quarta-feira, janeiro 14, 2009

DURO OFÍCIO


É um duro ofício, o de poeta.
Miguel Torga



Faz hoje um ano que venho aqui regularmente lembrando uma voz singular, que também soube ser a nossa colectiva de humanos e portugueses.

Torga quis que todos os sucessivos dezasseis volumes do seu Diário sempre abrissem e fechassem com um poema. Foi com a poesia que lhe fizemos acta de abertura aqui. Agora, termo de fecho, eu não conheço outro que o das capelas da Batalha. Poderia talvez ser aquele que o poeta deixou lavrado na derradeira página do derradeiro volume do Diário:

REQUIEM POR MIM

Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.


Isto foi em 10 de Dezembro de 1993. Mas do “destino”, como da “vida”, diz-se que às vezes nos “prega partidas”. Remontemos o rio do tempo. Seis anos antes, a 11 de Janeiro de 1987, no poema com que fechava o vol. XIV, eis que encontramos um…


ESTUÁRIO

O rio chega à foz.
Cansada, a minha voz
Desagua em silêncio
No grande mar do tempo.
A correr apressada
Desde a nascente,
Numa crescente inquietação lustral,
Foi um longo caudal
De solidão
Na infinita extensão
Da humana aridez.
Agora, na exaustão da caminhada,
Encontro finalmente a paz calada,
O eterno repouso da mudez.


Não sei se não foi obrigado pela tirana rima que o poeta terminou na “mudez”; por mim acredito no que sempre acreditei: que ele não era homem para se render a nenhuma mudez-muda, a nenhuma mordaça. Repare-se que a “mudez”, depois do estuante caudal, é o estuário-silêncio do 3º verso. Ora, é de primária instrução poética que, em poesia, a mudez e o silêncio são antónimos inimigos no “duro ofício” que eu associei a uma Batalha.

Nos sucessivos meses deste 2009 darei aqui no Tonel mais provas de o que já hoje dei a provar: - Que a triste figura quebranta e rasteja, mas a vera efígie do poeta nem sequer “cai de pé”, porque não cai: fica de pé (ou é levado pelo Vento…) e, mesmo no “grande mar do tempo”, a “solidão” é relativa, se uma voz a outra responde e… correspondem: Guardo dos versos de quem vive ausente / Os tesoiros que tem no próprio ouvido…

1 Comments:

Blogger Edgar said...

Peço desculpa por estar a pôr comentários impertinentes em sítios indevidos, mas por nao ter obtido ainda nenhuma resposta volto a recolocar aqui um comentário que já havia deixado numa postagem antiga, sobre Francisco Fernandes Lopes (http://toneldiogenes.blogspot.com/search?q=fernandes+lopes):

Olá
Acabei de ver este post e tentei mandar-vos um mail para o vosso contacto (toneldiogenes@hotmail.com), mas pelos vistos nao foi possível, nao sei se têm algum problema com o vosso contacto.
De qualquer forma, digo aqui o quero:
No último parágrafo, diz Xor Z que (e passo a citar), "Além de tudo isto, recentemente encontrei, também, uma carta de Ortega y Gasset, outra de Joaquim de Carvalho e uma terceira, embora esta claramente duvidosa, de Ygor Stravinsky".
Como olhanense que sou, tal como F. F.Lopes, e por me interessar a sua vida e obra, agradecia que passassem este mail a Xor Z, pois tenho algumas perguntas para ele:
Onde encontrou as tais cartas?
Estao publicadas? Se sim, em que obra?
Em que se baseia para supor que a carta de Stravinsky é duvidosa?

Desde já agradecido,
Edgar Cavaco

ps. se possível, envie a resposta para o meu mail:
edgarcavaco@gmail.com

2:29 da manhã  

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