quinta-feira, fevereiro 12, 2009

FILOCTETES



Oh! Triste vida
a do homem que do vinho
não provou o gosto ao longo de dez anos,
e, se água estagnada avistasse, era dela
que sempre teria de beber.


A queixa é de Filoctetes, na tragédia homónima de Sófocles, e por certo comoverá de simpatia os bebedores deste Tonel, que gostam e merecem do fino as melhores reservas.

Vimos aqui um estranho Peregrino, que bebia os ares por Héracles, apelar no seu último discurso à imitação de Filoctetes, o único humano a testemunhar a auto-imolação do semidivino herói dos heróis, e o herdeiro das suas armas invencíveis. Ora, eis que um oráculo proclama que essas armas são imprescindíveis à rendição de Tróia, há dez anos cercada e inviolada. As armas e a presença do filho de Aquiles, Neptólemo, a substituir o pai, recentemente morto. E eis que Ulisses, como já acontecera a respeito de Aquiles, recebe o encargo de ir buscar Neptólemo a Ciros e trazê-lo a Tróia. De volta à Ásia Menor terá, porém, de passar pela ilha de Lemnos, habitada por um homem solitário, o único habitante dela – Filoctetes.

Era este um dos muitos príncipes dos gregos que tinham sido pretendentes à mão de Helena, epónima beleza grega da mulher grega, bela entre as belas. Graças a uma ideia de Ulisses, em vez de justarem pelas armas a mão da princesa, tinham ajustado pela razão submeterem-se à escolha soberana da pretendida e ajudar o feliz contemplado no que fosse preciso. Como o caro leitor sabe, o feliz contemplado foi Menelau de Esparta e a ocasião da ajuda chegou quando Helena foi raptada por Páris e levada para Tróia. Mas o que o leitor de Sófocles não sabe, na entrada desta peça do grande poeta, é o que faz Filoctetes sozinho numa ilha deserta. Sabe apenas que o poeta nos introduz no meio duma trama política que é… a própria trama banal da política. –

Há uma posição difícil e desejável a conquistar (Tróia) para satisfazer a justiça e fazer valer um direito livremente contratado entre os interessados (ajudar na recuperação de Helena). São precisos meios extraordinários para esse fim (as armas de Héracles). E não menos precisos são os meios ordinários: astúcia e mentira. Pois aí está o astuto Ulisses polymechános, “pródigo em estratagemas”, a iniciar o jovem Neptólemo na arte da política: é preciso mentir a Filoctetes para o desapossar das armas de Héracles, uma vez que nem pela força nem pela persuasão racional isso seria possível. E por que não? -

A caminho de Tróia, na ilha de Crise, Filoctetes havia penetrado indevidamente no santuário da deusa local, que deu nome à ilha. E é mordido por uma serpente no pé. Ulcerado pela ferida purulenta e fétida, acometem-no dores insuportáveis que o fazem estar quase sempre a queixar-se e a gritar. O mau cheiro da ferida e as continuadas queixas, os gritos lancinantes, tornam insuportável aos companheiros o convívio de um homem que também se sente “odioso aos deuses”. Ulisses convence o comandante da expedição grega, Agamémnon, a abandonarem o infeliz em Lemnos, só com as armas com que tem caçado o mantimento da sobrevivência. Há dez anos reduzida a uma desesperadora solidão, Filoctetes jamais consentiria em ajudar agora os que dantes o abandonaram quando ele tivera uns momentos de repouso e adormecera; agora só desejava que alguém o levasse dali de volta à sua cidade natal de Málide, na Tessália.

Temos pois um homem marcado, divinamente marcado, e com o mesmo sinal no pé que tinham outros varões sinalados, quais um Aquiles, um Jasão ou o próprio Ulisses, com uma cicatriz indelével no joelho, ferido quando andava monteiro ao javali no monte Parnasso; um homem que por isso foi e vive apartado da sociedade normal dos homens, reduzido a uma caverna e a um estado selvagem; que chega a ponto de se pôr a hipótese da malignidade dos deuses; que tenta matar-se. A única possibilidade de mediação entre este selvagem e a ordem humana política é a personagem de Neptólemo, filho e espelho de seu pai Aquiles. Deixo ao leitor o instrutivo prazer de admirar a arte com que Sófocles conduz a iniciação deste jovem, desde que o deixa servente nas mãos do arteiro Ulisses, cumprindo o plano deste, mas à custa da infâmia e da perfídia, até à autonomia da vontade adulta, que o leva a devolver as armas a Filoctetes, disposto a tornar com este à Tessália e a defenderem-se juntos dos Aqueus, quando retornados vencidos de Tróia.

Mas não é assim que a peça termina. E decerto o leitor moderno estranhará ou se desagradará da maneira inesperada e súbita como nos 60 versos finais as coisas tomam outro rumo. Estaríamos a esquecer dois pontos importantes. A estranha ferida de Filoctetes, que não poderia ser curada senão comparecendo em Tróia, cumprindo o oráculo divino. Por outro lado, mas correlativamente, esqueceríamos que para os velhos gregos as decisões humanas nunca se jogam sozinhas, apartadas das decisões dos deuses; e uma e outras concorrendo todas para a conservação daquela suprema e secreta ordem da máquina do mundo, nomeada com o nome de Destino e que aos próprios deuses subjuga. Neoptólemo deve pois dar luta aos troianos, não aos gregos. Um terceiro ponto ainda: que não há para o humano, por mais singular e privilegiado que seja, nenhuma insulada salvação, fora da polis e das contingências da existência política - isto é: cívica – a única, como diria Aristóteles, que pode proporcionar uma “vida boa” (« formada para preservar a vida, a cidade subsiste para assegurar uma vida boa »); quer dizer: constituída para o pleno desenvolvimento de uma vida propriamente humana.

Sobra-nos perguntar agora sobre o sentido do apelo terminal do Peregrino, antes de se deitar à fogueira de Héracles, o dono eleito destes cães da raça de Antístenes e Diógenes. Há um protréptico sentido óbvio para uma lógica-luciana: o Peregrino (Hércules) está a exortar os seus sequazes a serem-lhe fiéis (como Filoctetes); uma interpretação simplista, que o satirista de Samossata logo aproveitou para sinistramente convidar Teragéneo a pôr também as ideias no churrasco. Parece completamente imune a sensibilidade do sírio à mínima empatia com alguém que ele se convenceu de hipócrita (ou precisa de nos convencer disso), para frouxa justificação moral de brincar com a viva tragédia. Mas uma hipocrisia levada ao extremo do hipócrita se deitar ao fogo é de todo incrível: o bom senso e a mais elementar simpatia humana não recomendam aqui ânimo leve ou motivo de riso. Fica-nos nesta leviana mente “pós-moderna” de Luciano de Samossata mais um sinal da actualidade do satirista.

Então, que outra interpretação para o caso? Por mim, ainda não tenho todos os dados precisos para tirar a lição devida, que aliás cada um se deve a si por si. Por isso continuarei, mesmo cambado de mordido no pé, mesmo com o nariz ozonado da nossa poluição automóvel, a farejar alguns indícios no encalço desta estranha raça de cães.



[ Citei e muito recomendo ao leitor do Filoctetes a versão portuguesa do classicista e professor conimbricense José Ribeiro Ferreira. É caso raro um erudito académico, além de tradutor competente, simpatizar e emocionar-se tanto com a obra traduzida a ponto de lhe apor um poema seu, dela nascido e criado. E ainda mais aplauso merece a amorosa tradução por concluída no Fevereiro do Portugal de 1975, quando vivíamos convulsionados no febrão das incontroláveis paixões a que Agustina Bessa-Luís chamou As Fúrias, evocando no romance homónimo o velho sentido greco-latino do termo. Quando mares revoltos em temporais desfeitos ameaçavam (1975) espedaçar a barca, uma ilha pode ser bom abrigo para a supuração ou a dura cauterização das feridas do naufrágio (2009). Por isso, se as flechas de Héracles só serviram ao isolado Filoctetes para “matar pombas”, os versos e a meditação de Sófocles são melhor alimento…

Fica do grande poeta a brônzea máscara helenística no Museu Britânico. ]

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