sábado, fevereiro 21, 2009

NOITES ÁTICAS



Com este atraente e turístico título escreveu o erudito romano do século II - Aulo Gélio –, uma obra que já lembrámos aqui no passado 5 de Fevereiro. Consta de 14 livros, que chegaram integrais até nós, com excepção do 8º, de que só temos o sumário. São recordações duma viagem que fez à Grécia, do que por lá viu e ouviu, de mistura com apontamentos e reflexões avulsas de índole literária e moral sobre as obras de oradores e escritores eminentes, latinos e gregos, na maior parte seus contemporâneos. Cada um dos livros está dividido em capítulos, muito breves, com o tamanho ideal de postais de blogue (para vergonha minha). O capítulo 1 do livro II tem este sumário: « De que maneira costumava Sócrates exercitar a resistência do corpo; e da temperança admirável deste homem. »

Diz apenas isto:

« Entre os trabalhos voluntários e os exercícios físicos com os quais ele treinava o corpo na escola da paciência, ouvi eu contar a respeito de Sócrates este singular costume. – Dizia-se que este filósofo não poucas vezes se tinha imóvel por espaço de um dia e uma noite inteiros, desde uma aurora à aurora seguinte: as pálpebras semicerradas, sem pestanejar, o rosto impassível, a posição de alguém que medita profundamente; o tronco direito; tão insensível como se a mente e a alma se tivessem separado do corpo (quodam secessum mentis atque animi facto a corpore).

« Favorino, entre outras coisas que nos contou, assim dizia acerca da fortaleza deste homem (de fortitudine eius viri): - “Sim, de facto Sócrates ficava muitas vezes imóvel, de sol a sol, o corpo mais direito que o tronco de uma árvore.”

Conta-se também que Sócrates era tão temperante e regrado que nunca teve a mais leve enfermidade. Na altura da guerra do Peloponeso, quando a peste devastava a Grécia e despovoava Atenas, Sócrates, no meio do contágio, respirava saúde. Atribuía-se à frugalidade do seu regime de vida e ao alheamento dos prazeres o ter-se conservado incontaminado pela calamidade. »

E é tudo, neste texto demasiado frugal para a nossa curiosidade mas não tão breve que não se repita. Favorino era um filósofo de cepa estóica, que aparece nas Noites Áticas à luz favorável de Gélio, e é protagonista de vários ditos e histórias exemplares.

Quanto ao mestre dos mestres, aquele que primeiro teríamos de honrar nas nossas libações aqui no Tonel, verificamos que a tradição ateniense ao tempo, cerca de 500 anos passados, o privilegiava nos mesmos termos que significámos aqui, mais 2 000 anos depois: não o esmerilhador irónico e exaustivo de conceitos, sim sobretudo o realizador, o prático, o executante artista escultor de si. Tal era ainda bastante o Sócrates platónico, a esse nível próximo ao que lembra o estratego Xenofonte, que lhe ficou a dever a vida em campo de batalha.

Mas, o que é que Sócrates faz… se não faz nada?, se não anda levado e sacudido dum lado para outro de automóvel ou avião?, ou se, parado, não mexe o mínimo dedinho ansioso do zapping e do clique? Bem, decerto que (embora escultor de si, como disse) não está a fazer de estátua para o Livro dos Recordes. Então… -

…Então recordo ao leitor que na obrinha de Luciano a propósito de Peregrino Proteu, ocorriam nada mais nada menos que três paralelos com os brâmanes daquelas terras onde os gregos encontraram homens que gostavam de se plantar nus à sombra de grandes árvores: gente que mantinha em respeito os próprios tigres de Bengala. (O satirista Luciano diria que o “respeito” era desinteresse por gente tão manifestamente mal fornida de carnes...) Mas olhemos nós ainda mais para levante e para estes dois versos que, embora escritos depois de Sócrates, a tradição faz remontar a um mais Velho, Lao Tse:

Pratica o não agir
Tudo permanecerá em ordem
.

Mais prosaicamente: o que Sócrates faz, e a tradição fixou pela boca de Favorino no ouvido de Gélio é, muito simplesmente… filosofia! Aquele patamar da filosofia a que Platão nos conduzira quando se planeia a fuga da prisão de Sócrates condenado à morte, e este se recusa a sair; ou quando, depois de estonteados de vínico sono os simposiais companheiros que já mal ouviram a oracular Diotima, o desperto Sócrates sai fresco e lesto sobre a madrugada, caminho do ginásio… A filosofia que interessava sobretudo ao militar Xenofonte, ao imperador Marco Aurélio e aos milicianos romanos: – uma certa maneira de estar em campo e dar o corpo em manifesto dela.

O caro leitor não se iluda com a pátina antiquária: estamos a falar de Bertrand Russell, preso aos 89 anos de idade por incitar à desobediência civil e fundador dum Tribunal Internacional para a investigação e julgamento de crimes de guerra; a falar da mais brilhante aluna de Wittgenstein, Elizabeth Anscombe, a boicotar selectas cerimónias universitárias em honra do bombista nuclear Harry Truman, ou a ir duas vezes presa por manifestar-se à porta de clínicas abortadeiras contra o homicídio em massa dos mais pequenos e fracos dos seres humanos; de Jean-Paul Sartre, também fundador e presidente do Tribunal Russell, a uma esquina dos Champs-Élysées a distribuir aos passantes “La Cause du Peuple”; de Jan Patocka, preso pelos torcionários comunistas checos, que lhe pioraram os padecimentos cardíacos de que viria a morrer. Enfim, bem se entende que estamos a falar de uma filosofia que nada tem a ver com a dos “armchair philosophers” acomodados e satisfeitos na ruminação de textos escritos numa linguagem muito “técnica” para os seus amigos “peer reviewers” e promoção carreirista de “filósofos profissionais”, mas completamente ilegíveis para os “leigos”, e indiferentes à vida comum dos mortais.

É muito interessante, e significativo, que a tradição, se ainda atribuía a composição de livros a um Diógenes de Sinope (obras de que aliás não conservou sequer um fragmento escrito), destas últimas gerações de cínicos, contemporâneas de Peregrino, nem um único livro, nenhum pensamento ou teoria mais “especulativos”: apenas umas poucas de palavras e, sempre, sobretudo, gestos – acção directa! São, como vimos, homens duma tal força que são capazes de se atirarem vivos ao fogo.

Mas, como é possível? - pergunta o leitor perplexo, se não já alarmado. Bem, não se espere possível “escrever” sobre o que não pode, por sua mesma natureza, ser escrito. –Olhe para Xenofonte, ferido em Délio, carregado às costas por esse Sócrates que era capaz de passar dias “parado”, pasmado, sem fazer nada…

Iluminava-se de estranhos fogachos de luz a escuridão profunda dessas noites áticas, em que ainda nada parecia prenunciar a madrugante luz natal de Cristo.

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