segunda-feira, dezembro 01, 2008

"Coimbra, 1 de Dezembro de 1993"

« Hei-de morrer assim a ser desmancha-prazeres. Acaba de me telefonar com a voz mansa e mimalha, na esperança oculta de receber aplausos à rábula partidária que representa no palco político. E, a entender-lhe a intenção e a fazer-me desentendido, troquei-lhe as voltas a desabafar. Chamei à convivência conivência, e à incapacidade incapacidade. Condenei liminarmente uma oposição sem raiva, sem indignação, sem fogo interior, que assiste passivamente numa cordata abulia, à perdição da pátria. Que discute academicamente situações revoltantes, a fazer tropos e má literatura. O dia era de conjurados. De humilhações que se revoltam e sacudiram o jugo estrangeiro, de ânimos impacientes e combativos. E nem isso pesava nas respostas frouxas e evasivas que vinham do outro lado do fio. E a conversa teve este triste remate:
- Vejo que está muito pessimista.
- Estou. Infelizmente. Não acredito em nenhum de vocês. Não são quentes, nem frios. E, se leu o Apocalipse, sabe que Deus vomita os mornos. »

Miguel Torga, Diário, vol. XVI.

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