze anos até sessenta e quatro que hoje tenho (por grã mercê de Deus e dos amigos) vão cinquenta. Houve dias em que fiz duzentos versos e mais quando Apolo e as Musas estiravam mais longas visitas; noutros dias, menos; e noutros, por preguiça, nem um só. Metamos, alto e malo, a quarenta por dia. Que menos se pode fazer, quando a veia corre, que dois sonetos e três cantigas? (Ponhamos de parte, e como de crescenças, os ai lélé dos estribilhos). Monta cada ano a cento e quarenta e oito mil e seiscentos versos. Multiplicai-os por cinquenta, sem contar com os dias de acréscimo dos anos bissextos!... Somam cinco milhões seiscentos e sessenta mil versos. Apre! Convenho que é mui sobejo versejar! Menos de metade bastava, se fossem bons; mas enfim, são obra feita, obra que está já na tabela, esperando pelos fregueses.
« Contemos agora o que eles me renderam, e depois o que me podem render, se aparecerem curiosos. Do que ganhei por eles atéqui, com verdade vos afirmo que me não vem cada verso a meio real. Dizei-me vós, em consciência, meus críticos muito amados, qual seria o homem sisudo que martelasse o seu juízo para limar um verso por menos de meio real. Ah! que se eu metesse em conta todos os ciúmes, ódios, pragas, críticas e ainda sátiras que os tais versinhos me granjearam, outros quinhentos seriam! Em boa lealdade, pois, e como tendeiro honrado vos digo que, tais quais são, não são tão mal limados para o número, nem tão de somenos para o preço. Se os que os criticam, expondo à vergonha do mundo os seus poemas, abrissem loja, como eu abri, talvez que os não dessem nem tão bons, nem tão baratos. »

Desta facúndia dá o solitário exilado noutro ensejo explicação menos risonha: « Quem vive pobre não o cansam visitas; quem se vê desprovido de visitas vive só; quem vive só labora-lhe a imaginação no painel da sua desgraça, acode-lhe obstinada tristeza, que traz consigo aferrada moléstia, precursora de prematura morte. Que subterfúgio? Passear. Mas só? Cansa e enoja. Ler? Também cansa o ânimo e cansa a vista. Escrever? O quê? Escrever de raiva, como eu fiz, sem tom nem som. »

Mas não é sem tom nem som que começa assim uma ode:

Trabalhou o mau fado em miserar-me.
Mandou-me desterrado e perseguido
A estranho clima, a língua esquiva, ignota,
Desamparado e pobre.
Vivi desconhecido e sem o alívio
De útil conversação, honesta ou meiga,
Que, o dissabor dos males adoçando,
Faz quasi não senti-los.


Fala da sua estada na Holanda, aonde o chamou e lhe valeu ( a fome entrando / a passos largos pela porta… ) o secretário da legação portuguesa na Haia, seu admirador e amigo.

O sempre severo Camilo Castelo Branco, soube ser judicioso e justo com Filinto: « formulava frases de palavras obsoletas, alatinava as construções, despintava a graça nativa do estilo para lhe dar o lustre poético dos arrebiques quinhentistas; e, querendo enquadrar nas locuções arcaicas os levantados raptos de poeta, desbotava-lhe as cores. Esquinava os versos em prosa desarmónica, só por amor de lhes encravar termos duros. Isto, porém, não faz implicância a que Filinto Elísio seja o opulentador notabilíssimo da língua e renovador dos lusitanismos que aformosearam os livros de dois iniciadores da reforma romântica, Almeida Garrett e António Feliciano de Castilho. » Reforma continuada pelo próprio Camilo, cujos filintinos versos não ficaram sempre isentos da pecha alegada pelo crítico… Responda-lhe Castilho, que foi de Filinto o grande sucessor oficiante e oficioso na “religião da nossa língua”:

« Mas, se as há, são manchas, ao passo que o geral da sua escritura é recheado de muitas preciosidades para quem puser peito a bem escrever esta língua. Por toda a parte lhe estão pululando lusitanismos em vocábulos, frases, colocações, jeito e feições de períodos, que, se houver gosto em quem lê para os joeirar e limpar dalguma mistura chocha ou cediça, farão muito bom sustento para poetas e prosadores.» Bem, ressalve-se o “farão sustento” (faire le maintien…), que mestre Filinto, implacável varejador de galicismos e “francelhos”, não perdoaria; mestre Castilho termina em beleza impoluta: « Em suma: Francisco Manuel do Nascimento foi um mártir da religião da nossa língua; para lhe lançar mais glória, cerceou a sua própria; com o excessivo de jóias com que a arreou, deixou-a afectada e menos matrona grave do que bailarina de corda; sim habilidosa e leve, mas dengosa e presumida; mostrou-lhe o como e por onde devia subir à perfeição a que outros, porém tarde e muito tarde, será levada. Foi, por tudo isso, um destemperado despertador, que nos pôs a pé para o dia das letras. »

Antes de Castilho, já caminhara no mesmo pé posto e peito feito o grande Almeida Garrett: «Francisco Manuel gemia no exílio e de lá, com os olhos fitos na pátria, se preparava para lutar contra a enorme hidra, cujas inúmeras cabeças eram o galicismo, a ignorância, a vaidade e todos os mais vícios que iam devorando a literatura nacional. – A sua epístola sobre a arte poética e língua pode rivalizar com a de Horácio aos Pisões: força de argumentos, eloquência da poesia, nobre patriotismo, finíssimo sal da sátira – tudo ali peleja contra o monstro multiforme. – Nenhum poeta, desde Camões, havia feito tantos serviços à língua portuguesa».

A horaciana epístola é a “Carta em Defesa da Língua Portuguesa”, como a intitulava, em 1828, a antologia Parnaso Lusitano; foi endereçada ao sobredito secretário diplomático, seu protector e amigo Francisco José Maria de Brito, com uns bem aviados 1 500 versos. Agora que o “dia das letras” é noite cerrada onde só luzem olhos da multiplicada hidra, aqui fica uma amostra.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Tomo a liberdade de lhe enviar em anexo uma apresentação sumária de “O Grande Livro dos Portugueses Esquecidos”, que julgo relevante para a nossa História

sobre as vidas exemplares de muitos dos nossos melhores que não tiveram lugar na pátria que os viu nascer.



Trata-se de um inventário inédito que revela um rosário de vidas excitantes e exemplares de Portugueses que não tiveram lugar

no seu próprio país por intolerâncias de vária ordem. É em simultâneo um diagnóstico

das causas dos nossos atrasos seculares e uma homenagem a tantos ilustres compatriotas que a nossa memória colectiva não reconhece.



O Grande Livro dos Portugueses Esquecidos”

vai ser apresentado no dia 5 de Dezembro, pelas 19 horas, na FNAC, do MarShoping, em Leça da Palmeira.



Agradeço-lhe a difusão desta informação pelos canais que jugar pertinentes.



Cordiais cumprimentos,



Joaquim Fernandes

Universidade Fernando Pessoa

6:47 da tarde  

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