quinta-feira, abril 30, 2009

JUSTIFICAÇÃO


Já cá vão passados quase quatro meses deste ano e ainda não encontrei ocasião de intrometer aqui lembrança daquele que Joel Serrão chamou o “entediado-mor da sua geração”, em sinal de que o não deixei atrás, que não podia ter ficado para trás quem se nos apresenta, sim, por diante, frente-a-frente… E eis que na geração seguinte cá nos apareceu outro, e não menor; e tal que temos aí um jovem filósofo – Nuno Ferro – a dizer que “a análise do tédio no Livro do Desassossego mereceria um longo estudo”. O fragmento que, com o devido cuidado, transcrevi supra decerto terá lugar eminente nesse estudo, e em Ferro um eminente estudioso. Quanto a mim, desejo agora justificar a oportunidade da inclusão de um texto cujo valor, aliás, por si mesmo a justifica.

O motivo é logo de mera oportunidade: Maio e Junho já são meses tardios para colher invernais flores de Laranjeira (que não são “flores do mal”!), e já tenho outras para depor aqui no Tonel, de cor muito diferente da algenda e baça, mal quadradas com o tédio, ou que só lhe quadram como antídoto. Mas, por outro lado, parece que não devia ter vindo nestes dias em que festejamos - e só devíamos festejar - o 25 de Abril. Infelizmente, a maravilhosa Alegria e as felizes expectativas cheias duma confiante esperança de que era possível o nunca visto e sempre tido impossível – a Utopia… - breve se esvaíram e de todo desapareceram: em 1983, com o segundo e mais duro acordo com o FMI, economicamente; politicamente, com o “Bloco Central”, “em que PS e PSD dividiram o Estado, os cargos públicos, as áreas de influência, os gestores públicos, criando um establishment de poder que ainda hoje é prevalecente” (como dizia há tempos o comentador Pacheco Pereira); moralmente, em 11 de Maio de 1984; historicamente, em 12 de Junho de 1985; e, neste último ano, com a primeira maioria absoluta do chamado “cavaquismo” e a torrencial erupção do alcatrão, do betão e da corrupção, - a grande Catástrofe consumou-se e varreu-nos para a fossa onde estamos e estaremos atolados por muitos e maus anos.

Ora, breve cadente no ocaso a luz de Abril, e findo o que tinha de finar-se, voltámos ao mesmo, ao mesmo que é e sempre foi “a política”, se abstrairmos dos vários cambiantes dos diversos “regimes” e “formas de governo”: o mesmo tom algendo e baço… - cousa duma monotonia que só a mal precavidos ingénuos ou apasssionados do poder não parece entediante, quando já agora é transparente que a excitação restante com “a política” é couto reservado a minorias cada vez mais restritas e inacessíveis. Para o maior número, se a alma se lhe não consumir de todo na sobrevivência à penúria material e à laqueação moral, um dos monstros que, de fauces abertas para nós, teremos de olhar em face na fossa é… - o Tédio.

E é aqui que na arca portuguesa de Pessoa poderemos colher (quem bem escolher!) tesouros preciosos, para sobrevivermos como humanas pessoas.

O texto supra é de 1932, como chapada oposta aos aparentemente nada entediantes tempos dos orgiásticos fervores fascistas excitados para a guerra; e foi a ano em que o liberal Pessoa riscou de todo Salazar, após o discurso desse ano do ditador na “sala do Risco”: terá visto bem que o “Estado Novo” só era novo para quem não via mais do passado que os 16 anos anteriores, e tivesse esquecido os tempos do “despotismo esclarecido”. O trecho seguinte não tem data; foi escolhido de um texto-fragmento mais vasto (omitido) :

« Não me submeto ao estado nem aos homens; resisto inertemente. O estado só me pode querer para uma acção qualquer. Não agindo eu, ele nada de mim consegue, Hoje já não se mata, e ele apenas me pode incomodar; se isso acontecer, terei que blindar cada vez mais o meu espírito e viver mais longe dentro dos meus sonhos. Mas isso não aconteceu nunca. Nunca me apoquentou o estado. Creio que a sorte soube providenciar.» ( Nº 120, ed. cit. )

O “inertemente” deve conferir-se com o imediato 121, onde Bernardo Soares se confessa “indivíduo de grande mobilidade mental, tendo um amor orgânico e fatal à fixação.” Quanto ao “só me pode querer para uma acção qualquer”, parece-me, caro leitor, que se bem o conferirmos connosco, não pode ser acção nenhuma a inércia contribuinte de votos e impostos; e o que mais consegue e quer – aprisionar-nos o tempo todo a televisores, videojogos e computadores -, também não. Ora, assim inertes e blindados em sonhos, pobres e miseráveis de nós, a quem a “sorte” não foi “providente”!... Vemos, pois, que não é sem critério seguro e prudencial discernimento que podemos colher da arca de Pessoa e aproveitar coisas como “blindar o espírito” ou “viver mais longe dentro dos sonhos”: se não, ficaremos só a sós com o “senão eu”. Decisivo é o que se joga nessa “grande mobilidade do espírito”.

Enfim, passada a rubra, apaixonada luz de Abril, um texto que nos fala do estado verminoso do tédio com que nos havemos hoje, está justificado; e justifica tratar-se com a resposta-antídoto que buscaremos aqui para a semana e por todo o mês de Maio.

Uma resposta dedicada a quantos se não submetem.

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